domingo, 26 de abril de 2026

“Juca Mulato” – Menotti Del Picchia

 “Juca Mulato” – Menotti Del Picchia




 Resenha Livro – “Juca Mulato” – Menotti Del Picchia – Edições de Ouro – Clássicos Brasileiros.

“Juca Mulato” (1917) pode ser considerada a grande estreia literária do escritor modernista Menotti Del Picchia (1892/1988).

Antes dela, o poeta paulista havia escrito apenas duas outras obras, sem a repercussão daquele que ainda hoje é o mais conhecido dos seus textos.

O poema foi escrito em 1917, cinco anos antes da Semana de Arte Moderna de 1922, o grande evento que lançou as bases do movimento modernista no Brasil.

Menotti Del Picchia foi um dos idealizadores do evento, tendo discursado na segunda noite de conferências no Theatro Municipal de São Paulo, numa palestra sobre o Futurismo.

É certo que a Semana de Arte Moderna de 1922 tinha como norte a oposição ao academicismo e à arte puramente decorativa. As maiores vítimas dos ataques da nova geração modernista eram o parnasianismo e o estrangeirismo que tinha até então informado todas as tendências literárias importadas da Europa, desde o Romantismo, até o Realismo, do Naturalismo ao Simbolismo.

Os modernistas (Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, e outros)  irão buscar redefinir a relação da nossa arte com escolas estrangeiras  através da fórmula da antropofagia. Não se tratava puramente de rejeitar as fórmulas europeias, nem mesmo meramente aclimatá-las às condições nacionais: assim como os índios ao tempo da chegada dos portugueses, os artistas devem “deglutir” o estrangeiro e reelaborar a arte com autonomia, criando algo novo e original.

O modernismo refletia também as incertezas sociais do contexto da I Guerra Mundial, da Revolução Russa de 1917 e da ascensão do fascismo na Europa ( a Marcha sobre Roma de Mussolini efetivamente ocorreu 9 meses após a Semana de 22). Além disso, o novo grupo de artistas expressava as novas realizações tecnológicas de fins do século XIX e início do XX: os automóveis velozes circulando nas cidades, o advento do cinema, a fotografia, o telefone, o gramofone, os bondes elétricos, a revolução causada pelo desenvolvimento da aviação, implicaram num conceito dinâmico da arte associada à velocidade e à simultaneidade, em oposição ao conceito estático tradicional, baseado no equilíbrio e na ordem.

Sobre o Poema Juca Mulato

Em quarenta páginas, Menotti Del Picchia conta em versos a história de um caboclo rude, mas dotado de sensibilidade poética. Juca Mulato é forte e duro como peroba, mas seu espírito é livre e independente como o vento; os seus braços foram feitos para trabalhar, mas sua alma foi feita para cantar a felicidade e a tristeza. A sua ternura lhe conduz à comoção poética quando confrontado com a beleza exuberante da natureza, dos rios, dos pássaros e das matas do interior paulista: tudo enquanto pita um cigarro de palha.  

O lirismo de Juca Mulato o faz plenamente aclimatado à natureza que o circunda.

Está sempre a cismar enquanto contempla as nuvens, os rios e as florestas, sempre ensimesmado, com o olhar vago e o pensamento nas estrelas:

“Nuvens voam pelo ar como bandos de garças,

Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira

pinceladas esparsas

de ouro fosco.  Num  mastro, apruma-se a bandeira

de São João, desfraldando o seu alvo losango.

Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o

Vem, na tarde que expira e na voz de um curiango,

o narcótico do ar parado, esse veneno

que há no ventre da treva e na alma do silêncio.

Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.”.

Mas a sua candura  também produz o sofrimento do amor não correspondido, quando se apaixona “pela filha da patroa” e descobre que nem a feitiçaria de um negro do candomblé lhe cura a doença do coração não correspondido:  

– Juca Mulato! Esquece o olhar inatingível!

Não há cura, aí de ti! para o amor impossível,

Arranco a lepra ao corpo; extirpo da alma o tédio;

só para o mal de amor nunca encontrei remédio…

Como queres possuir o límpido olhar dela?

Tu és qual um sapo a querer uma estrela…

A peçonha da cobra eu curo… Quem souber

cure o veneno que há no olhar de uma mulher!

Juca Mulato, se ainda não expressa as formas poéticas mais experimentais dos modernistas na forma de um Oswald de Andrade, de certa maneira remete a outra figura conhecida desse modernismo brasileiro, o “Macunaíma” (1922) de Mário de Andrade.

Ambos foram escritos na mesma época. E os dois personagens, o “Macunaíma” de Mário de Andrade e o “Juca Mulato” de Menotti Del Picchia buscam ser representativos de um povo. Macunaíma, nas sucessivas variações de sua fisionomia, índio, branco e preto, e na sua epopeia das matas até a cidade grande, é a síntese do Brasil, ao passo que Juca Mulato é a síntese do caboclo, a figura representativa do caipira paulista, deitado sob uma árvore a contemplar com o olhar vago a vida a passar: está sempre a cismar.  

Também por seu um personagem representativo de um povo, no caso uma síntese do caipira paulista, pode-se dizer ser o Juca Mulato um primo distante do Jeca Tatu de Monteiro Lobato.

A grande diferença é que o Jeca Tatu é, antes, uma caricatura da qual se serviu o autor do “Sítio do Pica Pau Amarelo” para criticar na imprensa a realidade social dos caboclos paulistas em situação de abandono e doença, especialmente o amarelão, que o torna em estado de letargia e inabilitado ao trabalho duro.  

A caricatura é via de regra superficial e busca, através do humor, realçar traços específicos e mais grotescos da personalidade: a preguiça e desleixo com que o caboclo cuida da roça, desde que enfermo cronicamente pelo amarelão, é a forma caricatural com que Lobato criou o Jeca Tatu.

O Juca Mulato é muito mais do que uma caricatura.

No poema, o escritor buscou traduzir a alma do caboclo paulista e isso dentro de uma linguagem clássica. Não há nos poemas até mesmo as variações linguísticas regionalistas e os termos populares comuns dos escritores modernistas, especialmente em sua fase regionalista subsequente, da qual fizeram parte Jorge Amado, João Guimarães Rosa e José Lins do Rego.

Menotti buscou através do personagem síntese “Juca Mulato” sondar a alma e o mais profundo íntimo do homem simples do campo e dela extrair o que é universal: a beleza da natureza e os sofrimentos da alma à luz da imaginação do caboclo.

Talvez aqui resida o “modernismo” mais decisivo de Juca Mulato: ele antecipa João Guimarães Rosa que também através do regionalismo, com os seus sertanejos a tocar boiadas nos sertões, afirmou através do local aquilo que é universal.

terça-feira, 21 de abril de 2026

A Poesia de Thiago de Mello

 A Poesia de Thiago de Mello




 

“Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar

a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras”

(“Os Estatutos da Vida – Ato Institucional Permanente” – Thiago de Mello)

 

Toda arte é, em alguma medida, expressão da vida social. Mesmo quando sua forma envolva o mais alto grau de abstração, dela se evidenciam os valores, as crenças, as ideias e os sentimentos compartilhados pela sociedade em determinada conjuntura histórica.

Na poesia do escritor amazonense Thiago de Mello (1926/2022) essa relação indissociável entre arte e vida é ainda mais evidente.

Sua poesia nasce da vida e, por extensão, sua vida se alimentou da sua poesia; sua intencionalidade de artista não se limitou ao fim estético que almeja a beleza mas também contribuir para que o homem adquira consciência de sua verdadeira condição dentro da sociedade em que vive.

Em outras palavras, a poesia não é só um fim almejado pelo artista que busca extrair a beleza do mundo. A poesia deve servir à Vida da qual ela nasce.

Vida com “v” maiúsculo significando mais do que meramente existir, mas a mais decisiva oportunidade de levar essa existência à plenitude, através do amor ao próximo, da pureza de intenções e da alegria, mesmo em tempos de trevas.  

E é assim que o artista inicia um dos seus livros de poesia:

A VIDA VERDADEIRA

Pois aqui está a minha vida.

Pronta para ser usada.

Vida que não se guarda

nem se esquiva, assustada.

Vida sempre a serviço da vida.

Para servir ao que vale

a pena e o preço do amor.

Ainda que o gesto me doa,

não encolho a mão: avanço

levando um ramo de sol.

Mesmo enrolada de pó,

dentro da noite mais fria,

a vida que vai comigo é fogo:

está sempre acesa.

 

Havendo essa forte coesão entre arte e vida, pode-se também dizer que os versos de Thiago de Mello pavimentaram sua trajetória de vida, a sua biografia.

O poeta nasceu em 30.03.1926 no município de Barreirinhas, Estado do Amazonas. Veio de uma família de comerciantes nordestinos que migraram até a Amazônia no contexto do ciclo da borracha.

Muito estudioso, logo aos 16 anos ganha uma bolsa de estudos e se muda ao Rio de Janeiro para estudar medicina na Faculdade da Praia Vermelha, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Naquela cidade, a capital e centro cultural do país, irá travar relações com artistas e jornalistas, sendo recomendado por Carlos Drummond de Andrade que recebeu com estima os versos enviados pelo jovem amazonense.

Na década de 1950 o jornal “Correio da Manhã” por meio do seu suplemento literário publica o primeiro verso de Thiago de Mello, chamado “Argila”. Logo o escritor conquista a amizade de Manuel Bandeira e José Lins do Rego, também bem impressionados com os versos daquele jovem oriundo dos rincões da floresta amazônica.  

O primeiro livro de poesias foi publicado por uma editora criada pelo próprio escritor, contando com pouco mais de cem exemplares distribuídos. A obra foi celebrada Álvaro Lins, principal crítico literário do país.  Em 1952, Thiago de Mello já lança seu segundo livro chamado “Narciso Cego” desta vez pela editora José Olympio, a mais importante do Brasil de meados do século XX. Com menos de 30 anos de idade, já era saudado pela crítica, sendo alçado à cadeira da Academia Amazonense de Letras no ano de 1955.

A partir da década de 1960, com os eventos políticos que conduziram o golpe militar e deposição do governo nacionalista de João Goulart, a poesia de Thiago de Mello ganha maior conotação política. Àquela época o escritor trabalhava como adido cultural da embaixada brasileira no Chile, pedindo seu desligamento logo após os eventos que alçaram as Forças Armadas ao poder.

Já em maio de 1964, um mês depois do golpe, Thiago de Mello publicou no jornal um poema sarcástico chamado “Os Estatutos do Homem” – seu subtítulo é “Ato Institucional Permanente” tratando de forma irônica o Ato Institucional I, decretado pela Junta Militar que assumiu o poder, determinando “provisoriamente” a suspensão das garantias constitucionais, cassação de mandatos e suspensão dos direitos políticos de opositores.

Os Estatutos do Homem - (Ato Institucional Permanente)

Artigo I.

Fica decretado que agora vale a verdade.

que agora vale a vida,

e que de mãos dadas,

trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.

Fica decretado que todos os dias da semana,

inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.

Fica decretado que, a partir deste instante,

haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.

Fica decretado que o homem

não precisará nunca mais

duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

como a palmeira confia no vento,

como o vento confia no ar,

como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:

O homem confiará no homem

como um menino confia em outro menino.

 

Logo depois, o poeta se aproximou do Movimento Nacionalista Revolucionário, organização que propunha o combate em armas à ditadura e que liderou a Guerrilha do Caparaó, inspirada nos guerrilheiros cubanos de Serra Maestra. Foi obrigado a viver na clandestinidade até 1969, quando foi compelido a se exilar no Chile, no contexto do recrudescimento das perseguições após o AI-5.

Naquele país travou relações com o poeta Pablo Neruda. O Chile era então presidido pelo socialista Salvador Allende e agrupava muitos expatriados brasileiros. Thiago de Mello foi nomeado diretor do Departamento de Comunicação no governo esquerdista chileno, isso até o golpe de Augusto Pinochet em 1972, quando os militares chilenos invadiram e destruíram a casa do poeta, levando livros e material de trabalho.

Thiago de Mello foi conduzido à delegacia e por pouco não foi levado com os demais presos ao fuzilamento: por ser brasileiro, foi liberado junto com o seu filho, conseguindo asilo na Argentina, passando depois para Alemanha, França e Portugal.

O poeta da Amazônia só conseguiu retornar ao Brasil em 30 de Outubro de 1977, no contexto de reabertura “lenta, gradual e segura” do regime militar. Ainda assim, foi conduzido ao DOPS e obrigado a ficar à disposição da polícia para prestar depoimento.

Ao final da vida, Thiago de Melo decide voltar a sua terra natal, o Amazonas que lhe serviu de inspiração para muitos dos seus poemas.

Pediu a um amigo arquiteto que construísse sua casa numa pequena comunidade ribeirinha às margens do Rio Andirá, a 400 Km de Manaus. Nessa fase final de sua vida, dedica seus livros em prosa e verso ao elogio da floresta amazônica onde está internado (num novo exílio?). Alguns dos títulos dos seus livros desse período são: Manaus, Amor e Memória, 1984; Amazonas, Pátria da Água, 1991; e Amazônia — A Menina dos Olhos do Mundo, 1992.

O poeta faleceu em janeiro de 2022, quando tinha 95 anos de idade. A despeito do reconhecimento do seu mérito literário dentro da crítica especializada, ainda é um escritor relativamente desconhecido do público. O que não confere justiça a sua poesia popular, tecida por palavras simples, plenamente acessível ao entendimento do povo.

Bibliografia

“Faz Escuro mas eu canto”  - Thiago de Mello – Ed. Record

“Thiago de Mello: fortuna crítica (1951-1960)” Lima, Pollyanna Furtado – Dissertação de Mestrado UFAM.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Os Caifazes e o Quilombo do Jabaquara

 Os Caifazes e o Quilombo do Jabaquara


 

Resenha Livro – “A Marcha” – Afonso Schmidt – Instituto Afonso Schmidt – Cubatão 2023

Ainda é pouco conhecida a história os Caifazes paulistas e do Quilombo do Jabaquara, situado na cidade de Santos.

Eles surgiram nos instantes imediatamente anteriores à abolição da escravatura no Brasil e sua existência evidencia outro fato pouco comentado da história nacional: existia uma situação pré-revolucionária no país no momento que antecedeu o 13 de Maio de 1888.

A opinião pública favorável à abolição se generalizara por todo o país.

Desde a Guerra do Paraguai (1864/1870) foram muitos os escravos alforriados para lutar no exército, fazendo com que as forças armadas desde meados do século XIX se posicionassem pela abolição: inclusive se negando a emprestar apoio na captura dos cativos que fugiam das fazendas.

Sob o impacto da opinião pública, algumas províncias ao norte, menos dependentes do trabalho escravo, já tomaram a iniciativa de abolir a escravidão, a começar pelo Estado do Ceará em 1884. Naquela província ficou conhecida a atividade heroica dos jangadeiros que emprestavam os seus barcos de pesca para acolher e auxiliar negros fugidos do cativeiro oriundos de embarcações vindas de Santos.

Além disso, a maior concentração de população livre nos meios urbanos fez com que as cidades se tornassem núcleos do abolicionismo.

Nas cidades multiplicam-se instituições culturais, jornais, editoras e livrarias. Há aumento de pessoas que trabalham como profissionais liberais: médicos, engenheiros, advogados, funcionários públicos e professores, constituindo uma opinião pública refratária à escravidão predominante no meio rural.

É na cidade de São Paulo atuando como advogado (“rábula”) que Luiz Gama defendeu nos Tribunais a liberdade dos escravos com base na lei de proibição do tráfego de 1831.

Ficou conhecida as palavras proferidas pelo principal líder abolicionista de SP num Tribunal do Juri em Araraquara: “para o coração não há códigos; e, se a piedade humana e a caridade cristã se devem enclausurar no peito de cada um, sem se manifestarem por atos, em verdade vos digo aqui, afrontando a lei, que todo o escravo que assassina o seu senhor pratica um ato de legítima defesa.”.

Com a morte de Luiz Gama, o movimento abolicionista paulista passa por um processo de radicalização ainda maior, agora sob a liderança de Antônio Bento, um ex-juiz municipal que passou a conduzir a mobilização através do grupo Caifazes a partir de 1883.

Tratava-se de um movimento clandestino de luta contra a escravidão com traços que remetem à guerrilha urbana dos comunistas na época da ditadura militar. Através daquilo que hoje poderíamos chamar de “ação direta” eles organizavam fugas de escravos nas fazendas e mobilizavam alforriados para fazer propaganda abolicionista dentro das senzalas. Com a diferença que, diferentemente dos comunistas, os Caifazes contavam com um amplo apoio popular que os auxiliava na atividade clandestina.

Em Santos, principal foco do abolicionismo em São Paulo, os Caifazes chegaram a levar a diante um levante popular contra a escravidão, fazendo com que o trabalho escravo fosse extinto naquela cidade ainda no ano de 1886.

Há relatos de linchamentos promovidos pelos Caifazes dos capitães do mato, num momento em que ampla camada da população repudiava a tortura e assassinatos executados pelos caçadores de quilombolas.

Além de ex escravos, o grupo dos Caifazes era composto por setores médios e trabalhadores livres e pobres, que emprestavam o seu apoio à atividade guerrilheira de acordo com suas ocupações.

Caixeiros viajantes nas suas viagens distribuíam material abolicionista. Ferroviários ajudavam a embarcar nas viagens de trens escravos fugitivos de forma clandestina. Comerciantes se voluntariavam para esconder fugitivos em suas lojas. Jornalistas, intelectuais e estudantes davam apoio à propaganda política, através da Imprensa e em reuniões secretas.

Dentro dos Caifazes havia forte presença dos estudantes, especialmente acadêmicos da Faculdade de Direito de São Paulo.

 Em Santos, a juventude organizou a chamada “Boemia Abolicionista de Santos”, um grupo clandestino, sem sede fixa, do qual participavam intelectuais que se encontram nas praças e parques da cidade para fazer pequenos comícios abolicionistas. Chegaram a fazer peças de teatro ao ar livre, como meio de arrecadar dinheiro para pagamento de alforrias.

Naquele contexto surgiu em 1882 na cidade de Santos o Quilombo do Jabaquara, onde se agruparam entre 10 e 20 mil escravos fugidos das fazendas de café do interior paulista.

Contando com a rede de apoio dos Caifazes, os cativos faziam uma marcha a pé, descendo a serra até o litoral. Contavam com a conivência do exército: quando mobilizados pelo governo a reprimir a marcha, os militares deliberadamente buscavam se desencontrar do grupo de fugitivos. A tarefa inglória de caçar os fugitivos ficava na mão do reduzido (e odiado) grupo dos capitães do mato e pequenas forças policiais leais às ordens do governo.

Ao chegar em Santos, abrigados no Quilombo do Jabaquara, muitos ex escravos eram encaminhados de forma clandestina até o Ceará onde a abolição da escravatura já era uma realidade.

Em termos numéricos, o Jabaquara foi o segundo maior agrupamento de negros fugidos do Brasil, só atrás do Quilombo dos Palmares. Com uma diferença fundamental: o Quilombo paulista contou com o apoio dos abolicionistas pardos e brancos ligados ao movimento dos Caifazes, diferentemente do seu irmão situado em Alagoas que foi um movimento essencialmente negro. Inclusive, consta que o terreno onde estava localizado o Quilombo do Jabaquara foi cedido por um italiano abolicionista... Talvez por isso, hoje, em tempos de hegemonia da demagogia identitária, se fale muito do Quilombo de Palmares e pouco do Quilombo de Jabaquara.

Como se sabe, o Brasil foi um dos últimos países do ocidente a abolir a escravidão e esse é um dos traços que dão especificidade ao escravismo brasileiro: a manutenção do regime escravista no país perdurou por décadas convivendo com vedações legais, pelo menos desde 1831, quando, sob pressão da Inglaterra, o Império formalmente abolia o tráfico de escravos.

É neste contexto de progressiva e permanente desagregação do regime escravagista que a Lei Áurea foi aprovada em 1888.

A lei foi votada em regime de urgência:  83 deputados votam a favor e 9 contra (todos do partido conservador, provenientes de regiões rurais menos preparadas para transição ao regime livre).

Não se tratou o 13 de maio de uma concessão benevolente da princesa Isabel mas uma resposta tardia do Império a uma forma social em decomposição, dentro de um contexto de crise que poderia colocar a própria existência do regime político em cheque.  Os Caifazes paulistas e o Quilombo do Jabaquara são a mais importante expressão da situação pré revolucionária que antecedeu a Lei Áurea.

Na imagem: Quintino de Lacerda – Líder do Quilombo do Jabaquara e considerado o primeiro vereador negro do Brasil, eleito em Santos em 1895.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

“Clarissa” – Érico Veríssimo

 “Clarissa” – Érico Veríssimo


 

Resenha Livro - “Clarissa” – Érico Veríssimo – Editora Globo

 

Não seria exagero dizer que o escritor gaúcho Érico Veríssimo foi o mais fiel retratista do povo gaúcho, da sua história e dos seus costumes.

 Não seria correto, porém, dizer que toda a sua obra, elaborada entre os anos 1930/1970, apenas tivesse tratado e se situado dentro daquilo que ele próprio dizia ser o “Continente”, a antiga Província de São Pedro das Missões, hoje Estado do Rio Grande do Sul.

Os seus primeiros livros, situados naquilo que ficou conhecido como “O Ciclo de Porto Alegre”, não são obras propriamente regionalistas. Ainda que todas as histórias deste conjunto de narrativas se passem na capital gaúcha, a cidade, que tinha então cerca de 300.000,00, era apenas o cenário, o mero pano de fundo dos enredos.

Dos primeiros livros, o mais conhecido (e aquele que levou o escritor ao sucesso de público) foi “Olhai os Lírios do Campo” (1932). Esse e os demais foram escritos na juventude de Veríssimo, quando acabara de se mudar do interior gaúcho para a capital riograndense, para trabalhar como jornalista na Editora Globo. A cidade de Porto Alegre, nessas histórias, aparece mais como um detalhe, já que a narrativa tem um conteúdo mais universal, podendo tido as situações se passado em qualquer outro lugar.

Nas palavras do próprio escritor: “procurando analisar com imparcialidade os meus romances anteriores ao Tempo e o Vento, eu percebo o quão pouco, na sua essência e na sua existência, eles tinham a ver com o Rio Grande do Sul. Tendiam para um cosmopolitismo sofisticado, que me levava a descrever a provincianíssima Porto Alegre de 1934 como uma metrópole tentacular e turbulenta (...)”. (“Solo de Clarineta”, V. 1).

O ponto alto da literatura de Érico Veríssimo dar-se-á depois, na década de 1940, quando começou a escrever a sua obra prima, na verdade, uma triologia chamada “O Tempo e o Vento”. Nesta coletânea, o escritor pretendeu contar a história do Rio Grande do Sul desde 1745 até meados do século XX, na forma de literatura.

Há nesses três livros um painel e mosaico das histórias de famílias, grupos e clãs políticos locais que por duzentos anos ocuparam o território, constituíram vilas e cidades, promoveram guerras com os castelhanos pelo domínio da terra e envolveram-se em brutais guerras civis, essas últimas até mais sangrentas que os conflitos com os espanhóis.

“Clarissa” (1933) pertence à primeira fase das obras do escritor gaúcho, está fora da orientação regionalista que marcou os seus livros subsequentes. Trata-se do primeiro romance publicado por Érico Verissimo, escrito quando tinha 27 anos de idade. Nele há um forte conteúdo autobiográfico: o escritor retrata a si mesmo na figura do personagem Amaro, um pianista, com alma de poeta, triste, silencioso, ensimesmado, capaz de captar através da sensibilidade do artista as nuanças do mundo, sem ser compreendido pelos outros, exceto pela menina Clarissa.

No próprio prefácio da obra, o escritor conta a fonte da inspiração para a história:

“Sob os jacarandás floridos da velha praça da Matriz de Porto Alegre, caminhava uma rapariga metida no seu uniforme de normalista. Teria quando muito treze anos de idade, seu andar era uma dança, seu rosto uma fruta madura e seus olhos, que imaginei escuros, deviam estar sorvendo com avidez a graça luminosa e também adolescente daquela manhã de primavera. De minha janela eu a contemplava com a sensação de estar ouvindo uma sonata matinal e ao mesmo tempo vendo uma pintura animada. (...) Desejei saber compor música para traduzir em melodia aquele momento poético; ou então pintar, para prender numa tela as imagens daquele minuto milagroso”.

A essa menina deu o nome de Clarissa e, ao invés de retratá-la em pintura ou música, o fez através de uma novela.

O tema central do livro é a transição da infância à vida adulta.

A história se passa na cidade de Porto Alegre, para onde a protagonista é mandada pelos pais para os estudos secundaristas. Clarissa vem de uma cidade do interior para morar na pensão de sua Tia Zina. A história se passa no ano de 1933, durante o ano letivo em que a personagem principal passará dos 13 aos 14 anos de idade. Momento da vida de transição: dos estertores da infância, quando vê o mundo com olhos cheios de surpresa e encanto, para a adolescência, quando dá os seus primeiros suspiros de amor e percebe que o mundo não é perfeito.

Naquele ambiente da pensão, vai entrando em contato com os demais moradores da pequena hospedaria, que dão o pano de fundo da história: o tio Couto, desempregado que vive prometendo arranjar um serviço, mas parece acomodado com sua situação; Major Nico Pombo que passa horas conversando sobre histórias do seu passado militar; Zezinho, aluno de medicina com jeito afeminado; e Amaro, um solteirão que vive calado no seu canto, refém da sua sensibilidade de poeta que o faz se afastar de todos, a despeito de vê-los com a mesma ternura com que o artista retrata o mundo na sua obra.

O processo de amadurecimento de Clarissa gravita em torno da descoberta da injustiça, da mentira e do sofrimento.

Ao lado da pensão vive Tonico, um menino pobre e paralítico, que passa o dia inteiro na cadeira de rodas, no quintal, triste e sorumbático, gritando pela mãe quando sente frio e deseja voltar para dentro de casa. O menino tinha sonho de lutar numa guerra, queria ser militar mas jamais poderá sê-lo pela sua condição. Tornou-se deficiente após ser atropelado: Clarissa confronta a situação de pobreza do vizinho com casas ricas e as crianças felizes que brincam em outro canto da rua. É através dessa experiência de desencanto pelas injustiças do mundo que a personagem vai se distanciando da infância e se tornando adulta.

Clarissa é dotada da mesma sensibilidade de Amaro. Ela também sofre na pele as dores do mundo, tal qual os poetas. Por isso, ao longo da história, é a única a travar alguma conexão com Amaro. No seu aniversário de quatorze anos ganha do pianista um peixinho, a quem dá o nome de Pirulito.  O peixe isolado dentro do aquário evoca a imagem daquele mesmo homem triste, silencioso e solitário.

Com o fim do ano letivo, Clarissa retorna à casa de seus pais no interior para nunca mais voltar. É quando Amaro descobre um segredo guardado até mesmo de si mesmo: sentia amor pela menina, não um sentimento que evoca o relacionamento conjugal, mas o encanto misterioso decorrente da beleza da vida e da natureza.