A Coluna Prestes
A Coluna Prestes foi a maior marcha
militar (em termos de distância percorrida) de toda a história mundial.
Enquanto a “Grande Marcha” conduzida
por Mao Tse Tung na Revolução Chinesa percorreu cerca de 10.000 Km, os tenentes
liderados por Luiz Carlos Prestes, entre 1924 e 1927, trilharam incríveis 24
mil quilômetros.
Os brasileiros levaram adiante uma
guerra de movimento, percorrendo até 60 Km por dia, enveredando pelos estados
do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, Goiás, Maranhão,
Piauí, Paraíba, Pernambuco, Bahia e Minas Gerais. Nunca estacionaram as tropas em
lugar nenhum por mais do que 48 horas; em três anos percorreram os planaltos do
centro oeste brasileiro, as mata cerradas do Piauí e do Maranhão, onde travaram
relações com indígenas da nação Xerente, atravessaram em pequenas embarcações o Rio São
Francisco e atingiram o sertão baiano, quando foram perseguidos por jagunços
recrutados pelas oligarquias locais.
Se não alcançaram o pleno êxito de
colocar abaixo o Governo de Arthur Bernardes, não se pode dizer que saíram
derrotados: mantiveram a luta por 647 dias até alcançarem o exílio na Bolívia
em fevereiro de 1927. A Coluna Prestes levou adiante uma campanha nacional bem
sucedida defendendo o voto secreto, o fim da censura à imprensa e a anistia aos
militares de baixa patente que lutavam contra a República Oligárquica desde
1922. E, mais importante, o movimento de agitação política promovido pelos
revolucionários na grande epopeia pelo interior do Brasil pavimentou a vitória
da Revolução de 1930 que colocaria fim à Primeira República e abriria um novo
horizonte de modernização e desenvolvimento do país dentro do velho espírito
tenentista.
O primeiro sintoma da crise terminal
da República Velha (1889/1930) dá-se no ano de 1922.
Aquele seria o ano do advento do
modernismo nas artes através da Semana da Arte Moderna de 1922. Naquele ano foi
fundado também o Partido Comunista Brasileiro. E já na posse do novo governo de
Arthur Bernardes, marcada pela grotesca fraude eleitoral, haveria o martírio
heroico de militares e de um civil na Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Trata-se
do primeiro levante dos militares contra o regime político e pode ser
considerado como o ponto de partida mais remoto da Coluna Prestes.
Iniciava-se, naquele momento de 1922,
o movimento tenentista, conduzido por militares de baixa patente, que almejavam
reformas institucionais que combatessem a fraude eleitoral, incluindo o voto
secreto, e o fim do predomínio absoluto das oligarquias agrárias na direção do
governo.
A partir daquele momento a ampla
insatisfação contra a República Velha já não se reduzia à oposição parlamentar,
mas alcançava o povo; partia do incipiente sindicalismo, conduzido por
anarquistas e depois pelos comunistas, mas principalmente pelos tenentes, os
militares oriundos de setores médios e do povo que viam nas forças armadas e
nas poucas escolas militares uma possibilidade de ascensão social.
Em 1924 os tenentes levam adiante um
novo movimento insurrecional contra o governo, aos moldes da revolta de 1922,
mas agora com maior grau de organização e adesão. Em cinco de julho, 2600
soldados se levantam em São Paulo sob o comando do Major Miguel Costa. As
forças rebeldes tomam o controle das estações da Luz e Sorocabana. Abrem fogo
de artilharia contra o Palácio dos Campos Elísios onde estava o Presidente do
Estado. Tropas federais são enviadas do Rio de Janeiro, mas parte dos militares
enviados adere ao movimento. O governador paulista abandona a cidade no dia 9 e
São Paulo cai nas mãos dos rebeldes que lançam um manifesto público pedindo a
deposição de Arthur Bernardes.
O odiado Arthur Bernardes ordena o bombardeiro
de São Paulo obrigando os revolucionários a recuarem. Abandonam a cidade em 27
de julho e descem pelo Paraná até estacionarem em Foz de Iguaçu. Um segundo
levante com a mesma diretriz política é levado adiante pelos militares no Rio
Grande do Sul. Na madrugada do dia 29 de outubro de 1924 um motim dirigido por Luiz
Carlos Prestes toma de assalto um batalhão militar na cidade de Santo Ângelo com
a conquista da cidade. O tenente Antônio de Siqueira Campos, sobrevivente da
Revolta do Forte de Copacabana, toma a cidade de São Borja. Juarez Távora
conduz o motim em Uruguaiana.
Depois de algumas escaramuças com as
tropas do governo, cerca de 3.000 revolucionários gaúchos se agrupam em São Luís
Gonzaga sob o comando de Luiz Carlos Prestes. Tomam a decisão de mover em
direção ao norte, passando por Santa Catarina e chegar até o Paraná para cerrar
fileiras com os revolucionários de São Paulo. Com a reunião dos dois movimentos
revolucionários do Rio Grande do Sul e de São Paulo que constituiu uma coluna
militar que seria depois conhecida como a Coluna Prestes.
A ampla insatisfação dentro das forças
armadas com o governo de Arthur Bernardes criava dificuldades na repressão do
movimento. Eram comuns as deserções de militares legalistas para o lado dos
rebeldes. Havia em outros casos uma franca simpatia pelo movimento ou, na
melhor das hipóteses, nenhum interesse dos soldados levantar as armas contra compatriotas
para defender um regime visto como ilegítimo.
Num primeiro momento, o governo foi
obrigado a recrutar Cândido Rondon, o grande sertanista que conduzia expedições
militares na Amazônia, com o objetivo de reprimir o movimento. O amplo conhecimento do futuro marechal do hinterlândia
brasileiro, adquirido no trabalho de levar adiante telégrafos pelo grande centro oeste brasileiro, tornava-o
o homem certo para a tarefa de esmagar a coluna. Homem de extrema lhaneza, mas
fiel ao juramento de Farda, Rondon assumiu a missão a contragosto. Causando-lhe
provavelmente muita satisfação, nesse primeiro momento, apenas algumas poucas
escaramuças ocorreram. Os revolucionários retiraram-se de Guaíra no Paraná para
o território Paraguaio, retornando depois pelo estado do Mato Grosso. Rondon dava
por encerrada a sua inglória missão de combater a coluna.
Como os militares não eram cofiáveis
ao governo para a tarefa de destruir a coluna, o governo foi obrigado a apelar
para os batalhões de polícias estaduais, sob o comando dos Presidentes dos Estados
(o que hoje chamaríamos de governadores). Quando as tropas insurgente atingem o
nordeste, surgem os maiores enfrentamentos com baixas e feridos, a partir de
quando as oligarquias locais arregimentam jagunços e bandoleiros para perseguir
os tenentes.
Ficou para história o conhecido
encontro entre Lampião e o Padre Cícero de Juazeiro do Norte. O líder religioso
recebeu a incumbência do governo de recrutar Virgulino para organizar o seu
bando e combater a Coluna Prestes. Concederam-lhe até mesmo o título de capitão
e forneceram armas aos cangaceiros. Lampião e seus parceiros depois de
receberem de bom grado a munição e a patente militar, ignoraram a missão e
prosseguiram com a atividade bandoleira, sem se preocupar com a coluna.
A vantagem militar dos revolucionários
decorrida da maior capacidade de movimento. As tropas oficiais conduzidas pelas
cavalarias não conseguiam percorrer mais do que 20 km por dia, enquanto a
coluna percorria até 60 quilômetros. Naquela época ainda era incipiente o uso
da aviação para combates militares. Os tenentes organizavam ainda as “potreadas”,
uma espécie de guerrilha dentro da guerrilha. Eram pequenos grupos de assalto
que faziam o abastecimento das tropas capturando cavalos e gado para transporte
e alimentação, além de fazer o reconhecimento do território, surpreendendo e
confundindo o inimigo que nunca sabia ao certo para onde a coluna estava se
dirigindo.
Havia ainda uma franca superioridade moral
e política dos tenentes: eram em muitos lugares recebidos com simpatia pela
população dos pequenos vilarejos do sertão brasileiro, onde distribuíam o seu
jornal “O Libertador”. Numa cidade, invadiram um cartório e fizeram uma
exposição pública queimando a certidão dos devedores dos impostos do município,
evidenciando a ilegitimidade do governo/credor dos tributos.
O término da Coluna Prestes dá-se em
03 de fevereiro de 1927, logo no início do Governo Whashington Luiz, o último
da chamada República Velha. Foram ao todo 680 sobreviventes que se dispersam na
Bolívia que os recepcionou como exilados.
Luiz Carlos Prestes segue para a Argentina
onde irá entrar em contato com a literatura marxistas e aderir ao comunismo.
Seria, dentro do movimento tenentista, uma voz isolada. Todas as principais
lideranças daquele movimento iriam apoiar a Revolução de 1930 e aderir ao
Governo de Getúlio Vargas: Juarez Távora e Cordeiro de Farias permaneceriam
como figuras de destaque dentro do novo regime. Já Prestes, consultado no
exílio pelos seus correligionário, recusou-se a emprestar apoio à Getúlio
Vargas. O líder gaúcho era visto como um preposto de Borges de Medeiro, o
oligarca gaúcho que até poucos anos atrás combatia os tenentes na Revolta de
1924.
Depois de confrontar todo o
conhecimento da realidade social brasileira através da grande epopeia da marcha
com as ideias marxistas, Prestes chegaria à conclusão de que a mera alteração
do governo não iria resolver os problemas do Brasil.
A partir daquele momento, passaria a
acreditar que a resolução da questão nacional dar-se-ia através de uma Revolução
Social conduzida pelo povo, pelos trabalhadores e pelos camponeses, e não
através de uma vanguarda alicerçada nas forças armadas.
O fim do tenentismo sugere o
encerramento de uma etapa histórica em que a pequena burguesia vai perdendo a
sua potência revolucionária em detrimento da emergência do movimento dos
trabalhadores e da ascensão do operariado como novo sujeito histórico da
Revolução – fato que fora percebido apenas por Luiz Carlos Prestes, o elemento
mais audacioso da Coluna.
Bibliografia:
VEIGA, Luiz Maria. “A Coluna Prestes”.
Ed. Sciprione. 1992.
CASTRO, Chico. “A Coluna Prestes no
Piauí”. Edições Senado Federal.

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