sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Monteiro Lobato (1882/1948)

 Monteiro Lobato (1882/1948)




 

Monteiro Lobato certamente é o escritor mais conhecido do Brasil. E ficou notabilizado por conta dos seus livros infantis. Mas os seus serviços ao país foram muito além das histórias do Sítio do Picapau Amarelo.

 

Foi precursor da indústria editorial brasileira, tendo ele próprio criado as primeiras editoras de livros no país já na década de 1920. Também foi o responsável pela edição dos primeiros materiais didáticos no Brasil: parte das histórias do Sítio do Picapau Amarelo são também lições de História (“História do Mundo Para Crianças”), de Geografia (“Geografia de Dona Benta”), de Gramática (“Gramática Para Crianças”) e de Geologia (“O Poço do Visconde”).  

 

Foi também o primeiro a levantar a voz em defesa do petróleo brasileiro, o que lhe custou alguns meses de prisão durante o Estado Novo presidido por Getúlio Vargas; isso foi 1941, quando fora condenado a seis meses de cadeia por criticar publicamente o Conselho Nacional de Petróleo. Mais de uma década depois, em 03.10.1953, o mesmo Getúlio Vargas, alçado ao poder pela via democrática, criaria a Petrobrás.

 

Monteiro Lobato teve também intensa participação na vida cultural do país através de artigos e crônicas na imprensa paulista.

 

Ficou conhecida a sua polêmica com os modernistas de 1922, quando criticou exposição de Anita Malfatti num artigo publicado no Estado de São Paulo chamado “Paranoia ou Mistificação”.

 

Lobato não deixava de reconhecer o talento da jovem artista, mas, como bom nacionalista, criticava a arte moderna pela sua filiação às tendências artísticas importadas da Europa: futurismo, cubismo, impressionismo, etc. Ainda que a nova estética moderna buscasse criar uma arte nacional através da “antropofagia”, essa rejeição ao estrangeirismo do romantismo/naturalismo ainda implicava numa assimilação pela “antropofagia”, contra a qual Lobato se opunha.

 

Mas certamente Monteiro Lobato é ainda hoje conhecido pelos livros dedicados ao público infantil.

 

Ocorre que a opção do escritor por escrever esses livros para crianças ocorreu num momento relativamente tardio da sua produção ficcional.

 

O primeiro livro da Coleção Sítio do Picapau Amarelo, chamado “O Saci”, foi publicado em 1921, quando o escritor tinha 39 anos de idade. Um anos antes, Monteiro Lobato havia publicado “Narizinho Arrebitado”, considerada a sua primeira obra dedicada às crianças. Consta ter sido o retorno à literatura infantil um reflexo dos desgostos dos adultos que o perseguiram injustamente. 

 

Injustas perseguições de ontem e que persistem até os dias de hoje.

 

VIDA E OBRA

 

O escritor nasceu na cidade de Taubaté, no interior paulista em 21 de abril de 1882.

 

Aos treze anos é mandado pela família para São Paulo para estudar no Instituto de Ciências e Letras. Lá, escreve seus primeiros contos e crônicas e desenvolve interesse pela pintura. Manifesta desejo de estudar no Instituto de Belas Artes, mas por imposição do seu avô materno, o Visconde de Tremembé, foi estudar Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, hoje pertencente à Universidade de São Paulo.

 

Morou numa república estudantil na Rua Direita, na região central da cidade. Quando estudante, travou amizade com Godofredo Rangel, pessoa com quem se correspondeu por carta por quarenta anos, depois reunidas no livro “A Barca de Gleye”.

 

Formado em Direito, regressa à Taubaté no ano de 1904, onde começa advogar. Foi no interior de São Paulo que passou a maior parte da sua vida, podendo-se ver na sua literatura aspectos semelhantes ao regionalismo modernista da década de 1930: enquanto Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e José Lins do Rego discorrem sobre o sertanejo nordestino, Lobato se notabilizaria pela descrição do caipira paulista, representado na figura do Jeca Tatu.

 

De volta à Taubaté, tem a pretensão de criar uma fábrica de geleias, mas a empreitada não vai para frente. Em todo o caso, seria essa a primeira de uma série de iniciativas de “empreendedorismo” que o escritor levaria adiante: criou jornais, revistas, editoras de livro, investiu e perdeu dinheiro na prospecção de petróleo e aço. Esse “empreendedorismo” não era conduzido por um espírito burguês, mas dentro de um horizonte nacionalista, de desenvolvimento nacional, o que lhe levaria mais de uma vez à ruína financeira.

 

É nomeado Promotor na cidade de Areias em maio de 1907.

 

Trata-se de um Município situado no interior de São Paulo na divisa com o Estado do Rio de Janeiro, que se notabilizou como zona pioneira da produção de café. Mas quando Lobato lá se instalou, a cidade já se encontrava em estado de decadência, especialmente desde a abolição da escravatura em 1888 – apenas as zonas mais dinâmicas do oeste paulista se adaptaram à nova conjuntura econômica através da importação de mão de obra de imigrantes italianos.

 

Não devia haver muito trabalho ao promotor de justiça de uma cidade minúscula e esquecida do interior paulista.

 

O que deu tempo a Monteiro Lobato a se dedicar à leitura e à escrita. Redigiu contos, faz traduções e colabora com jornais locais.  É aquele sertão abandonado que lhe serve de inspiração para escrever a série de contos reunidas posteriormente sob o nome simbólico de “Cidades Mortas” (1919).

 

Na roça, os dias se repetem invariavelmente, exceto aos domingos, feriados religiosos e eventos políticos, quando a população se encontra nas calçadas da rua e na praça, a comentar sobre a vida alheia. Os homens matam o tempo pitando cigarros e as mulheres parindo filhos. Um ou outro livro de literatura circula na mão de poucos, considerando o peso do analfabetismo na população

 

Essas “Cidades Mortas” correspondem às regiões pioneiras da economia do café do Vale do Paraíba que outrora foram vanguarda da economia nacional e, entre fins do século XIX e início do século XX, vão paulatinamente entrando em decadência por conta da desvalorização mundial dos preços do produto e da falta de mão de obra.

 

O abandono das plantações de café do Vale do Paraíba dava-se também pelo próprio esgotamento do solo, com a migração dos proprietários daquela região para o Oeste Paulista:

 

Léguas a fio sucedem de morraria áspera, onde reinam soberanos a saúva e seus aliados, o sapé e a samambaia. Por ela passou o Café, como um Átila. Toda a seiva foi bebida e, sob forma de grão, ensacada e mandada para fora. Mas do ouro que veio em troca nem uma onça permaneceu ali, empregada em restaurar o torrão. Transfiltrou-se para o Oeste, na avidez de novos assaltos à virgindade da terra nova; ou se transfez nos palacetes em ruína; ou reentrou na circulação europeia por mão de herdeiros dissipados. (...) À mãe fecunda que o produziu nada coube; por isso ressentida, vinga-se agora, enclausurando-se numa esterilidade feroz. E o deserto lentamente retoma as posições perdidas.”.  (“LOBATO, Monteiro. “Cidades Mortas”).

 

No ano de 1911, morre o avô, o Visconde de Tremembé, e dele herda a fazenda de Buquira. Monteiro Lobato deixou de ser promotor de justiça para ser fazendeiro. E foi o cenário dessa fazenda que imaginou e criou as histórias do Sítio do Pica Pau Amarelo.

 

O sítio de Dona Benta ficava num lugar muito bonito. A casa era das antigas, de cômodos espaçosos e frescos. Havia o quarto de Dona Benta, o maior de todos, e junto o de Narizinho, que morava com sua avó. Havia ainda o ‘quarto de Pedrinho’ que lá passava as férias todos os anos; e o da tia Nastácia, a cozinheira e faz-tudo da casa. Emília e Visconde não tinham quartos; moravam num cantinho do escritório, onde ficavam as três estantes de livros e a mesa de estudo da menina”. (LOBATO, Monteiro. “O Saci”).

 

Também não teve êxito como fazendeiro. Em 1917 vende a fazenda e muda-se para Caçapava, onde funda a “Revista Paraíba”. Um ano depois, publica o seu primeiro livro, “Urupês”. Trata-se de uma reunião de 14 contos, 12 deles retratando pequenas histórias que se passam no interior paulista. Foi um sucesso de público, especialmente depois de que Rui Barbosa, num discurso de campanha eleitoral, faz alusão ao Jeca Tatu.

 

São os “causos” que retratam a vida de pequenos funcionários públicos (“Um Suplício Moderno”), de fazendeiros endividados (“O Comprador de Fazendas”), da rixa entre vizinhos (“A Vingança da Peroba”), do casamentos por interesse (“O Estigma”) e até mesmo o folclore e as lendas populares das pessoas do campo, tratados em “Bocatorta”, em que um velho e odioso matuto, filho bastardo de uma escrava e senhor de engenho, “disforme, horripilante como não há memória de outro”, assombra a população do arraial do Atoleiro, causando, por razões inexplicáveis, a morte e a desgraça daqueles que com ele se encontram, tal qual o Curupira e o Saci Pererê.

 

Já os últimos dois contos da Coletânea, denominados “Velha Praga” e “Urupês”, não são pequenas histórias e mais crônicas tratando criticamente a situação do caboclo paulista, frequentemente denominado como “Jeca Tatu”:

 

“De pé ou sentado as ideias lhe entram, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.

De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para ‘aquentá-lo’, imitado da mulher e da prole.

Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostar um cabo da foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há de ser de cócoras.

Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir de Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos.

Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio da realidade”.

 

 A crítica da idealização do indígena pelos românticos é explícita no livro de Monteiro Lobato e aparece logo no começo do conto “Urupês”, tudo a confirmar que Lobato não era exatamente um opositor do modernismo, mas levava adiante, até as últimas consequências, a nacionalização da arte e da literatura.

 

Monteiro Lobato, além dos livros de contos e literatura infantil, das traduções, das críticas literárias e das iniciativas empresariais, também participou da vida política do país.

 

Apoiou o presidente Washington Luiz, valendo-lhe a nomeação como adido comercial dos EUA para onde segue no ano de 1927. E novamente vai a falência: tentou organizar uma empresa brasileira para produzir aço mas perdeu todo seu dinheiro com a quebra da bolsa de 1929. Retornando ao país, apoia Júlio Prestes contra Getúlio Vargas nas eleições presidenciais. Como se sabe, as eleições foram vencidas, através da fraude corriqueira na República Velha, pelo candidato paulista, desencadeando a Revolução de 1930, o que o colocaria desde então na mira do getulismo.

 

É com o seu retorno ao Brasil em 1930, influenciado pelo progresso tecnológico que vira nos EUA, que Monteiro Lobato inicia sua campanha em defesa da prospecção do petróleo no país. Isso num momento em que os interesses econômicos estrangeiros buscavam fazer uma campanha de que não havia no território nacional uma gota do “ouro negro”. Lobato publica em 1936 o livro “O Escândalo do Petróleo” no qual acusa o governo de não levar adiante a pesquisa das jazidas, nem deixar que os particulares o façam. Como dito, alguns anos depois, o seu corajoso posicionamento lhe valeria seis meses de prisão.

 

Um aspecto pouco conhecido de Monteiro Lobato se refere à sua aproximação tardia com o movimento democrático e os comunistas, já no final da sua vida. Nunca foi um comunista de fato, mas, nos estertores do Estado Novo, participa da campanha pela  democratização do país: consta que Luiz Carlos Prestes leu uma carta de saudação do escritor paulista num comício em São Paulo realizado em 1945.

 

Antes mesmo, travou relação de amizade íntima com Caio Prado Júnior, talvez o maior intelectual brasileiro egresso das fileiras do Partido Comunista Brasileiro. A editora brasiliense, fundada por Caio Prado Júnior, adquiriu os direitos autorais de toda obra de Monteiro Lobato, ainda quando o escritor paulista era vivo.

 

MONTEIRO LOBATO E O RACISMO   

 

No ano de 2010 ganhou evidência na mídia uma ação judicial proposta por uma ONG propondo a remoção do livro “Caçadas de Pedrinho” da lista de leitura obrigatória da rede pública de ensino.

 

Argumentou-se que certas passagens do livro fazem alusões racistas à personagem Tia Nastácia. Outros afirmam que Lobato era eugenista e que seus livros sequer merecem ser lidos nos dias de hoje.

 

Podemos dizer o contrário: Lobato foi antes um precursor da crítica ao determinismo racial através de sua “autocrítica” ao Jeca Tatu. Originalmente, a degeneração do caipira paulista consubstanciado no Jeca Tatu encontrava fundamentos raciais - num contexto em que as teses de eugenia, as críticas da miscigenação e as propostas do embranquecimento da população eram parte do vocabulário do pensamento social, de Nina Rodrigues à Sílvio Romero, de Euclides da Cunha à Joaquim Nabuco.

 

Sim, o mesmo líder abolicionista, frequentemente lembrado por suas campanhas em prol da libertação dos escravos, refutava no parlamento a vinda da imigração chinesa (“amarelos”) por considerações puramente raciais.

 

Joaquim Nabuco, amigo íntimo de Machado de Assis, censurou o crítico literário José Veríssimo quando, após a morte do Bruxo do Cosme Velho, em artigo memorial, Veríssimo chamava atenção para o fato de que nosso maior romancista fora da cor preta.  Na opinião de Joaquim Nabuco, a despeito do fenótipo do falecido escritor, a sua alma era branca e o artigo de Veríssimo depunha contra o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. 

 

No começo do século XX as campanhas sanitaristas ajudam as elites intelectuais a abandonarem, de forma palatina, os critérios de análise social baseadas exclusivamente na raça. O atraso do país paulatinamente deixa de ser relacionado ao problema da raça e passa a ser explicado pela (falta de) saúde e salubridade.

 

Importante papel foi cumprido por Gilberto Freire no seu “Casa Grande e Senzala” (1933), dizendo que os problemas do brasileiro não diziam respeito à raça ou à miscigenação envolvendo negros, índios e portugueses,  mas à salubridade, à saúde, à alimentação e à higiene. A miscigenação, pelo contrário, era algo positivo.

 

Esta mudança de posicionamento se expressou também em Monteiro Lobato: quando criou o seu personagem Jeca Tatu, atribuía o atraso do caipira ao problema da raça. Já em 1918, Monteiro Lobato em prefácio da obra faz a sua autocrítica, já reconhecendo a predominância das doenças e da insalubridade no temperamento de Jeca Tatu.

 

Em 1924 escreve o conto infantil “Jeca Tatuzinho” em que consolida a sua tese: o caipira é visitado por um médico que lhe receita erva de santa maria e o uso de botas para prevenir e curar a doença do amarelão. Curado do doença, aprendida as lições de higiene, a disposição ao trabalho e à luta de Jeca Tatu surpreende a todos: sua fazenda prospera e cresce mais do que a do seu vizinho italiano, que torna o seu agregado. O triunfo de Jeca, o caipira brasileiro caboclo, sobre o imigrante italiano (branco) põe uma pá de cal no alegado racismo do escritor.  

 

Quem lê com atenção o “Casa Grande e Senzala” observa que a refutação das teses eugenistas e raciais em Gilberto Freire dizia respeito a debates que ainda estavam na ordem do dia. Casa Grande e Senzala e sua proposta de explicação da especificidade da formação nacional Brasileira envolvia novidades no campo metodológico, buscando chaves explicativas na cultura, na sexualidade, na vida íntima e nos hábitos de alimentação e higiene.

 

Ora, lendo os contos de Monteiro Lobato redigidos entre anos 1900-1920 verifica-se que o escritor paulista foi nada menos do que um pioneiro na superação de teses puramente raciais na explicação da realidade nacional.  

 

No conto “Negrinha”, publicado em 1920, o tema da mentalidade escravocrata, que sobrevive quase intacta após o 1888, é descrito mediante a denúncia da proprietária Dona Inácia, “excelente senhora, gorda, rica, animada dos padres”, que se entretém brutalizando Negrinha, uma órfã de sete anos, que “não era preta, mas fusca”.

 

A excelente Dona Inácia era mestra na arte de judiar crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos – e daqueles ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se fizera ao regime novo – essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! (...) O 13 de maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para o frenesis”. (LOBATO, Monteiro. “Negrinha”).

 

BIBLIOGRAFIA

 

RESENDE, Beatriz. “Os Imprescindíveis Contos de Monteiro Lobato”.  Ed. Biblioteca Azul.

 

LOBATO, Monteiro. “Urupês”. Ed. Biblioteca Azul.

 

LOBATO, Monteiro. “O Presidente Negro”. Ed. Principis

 

LOBATO, Monteiro. “Cidades Mortas e Outros Contos”. Ed. Principis.

 

LOBATO, Monteiro. “Hans Staden”. Ed. Círculo do Livro.

 

LOBATO, Monteiro. “Reinações de Narizinho”. Ed. Círculo do Livro.

 

LOBATO, Monteiro. “Dom Quixote Para Crianças”. Ed. LPM.

 

LOBATO, Monteiro. “Viagem ao Céu”. Ed. Biblioteca Azul.

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