quinta-feira, 24 de setembro de 2026

“No Coice de Noite (Poesias)” – Ademar Cardoso de Souza

 “No Coice de Noite (Poesias)” – Ademar Cardoso de Souza




 

Chegou-me às mãos como uma folha caída de uma árvore o livro de poesias “No Coice da Noite” (1973) de Ademar Cardoso de Souza (1944-?). Encontrei o exemplar numa caixa de livros deitada num canto da sala da casa onde passei a minha infância em Valinhos. Estava lá junto com algumas fotografias e objetos antigos, como se aguardando pacientemente até ser descoberta  pelo leitor atento.

Sem nada conhecer do autor, li as poesias com a mesma sensação de encanto compartilhada pelo autor do prefácio, para quem “o livro é para ser lido com atenção, meditar-se depois, com a mão na consciência, e guardá-lo com muito cuidado na estante”.

Os poemas foram publicados em 1973, alguns anos após a decretação do AI-5 quando a censura e repressão política da ditadura militar estava no seu auge. Numa pesquisa de campo, soube que o escritor foi, alguns anos após a publicação do livro, incluído numa ação criminal relacionada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Trata-se da Ação Penal nº 60/75, posteriormente objeto da Apelação nº 41.623, julgada pelo Superior Tribunal Militar em 1978.

Os dados obtidos no site “Brasil Nunca Mais” colocam o nome do poeta dentro de um grupo de quarenta pessoas acusadas de “agrupamento perigoso à segurança nacional” por vinculação com os comunistas. Os dados de qualificação do poeta, que consta do processo disponível no link abaixo, registram se tratar de um brasileiro, casado, com 30 anos de idade, funcionário público e residente na Praia Grande/SP.

Acusado de subversivo pela proximidade com PCB, foi absolvido na ação penal, mas é provável que tenha sido torturado durante a fase de inquérito lá nos porões da ditadura. Isso porque o nome “Ademar Cardoso de Souza” aparece nos arquivos oficiais da Comissão de Anistia. Em 20 de agosto de 2010, a Portaria nº 2.453 do Ministério da Justiça o declarou essa mesma pessoa como anistiado político, concedendo-lhe reparação econômica. O processo de anistia estava relacionado ao Requerimento nº 2006.01.52343, disponível nos links abaixo.

O livrinho de poemas desse funcionário público desconhecido foi publicado pouco antes desses eventos trágicos.

Ademar Cardoso de Souza é certamente é um poeta social, cujos versos foram usados para denunciar a escuridão da ditadura, mas a sua poesia não se reduz a uma empobrecedora apologia da classe operária e do socialismo.

O poeta trata da luta de classes quando fala “das mãos dos operários e camponeses” (fls. 60) mas aponta como horizonte de superação da realidade injusta a sublimação pela poesia, um lirismo que emerge da escuridão anunciando o alvorecer:

“Tuas mãos não se fixam

Só na pasta com marmita

Ou na máquina lá da fábrica.

Elas seguram a mão do companheiro

E aquecem o corpo da mulher amada.”

“Tuas mãos não se firmam

Só na enxada que planta

Ou na foice que colhe.

Elas levantam o filho que nasce

E apontam o horizonte claro do dia”

 O que se vê nesse e em outros poemas é sempre espécie de dualidade envolvendo sonhos e imaginação confrontados com a brutalidade do presente. Dentro deste jogo de oposições, no poema “Teus pés” ele reivindica a pureza das crianças (o porvir) como antídoto da escuridão que sobressai no presente:

“Teus pés

Não pulam corda

Nem jogam amarelinha

Porque calças na noite

Pesadas botas de chumbo

Pisando canteiros de girassóis”

“Tuas pernas

Não sobem paus de sebo

Nem correm atrás de balões

Porque marchas na noite

Tanques e canhões

Amassando rosas no asfalto”.   

O livro foi dedicado pelo escritor à geração de 45, conhecida como a terceira fase do modernismo, da qual participam João Cabral de Mello Neto e Thiago de Melo, esse último uma clara influência em Ademar Cardoso de Souza.

Ambos compartilham de uma mesma poesia social, profundamente emotiva e telúrica, que não se deixa reduzir pela previsibilidade de uma arte puramente militante.

Há, também, uma esperança do porvir em todos os versos de Ademar Cardoso, dizendo que “esta noite amarga e escura amanhecerá clara e doce”. A ideia do “coice da noite” que dá o título à obra é a de que na hora em que se apanha (o “coice”, ou a “violência do estado”) o pensamento deve estar no amanhã e não no hoje.  

Infelizmente, parece que o autor do “Coice da Noite” não teve mesmo em vida algum  reconhecimento literário. O seu livrinho de poesia foi publicado por uma editora por ele mesmo criada, como exposto no prefácio. Apenas alguns exemplares podem ser encontrados garimpando sebos pela internet. Tal qual o exemplar encontrado num canto da minha casa de infância, fica essa obra aguardando pacientemente a sua descoberta pelo leitor atento do futuro.

 

Fontes:

https://bnmdigital.mpf.mp.br/sumarios/

https://vozhumana.com.br/apelacao-41-623-sp/

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