sexta-feira, 27 de março de 2026

A VIDA DE GETÚLIO VARGAS (1882/1954)

 A VIDA DE GETÚLIO VARGAS (1882/1954)



 

“Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram o meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo ao caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”. (Carta-testamento, Getúlio Vargas, 24 de agosto de 1954).  

Getúlio Vargas foi alçado ao poder através da Revolução de 1930, desencadeada pelos Estados de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, em conjunto com os tenentes, militares de baixa patentes que lutavam pelo voto secreto, pelo fim da corrupção eleitoral e por reformas sociais. Esses foram os setores que se organizaram através da Aliança Liberal, a coligação oposicionista derrotada nas eleições de 30 para o candidato oficial, indicado pelo presidente Washington Luiz.

A crise da República Velha já vinha se arrastando pelo menos desde 1922, ainda durante a gestão de Arthur Bernardes, quando o estado de sítio, ao invés de ser a exceção, virou a regra. A ampla insatisfação contra a República Velha já não se reduzia à oposição parlamentar, mas alcançava o povo; partia do incipiente sindicalismo, conduzido por anarquistas e depois pelos comunistas, mas principalmente pelos militares de baixa patente.

O fim da I Guerra Mundial (1914/1918) colocava a necessidade do país se modernizar e desenvolver a sua indústria; os centros urbanos cresciam, uma nova classe média se fortalecia e a base social da República Velha (1889/1930), alicerçada no coronelismo e nas oligarquias agrárias, ia desmilinguindo.  Mesmo nas artes, aparecia a necessidade de renovação, com a assimilação, através dos modernistas, de novas tendências artísticas europeias de vanguarda, e o rechaço ao academicismo e a rigidez formal que marcavam a literatura e arte do século XIX. 

Tratava-se de uma conjuntura revolucionária. Esse era o pano de fundo da Revolução de 30. Foi neste contexto que Getúlio Vargas assumiu o poder.

Dentro do amplo movimento de insatisfação contra a República Velha, Getúlio Vargas laçou-se como candidato à presidência pela oposição na Aliança Liberal. Parecia estar dentro do setor mais moderado daquele movimento. Após a “vitória” do candidato oficial, ensaiou até mesmo acatar a sua derrota para Júlio Prestes. Mas com o assassinato de João Pessoa, governador do Estado da Paraíba e candidato à vice presidente da Aliança Liberal, a maré revolucionária se tornaria irreversível – Getúlio, até então, era um político convencional e conciliador, foi obrigado pelas circunstâncias a liderar a revolta, sob pena de entregá-la aos setores mais radicais da oposição, notadamente os tenentes, que já haviam pegado em armas contra o regime em 1922 (Revolta de Copacabana) e em 1924 (Revolta Paulista).   

Em 1930, Getúlio Vargas ainda não era o político popular, que empolgava as massas em grandes comícios,  o chamado “pai dos pobres”. Era um político tradicional. Tinha sido, pouco antes, Ministro da Fazenda de Washington Luiz, o presidente por ele mesmo deposto pouco tempo depois. Antes, sua carreira política estava circunscrita à política do seu estado natal. Em 1922 foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul. Em 1928 foi eleito Governador por aquele estado. E dois anos depois, estaria na cabeça do movimento que colocou fim à Primeira República.

 Vargas nasceu em 19 de abril de 1882 em São Borja, Rio Grande do Sul. Seu pai era um veterano da Guerra do Paraguai e ostentava o título de general honorário do Exército brasileiro. Também foi chefe político do Partido Republicano gaúcho, presidido por Borges de Medeiros, liderança política máxima do Rio Grande do Sul.

Logo cedo, Vargas, aos 17 anos de idade, alista-se no 6º batalhão de infantaria em São Borja. Mas pouco tempo depois pede baixa e se muda para Porto Alegre, onde irá se matricular na Faculdade de Direito.

Quando estudante, tem contato com as ideias de Júlio de Castilhos, o que o influenciaria na sua orientação política futura: antiliberal, com forte influência do positivismo de Augusto Comte, num viés autoritário e centralizador em oposição ao federalismo que beneficiava o sistema oligárquico da República Velha. No plano nacional, pode-se dizer que Getúlio Vargas implementou o castilhismo quando instaurada a ditadura do Estado Novo (1937/1945).

A tomada do poder deu-se em 1930, mas Vargas só se tornaria presidente constitucional no ano de 1934, um dia após a promulgação da nova Constituição.

O cenário mundial era de polarização política: se desenhava no horizonte a II Guerra Mundial. Os comunistas se organizavam através da Aliança Nacional Libertadora (recrutando, inclusive, antigos tenentes descontentes com a moderação do novo governo); inspirado no fascismo italiano, o escritor Plínio Salgado constituiu o movimento integralista, também contando com apelo das massas. Choques entre comunistas e integralistas ocorriam nas ruas.

Em novembro de 1935 os comunistas lançam-se a uma tentativa improvisada e mal organizada de tomada do poder, conhecida depois como “Intentona Comunista”. Era o pretexto que o regime necessitava para alicerçar-se no poder naquele período de turbulência e polarização.

É desencadeada uma campanha anti-comunista, com a criação da polícia política sob a chefia de Felinto Muller, o maior torturador do Estado Novo. O risco de uma revolução presidida pelo PCB era remoto, mas a propaganda anti-soviética foi criando o ambiente favorável à instauração de uma ditadura de fato.

Em 10 de novembro de 1937 Getúlio Vargas outorga uma nova constituição e implementa o Estado Novo, tornando-se um ditador.

O líder popular e carismático surge naquele momento. Não só pela campanha contra os comunistas, mas especialmente pela legislação social e trabalhista, que conferiu a popularidade daquele que foi chamado o “pai dos pobres”. É durante o Estado Novo que é instituída a CLT (1943), consolidando uma série de direitos sociais e trabalhistas inexistentes na República Velha, quando a questão social era vista como questão de polícia.

O salário mínimo foi regulamentado e foram instituídos direitos aos trabalhadores vigentes até os dias de hoje: jornada de oito horas, férias remuneradas, descanso semanal remunerado e regulamentação da previdência social.

Getúlio Vargas foi derrubado do poder em outubro de 1945, no contexto do pós II Guerra, quando a vitória das “democracias” ocidentais sobre o nazi-fascismo tornava insustentável a ditadura estadonovista. Foi deposto através de um ultimato do alto comando do Exército, num golpe palaciano que não lhe tirou em nada a sua popularidade – tanto que se retira pouco tempo depois para sua fazenda no Rio Grande do Sul e, sem fazer campanha, é eleito senador com ampla quantidade de votos.

Deposto em 1945, seria, cinco anos depois, alçado de novo à presidência, agora através do voto. Dizia-se que Getúlio Vargas voltou “nos braços do povo”. E essa seria a fase em que a liderança carismática deixaria a sua natural tendência contemporizadora para levar adiante o enfrentamento cos setores dominantes da política brasileira.

A campanha do “petróleo é nosso” daria as condições para a criação da Petrobrás em 1953. O objetivo de estabelecer o monopólio estatal do petróleo desafiava os interesses imperialistas norte americanos e agitava a oposição mais ligada aos norte-americanos, particularmente a UDN e a imprensa carioca. Vargas nomeia João Goulart como Ministro do Trabalho que, diante do alto custo de vida, propõe aumentar em 100% o salário mínimo, despertando a fúria do empresariado.

Estávamos então em plena Guerra Fria razão pela qual as políticas sociais e nacionalistas do governo eram utilizadas como pretexto para oposição novamente levar adiante a campanha anticomunista.

O golpismo avançava a passos largos. Um evento detonador da crise foi a tentativa de assassinato do jornalista/udenista Carlos Lacerda que através do seu jornal “Tribuna da Imprensa” vinha desencadeando uma campanha furiosa contra o governo.

A situação ficou irreversível quando os militares brasileiros passaram a apoiar o golpe. Getúlio, poucos dias antes da sua morte, afirmava que só sairia do palácio do Catete morto. Dizia que já estava muito velho para aceitar ser desmoralizado e para temer a morte.

No dia 24 de agosto de 1954 recebeu no palácio do governo um emissário das Forças Armadas intimando-o a renunciar. Optou pelo suicídio, como a solução política mais eficiente: ao mesmo tempo que colocou a oposição sob ataque do povo que apoiava o governo, pode através daquele ato reagrupar as forças políticas varguistas, organizadas no PTB e PSB.

 Bibliografia:

“Getúlio” – Coleção Os Grandes Líderes – Nova Cultural – Bolívar Lamounier

quarta-feira, 25 de março de 2026

A História da Primeira República

 A História da Primeira República




 

Regime federativo, abolição da escravatura, separação da Igreja e do Estado, instituição do casamento civil, regulamentação do trabalho industrial, reforma educacional: essas eram as principais bandeiras defendidas pelos partidários do regime republicano no Brasil, alçados ao poder através do golpe militar de 15 de Novembro de 1889.

A proclamação da república foi conduzida pelos militares, tendo à frente Deodoro da Fonseca, o que se deu através de um golpe palaciano, que quase não encontrou resistência por parte da monarquia. Os conspiradores tomaram de assalto o quartel general do Rio de Janeiro e o Ministério de Guerra durante a madrugada do dia 15.11. Prenderam o Visconde de Ouro Preto e alguns outros ministros.

Consta que o único ferido na quartelada foi o Barão de Ladário, Ministro da Marinha, que desacatou a ordem de prisão e foi baleado. Um incidente mais grave ocorreu no Maranhão com o massacre de 17 de Novembro, quando tropas republicanas abriram fogo contra cerca de 2.000 manifestantes; eram ex-escravos que compartilhavam a ideia de que a queda da monarquia acarretaria a restauração da escravidão.

É de se lembrar que muitos abolicionistas, a começar por José do Patrocínio, passaram a reivindicar a monarquia, associado o fim a escravidão e a lei Áurea à Princesa Isabel. Antes do golpe do dia 15 de novembro, foi desencadeada uma campanha procurando convencer o povo de que a instauração da república iria acarretar a volta da escravidão. As manifestações republicanas eram assaltadas pelos chamadas Guardas Negras, capoeiras e alforriados recrutados com a finalidade de dissolver os comícios republicanos, armados de navalhas e cacetes

Entretanto, pode-se dizer em linhas gerais que o povo assistiu “bestializado” à Proclamação da República, para utilizar a famosa frase do jornalista republicano Aristides Lobo. Ou seja, a queda da monarquia produziu na população, ao menos num primeiro momento, um misto de espanto e apatia.    

Essa transição de regime relativamente pacífica concretizava o plano do Partido Republicano criado em 1870 – a sua ala majoritária acreditava numa transição não violenta do regime monárquico para a República, ou seja, a evolução natural dos acontecimentos levaria o país a superar o II Império, seguindo leis históricas inflexíveis, dentro do horizonte positivista. Os partidários de August Comte, especialmente os militares brasileiros, acreditavam na ideia de uma evolução natural da sociedade, regida por leis científicas, em direção ao progresso. Daí vem o lema inscrito na bandeia nacional desde o advento da República: Ordem e Progresso.

Entretanto, os dois primeiros governos militares da Primeira República, o de Deodoro da Fonseca (1889/1891) e especialmente o de Floriano Peixoto (1891/1894), iriam se confrontar com a reação violenta (e tardia) ao novo regime. Essa primeira fase da 1ª República pode ser justamente caracterizada como o momento da consolidação do regime republicano e o esmagamento/eliminação dos resíduos monárquicos.

Dentro das forças armadas brasileiras, era a marinha a que tinha maiores vinculações com o regime monárquico. A sua própria composição social a tornaria uma força mais elitista que o exército, onde predominava a orientação republicana e positivista. Neste contexto ocorre a Revolta da Armada, quando unidades da marinha se insurgem contra o fechamento do congresso por Deodoro da Fonseca  - na segunda fase da revolta, já no governo de Floriano Peixoto, os rebeldes exigiam não só a tomada do poder mas sugeriam a restauração da monarquia, ameaçando inclusive bombardear a cidade do Rio de Janeiro.   

Outro movimento que buscava desafiar o novo regime republicano foi a Revolta de Canudos, conduzida por um líder messiânico chamado Antônio Conselheiro. Isso ocorreu já no primeiro governo civil da República de Prudente de Morais (1894/1898). O arraial surgiu em pleno sertão nordestino, chegando a reunir 10 mil habitantes. O primeiro ato de rebeldia se deu quando o Conselheiro, conduzindo o seu séquito de seguidores, se insurgiu contra a obrigatoriedade de pagamento de impostos, após o advento de uma lei de 1893, concedendo autonomia aos municípios. Mandou queimar em praça pública a tábua de cobrança dos tributos e afirmava para quem quisesse ouvir  que a implantação do regime republicano era uma invenção do demônio. Foram necessárias quatro expedições militares para a destruição de Canudos, até o extermínio literal de toda a sua população.

Os primeiros dez anos da República Velha corresponderam, portanto, à fase de consolidação do novo regime e ao desmantelamento da reação monárquica tardia. Uma segunda fase se iniciaria a partir do governo de Campos Salles (1898–1902) com a instituição da política do café com leite e a política dos governadores.

Ao contrário dos dias de hoje, a 1ª Constituição Republicana (1891) previa um regime acentuadamente federalista. Se hoje as lideranças dos estados são chamadas de “governadores”, na República Velha eram “presidentes”. O grau de autonomia conferido aos estados era muito maior, envolvendo até mesmo disputas territoriais entre distintos entes da federação – da mesma forma que ocorrem as disputas de territórios entre diferentes nações. Uma delas, envolvendo disputa de território entre os estados do Paraná e Santa Catarina, foi a causa inicial de guerra civil, a chamada Revolta do Contestado, que levou à morte mais de 10 mil pessoas.

O acentuado federalismo da República Velha era alicerçado nas elites agrário-exportadoras que passaram a dirigir o governo, após a fase inicial de implantação da República conduzida pelos militares do exército. Num país ainda sem indústrias e com baixo desenvolvimento urbano, a política era conduzida pelos fazendeiros do café, pelos estancieiros do Rio Grande do Sul, pelos latifundiários de Minas Gerais e pelos senhores de engenho do nordeste, esses últimos já em fase de franca decadência.

O coronelismo que marca a política local na República Velha revela o espírito de clã, muito bem evidenciado por Oliveira Viana no seu estudo sobre as chamadas “populações meridionais do Brasil”. A grande dimensão territorial do Brasil colabora para o isolacionismo das fazendas. Tudo isso cria as condições para o fortalecimento de clãs familiares que conduzem a política e a jurisdição de todo povo agregado aos Potentados Rurais. Do escravo ao agregado, passando pelos trabalhadores livres e pobres, lavradores e pequenos funcionários estatais, estão subordinados ao grande senhor de terras. Aliás, é justamente a propriedade de terras e escravos que dá prestígio social e não os títulos de nobreza, como na Europa.

É nesse contexto de afirmação do poder civil, alicerçado na aristocracia rural, em detrimento dos precursores da república no exército que se instituiu a política dos governadores, por meio do qual o governo federal emprestava o seu apoio aos presidentes dos estados, que, via coronelismo, garantiam eleições de parlamentares da base governista, eliminando a oposição.

Essa circunstância fazia com que em absolutamente todas as eleições da República Velha fossem alçados à vitória os candidatos “oficiais” – a constituição daquela época não permitia a reeleição, fazendo com que cada presidente buscasse afirmar o seu sucessor, dentro da lógica do café com leite, ou seja, com o predomínio de São Paulo e Minas Gerais, onde estão os setores mais fortes da elite agrária do país.

Uma terceira e última etapa da Primeira República se evidencia em 1922, com a eleição de Arthur Bernardes. Estamos diante da fase de decadência do regime. Aquele seria o ano do advento do modernismo nas artes através da Semana da Arte Moderna de 1922. Naquele ano foi fundado também o Partido Comunista Brasileiro. E já na posse do novo governo, marcada pela grotesca fraude eleitoral que caracteriza a República Velha,  haveria o martírio heroico de militares e um civil na Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Iniciava-se, naquele momento, o movimento tenentista, conduzido por militares de baixa patente, que almejavam reformas que combatessem a fraude eleitoral, incluindo o voto secreto, e o fim do predomínio absoluto das oligarquias agrárias na direção do governo.

No governo de Arthur Bernardes, o estado de sítio, ao invés de ser a exceção, virou a regra. A ampla insatisfação contra a República Velha já não se reduzia à oposição parlamentar, mas alcançava o povo; partia do incipiente sindicalismo, conduzido por anarquistas e depois pelos comunistas, mas principalmente pelos tenentes, os militares de baixa patente. O fim da I Guerra Mundial colocava a necessidade do país se modernizar e desenvolver a sua indústria; os centros urbanos cresciam, uma nova classe média se fortalecia e a base social do regime político, alicerçada no coronelismo e nas oligarquias agrárias, ia desmilinguindo.  Mesmo nas artes, aparecia a necessidade de renovação, com a assimilação, através dos modernistas, de novas tendências artísticas europeias de vanguarda, e o rechaço ao academicismo e a rigidez formal que marcavam a literatura e arte do século XIX.  

Já no último governo da República Velha, sob a direção de Washington Luiz, estavam criadas as condições para o fim da ordem instituída no dia 15 de novembro de 1889. A fraude eleitoral que conduziu Júlio Prestes à presidência seria apenas o estopim de uma crise que se iniciara ainda em 1922. É neste contexto que muitos daqueles velhos tenentes seriam alçados ao poder através da Revolução de 1930 encabeçada por Getúlio Vargas.

Era o fim da República Velha.

BIBLIOGRAFIA

“Populações Meridionais do Brasil” – Oliveira Viana – Edições do Senado Federal V. 27.

“História do Povo Brasileiro”  - Org. Jânio Quadros e Afonso Arinos – J. Quadros Editores Culturais S/A

Quadro: Juramento da primeira Constituição republicana: Deodoro, Floriano, Prudente de Moraes (quadro de Aurélio de Figueiredo, óleo sobre tela, Museu da República)

segunda-feira, 2 de março de 2026

“Rua Descalça” – José Mauro de Vasconcelos

 “Rua Descalça” – José Mauro de Vasconcelos



Resenha Livro - “Rua Descalça” – José Mauro de Vasconcelos - Edições Melhoramentos 

O livro mais conhecido do escritor fluminense José Mauro Vasconcelos certamente é “Meu Pé de Laranja Lima” (1968), espécie de relato autobiográfico da infância do escritor, vivenciada na pobreza de um bairro de subúrbio de Bangu/RJ.

As fantasias de uma criança que cultiva amizade com uma árvore de laranjeira do seu quintal, o encanto produzido pela imaginação dos menores, que conseguem abstrair as dificuldades da vida e encará-la com ternura e alegria, certamente cativou leitores de todas as idades e fez de Vasconcelos um dos poucos escritores brasileiros que pôde viver exclusivamente dos direitos autorais de sua obra.

Façanha que encontra poucos paralelos no Brasil: Érico Verissimo, Jorge Amado e Monteiro Lobato são outros poucos exemplos de escritores de uma literatura ao mesmo tempo popular, acessível a todos e de rara qualidade estética.

“Meu Pé de Laranja Lima” vendeu mais de dois milhões de exemplares, tendo sido publicada em 15 países. “Rosinha Minha Canoa” (1962) foi a primeira obra de sucesso do nosso escritor, que igualmente relata um mundo encantado e fantástico, em que o pescador mantém dialogo e afeto com sua canoa, cuja origem advém de uma árvore capaz de sentir e de se comunicar. E esta pequena novela “Coração de Vidro” teve mais de 650.000 exemplares vendidos, publicações em 10 países, traduções em três idiomas e mais de 70 edições no Brasil.

A popularidade de Vasconcelos, por diferentes razões, não se traduziu em reconhecimento na academia. Aliás, a própria figura do escritor representa a mas completa oposição a tudo o que se posse considerar acadêmico.

De família pobre, nascido no estado do Rio de Janeiro, aos nove anos mudou-se para a casa dos tios em Natal/RN. Chegou a frequentar dois anos do curso de medicina naquele estado, mas a sua personalidade irrequieta e aventureira o faria abandonar o curso e retornar ao Rio de Janeiro a bordo de um navio cargueiro, levando uma simples maleta de papelão como bagagem.

 Nesta peregrinação pelo país a fora, trabalhou como treinador de boxe, carregador de bananas na capital do Rio de Janeiro, pescador do litoral fluminense, professor primário num núcleo de pescadores no Recife, garçom em São Paulo. Além de escritor, foi ator de cinema e modelo.

Em dado momento de sua vida, se junto aos irmãos Villas Bôas, sertanistas e indigenistas, enveredando-se pelo sertão da região do Araguaia, contando povos indígenas desconhecidos e cartografando terras. O contato direto com aqueles povos sertanejos e indígenas criaria as condições para o escritor fazer relatos minuciosos (ainda que sua arte realista enveredasse para o fantástico, com animais e árvores falantes) dos povos do Araguaia, no seu já mencionado “Rosinha Minha Canoa” e no romance “O Garanhão das Praias” – ambos tratando de missões “civilizatórias” junto aos povos sertanejos e indígenas dos rincões do país.

RUA DESCALÇA

O romance “Rua Descalça” (1969), tal qual “Meu Pé de Laranja Lima” (1968), é uma história do subúrbio carioca.

A descrição do povo em suas interações na rua e nos bondes, indo e voltando do trabalho, falando mal da vida alheia, mas exercendo também belos atos de solidariedade, é o pano de fundo da história:

“A rua branca do subúrbio se perdia igual, indiferente, imutável. (...) Gente passava levando marmitas em direção à fábrica. Os homens da pedreira se encaminhavam para o Murundu.

O peixeiro aparecia perto com o cesto na cabeça e uma porção de gatos fazendo miau atrás. Parava e os gatos paravam. Andava e os gatos repetiam o miau.

Mulheres mal vestidas, despenteadas coçando a cabeça, dando cafuné nos piolhos vinham olhar a rua e gritar qualquer coisa. Ou chamar um filho ou brigar com as vizinhas. Meninos barrigudos com o pipiu de fora, remelentos seguravam nas saias da mãe e olhavam a rua sem compreender ainda o seu significado”.

O tema do livro é a adesão voluntária do rico ao mundo dos pobres; este movimento é conduzido pelos protagonistas Roberto e Ricardo, dois irmãos oriundos de uma família endinheirada de Copacabana.

O chefe dessa família era um capitalista que, após ir à falência, dá um tiro na cara, suicida-se dentro do lar. Sua mulher e filhos, desamparados, são obrigados a se mudar para o subúrbio do Rio de Janeiro. Lá, a matriarca, chamada Magda, se vê na condição de levar e passar a roupa da família. Os filhos ricos devem agora acordar às 05:00 da madrugada e enfrentar o bonde lotado até o local de trabalho. Uma tia que parasitava a família rica, se recusa a mudar-se para a Rua Descalça e procura outro lugar onde pudesse viver sem o suor do seu rosto.

Aquilo que parecia uma tragédia familiar surge como a oportunidade aos irmãos Roberto e Ricardo conhecerem um mundo em que a pobreza material tem como contrapartida a riqueza do amor, da ternura e da gratidão. É a realidade dos pobres que, pelas  circunstâncias materiais e pela falta de recursos, necessitam da solidariedade dos outros, obrigando-os a serem também solidários.

A tragédia familiar parece ser remediada por um fato inesperado. A morte de um tio rico e solteiro tornaria a família, na condição de herdeira de uma grande fortuna, novamente habilitada ao mundo da alta classe carioca. O falecimento é até mesmo comemorado, exceto por Roberto e Ricardo que se recusam a sair da “Rua Descalça”. A partir de então fazem o voto de pobreza e se dedicam inteiramente à caridade. Vão neste processo se santificando: só aquele que consegue se desprender dos bens materiais será capaz de ver a bondade dos outros. E são bem aventurados os puros do coração, pois a eles será dado ver o reino dos seus.

Neste processo, Roberto assume o nome de “Antão” e Ricardo o nome de “Ananias”. Vão se beatificando no trabalho de caridade, passando do auxílio material à cura e ao milagre, despertando através dessa ajuda desinteressada ao próximo o amor incondicional do povo da “Rua Descalça”.

Na casa dos irmãos, o relógio não funciona. Representa a paralisia do tempo: todos os dias são iguais na casa de Antão e Ananias, inclusive o dia de Natal. Para os santos, a noção do tempo é diferente daquela dos mortais: sua natureza espiritual superior torna desnecessário o relógio pela inutilidade de ver as horas se sucedendo, porquanto seus dias são todos iguais.

Quando o resto da cidade calunia-os chamando de macumbeiros, é o povo que luta pela honra dos irmãos, não permitem que desrespeitem aqueles que lhe aparecem como santos.

Ao término da histórica, há mesmo uma iminência de guerra: o resto da cidade exige que os irmãos sejam internados num hospício, gerando a reação dos homens e mulheres da “Rua Descalça”, que saem em defesa de Antão e Ananias.

Um padre, comovido com a caridade e amor desinteressado dos dois, mas também pressionado pelos fiéis que exigem a prisão dos milagreiros, atua como Pôncio Pilatos: não sem um peso no coração, lava suas mãos e leva mensagem aos santos da “Rua Descalça” convidando-os a renunciar à vida de caridade, sob pena de levar a cidade ao pé de guerra.

São tentados ao final da história a retornar para a família agora instalada num bairro confortável desde a morte do tio rico. Não aceitam o convite, mas abandonam a “Rua Descalça” com um objetivo maior: levar a assistência para todo o “resto do mundo.”.  

Antão e Ananias remetem a outras figuras que também abandonam a riqueza como meio de purificar a alma. A inspiração do escritor, evidenciada logo no prefácio, é criar uma versão carioca de “Gotama Buda”, que abandonou as pompas para viver entre os pobres ou de São Francisco de Assis que do mesmo modo deixou tudo para participar da vida dos menos favorecidos.

Também foi o caso de José Mauro de Vasconcelos – ainda que não seja oriundo de uma família rica, foi através do seu contato com o povo que desenvolveu a sua capacidade de contar histórias e através delas defender e afirmar o amor e a ternura – a palavra ”ternura” é literalmente reiterada em todos os seus livros.

Desde muito jovem, o escritor deixou o conforto da casa da família para iniciar um eterno vai e vem, trabalhando ora como carregador de banana, ora como pescador e ora como professor primário. E mesmo depois do seu sucesso através dos seus livros e das adaptações no cinema, sempre que podia se lançava no mato em expedições junto às populações indígenas do Araguaia.  

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Monteiro Lobato (1882/1948)

 Monteiro Lobato (1882/1948)




 

Monteiro Lobato certamente é o escritor mais conhecido do Brasil. E ficou notabilizado por conta dos seus livros infantis. Mas os seus serviços ao país foram muito além das histórias do Sítio do Picapau Amarelo.

 

Foi precursor da indústria editorial brasileira, tendo ele próprio criado as primeiras editoras de livros no país já na década de 1920. Também foi o responsável pela edição dos primeiros materiais didáticos no Brasil: parte das histórias do Sítio do Picapau Amarelo são também lições de História (“História do Mundo Para Crianças”), de Geografia (“Geografia de Dona Benta”), de Gramática (“Gramática Para Crianças”) e de Geologia (“O Poço do Visconde”).  

 

Foi também o primeiro a levantar a voz em defesa do petróleo brasileiro, o que lhe custou alguns meses de prisão durante o Estado Novo presidido por Getúlio Vargas; isso foi 1941, quando fora condenado a seis meses de cadeia por criticar publicamente o Conselho Nacional de Petróleo. Mais de uma década depois, em 03.10.1953, o mesmo Getúlio Vargas, alçado ao poder pela via democrática, criaria a Petrobrás.

 

Monteiro Lobato teve também intensa participação na vida cultural do país através de artigos e crônicas na imprensa paulista.

 

Ficou conhecida a sua polêmica com os modernistas de 1922, quando criticou exposição de Anita Malfatti num artigo publicado no Estado de São Paulo chamado “Paranoia ou Mistificação”.

 

Lobato não deixava de reconhecer o talento da jovem artista, mas, como bom nacionalista, criticava a arte moderna pela sua filiação às tendências artísticas importadas da Europa: futurismo, cubismo, impressionismo, etc. Ainda que a nova estética moderna buscasse criar uma arte nacional através da “antropofagia”, essa rejeição ao estrangeirismo do romantismo/naturalismo ainda implicava numa assimilação pela “antropofagia”, contra a qual Lobato se opunha.

 

Mas certamente Monteiro Lobato é ainda hoje conhecido pelos livros dedicados ao público infantil.

 

Ocorre que a opção do escritor por escrever esses livros para crianças ocorreu num momento relativamente tardio da sua produção ficcional.

 

O primeiro livro da Coleção Sítio do Picapau Amarelo, chamado “O Saci”, foi publicado em 1921, quando o escritor tinha 39 anos de idade. Um anos antes, Monteiro Lobato havia publicado “Narizinho Arrebitado”, considerada a sua primeira obra dedicada às crianças. Consta ter sido o retorno à literatura infantil um reflexo dos desgostos dos adultos que o perseguiram injustamente. 

 

Injustas perseguições de ontem e que persistem até os dias de hoje.

 

VIDA E OBRA

 

O escritor nasceu na cidade de Taubaté, no interior paulista em 21 de abril de 1882.

 

Aos treze anos é mandado pela família para São Paulo para estudar no Instituto de Ciências e Letras. Lá, escreve seus primeiros contos e crônicas e desenvolve interesse pela pintura. Manifesta desejo de estudar no Instituto de Belas Artes, mas por imposição do seu avô materno, o Visconde de Tremembé, foi estudar Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, hoje pertencente à Universidade de São Paulo.

 

Morou numa república estudantil na Rua Direita, na região central da cidade. Quando estudante, travou amizade com Godofredo Rangel, pessoa com quem se correspondeu por carta por quarenta anos, depois reunidas no livro “A Barca de Gleye”.

 

Formado em Direito, regressa à Taubaté no ano de 1904, onde começa advogar. Foi no interior de São Paulo que passou a maior parte da sua vida, podendo-se ver na sua literatura aspectos semelhantes ao regionalismo modernista da década de 1930: enquanto Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e José Lins do Rego discorrem sobre o sertanejo nordestino, Lobato se notabilizaria pela descrição do caipira paulista, representado na figura do Jeca Tatu.

 

De volta à Taubaté, tem a pretensão de criar uma fábrica de geleias, mas a empreitada não vai para frente. Em todo o caso, seria essa a primeira de uma série de iniciativas de “empreendedorismo” que o escritor levaria adiante: criou jornais, revistas, editoras de livro, investiu e perdeu dinheiro na prospecção de petróleo e aço. Esse “empreendedorismo” não era conduzido por um espírito burguês, mas dentro de um horizonte nacionalista, de desenvolvimento nacional, o que lhe levaria mais de uma vez à ruína financeira.

 

É nomeado Promotor na cidade de Areias em maio de 1907.

 

Trata-se de um Município situado no interior de São Paulo na divisa com o Estado do Rio de Janeiro, que se notabilizou como zona pioneira da produção de café. Mas quando Lobato lá se instalou, a cidade já se encontrava em estado de decadência, especialmente desde a abolição da escravatura em 1888 – apenas as zonas mais dinâmicas do oeste paulista se adaptaram à nova conjuntura econômica através da importação de mão de obra de imigrantes italianos.

 

Não devia haver muito trabalho ao promotor de justiça de uma cidade minúscula e esquecida do interior paulista.

 

O que deu tempo a Monteiro Lobato a se dedicar à leitura e à escrita. Redigiu contos, faz traduções e colabora com jornais locais.  É aquele sertão abandonado que lhe serve de inspiração para escrever a série de contos reunidas posteriormente sob o nome simbólico de “Cidades Mortas” (1919).

 

Na roça, os dias se repetem invariavelmente, exceto aos domingos, feriados religiosos e eventos políticos, quando a população se encontra nas calçadas da rua e na praça, a comentar sobre a vida alheia. Os homens matam o tempo pitando cigarros e as mulheres parindo filhos. Um ou outro livro de literatura circula na mão de poucos, considerando o peso do analfabetismo na população

 

Essas “Cidades Mortas” correspondem às regiões pioneiras da economia do café do Vale do Paraíba que outrora foram vanguarda da economia nacional e, entre fins do século XIX e início do século XX, vão paulatinamente entrando em decadência por conta da desvalorização mundial dos preços do produto e da falta de mão de obra.

 

O abandono das plantações de café do Vale do Paraíba dava-se também pelo próprio esgotamento do solo, com a migração dos proprietários daquela região para o Oeste Paulista:

 

Léguas a fio sucedem de morraria áspera, onde reinam soberanos a saúva e seus aliados, o sapé e a samambaia. Por ela passou o Café, como um Átila. Toda a seiva foi bebida e, sob forma de grão, ensacada e mandada para fora. Mas do ouro que veio em troca nem uma onça permaneceu ali, empregada em restaurar o torrão. Transfiltrou-se para o Oeste, na avidez de novos assaltos à virgindade da terra nova; ou se transfez nos palacetes em ruína; ou reentrou na circulação europeia por mão de herdeiros dissipados. (...) À mãe fecunda que o produziu nada coube; por isso ressentida, vinga-se agora, enclausurando-se numa esterilidade feroz. E o deserto lentamente retoma as posições perdidas.”.  (“LOBATO, Monteiro. “Cidades Mortas”).

 

No ano de 1911, morre o avô, o Visconde de Tremembé, e dele herda a fazenda de Buquira. Monteiro Lobato deixou de ser promotor de justiça para ser fazendeiro. E foi o cenário dessa fazenda que imaginou e criou as histórias do Sítio do Pica Pau Amarelo.

 

O sítio de Dona Benta ficava num lugar muito bonito. A casa era das antigas, de cômodos espaçosos e frescos. Havia o quarto de Dona Benta, o maior de todos, e junto o de Narizinho, que morava com sua avó. Havia ainda o ‘quarto de Pedrinho’ que lá passava as férias todos os anos; e o da tia Nastácia, a cozinheira e faz-tudo da casa. Emília e Visconde não tinham quartos; moravam num cantinho do escritório, onde ficavam as três estantes de livros e a mesa de estudo da menina”. (LOBATO, Monteiro. “O Saci”).

 

Também não teve êxito como fazendeiro. Em 1917 vende a fazenda e muda-se para Caçapava, onde funda a “Revista Paraíba”. Um ano depois, publica o seu primeiro livro, “Urupês”. Trata-se de uma reunião de 14 contos, 12 deles retratando pequenas histórias que se passam no interior paulista. Foi um sucesso de público, especialmente depois de que Rui Barbosa, num discurso de campanha eleitoral, faz alusão ao Jeca Tatu.

 

São os “causos” que retratam a vida de pequenos funcionários públicos (“Um Suplício Moderno”), de fazendeiros endividados (“O Comprador de Fazendas”), da rixa entre vizinhos (“A Vingança da Peroba”), do casamentos por interesse (“O Estigma”) e até mesmo o folclore e as lendas populares das pessoas do campo, tratados em “Bocatorta”, em que um velho e odioso matuto, filho bastardo de uma escrava e senhor de engenho, “disforme, horripilante como não há memória de outro”, assombra a população do arraial do Atoleiro, causando, por razões inexplicáveis, a morte e a desgraça daqueles que com ele se encontram, tal qual o Curupira e o Saci Pererê.

 

Já os últimos dois contos da Coletânea, denominados “Velha Praga” e “Urupês”, não são pequenas histórias e mais crônicas tratando criticamente a situação do caboclo paulista, frequentemente denominado como “Jeca Tatu”:

 

“De pé ou sentado as ideias lhe entram, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.

De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para ‘aquentá-lo’, imitado da mulher e da prole.

Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostar um cabo da foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há de ser de cócoras.

Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir de Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos.

Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio da realidade”.

 

 A crítica da idealização do indígena pelos românticos é explícita no livro de Monteiro Lobato e aparece logo no começo do conto “Urupês”, tudo a confirmar que Lobato não era exatamente um opositor do modernismo, mas levava adiante, até as últimas consequências, a nacionalização da arte e da literatura.

 

Monteiro Lobato, além dos livros de contos e literatura infantil, das traduções, das críticas literárias e das iniciativas empresariais, também participou da vida política do país.

 

Apoiou o presidente Washington Luiz, valendo-lhe a nomeação como adido comercial dos EUA para onde segue no ano de 1927. E novamente vai a falência: tentou organizar uma empresa brasileira para produzir aço mas perdeu todo seu dinheiro com a quebra da bolsa de 1929. Retornando ao país, apoia Júlio Prestes contra Getúlio Vargas nas eleições presidenciais. Como se sabe, as eleições foram vencidas, através da fraude corriqueira na República Velha, pelo candidato paulista, desencadeando a Revolução de 1930, o que o colocaria desde então na mira do getulismo.

 

É com o seu retorno ao Brasil em 1930, influenciado pelo progresso tecnológico que vira nos EUA, que Monteiro Lobato inicia sua campanha em defesa da prospecção do petróleo no país. Isso num momento em que os interesses econômicos estrangeiros buscavam fazer uma campanha de que não havia no território nacional uma gota do “ouro negro”. Lobato publica em 1936 o livro “O Escândalo do Petróleo” no qual acusa o governo de não levar adiante a pesquisa das jazidas, nem deixar que os particulares o façam. Como dito, alguns anos depois, o seu corajoso posicionamento lhe valeria seis meses de prisão.

 

Um aspecto pouco conhecido de Monteiro Lobato se refere à sua aproximação tardia com o movimento democrático e os comunistas, já no final da sua vida. Nunca foi um comunista de fato, mas, nos estertores do Estado Novo, participa da campanha pela  democratização do país: consta que Luiz Carlos Prestes leu uma carta de saudação do escritor paulista num comício em São Paulo realizado em 1945.

 

Antes mesmo, travou relação de amizade íntima com Caio Prado Júnior, talvez o maior intelectual brasileiro egresso das fileiras do Partido Comunista Brasileiro. A editora brasiliense, fundada por Caio Prado Júnior, adquiriu os direitos autorais de toda obra de Monteiro Lobato, ainda quando o escritor paulista era vivo.

 

MONTEIRO LOBATO E O RACISMO   

 

No ano de 2010 ganhou evidência na mídia uma ação judicial proposta por uma ONG propondo a remoção do livro “Caçadas de Pedrinho” da lista de leitura obrigatória da rede pública de ensino.

 

Argumentou-se que certas passagens do livro fazem alusões racistas à personagem Tia Nastácia. Outros afirmam que Lobato era eugenista e que seus livros sequer merecem ser lidos nos dias de hoje.

 

Podemos dizer o contrário: Lobato foi antes um precursor da crítica ao determinismo racial através de sua “autocrítica” ao Jeca Tatu. Originalmente, a degeneração do caipira paulista consubstanciado no Jeca Tatu encontrava fundamentos raciais - num contexto em que as teses de eugenia, as críticas da miscigenação e as propostas do embranquecimento da população eram parte do vocabulário do pensamento social, de Nina Rodrigues a Sílvio Romero, de Euclides da Cunha a Joaquim Nabuco.

 

Sim, o mesmo líder abolicionista, frequentemente lembrado por suas campanhas em prol da libertação dos escravos, refutava no parlamento a vinda da imigração chinesa (“amarelos”) por considerações puramente raciais.

 

Joaquim Nabuco, amigo íntimo de Machado de Assis, censurou o crítico literário José Veríssimo quando, após a morte do Bruxo do Cosme Velho, em artigo memorial, Veríssimo chamava atenção para o fato de que nosso maior romancista fora da cor preta.  Na opinião de Joaquim Nabuco, a despeito do fenótipo do falecido escritor, a sua alma era branca e o artigo de Veríssimo depunha contra o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. 

 

No começo do século XX as campanhas sanitaristas ajudam as elites intelectuais a abandonarem, de forma palatina, os critérios de análise social baseadas exclusivamente na raça. O atraso do país paulatinamente deixa de ser relacionado ao problema da raça e passa a ser explicado pela (falta de) saúde e salubridade.

 

Importante papel foi cumprido por Gilberto Freire no seu “Casa Grande e Senzala” (1933), dizendo que os problemas do brasileiro não diziam respeito à raça ou à miscigenação envolvendo negros, índios e portugueses,  mas à salubridade, à saúde, à alimentação e à higiene. A miscigenação, pelo contrário, era algo positivo.

 

Esta mudança de posicionamento se expressou também em Monteiro Lobato: quando criou o seu personagem Jeca Tatu, atribuía o atraso do caipira ao problema da raça. Já em 1918, Monteiro Lobato em prefácio da obra faz a sua autocrítica, já reconhecendo a predominância das doenças e da insalubridade no temperamento de Jeca Tatu.

 

Em 1924 escreve o conto infantil “Jeca Tatuzinho” em que consolida a sua tese: o caipira é visitado por um médico que lhe receita erva de santa maria e o uso de botas para prevenir e curar a doença do amarelão. Curado do doença, aprendida as lições de higiene, a disposição ao trabalho e a luta de Jeca Tatu surpreende a todos: sua fazenda prospera e cresce mais do que a do seu vizinho italiano, que torna o seu agregado. O triunfo de Jeca, o caipira brasileiro caboclo, sobre o imigrante italiano (branco) põe uma pá de cal no alegado racismo do escritor.  

 

Quem lê com atenção o “Casa Grande e Senzala” observa que a refutação das teses eugenistas e raciais em Gilberto Freire dizia respeito a debates que ainda estavam na ordem do dia. Casa Grande e Senzala e sua proposta de explicação da especificidade da formação nacional Brasileira envolvia novidades no campo metodológico, buscando chaves explicativas na cultura, na sexualidade, na vida íntima e nos hábitos de alimentação e higiene.

 

Ora, lendo os contos de Monteiro Lobato redigidos entre anos 1900-1920 verifica-se que o escritor paulista foi nada menos do que um pioneiro na superação de teses puramente raciais na explicação da realidade nacional.  

 

No conto “Negrinha”, publicado em 1920, o tema da mentalidade escravocrata, que sobrevive quase intacta após o 1888, é descrito mediante a denúncia da proprietária Dona Inácia, “excelente senhora, gorda, rica, animada dos padres”, que se entretém brutalizando Negrinha, uma órfã de sete anos, que “não era preta, mas fusca”.

 

A excelente Dona Inácia era mestra na arte de judiar crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos – e daqueles ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se fizera ao regime novo – essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! (...) O 13 de maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para o frenesis”. (LOBATO, Monteiro. “Negrinha”).

 

BIBLIOGRAFIA

 

RESENDE, Beatriz. “Os Imprescindíveis Contos de Monteiro Lobato”.  Ed. Biblioteca Azul.

 

LOBATO, Monteiro. “Urupês”. Ed. Biblioteca Azul.

 

LOBATO, Monteiro. “O Presidente Negro”. Ed. Principis

 

LOBATO, Monteiro. “Cidades Mortas e Outros Contos”. Ed. Principis.

 

LOBATO, Monteiro. “Hans Staden”. Ed. Círculo do Livro.

 

LOBATO, Monteiro. “Reinações de Narizinho”. Ed. Círculo do Livro.

 

LOBATO, Monteiro. “Dom Quixote Para Crianças”. Ed. LPM.

 

LOBATO, Monteiro. “Viagem ao Céu”. Ed. Biblioteca Azul.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Silva Jardim (1860/1891)

 SILVA JARDIM (1860/1891)





Regime federativo, abolição da escravatura, separação da Igreja e do Estado, instituição do casamento civil, regulamentação do trabalho industrial, reforma educacional: essas eram as principais bandeiras defendidas pelos partidários do regime republicano no Brasil, alçados ao poder através do golpe militar de 15 de Novembro de 1889.

A proclamação da República foi conduzida pelos militares, tendo à frente Deodoro da Fonseca, o que se deu através de um golpe palaciano, que quase não encontrou resistência por parte da Monarquia. Os conspiradores tomaram de assalto o quartel general do Rio de Janeiro e o Ministério de Guerra durante a madrugada do dia 15.11. Prenderam o Visconde de Ouro Preto e alguns outros ministros. Consta que o único ferido na quartelada foi o Barão de Ladário, Ministro da Marinha, que desacatou a ordem de prisão e foi baleado.

Concretizava-se dessa maneira o plano do Partido Republicano criando em 1870 – a sua ala majoritária acreditava numa transição pacífica do regime monárquico para a República, ou seja, a evolução natural dos acontecimentos levaria o país a superar o II Império, seguindo leis históricas inflexíveis, dentro do horizonte positivista. Os partidários de August Comte, especialmente os militares brasileiros, acreditavam na ideia de uma evolução natural da sociedade, regida por leis científicas, em direção ao progresso. Daí vem o lema inscrito na bandeia nacional desde o advento da República: Ordem e Progresso.

Silva Jardim (1860/1891) foi um jornalista incendiário que defendeu na imprensa e através de comícios o regime republicano e o abolicionismo. Mas ao contrário da maioria dos demais partidários da República, acreditava que a Monarquia deveria ser derrubada por métodos revolucionários. Defendia abertamente a insurreição popular como a via adequada para mudança de regime, resgatando uma tradição de luta política que remontam à Inconfidência Mineira (1789) e à figura de Tiradentes. E foi justamente o seu radicalismo político que o levou ao isolamento assim que os republicanos moderados tomaram o poder.

Antônio Silva Jardim nasceu em 18 de agosto de 1860 numa pequena cidade do interior do Rio de Janeiro. Seu pai era um professor primário e a família viva em condições modestas,  num pequeno sítio. Tinha a saúde frágil mas em contrapartida se destacou logo cedo pelo bom desempenho nos estudos. Quando estudante secundarista, redige um jornal com os seus colegas e o seu primeiro artigo é sobre Tiradentes.

Dada a falta de recursos da família, foi obrigado a começar a trabalhar cedo: inicia como guarda livros numa sapataria e à noite leciona primeiras letras. Em 1877, recebe do pai um valor em dinheiro que o permite ir para São Paulo e matricular-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Mora numa república estudantil e toma contato com os embates políticos candentes da época: liberalismo, republicanismo e abolicionismo. Liga-se a Luiz Gama para não só apoiar a causa abolicionista como auxiliar um movimento clandestino de facilitação de fuga de escravos fugidos das fazendas de café de São Paulo. Passa a colaborar na imprensa, desde quando se notabilizou como jornalista, profissão que exerceria em conjunto com o magistério e a advocacia.

Entretanto, seria lançado à vida pública do país a partir de 1888 quando realiza um grande discurso republicano em Santos, com sucesso estrondoso, o que o lançou definitivamente à carreira política.

Os eventos que precipitaram o comício republicano de Santos tiveram como origem a dissolução da câmara dos vereadores de São Borja pelo Império.

D. Pedro II encontra-se gravemente doente e o risco da sua morte colocaria o país numa situação de perigo. Isso porque a sua sucessora direta era a Princesa Isabel. Diziam os vereadores que a herdeira do trono era “uma mulher obcecada pela educação jesuítica”. E pior: casada como um estrangeiro, o Conde D’eu, o que colocava o Brasil sob o risco de ser governado por um príncipe ligado à Dinastia dos Orléans da França. A soberania nacional estava ameaçada por culpa das regras de sucessão monárquica, fortalecendo o ponto de vista republicano.

Os vereadores de São Borja aprovam monção sugerindo consulta à nação para decidir pela manutenção da Monarquia ou instituição da República, dado o risco de morte de D. Pedro II. O fato repercute pelo Brasil e ganha a adesão das câmaras de São Paulo e do Rio de Janeiro. O presidente do Conselho de Ministro do Império, Barão de Cotegipe, decide reprimir o movimento e dissolve a Câmara de São Borja.

Foi o estopim de uma crise que levou Silva Jardim a convocar o grande comício de Santos em 1888. Numa época em que a esmagadora maioria do povo não sabia ler, eram através dos meetings e comícios públicos que se convocava a massas ao debate político.  O orador passava horas fazendo os discursos substituindo através da palavra falada a doutrina republicana dos livros e jornais.

Silva Jardim e os demais republicanos exploravam as contradições internas do Regime Monárquico para defender a República.  Já vinham usando a figura impopular do Conde D’eu para atacar o Império através da imprensa republicana, acusando o genro de Dom Pedro II de negociatas e até mesmo de explorar cortiços no Rio de Janeiro. O conde e sua esposa eram o bode expiatório ideal para a propaganda republicana.

O sucesso do comício de Santos leva Silva Jardim a levar adiante uma grande campanha nacional em defesa da república - pretende fazer manifestações por todo o país. Seu objetivo era erguer as massas para a derrubada violenta da Monarquia. Abandona a advocacia, vendendo a sua participação societária da banca que tinha na cidade de Santos. Todo o dinheiro arrecadado foi destinado à campanha.

As manifestações republicanas eram assaltadas pelos chamadas Guardas Negras. A tardia abolição da escravatura do Brasil foi feita ainda sob o regime monárquico, fazendo com que parcela do povo negro, beneficiado pela alforria, depositasse toda sua simpatia à Princesa Isabel. Isso colocava os ex-escravos em choque direto com os republicanos – acusavam-nos de querer restaurar a escravidão.

Os Guardas Negros eram capoeiras e alforriados recrutados com a finalidade de dissolver os comícios republicanos. Atacavam armados de navalhas e cacetes. Conta-se que recebiam dinheiro e orientações da polícia do Rio de Janeiro. Numa manifestação no Salão da Sociedade Francesa, os Guardas Negros cercam o prédio e pedem a cabeça de Silva Jardim. O rebelde republicano resiste. Em suas memórias, descreve o evento da seguinte forma:

“Conservei-me de pé, na tribuna, protestando não me retirar dali....Tirei o meu revólver e dispus-me a defender com a vida a liberdade de pensamento. Aí fiquei para bem simbolizar esse direito; era ali que deveria morrer, ou continuar a falar. De resto, era um melhor ponto para dirigir o combate...”.

Pouco tempo depois, o II Império seria derrubado pelo golpe militar de 15 de Novembro. Deodoro da Fonseca assume o poder provisório e uma nova assembleia constituinte foi convocada para o ano de 1890. 

Silva Jardim, representando a ala mais jacobina do movimento republicano brasileiro, é logo preterido por setor moderada predominante no Partido Republicano – cumpre salientar que o partido sequer emprestou o seu apoio público ao comício de Santos, dados os riscos de se desafiar publicamente a autoridade do II Império.

Após a proclamação da República, Silva Jardim tenta ser eleito como deputado constituinte em 1890 mas é derrotado. Frustrado com os rumos políticos do país, viaja à Europa, onde faleceria num acidente na cidade de Pompeia, Itália.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

José de Anchieta (1534/1597)

 José de Anchieta (1534/1597)



Os primeiros jesuítas que chegaram ao Brasil vieram na esquadra que trazia o 1º Governo Geral à recém descoberta colônia portuguesa. Isso se deu no ano de 1548. A nomeação de Thomé de Souza ao Governo Geral respondia à necessidade da Coroa Portuguesa superar a fragmentação das capitanias hereditárias, restabelecer e reforçar o poder político dos portugueses no território recém descoberto da América, onde o abandono do período que marcou as primeiras décadas da colonização possibilitou o assalto do território pelos franceses e ingleses.

Daquele primeiro grupo de jovens padres oriundos do Colégio dos Jesuítas de Coimbra que aportou no Brasil se notabilizaram Manuel da Nóbrega e José de Anchieta.

Através das primeiras missões jesuíticas na região de São Vicente, buscaram levar a fé católica aos índios através do teatro, da poesia e da música. Anchieta foi o primeiro estudioso e autor de uma gramática tupi, utilizada por todas as demais missões pelo Brasil. Foi também fundador da cidade de São Paulo. Participou ativamente da defesa da Capitania de São Vicente e do Rio de Janeiro contra os franceses e os índios tamoios – e serviu em uma missão de paz em que se entregou voluntariamente como refém dos índios da tribo inimiga por sete meses.

José de Anchieta nasceu em 1534 na ilha das Canárias, àquela época pertencente à Espanha. Ainda criança, muda-se à Portugal, onde se candidata ao Colégio da Companhia de Jesus. A partir de 1550, esse colégio começa a mobilizar seus alunos para atuar como missionários na Colônia. Mesmo com graves problemas de saúde, Anchieta se engaja na missão que aqui aporta em 1553. Era então um jovem de dezenove anos de idade, cujas qualidades morais já o notabilizavam perante seus companheiros.

Em 1554, José de Anchieta e outros doze missionário fundam o Colégio de São Paulo, o que redundou no marco fundador da cidade de São Paulo. Nos primeiros dias daquele ano, um grupo de religiosos, dentre eles, Anchieta, sobe a Serra do Mar a pé e atinge o planalto, onde vão se instalar e constituir as primeiras missões.

No dia 24 de janeiro, os missionários prepararam um barracão no planalto paulista, ao lado de uma tribo indígena. A missa foi rezada no dia 25, dia do Apóstolo São Paulo, e por conta da data a cidade passou a ter o nome do santo. José de Anchieta em carta relata como tudo se deu:

- A 25 de janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos a paupérrima e estreitíssima casinha a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos a nossa casa.

A grande metrópole do Brasil começou, portanto, como um aldeamento indígena. E até hoje diversos cantos da cidade ecoam nomes que remontam à língua falada pelos índios: Itaquera, Mboi-mirim, Tucuruvi, Anhangabaú e Jabaquara são todos nomes que vêm do Tupi.

Imediatamente após a instalação do barracão e do colégio, os missionários passaram ao trabalho de catequese, batizando crianças e buscando levar instrução aos índios, por meio das aulas no Colégio de São Paulo, onde também se formavam novos jesuítas. A atividade missionária abrangia não só a conversão dos índios mas a evangelização dos colonos portugueses – em minoria, os brancos que se aventuravam à exploração da colônia assimilavam a cultura pagã dos nativos, o intercurso sexual irrestrito e até atos bárbaros de assassinato e guerra, demandando a intervenção moralizadora dos jesuítas.

No ano de 1557 os franceses instalam-se no Rio de Janeiro, por onde ficam durante dez anos. Só serão expulsos por Mem de Sá em 1567 quando é fundada a cidade do Rio de Janeiro. Naquele contexto de guerra de expulsão dos franceses, os índios tamoios foram recrutados pelos invasores para atacarem os portugueses, valendo-se de inimizades prévias. Os tamoios, instigados pelos franceses, pretendem atacar São Paulo. Os ataques acontecem em julho de 1562 e a defesa fica a cargo de João Ramalho ajudado por Tibiriçá, seu sogro e cacique tupiniquim.

Os jesuítas, inimigos da escravização dos índios, decidem intervir através de missão de paz junto aos índios Tamoios. São encaminhados dois pacificadores: Manuel da Nóbrega e o Padre Anchieta. É feito um acordo: duas lideranças dos Tamoios ficariam reféns dos portugueses e os dois padres da Companhia ficariam reféns dos Tamoios, tudo para a garantia de paz durante a trégua da Guerra. Por ser o maior conhecedor da língua Tupi, Anchieta era a pessoa certa para cumprir a missão.

Durante os sete meses que ficou com os Tamoios, Anchieta continuou seu trabalho de evangelizar. Esteve sujeito ao assédio e zombaria dos índios – o seu voto de castidade desafiava a imaginação das índias que se ofereciam voluntariamente ao sexo e eram pudicamente rejeitadas. Em determinado momento, um cacique o ameaça de morte, culpando-o pela ausência de caça nas armadilhas.  Anchieta fez uma promessa rogando por sua salvação dos índios: escreveu na areia da praia um longo poema dedicado à “Virgem Maria Mãe de Deus”. O jesuíta memorizou o poema para depois passa-lo no papel: ao todo 4172 versos em latim.

Após a expedição de paz junto aos Tapuias, Anchieta viaja à Bahia onde é ordenado padre aos trinta anos de idade. No ano de 1570 com a morte de Manuel da Nóbrega, Anchieta assume do Colégio dos Jesuítas do Rio de Janeiro. Entretanto, já em 1574 o jesuíta retorno à São Vicente para retomar o trabalho de evangelização dos tapuias . Continuaria sua vida de missionário, viajando por todo o país, até o ano da sua morte em 1597. Faleceu quando tinha 63 anos de idade e 44 anos prestando os seus serviços ao Brasil. Conta a história que milhares de índios acompanharam o enterro do padre caminhando por 90 km. 

Hoje José de Anchieta é conhecido como apóstolo do Brasil.