segunda-feira, 2 de março de 2026

“Rua Descalça” – José Mauro de Vasconcelos

 “Rua Descalça” – José Mauro de Vasconcelos



Resenha Livro - “Rua Descalça” – José Mauro de Vasconcelos - Edições Melhoramentos 

O livro mais conhecido do escritor fluminense José Mauro Vasconcelos certamente é “Meu Pé de Laranja Lima” (1968), espécie de relato autobiográfico da infância do escritor, vivenciada na pobreza de um bairro de subúrbio de Bangu/RJ.

As fantasias de uma criança que cultiva amizade com uma árvore de laranjeira do seu quintal, o encanto produzido pela imaginação dos menores, que conseguem abstrair as dificuldades da vida e encará-la com ternura e alegria, certamente cativou leitores de todas as idades e fez de Vasconcelos um dos poucos escritores brasileiros que pôde viver exclusivamente dos direitos autorais de sua obra.

Façanha que encontra poucos paralelos no Brasil: Érico Verissimo, Jorge Amado e Monteiro Lobato são outros poucos exemplos de escritores de uma literatura ao mesmo tempo popular, acessível a todos e de rara qualidade estética.

“Meu Pé de Laranja Lima” vendeu mais de dois milhões de exemplares, tendo sido publicada em 15 países. “Rosinha Minha Canoa” (1962) foi a primeira obra de sucesso do nosso escritor, que igualmente relata um mundo encantado e fantástico, em que o pescador mantém dialogo e afeto com sua canoa, cuja origem advém de uma árvore capaz de sentir e de se comunicar. E esta pequena novela “Coração de Vidro” teve mais de 650.000 exemplares vendidos, publicações em 10 países, traduções em três idiomas e mais de 70 edições no Brasil.

A popularidade de Vasconcelos, por diferentes razões, não se traduziu em reconhecimento na academia. Aliás, a própria figura do escritor representa a mas completa oposição a tudo o que se posse considerar acadêmico.

De família pobre, nascido no estado do Rio de Janeiro, aos nove anos mudou-se para a casa dos tios em Natal/RN. Chegou a frequentar dois anos do curso de medicina naquele estado, mas a sua personalidade irrequieta e aventureira o faria abandonar o curso e retornar ao Rio de Janeiro a bordo de um navio cargueiro, levando uma simples maleta de papelão como bagagem.

 Nesta peregrinação pelo país a fora, trabalhou como treinador de boxe, carregador de bananas na capital do Rio de Janeiro, pescador do litoral fluminense, professor primário num núcleo de pescadores no Recife, garçom em São Paulo. Além de escritor, foi ator de cinema e modelo.

Em dado momento de sua vida, se junto aos irmãos Villas Bôas, sertanistas e indigenistas, enveredando-se pelo sertão da região do Araguaia, contando povos indígenas desconhecidos e cartografando terras. O contato direto com aqueles povos sertanejos e indígenas criaria as condições para o escritor fazer relatos minuciosos (ainda que sua arte realista enveredasse para o fantástico, com animais e árvores falantes) dos povos do Araguaia, no seu já mencionado “Rosinha Minha Canoa” e no romance “O Garanhão das Praias” – ambos tratando de missões “civilizatórias” junto aos povos sertanejos e indígenas dos rincões do país.

RUA DESCALÇA

O romance “Rua Descalça” (1969), tal qual “Meu Pé de Laranja Lima” (1968), é uma história do subúrbio carioca.

A descrição do povo em suas interações na rua e nos bondes, indo e voltando do trabalho, falando mal da vida alheia, mas exercendo também belos atos de solidariedade, é o pano de fundo da história:

“A rua branca do subúrbio se perdia igual, indiferente, imutável. (...) Gente passava levando marmitas em direção à fábrica. Os homens da pedreira se encaminhavam para o Murundu.

O peixeiro aparecia perto com o cesto na cabeça e uma porção de gatos fazendo miau atrás. Parava e os gatos paravam. Andava e os gatos repetiam o miau.

Mulheres mal vestidas, despenteadas coçando a cabeça, dando cafuné nos piolhos vinham olhar a rua e gritar qualquer coisa. Ou chamar um filho ou brigar com as vizinhas. Meninos barrigudos com o pipiu de fora, remelentos seguravam nas saias da mãe e olhavam a rua sem compreender ainda o seu significado”.

O tema do livro é a adesão voluntária do rico ao mundo dos pobres; este movimento é conduzido pelos protagonistas Roberto e Ricardo, dois irmãos oriundos de uma família endinheirada de Copacabana.

O chefe dessa família era um capitalista que, após ir à falência, dá um tiro na cara, suicida-se dentro do lar. Sua mulher e filhos, desamparados, são obrigados a se mudar para o subúrbio do Rio de Janeiro. Lá, a matriarca, chamada Magda, se vê na condição de levar e passar a roupa da família. Os filhos ricos devem agora acordar às 05:00 da madrugada e enfrentar o bonde lotado até o local de trabalho. Uma tia que parasitava a família rica, se recusa a mudar-se para a Rua Descalça e procura outro lugar onde pudesse viver sem o suor do seu rosto.

Aquilo que parecia uma tragédia familiar surge como a oportunidade aos irmãos Roberto e Ricardo conhecerem um mundo em que a pobreza material tem como contrapartida a riqueza do amor, da ternura e da gratidão. É a realidade dos pobres que, pelas  circunstâncias materiais e pela falta de recursos, necessitam da solidariedade dos outros, obrigando-os a serem também solidários.

A tragédia familiar parece ser remediada por um fato inesperado. A morte de um tio rico e solteiro tornaria a família, na condição de herdeira de uma grande fortuna, novamente habilitada ao mundo da alta classe carioca. O falecimento é até mesmo comemorado, exceto por Roberto e Ricardo que se recusam a sair da “Rua Descalça”. A partir de então fazem o voto de pobreza e se dedicam inteiramente à caridade. Vão neste processo se santificando: só aquele que consegue se desprender dos bens materiais será capaz de ver a bondade dos outros. E são bem aventurados os puros do coração, pois a eles será dado ver o reino dos seus.

Neste processo, Roberto assume o nome de “Antão” e Ricardo o nome de “Ananias”. Vão se beatificando no trabalho de caridade, passando do auxílio material à cura e ao milagre, despertando através dessa ajuda desinteressada ao próximo o amor incondicional do povo da “Rua Descalça”.

Na casa dos irmãos, o relógio não funciona. Representa a paralisia do tempo: todos os dias são iguais na casa de Antão e Ananias, inclusive o dia de Natal. Para os santos, a noção do tempo é diferente daquela dos mortais: sua natureza espiritual superior torna desnecessário o relógio pela inutilidade de ver as horas se sucedendo, porquanto seus dias são todos iguais.

Quando o resto da cidade calunia-os chamando de macumbeiros, é o povo que luta pela honra dos irmãos, não permitem que desrespeitem aqueles que lhe aparecem como santos.

Ao término da histórica, há mesmo uma iminência de guerra: o resto da cidade exige que os irmãos sejam internados num hospício, gerando a reação dos homens e mulheres da “Rua Descalça”, que saem em defesa de Antão e Ananias.

Um padre, comovido com a caridade e amor desinteressado dos dois, mas também pressionado pelos fiéis que exigem a prisão dos milagreiros, atua como Pôncio Pilatos: não sem um peso no coração, lava suas mãos e leva mensagem aos santos da “Rua Descalça” convidando-os a renunciar à vida de caridade, sob pena de levar a cidade ao pé de guerra.

São tentados ao final da história a retornar para a família agora instalada num bairro confortável desde a morte do tio rico. Não aceitam o convite, mas abandonam a “Rua Descalça” com um objetivo maior: levar a assistência para todo o “resto do mundo.”.  

Antão e Ananias remetem a outras figuras que também abandonam a riqueza como meio de purificar a alma. A inspiração do escritor, evidenciada logo no prefácio, é criar uma versão carioca de “Gotama Buda”, que abandonou as pompas para viver entre os pobres ou de São Francisco de Assis que do mesmo modo deixou tudo para participar da vida dos menos favorecidos.

Também foi o caso de José Mauro de Vasconcelos – ainda que não seja oriundo de uma família rica, foi através do seu contato com o povo que desenvolveu a sua capacidade de contar histórias e através delas defender e afirmar o amor e a ternura – a palavra ”ternura” é literalmente reiterada em todos os seus livros.

Desde muito jovem, o escritor deixou o conforto da casa da família para iniciar um eterno vai e vem, trabalhando ora como carregador de banana, ora como pescador e ora como professor primário. E mesmo depois do seu sucesso através dos seus livros e das adaptações no cinema, sempre que podia se lançava no mato em expedições junto às populações indígenas do Araguaia.  

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