sexta-feira, 27 de março de 2026

A VIDA DE GETÚLIO VARGAS (1882/1954)

 A VIDA DE GETÚLIO VARGAS (1882/1954)



 

“Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram o meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo ao caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”. (Carta-testamento, Getúlio Vargas, 24 de agosto de 1954).  

Getúlio Vargas foi alçado ao poder através da Revolução de 1930, desencadeada pelos Estados de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, em conjunto com os tenentes, militares de baixa patentes que lutavam pelo voto secreto, pelo fim da corrupção eleitoral e por reformas sociais. Esses foram os setores que se organizaram através da Aliança Liberal, a coligação oposicionista derrotada nas eleições de 30 para o candidato oficial, indicado pelo presidente Washington Luiz.

A crise da República Velha já vinha se arrastando pelo menos desde 1922, ainda durante a gestão de Arthur Bernardes, quando o estado de sítio, ao invés de ser a exceção, virou a regra. A ampla insatisfação contra a República Velha já não se reduzia à oposição parlamentar, mas alcançava o povo; partia do incipiente sindicalismo, conduzido por anarquistas e depois pelos comunistas, mas principalmente pelos militares de baixa patente.

O fim da I Guerra Mundial (1914/1918) colocava a necessidade do país se modernizar e desenvolver a sua indústria; os centros urbanos cresciam, uma nova classe média se fortalecia e a base social da República Velha (1889/1930), alicerçada no coronelismo e nas oligarquias agrárias, ia desmilinguindo.  Mesmo nas artes, aparecia a necessidade de renovação, com a assimilação, através dos modernistas, de novas tendências artísticas europeias de vanguarda, e o rechaço ao academicismo e a rigidez formal que marcavam a literatura e arte do século XIX. 

Tratava-se de uma conjuntura revolucionária. Esse era o pano de fundo da Revolução de 30. Foi neste contexto que Getúlio Vargas assumiu o poder.

Dentro do amplo movimento de insatisfação contra a República Velha, Getúlio Vargas laçou-se como candidato à presidência pela oposição na Aliança Liberal. Parecia estar dentro do setor mais moderado daquele movimento. Após a “vitória” do candidato oficial, ensaiou até mesmo acatar a sua derrota para Júlio Prestes. Mas com o assassinato de João Pessoa, governador do Estado da Paraíba e candidato à vice presidente da Aliança Liberal, a maré revolucionária se tornaria irreversível – Getúlio, até então, era um político convencional e conciliador, foi obrigado pelas circunstâncias a liderar a revolta, sob pena de entregá-la aos setores mais radicais da oposição, notadamente os tenentes, que já haviam pegado em armas contra o regime em 1922 (Revolta de Copacabana) e em 1924 (Revolta Paulista).   

Em 1930, Getúlio Vargas ainda não era o político popular, que empolgava as massas em grandes comícios,  o chamado “pai dos pobres”. Era um político tradicional. Tinha sido, pouco antes, Ministro da Fazenda de Washington Luiz, o presidente por ele mesmo deposto pouco tempo depois. Antes, sua carreira política estava circunscrita à política do seu estado natal. Em 1922 foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul. Em 1928 foi eleito Governador por aquele estado. E dois anos depois, estaria na cabeça do movimento que colocou fim à Primeira República.

 Vargas nasceu em 19 de abril de 1882 em São Borja, Rio Grande do Sul. Seu pai era um veterano da Guerra do Paraguai e ostentava o título de general honorário do Exército brasileiro. Também foi chefe político do Partido Republicano gaúcho, presidido por Borges de Medeiros, liderança política máxima do Rio Grande do Sul.

Logo cedo, Vargas, aos 17 anos de idade, alista-se no 6º batalhão de infantaria em São Borja. Mas pouco tempo depois pede baixa e se muda para Porto Alegre, onde irá se matricular na Faculdade de Direito.

Quando estudante, tem contato com as ideias de Júlio de Castilhos, o que o influenciaria na sua orientação política futura: antiliberal, com forte influência do positivismo de Augusto Comte, num viés autoritário e centralizador em oposição ao federalismo que beneficiava o sistema oligárquico da República Velha. No plano nacional, pode-se dizer que Getúlio Vargas implementou o castilhismo quando instaurada a ditadura do Estado Novo (1937/1945).

A tomada do poder deu-se em 1930, mas Vargas só se tornaria presidente constitucional no ano de 1934, um dia após a promulgação da nova Constituição.

O cenário mundial era de polarização política: se desenhava no horizonte a II Guerra Mundial. Os comunistas se organizavam através da Aliança Nacional Libertadora (recrutando, inclusive, antigos tenentes descontentes com a moderação do novo governo); inspirado no fascismo italiano, o escritor Plínio Salgado constituiu o movimento integralista, também contando com apelo das massas. Choques entre comunistas e integralistas ocorriam nas ruas.

Em novembro de 1935 os comunistas lançam-se a uma tentativa improvisada e mal organizada de tomada do poder, conhecida depois como “Intentona Comunista”. Era o pretexto que o regime necessitava para alicerçar-se no poder naquele período de turbulência e polarização.

É desencadeada uma campanha anti-comunista, com a criação da polícia política sob a chefia de Felinto Muller, o maior torturador do Estado Novo. O risco de uma revolução presidida pelo PCB era remoto, mas a propaganda anti-soviética foi criando o ambiente favorável à instauração de uma ditadura de fato.

Em 10 de novembro de 1937 Getúlio Vargas outorga uma nova constituição e implementa o Estado Novo, tornando-se um ditador.

O líder popular e carismático surge naquele momento. Não só pela campanha contra os comunistas, mas especialmente pela legislação social e trabalhista, que conferiu a popularidade daquele que foi chamado o “pai dos pobres”. É durante o Estado Novo que é instituída a CLT (1943), consolidando uma série de direitos sociais e trabalhistas inexistentes na República Velha, quando a questão social era vista como questão de polícia.

O salário mínimo foi regulamentado e foram instituídos direitos aos trabalhadores vigentes até os dias de hoje: jornada de oito horas, férias remuneradas, descanso semanal remunerado e regulamentação da previdência social.

Getúlio Vargas foi derrubado do poder em outubro de 1945, no contexto do pós II Guerra, quando a vitória das “democracias” ocidentais sobre o nazi-fascismo tornava insustentável a ditadura estadonovista. Foi deposto através de um ultimato do alto comando do Exército, num golpe palaciano que não lhe tirou em nada a sua popularidade – tanto que se retira pouco tempo depois para sua fazenda no Rio Grande do Sul e, sem fazer campanha, é eleito senador com ampla quantidade de votos.

Deposto em 1945, seria, cinco anos depois, alçado de novo à presidência, agora através do voto. Dizia-se que Getúlio Vargas voltou “nos braços do povo”. E essa seria a fase em que a liderança carismática deixaria a sua natural tendência contemporizadora para levar adiante o enfrentamento cos setores dominantes da política brasileira.

A campanha do “petróleo é nosso” daria as condições para a criação da Petrobrás em 1953. O objetivo de estabelecer o monopólio estatal do petróleo desafiava os interesses imperialistas norte americanos e agitava a oposição mais ligada aos norte-americanos, particularmente a UDN e a imprensa carioca. Vargas nomeia João Goulart como Ministro do Trabalho que, diante do alto custo de vida, propõe aumentar em 100% o salário mínimo, despertando a fúria do empresariado.

Estávamos então em plena Guerra Fria razão pela qual as políticas sociais e nacionalistas do governo eram utilizadas como pretexto para oposição novamente levar adiante a campanha anticomunista.

O golpismo avançava a passos largos. Um evento detonador da crise foi a tentativa de assassinato do jornalista/udenista Carlos Lacerda que através do seu jornal “Tribuna da Imprensa” vinha desencadeando uma campanha furiosa contra o governo.

A situação ficou irreversível quando os militares brasileiros passaram a apoiar o golpe. Getúlio, poucos dias antes da sua morte, afirmava que só sairia do palácio do Catete morto. Dizia que já estava muito velho para aceitar ser desmoralizado e para temer a morte.

No dia 24 de agosto de 1954 recebeu no palácio do governo um emissário das Forças Armadas intimando-o a renunciar. Optou pelo suicídio, como a solução política mais eficiente: ao mesmo tempo que colocou a oposição sob ataque do povo que apoiava o governo, pode através daquele ato reagrupar as forças políticas varguistas, organizadas no PTB e PSB.

 Bibliografia:

“Getúlio” – Coleção Os Grandes Líderes – Nova Cultural – Bolívar Lamounier

quarta-feira, 25 de março de 2026

A História da Primeira República

 A História da Primeira República




 

Regime federativo, abolição da escravatura, separação da Igreja e do Estado, instituição do casamento civil, regulamentação do trabalho industrial, reforma educacional: essas eram as principais bandeiras defendidas pelos partidários do regime republicano no Brasil, alçados ao poder através do golpe militar de 15 de Novembro de 1889.

A proclamação da república foi conduzida pelos militares, tendo à frente Deodoro da Fonseca, o que se deu através de um golpe palaciano, que quase não encontrou resistência por parte da monarquia. Os conspiradores tomaram de assalto o quartel general do Rio de Janeiro e o Ministério de Guerra durante a madrugada do dia 15.11. Prenderam o Visconde de Ouro Preto e alguns outros ministros.

Consta que o único ferido na quartelada foi o Barão de Ladário, Ministro da Marinha, que desacatou a ordem de prisão e foi baleado. Um incidente mais grave ocorreu no Maranhão com o massacre de 17 de Novembro, quando tropas republicanas abriram fogo contra cerca de 2.000 manifestantes; eram ex-escravos que compartilhavam a ideia de que a queda da monarquia acarretaria a restauração da escravidão.

É de se lembrar que muitos abolicionistas, a começar por José do Patrocínio, passaram a reivindicar a monarquia, associado o fim a escravidão e a lei Áurea à Princesa Isabel. Antes do golpe do dia 15 de novembro, foi desencadeada uma campanha procurando convencer o povo de que a instauração da república iria acarretar a volta da escravidão. As manifestações republicanas eram assaltadas pelos chamadas Guardas Negras, capoeiras e alforriados recrutados com a finalidade de dissolver os comícios republicanos, armados de navalhas e cacetes

Entretanto, pode-se dizer em linhas gerais que o povo assistiu “bestializado” à Proclamação da República, para utilizar a famosa frase do jornalista republicano Aristides Lobo. Ou seja, a queda da monarquia produziu na população, ao menos num primeiro momento, um misto de espanto e apatia.    

Essa transição de regime relativamente pacífica concretizava o plano do Partido Republicano criado em 1870 – a sua ala majoritária acreditava numa transição não violenta do regime monárquico para a República, ou seja, a evolução natural dos acontecimentos levaria o país a superar o II Império, seguindo leis históricas inflexíveis, dentro do horizonte positivista. Os partidários de August Comte, especialmente os militares brasileiros, acreditavam na ideia de uma evolução natural da sociedade, regida por leis científicas, em direção ao progresso. Daí vem o lema inscrito na bandeia nacional desde o advento da República: Ordem e Progresso.

Entretanto, os dois primeiros governos militares da Primeira República, o de Deodoro da Fonseca (1889/1891) e especialmente o de Floriano Peixoto (1891/1894), iriam se confrontar com a reação violenta (e tardia) ao novo regime. Essa primeira fase da 1ª República pode ser justamente caracterizada como o momento da consolidação do regime republicano e o esmagamento/eliminação dos resíduos monárquicos.

Dentro das forças armadas brasileiras, era a marinha a que tinha maiores vinculações com o regime monárquico. A sua própria composição social a tornaria uma força mais elitista que o exército, onde predominava a orientação republicana e positivista. Neste contexto ocorre a Revolta da Armada, quando unidades da marinha se insurgem contra o fechamento do congresso por Deodoro da Fonseca  - na segunda fase da revolta, já no governo de Floriano Peixoto, os rebeldes exigiam não só a tomada do poder mas sugeriam a restauração da monarquia, ameaçando inclusive bombardear a cidade do Rio de Janeiro.   

Outro movimento que buscava desafiar o novo regime republicano foi a Revolta de Canudos, conduzida por um líder messiânico chamado Antônio Conselheiro. Isso ocorreu já no primeiro governo civil da República de Prudente de Morais (1894/1898). O arraial surgiu em pleno sertão nordestino, chegando a reunir 10 mil habitantes. O primeiro ato de rebeldia se deu quando o Conselheiro, conduzindo o seu séquito de seguidores, se insurgiu contra a obrigatoriedade de pagamento de impostos, após o advento de uma lei de 1893, concedendo autonomia aos municípios. Mandou queimar em praça pública a tábua de cobrança dos tributos e afirmava para quem quisesse ouvir  que a implantação do regime republicano era uma invenção do demônio. Foram necessárias quatro expedições militares para a destruição de Canudos, até o extermínio literal de toda a sua população.

Os primeiros dez anos da República Velha corresponderam, portanto, à fase de consolidação do novo regime e ao desmantelamento da reação monárquica tardia. Uma segunda fase se iniciaria a partir do governo de Campos Salles (1898–1902) com a instituição da política do café com leite e a política dos governadores.

Ao contrário dos dias de hoje, a 1ª Constituição Republicana (1891) previa um regime acentuadamente federalista. Se hoje as lideranças dos estados são chamadas de “governadores”, na República Velha eram “presidentes”. O grau de autonomia conferido aos estados era muito maior, envolvendo até mesmo disputas territoriais entre distintos entes da federação – da mesma forma que ocorrem as disputas de territórios entre diferentes nações. Uma delas, envolvendo disputa de território entre os estados do Paraná e Santa Catarina, foi a causa inicial de guerra civil, a chamada Revolta do Contestado, que levou à morte mais de 10 mil pessoas.

O acentuado federalismo da República Velha era alicerçado nas elites agrário-exportadoras que passaram a dirigir o governo, após a fase inicial de implantação da República conduzida pelos militares do exército. Num país ainda sem indústrias e com baixo desenvolvimento urbano, a política era conduzida pelos fazendeiros do café, pelos estancieiros do Rio Grande do Sul, pelos latifundiários de Minas Gerais e pelos senhores de engenho do nordeste, esses últimos já em fase de franca decadência.

O coronelismo que marca a política local na República Velha revela o espírito de clã, muito bem evidenciado por Oliveira Viana no seu estudo sobre as chamadas “populações meridionais do Brasil”. A grande dimensão territorial do Brasil colabora para o isolacionismo das fazendas. Tudo isso cria as condições para o fortalecimento de clãs familiares que conduzem a política e a jurisdição de todo povo agregado aos Potentados Rurais. Do escravo ao agregado, passando pelos trabalhadores livres e pobres, lavradores e pequenos funcionários estatais, estão subordinados ao grande senhor de terras. Aliás, é justamente a propriedade de terras e escravos que dá prestígio social e não os títulos de nobreza, como na Europa.

É nesse contexto de afirmação do poder civil, alicerçado na aristocracia rural, em detrimento dos precursores da república no exército que se instituiu a política dos governadores, por meio do qual o governo federal emprestava o seu apoio aos presidentes dos estados, que, via coronelismo, garantiam eleições de parlamentares da base governista, eliminando a oposição.

Essa circunstância fazia com que em absolutamente todas as eleições da República Velha fossem alçados à vitória os candidatos “oficiais” – a constituição daquela época não permitia a reeleição, fazendo com que cada presidente buscasse afirmar o seu sucessor, dentro da lógica do café com leite, ou seja, com o predomínio de São Paulo e Minas Gerais, onde estão os setores mais fortes da elite agrária do país.

Uma terceira e última etapa da Primeira República se evidencia em 1922, com a eleição de Arthur Bernardes. Estamos diante da fase de decadência do regime. Aquele seria o ano do advento do modernismo nas artes através da Semana da Arte Moderna de 1922. Naquele ano foi fundado também o Partido Comunista Brasileiro. E já na posse do novo governo, marcada pela grotesca fraude eleitoral que caracteriza a República Velha,  haveria o martírio heroico de militares e um civil na Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Iniciava-se, naquele momento, o movimento tenentista, conduzido por militares de baixa patente, que almejavam reformas que combatessem a fraude eleitoral, incluindo o voto secreto, e o fim do predomínio absoluto das oligarquias agrárias na direção do governo.

No governo de Arthur Bernardes, o estado de sítio, ao invés de ser a exceção, virou a regra. A ampla insatisfação contra a República Velha já não se reduzia à oposição parlamentar, mas alcançava o povo; partia do incipiente sindicalismo, conduzido por anarquistas e depois pelos comunistas, mas principalmente pelos tenentes, os militares de baixa patente. O fim da I Guerra Mundial colocava a necessidade do país se modernizar e desenvolver a sua indústria; os centros urbanos cresciam, uma nova classe média se fortalecia e a base social do regime político, alicerçada no coronelismo e nas oligarquias agrárias, ia desmilinguindo.  Mesmo nas artes, aparecia a necessidade de renovação, com a assimilação, através dos modernistas, de novas tendências artísticas europeias de vanguarda, e o rechaço ao academicismo e a rigidez formal que marcavam a literatura e arte do século XIX.  

Já no último governo da República Velha, sob a direção de Washington Luiz, estavam criadas as condições para o fim da ordem instituída no dia 15 de novembro de 1889. A fraude eleitoral que conduziu Júlio Prestes à presidência seria apenas o estopim de uma crise que se iniciara ainda em 1922. É neste contexto que muitos daqueles velhos tenentes seriam alçados ao poder através da Revolução de 1930 encabeçada por Getúlio Vargas.

Era o fim da República Velha.

BIBLIOGRAFIA

“Populações Meridionais do Brasil” – Oliveira Viana – Edições do Senado Federal V. 27.

“História do Povo Brasileiro”  - Org. Jânio Quadros e Afonso Arinos – J. Quadros Editores Culturais S/A

Quadro: Juramento da primeira Constituição republicana: Deodoro, Floriano, Prudente de Moraes (quadro de Aurélio de Figueiredo, óleo sobre tela, Museu da República)

segunda-feira, 2 de março de 2026

“Rua Descalça” – José Mauro de Vasconcelos

 “Rua Descalça” – José Mauro de Vasconcelos



Resenha Livro - “Rua Descalça” – José Mauro de Vasconcelos - Edições Melhoramentos 

O livro mais conhecido do escritor fluminense José Mauro Vasconcelos certamente é “Meu Pé de Laranja Lima” (1968), espécie de relato autobiográfico da infância do escritor, vivenciada na pobreza de um bairro de subúrbio de Bangu/RJ.

As fantasias de uma criança que cultiva amizade com uma árvore de laranjeira do seu quintal, o encanto produzido pela imaginação dos menores, que conseguem abstrair as dificuldades da vida e encará-la com ternura e alegria, certamente cativou leitores de todas as idades e fez de Vasconcelos um dos poucos escritores brasileiros que pôde viver exclusivamente dos direitos autorais de sua obra.

Façanha que encontra poucos paralelos no Brasil: Érico Verissimo, Jorge Amado e Monteiro Lobato são outros poucos exemplos de escritores de uma literatura ao mesmo tempo popular, acessível a todos e de rara qualidade estética.

“Meu Pé de Laranja Lima” vendeu mais de dois milhões de exemplares, tendo sido publicada em 15 países. “Rosinha Minha Canoa” (1962) foi a primeira obra de sucesso do nosso escritor, que igualmente relata um mundo encantado e fantástico, em que o pescador mantém dialogo e afeto com sua canoa, cuja origem advém de uma árvore capaz de sentir e de se comunicar. E esta pequena novela “Coração de Vidro” teve mais de 650.000 exemplares vendidos, publicações em 10 países, traduções em três idiomas e mais de 70 edições no Brasil.

A popularidade de Vasconcelos, por diferentes razões, não se traduziu em reconhecimento na academia. Aliás, a própria figura do escritor representa a mas completa oposição a tudo o que se posse considerar acadêmico.

De família pobre, nascido no estado do Rio de Janeiro, aos nove anos mudou-se para a casa dos tios em Natal/RN. Chegou a frequentar dois anos do curso de medicina naquele estado, mas a sua personalidade irrequieta e aventureira o faria abandonar o curso e retornar ao Rio de Janeiro a bordo de um navio cargueiro, levando uma simples maleta de papelão como bagagem.

 Nesta peregrinação pelo país a fora, trabalhou como treinador de boxe, carregador de bananas na capital do Rio de Janeiro, pescador do litoral fluminense, professor primário num núcleo de pescadores no Recife, garçom em São Paulo. Além de escritor, foi ator de cinema e modelo.

Em dado momento de sua vida, se junto aos irmãos Villas Bôas, sertanistas e indigenistas, enveredando-se pelo sertão da região do Araguaia, contando povos indígenas desconhecidos e cartografando terras. O contato direto com aqueles povos sertanejos e indígenas criaria as condições para o escritor fazer relatos minuciosos (ainda que sua arte realista enveredasse para o fantástico, com animais e árvores falantes) dos povos do Araguaia, no seu já mencionado “Rosinha Minha Canoa” e no romance “O Garanhão das Praias” – ambos tratando de missões “civilizatórias” junto aos povos sertanejos e indígenas dos rincões do país.

RUA DESCALÇA

O romance “Rua Descalça” (1969), tal qual “Meu Pé de Laranja Lima” (1968), é uma história do subúrbio carioca.

A descrição do povo em suas interações na rua e nos bondes, indo e voltando do trabalho, falando mal da vida alheia, mas exercendo também belos atos de solidariedade, é o pano de fundo da história:

“A rua branca do subúrbio se perdia igual, indiferente, imutável. (...) Gente passava levando marmitas em direção à fábrica. Os homens da pedreira se encaminhavam para o Murundu.

O peixeiro aparecia perto com o cesto na cabeça e uma porção de gatos fazendo miau atrás. Parava e os gatos paravam. Andava e os gatos repetiam o miau.

Mulheres mal vestidas, despenteadas coçando a cabeça, dando cafuné nos piolhos vinham olhar a rua e gritar qualquer coisa. Ou chamar um filho ou brigar com as vizinhas. Meninos barrigudos com o pipiu de fora, remelentos seguravam nas saias da mãe e olhavam a rua sem compreender ainda o seu significado”.

O tema do livro é a adesão voluntária do rico ao mundo dos pobres; este movimento é conduzido pelos protagonistas Roberto e Ricardo, dois irmãos oriundos de uma família endinheirada de Copacabana.

O chefe dessa família era um capitalista que, após ir à falência, dá um tiro na cara, suicida-se dentro do lar. Sua mulher e filhos, desamparados, são obrigados a se mudar para o subúrbio do Rio de Janeiro. Lá, a matriarca, chamada Magda, se vê na condição de levar e passar a roupa da família. Os filhos ricos devem agora acordar às 05:00 da madrugada e enfrentar o bonde lotado até o local de trabalho. Uma tia que parasitava a família rica, se recusa a mudar-se para a Rua Descalça e procura outro lugar onde pudesse viver sem o suor do seu rosto.

Aquilo que parecia uma tragédia familiar surge como a oportunidade aos irmãos Roberto e Ricardo conhecerem um mundo em que a pobreza material tem como contrapartida a riqueza do amor, da ternura e da gratidão. É a realidade dos pobres que, pelas  circunstâncias materiais e pela falta de recursos, necessitam da solidariedade dos outros, obrigando-os a serem também solidários.

A tragédia familiar parece ser remediada por um fato inesperado. A morte de um tio rico e solteiro tornaria a família, na condição de herdeira de uma grande fortuna, novamente habilitada ao mundo da alta classe carioca. O falecimento é até mesmo comemorado, exceto por Roberto e Ricardo que se recusam a sair da “Rua Descalça”. A partir de então fazem o voto de pobreza e se dedicam inteiramente à caridade. Vão neste processo se santificando: só aquele que consegue se desprender dos bens materiais será capaz de ver a bondade dos outros. E são bem aventurados os puros do coração, pois a eles será dado ver o reino dos seus.

Neste processo, Roberto assume o nome de “Antão” e Ricardo o nome de “Ananias”. Vão se beatificando no trabalho de caridade, passando do auxílio material à cura e ao milagre, despertando através dessa ajuda desinteressada ao próximo o amor incondicional do povo da “Rua Descalça”.

Na casa dos irmãos, o relógio não funciona. Representa a paralisia do tempo: todos os dias são iguais na casa de Antão e Ananias, inclusive o dia de Natal. Para os santos, a noção do tempo é diferente daquela dos mortais: sua natureza espiritual superior torna desnecessário o relógio pela inutilidade de ver as horas se sucedendo, porquanto seus dias são todos iguais.

Quando o resto da cidade calunia-os chamando de macumbeiros, é o povo que luta pela honra dos irmãos, não permitem que desrespeitem aqueles que lhe aparecem como santos.

Ao término da histórica, há mesmo uma iminência de guerra: o resto da cidade exige que os irmãos sejam internados num hospício, gerando a reação dos homens e mulheres da “Rua Descalça”, que saem em defesa de Antão e Ananias.

Um padre, comovido com a caridade e amor desinteressado dos dois, mas também pressionado pelos fiéis que exigem a prisão dos milagreiros, atua como Pôncio Pilatos: não sem um peso no coração, lava suas mãos e leva mensagem aos santos da “Rua Descalça” convidando-os a renunciar à vida de caridade, sob pena de levar a cidade ao pé de guerra.

São tentados ao final da história a retornar para a família agora instalada num bairro confortável desde a morte do tio rico. Não aceitam o convite, mas abandonam a “Rua Descalça” com um objetivo maior: levar a assistência para todo o “resto do mundo.”.  

Antão e Ananias remetem a outras figuras que também abandonam a riqueza como meio de purificar a alma. A inspiração do escritor, evidenciada logo no prefácio, é criar uma versão carioca de “Gotama Buda”, que abandonou as pompas para viver entre os pobres ou de São Francisco de Assis que do mesmo modo deixou tudo para participar da vida dos menos favorecidos.

Também foi o caso de José Mauro de Vasconcelos – ainda que não seja oriundo de uma família rica, foi através do seu contato com o povo que desenvolveu a sua capacidade de contar histórias e através delas defender e afirmar o amor e a ternura – a palavra ”ternura” é literalmente reiterada em todos os seus livros.

Desde muito jovem, o escritor deixou o conforto da casa da família para iniciar um eterno vai e vem, trabalhando ora como carregador de banana, ora como pescador e ora como professor primário. E mesmo depois do seu sucesso através dos seus livros e das adaptações no cinema, sempre que podia se lançava no mato em expedições junto às populações indígenas do Araguaia.