sexta-feira, 27 de março de 2026

A VIDA DE GETÚLIO VARGAS (1882/1954)

 A VIDA DE GETÚLIO VARGAS (1882/1954)



 

“Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram o meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo ao caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”. (Carta-testamento, Getúlio Vargas, 24 de agosto de 1954).  

Getúlio Vargas foi alçado ao poder através da Revolução de 1930, desencadeada pelos Estados de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, em conjunto com os tenentes, militares de baixa patentes que lutavam pelo voto secreto, pelo fim da corrupção eleitoral e por reformas sociais. Esses foram os setores que se organizaram através da Aliança Liberal, a coligação oposicionista derrotada nas eleições de 30 para o candidato oficial, indicado pelo presidente Washington Luiz.

A crise da República Velha já vinha se arrastando pelo menos desde 1922, ainda durante a gestão de Arthur Bernardes, quando o estado de sítio, ao invés de ser a exceção, virou a regra. A ampla insatisfação contra a República Velha já não se reduzia à oposição parlamentar, mas alcançava o povo; partia do incipiente sindicalismo, conduzido por anarquistas e depois pelos comunistas, mas principalmente pelos militares de baixa patente.

O fim da I Guerra Mundial (1914/1918) colocava a necessidade do país se modernizar e desenvolver a sua indústria; os centros urbanos cresciam, uma nova classe média se fortalecia e a base social da República Velha (1889/1930), alicerçada no coronelismo e nas oligarquias agrárias, ia desmilinguindo.  Mesmo nas artes, aparecia a necessidade de renovação, com a assimilação, através dos modernistas, de novas tendências artísticas europeias de vanguarda, e o rechaço ao academicismo e a rigidez formal que marcavam a literatura e arte do século XIX. 

Tratava-se de uma conjuntura revolucionária. Esse era o pano de fundo da Revolução de 30. Foi neste contexto que Getúlio Vargas assumiu o poder.

Dentro do amplo movimento de insatisfação contra a República Velha, Getúlio Vargas laçou-se como candidato à presidência pela oposição na Aliança Liberal. Parecia estar dentro do setor mais moderado daquele movimento. Após a “vitória” do candidato oficial, ensaiou até mesmo acatar a sua derrota para Júlio Prestes. Mas com o assassinato de João Pessoa, governador do Estado da Paraíba e candidato à vice presidente da Aliança Liberal, a maré revolucionária se tornaria irreversível – Getúlio, até então, era um político convencional e conciliador, foi obrigado pelas circunstâncias a liderar a revolta, sob pena de entregá-la aos setores mais radicais da oposição, notadamente os tenentes, que já haviam pegado em armas contra o regime em 1922 (Revolta de Copacabana) e em 1924 (Revolta Paulista).   

Em 1930, Getúlio Vargas ainda não era o político popular, que empolgava as massas em grandes comícios,  o chamado “pai dos pobres”. Era um político tradicional. Tinha sido, pouco antes, Ministro da Fazenda de Washington Luiz, o presidente por ele mesmo deposto pouco tempo depois. Antes, sua carreira política estava circunscrita à política do seu estado natal. Em 1922 foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul. Em 1928 foi eleito Governador por aquele estado. E dois anos depois, estaria na cabeça do movimento que colocou fim à Primeira República.

 Vargas nasceu em 19 de abril de 1882 em São Borja, Rio Grande do Sul. Seu pai era um veterano da Guerra do Paraguai e ostentava o título de general honorário do Exército brasileiro. Também foi chefe político do Partido Republicano gaúcho, presidido por Borges de Medeiros, liderança política máxima do Rio Grande do Sul.

Logo cedo, Vargas, aos 17 anos de idade, alista-se no 6º batalhão de infantaria em São Borja. Mas pouco tempo depois pede baixa e se muda para Porto Alegre, onde irá se matricular na Faculdade de Direito.

Quando estudante, tem contato com as ideias de Júlio de Castilhos, o que o influenciaria na sua orientação política futura: antiliberal, com forte influência do positivismo de Augusto Comte, num viés autoritário e centralizador em oposição ao federalismo que beneficiava o sistema oligárquico da República Velha. No plano nacional, pode-se dizer que Getúlio Vargas implementou o castilhismo quando instaurada a ditadura do Estado Novo (1937/1945).

A tomada do poder deu-se em 1930, mas Vargas só se tornaria presidente constitucional no ano de 1934, um dia após a promulgação da nova Constituição.

O cenário mundial era de polarização política: se desenhava no horizonte a II Guerra Mundial. Os comunistas se organizavam através da Aliança Nacional Libertadora (recrutando, inclusive, antigos tenentes descontentes com a moderação do novo governo); inspirado no fascismo italiano, o escritor Plínio Salgado constituiu o movimento integralista, também contando com apelo das massas. Choques entre comunistas e integralistas ocorriam nas ruas.

Em novembro de 1935 os comunistas lançam-se a uma tentativa improvisada e mal organizada de tomada do poder, conhecida depois como “Intentona Comunista”. Era o pretexto que o regime necessitava para alicerçar-se no poder naquele período de turbulência e polarização.

É desencadeada uma campanha anti-comunista, com a criação da polícia política sob a chefia de Felinto Muller, o maior torturador do Estado Novo. O risco de uma revolução presidida pelo PCB era remoto, mas a propaganda anti-soviética foi criando o ambiente favorável à instauração de uma ditadura de fato.

Em 10 de novembro de 1937 Getúlio Vargas outorga uma nova constituição e implementa o Estado Novo, tornando-se um ditador.

O líder popular e carismático surge naquele momento. Não só pela campanha contra os comunistas, mas especialmente pela legislação social e trabalhista, que conferiu a popularidade daquele que foi chamado o “pai dos pobres”. É durante o Estado Novo que é instituída a CLT (1943), consolidando uma série de direitos sociais e trabalhistas inexistentes na República Velha, quando a questão social era vista como questão de polícia.

O salário mínimo foi regulamentado e foram instituídos direitos aos trabalhadores vigentes até os dias de hoje: jornada de oito horas, férias remuneradas, descanso semanal remunerado e regulamentação da previdência social.

Getúlio Vargas foi derrubado do poder em outubro de 1945, no contexto do pós II Guerra, quando a vitória das “democracias” ocidentais sobre o nazi-fascismo tornava insustentável a ditadura estadonovista. Foi deposto através de um ultimato do alto comando do Exército, num golpe palaciano que não lhe tirou em nada a sua popularidade – tanto que se retira pouco tempo depois para sua fazenda no Rio Grande do Sul e, sem fazer campanha, é eleito senador com ampla quantidade de votos.

Deposto em 1945, seria, cinco anos depois, alçado de novo à presidência, agora através do voto. Dizia-se que Getúlio Vargas voltou “nos braços do povo”. E essa seria a fase em que a liderança carismática deixaria a sua natural tendência contemporizadora para levar adiante o enfrentamento cos setores dominantes da política brasileira.

A campanha do “petróleo é nosso” daria as condições para a criação da Petrobrás em 1953. O objetivo de estabelecer o monopólio estatal do petróleo desafiava os interesses imperialistas norte americanos e agitava a oposição mais ligada aos norte-americanos, particularmente a UDN e a imprensa carioca. Vargas nomeia João Goulart como Ministro do Trabalho que, diante do alto custo de vida, propõe aumentar em 100% o salário mínimo, despertando a fúria do empresariado.

Estávamos então em plena Guerra Fria razão pela qual as políticas sociais e nacionalistas do governo eram utilizadas como pretexto para oposição novamente levar adiante a campanha anticomunista.

O golpismo avançava a passos largos. Um evento detonador da crise foi a tentativa de assassinato do jornalista/udenista Carlos Lacerda que através do seu jornal “Tribuna da Imprensa” vinha desencadeando uma campanha furiosa contra o governo.

A situação ficou irreversível quando os militares brasileiros passaram a apoiar o golpe. Getúlio, poucos dias antes da sua morte, afirmava que só sairia do palácio do Catete morto. Dizia que já estava muito velho para aceitar ser desmoralizado e para temer a morte.

No dia 24 de agosto de 1954 recebeu no palácio do governo um emissário das Forças Armadas intimando-o a renunciar. Optou pelo suicídio, como a solução política mais eficiente: ao mesmo tempo que colocou a oposição sob ataque do povo que apoiava o governo, pode através daquele ato reagrupar as forças políticas varguistas, organizadas no PTB e PSB.

 Bibliografia:

“Getúlio” – Coleção Os Grandes Líderes – Nova Cultural – Bolívar Lamounier

Nenhum comentário:

Postar um comentário