A VIDA DE GETÚLIO VARGAS (1882/1954)
“Lutei contra
a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de
peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram o meu ânimo. Eu vos
dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou
o primeiro passo ao caminho da eternidade e saio da vida para entrar na
História.”. (Carta-testamento, Getúlio Vargas, 24 de agosto de 1954).
Getúlio Vargas
foi alçado ao poder através da Revolução de 1930, desencadeada pelos Estados de
Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, em conjunto com os tenentes, militares de
baixa patentes que lutavam pelo voto secreto, pelo fim da corrupção eleitoral e
por reformas sociais. Esses foram os setores que se organizaram através da
Aliança Liberal, a coligação oposicionista derrotada nas eleições de 30 para o
candidato oficial, indicado pelo presidente Washington Luiz.
A crise da
República Velha já vinha se arrastando pelo menos desde 1922, ainda durante a
gestão de Arthur Bernardes, quando o estado de sítio, ao invés de ser a
exceção, virou a regra. A ampla insatisfação contra a República Velha já não se
reduzia à oposição parlamentar, mas alcançava o povo; partia do incipiente
sindicalismo, conduzido por anarquistas e depois pelos comunistas, mas
principalmente pelos militares de baixa patente.
O fim da I
Guerra Mundial (1914/1918) colocava a necessidade do país se modernizar e
desenvolver a sua indústria; os centros urbanos cresciam, uma nova classe média
se fortalecia e a base social da República Velha (1889/1930), alicerçada no
coronelismo e nas oligarquias agrárias, ia desmilinguindo. Mesmo nas artes, aparecia a necessidade de
renovação, com a assimilação, através dos modernistas, de novas tendências
artísticas europeias de vanguarda, e o rechaço ao academicismo e a rigidez
formal que marcavam a literatura e arte do século XIX.
Tratava-se de
uma conjuntura revolucionária. Esse era o pano de fundo da Revolução de 30. Foi
neste contexto que Getúlio Vargas assumiu o poder.
Dentro do amplo
movimento de insatisfação contra a República Velha, Getúlio Vargas laçou-se
como candidato à presidência pela oposição na Aliança Liberal. Parecia estar
dentro do setor mais moderado daquele movimento. Após a “vitória” do candidato
oficial, ensaiou até mesmo acatar a sua derrota para Júlio Prestes. Mas com o
assassinato de João Pessoa, governador do Estado da Paraíba e candidato à vice
presidente da Aliança Liberal, a maré revolucionária se tornaria irreversível –
Getúlio, até então, era um político convencional e conciliador, foi obrigado
pelas circunstâncias a liderar a revolta, sob pena de entregá-la aos setores mais
radicais da oposição, notadamente os tenentes, que já haviam pegado em armas
contra o regime em 1922 (Revolta de Copacabana) e em 1924 (Revolta Paulista).
Em 1930, Getúlio
Vargas ainda não era o político popular, que empolgava as massas em grandes
comícios, o chamado “pai dos pobres”.
Era um político tradicional. Tinha sido, pouco antes, Ministro da Fazenda de
Washington Luiz, o presidente por ele mesmo deposto pouco tempo depois. Antes, sua
carreira política estava circunscrita à política do seu estado natal. Em 1922
foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul. Em 1928 foi eleito Governador
por aquele estado. E dois anos depois, estaria na cabeça do movimento que
colocou fim à Primeira República.
Vargas nasceu em 19 de abril de 1882 em São
Borja, Rio Grande do Sul. Seu pai era um veterano da Guerra do Paraguai e
ostentava o título de general honorário do Exército brasileiro. Também foi
chefe político do Partido Republicano gaúcho, presidido por Borges de Medeiros,
liderança política máxima do Rio Grande do Sul.
Logo cedo,
Vargas, aos 17 anos de idade, alista-se no 6º batalhão de infantaria em São
Borja. Mas pouco tempo depois pede baixa e se muda para Porto Alegre, onde irá
se matricular na Faculdade de Direito.
Quando
estudante, tem contato com as ideias de Júlio de Castilhos, o que o influenciaria
na sua orientação política futura: antiliberal, com forte influência do
positivismo de Augusto Comte, num viés autoritário e centralizador em oposição ao
federalismo que beneficiava o sistema oligárquico da República Velha. No plano
nacional, pode-se dizer que Getúlio Vargas implementou o castilhismo quando
instaurada a ditadura do Estado Novo (1937/1945).
A tomada do
poder deu-se em 1930, mas Vargas só se tornaria presidente constitucional no
ano de 1934, um dia após a promulgação da nova Constituição.
O cenário
mundial era de polarização política: se desenhava no horizonte a II Guerra
Mundial. Os comunistas se organizavam através da Aliança Nacional Libertadora
(recrutando, inclusive, antigos tenentes descontentes com a moderação do novo
governo); inspirado no fascismo italiano, o escritor Plínio Salgado constituiu
o movimento integralista, também contando com apelo das massas. Choques entre
comunistas e integralistas ocorriam nas ruas.
Em novembro de
1935 os comunistas lançam-se a uma tentativa improvisada e mal organizada de
tomada do poder, conhecida depois como “Intentona Comunista”. Era o pretexto
que o regime necessitava para alicerçar-se no poder naquele período de turbulência
e polarização.
É desencadeada
uma campanha anti-comunista, com a criação da polícia política sob a chefia de
Felinto Muller, o maior torturador do Estado Novo. O risco de uma revolução presidida
pelo PCB era remoto, mas a propaganda anti-soviética foi criando o ambiente
favorável à instauração de uma ditadura de fato.
Em 10 de
novembro de 1937 Getúlio Vargas outorga uma nova constituição e implementa o
Estado Novo, tornando-se um ditador.
O líder popular
e carismático surge naquele momento. Não só pela campanha contra os comunistas,
mas especialmente pela legislação social e trabalhista, que conferiu a
popularidade daquele que foi chamado o “pai dos pobres”. É durante o Estado
Novo que é instituída a CLT (1943), consolidando uma série de direitos sociais
e trabalhistas inexistentes na República Velha, quando a questão social era
vista como questão de polícia.
O salário mínimo
foi regulamentado e foram instituídos direitos aos trabalhadores vigentes até
os dias de hoje: jornada de oito horas, férias remuneradas, descanso semanal
remunerado e regulamentação da previdência social.
Getúlio Vargas
foi derrubado do poder em outubro de 1945, no contexto do pós II Guerra, quando
a vitória das “democracias” ocidentais sobre o nazi-fascismo tornava
insustentável a ditadura estadonovista. Foi deposto através de um ultimato do
alto comando do Exército, num golpe palaciano que não lhe tirou em nada a sua popularidade
– tanto que se retira pouco tempo depois para sua fazenda no Rio Grande do Sul
e, sem fazer campanha, é eleito senador com ampla quantidade de votos.
Deposto em 1945,
seria, cinco anos depois, alçado de novo à presidência, agora através do voto.
Dizia-se que Getúlio Vargas voltou “nos braços do povo”. E essa seria a fase em
que a liderança carismática deixaria a sua natural tendência contemporizadora
para levar adiante o enfrentamento cos setores dominantes da política
brasileira.
A campanha do “petróleo
é nosso” daria as condições para a criação da Petrobrás em 1953. O objetivo de estabelecer
o monopólio estatal do petróleo desafiava os interesses imperialistas norte
americanos e agitava a oposição mais ligada aos norte-americanos, particularmente
a UDN e a imprensa carioca. Vargas nomeia João Goulart como Ministro do Trabalho
que, diante do alto custo de vida, propõe aumentar em 100% o salário mínimo,
despertando a fúria do empresariado.
Estávamos então
em plena Guerra Fria razão pela qual as políticas sociais e nacionalistas do
governo eram utilizadas como pretexto para oposição novamente levar adiante a
campanha anticomunista.
O golpismo
avançava a passos largos. Um evento detonador da crise foi a tentativa de
assassinato do jornalista/udenista Carlos Lacerda que através do seu jornal “Tribuna
da Imprensa” vinha desencadeando uma campanha furiosa contra o governo.
A situação ficou
irreversível quando os militares brasileiros passaram a apoiar o golpe. Getúlio,
poucos dias antes da sua morte, afirmava que só sairia do palácio do Catete
morto. Dizia que já estava muito velho para aceitar ser desmoralizado e para
temer a morte.
No dia 24 de
agosto de 1954 recebeu no palácio do governo um emissário das Forças Armadas
intimando-o a renunciar. Optou pelo suicídio, como a solução política mais eficiente:
ao mesmo tempo que colocou a oposição sob ataque do povo que apoiava o governo,
pode através daquele ato reagrupar as forças políticas varguistas, organizadas
no PTB e PSB.
Bibliografia:
“Getúlio” – Coleção
Os Grandes Líderes – Nova Cultural – Bolívar Lamounier

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