“No Coice de Noite (Poesias)” – Ademar Cardoso de Souza
Chegou-me às
mãos como uma folha caída de uma árvore o livro de poesias “No Coice da Noite”
(1973) de Ademar Cardoso de Souza (1944-?). Encontrei o exemplar numa caixa de
livros deitada num canto da sala da casa onde passei a minha infância em
Valinhos. Estava lá junto com algumas fotografias e objetos antigos, como se
aguardando pacientemente até ser descoberta pelo leitor atento.
Sem nada
conhecer do autor, li as poesias com a mesma sensação de encanto compartilhada
pelo autor do prefácio, para quem “o livro é para ser lido com atenção,
meditar-se depois, com a mão na consciência, e guardá-lo com muito cuidado na
estante”.
Os poemas foram
publicados em 1973, alguns anos após a decretação do AI-5 quando a censura e
repressão política da ditadura militar estava no seu auge. Numa pesquisa de
campo, soube que o escritor foi, alguns anos após a publicação do livro,
incluído numa ação criminal relacionada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Trata-se da Ação Penal nº 60/75, posteriormente objeto da Apelação nº 41.623,
julgada pelo Superior Tribunal Militar em 1978.
Os dados obtidos
no site “Brasil Nunca Mais” colocam o nome do poeta dentro de um grupo de
quarenta pessoas acusadas de “agrupamento perigoso à segurança nacional” por vinculação
com os comunistas. Os dados de qualificação do poeta, que consta do processo
disponível no link abaixo, registram se tratar de um brasileiro, casado, com 30
anos de idade, funcionário público e residente na Praia Grande/SP.
Acusado de subversivo
pela proximidade com PCB, foi absolvido na ação penal, mas é provável que tenha
sido torturado durante a fase de inquérito lá nos porões da ditadura. Isso
porque o nome “Ademar Cardoso de Souza” aparece nos arquivos oficiais da
Comissão de Anistia. Em 20 de agosto de 2010, a Portaria nº 2.453 do Ministério
da Justiça o declarou essa mesma pessoa como anistiado político, concedendo-lhe
reparação econômica. O processo de anistia estava relacionado ao Requerimento
nº 2006.01.52343, disponível nos links abaixo.
O livrinho de
poemas desse funcionário público desconhecido foi publicado pouco antes desses
eventos trágicos.
Ademar Cardoso
de Souza é certamente é um poeta social, cujos versos foram usados para
denunciar a escuridão da ditadura, mas a sua poesia não se reduz a uma empobrecedora
apologia da classe operária e do socialismo.
O poeta trata da
luta de classes quando fala “das mãos dos operários e camponeses” (fls. 60) mas
aponta como horizonte de superação da realidade injusta a sublimação pela
poesia, um lirismo que emerge da escuridão anunciando o alvorecer:
“Tuas mãos
não se fixam
Só na pasta
com marmita
Ou na máquina
lá da fábrica.
Elas seguram
a mão do companheiro
E aquecem o
corpo da mulher amada.”
“Tuas mãos
não se firmam
Só na enxada
que planta
Ou na foice
que colhe.
Elas levantam
o filho que nasce
E apontam o
horizonte claro do dia”
O que se vê nesse e em outros poemas é sempre espécie
de dualidade envolvendo sonhos e imaginação confrontados com a brutalidade do
presente. Dentro deste jogo de oposições, no poema “Teus pés” ele reivindica a
pureza das crianças (o porvir) como antídoto da escuridão que sobressai no
presente:
“Teus pés
Não pulam
corda
Nem jogam
amarelinha
Porque calças
na noite
Pesadas botas
de chumbo
Pisando canteiros
de girassóis”
“Tuas pernas
Não sobem
paus de sebo
Nem correm
atrás de balões
Porque marchas
na noite
Tanques e
canhões
Amassando rosas
no asfalto”.
O livro foi
dedicado pelo escritor à geração de 45, conhecida como a terceira fase do
modernismo, da qual participam João Cabral de Mello Neto e Thiago de Melo, esse
último uma clara influência em Ademar Cardoso de Souza.
Ambos
compartilham de uma mesma poesia social, profundamente emotiva e telúrica, que
não se deixa reduzir pela previsibilidade de uma arte puramente militante.
Há, também, uma
esperança do porvir em todos os versos de Ademar Cardoso, dizendo que “esta
noite amarga e escura amanhecerá clara e doce”. A ideia do “coice da noite” que
dá o título à obra é a de que na hora em que se apanha (o “coice”, ou a “violência
do estado”) o pensamento deve estar no amanhã e não no hoje.
Infelizmente, parece que o autor do “Coice da Noite” não teve mesmo em vida algum reconhecimento literário. O seu livrinho de poesia foi publicado por uma editora por ele mesmo criada, como exposto no prefácio. Apenas alguns exemplares podem ser encontrados garimpando sebos pela internet. Tal qual o exemplar encontrado num canto da minha casa de infância, fica essa obra aguardando pacientemente a sua descoberta pelo leitor atento do futuro.
Fontes:

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