A LITERATURA DE JOSÉ J. VEIGA
José Jacinto
Veiga nasceu em 02 de fevereiro de 1915 numa cidade do interior de Goiás
chamada “Corumbá de Goiás”. Iniciou-se na literatura relativamente tarde, seu
primeiro livro de contos foi publicado em 1959 quando já tinha 45 anos de idade.
Formado em
Direito pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro, acabou abraçando o
jornalismo, tendo colaborado na imprensa carioca e na BBC de Londres.
A infância do
escritor, naquele vilarejo goiano, provavelmente serviu de referência para
construir Manarairema, a cidade fictícia onde se passa o seu mais conhecido
romance, chamado a “A Hora dos Ruminantes” (1966).
Também nos seus
contos há um claro predomínio dos espaços rurais que remontam ao grande sertão
brasileiro.
Contudo, a
despeito da dimensão telúrica das histórias de Veiga, onde emergem fazendas e
campos, rios e florestas, o escritor sempre opta por não nomear o local e
situar o período histórico em que se passam os eventos. Não sabemos se eles
ocorrem em Goiás ou em Minas Gerais, se acontecem em 1920 ou 1820.
Quando muito, o
escritor faz alusão ao nome de uma fazenda ou cria uma cidade fictícia, ao
passo que o predomínio rural nas histórias sempre surge em detalhes, como até
mesmo em utensílios domésticos de uma cozinha: “o moinho de café na beirada
da mesa, o pilão encostado na parede, as panelas emborcadas na prateleira, o
caldeirão de água quente no fogo, soltando uma fumacinha preguiçosa, a réstia
de um alho no prego”. (Conto “Na Estrada do Amanhece”).
Essa opção por
não nomear lugares e situar historicamente os eventos é certamente intencional. Veiga compartilha do horizonte de
João Guimarães Rosa, servindo-se do sertão brasileiro para tratar daquilo que é
universal. Para ambos os escritores, o Sertão é nada menos do que um palco onde
se encena o drama universal em torno das grandes questões humanas.
Os contos de
José J. Veiga têm esse mesmo pendor
existencialista, está em oposição direta a tudo o que é pitoresco para, em
contrapartida, tratar dos grandes dilemas do homem, independentemente do tempo
e do lugar.
A morte de uma
criança picada por uma cobra no conto “Tarde de Sábado, Manhã de Domingo”
evidencia os conflitos de consciência do narrador adulto que se sente
responsável pela tragédia ocorrida quando era menino.
O assassinato
chocante de um fazendeiro no conto “Na Estrada do Amanhece” que alguns dias
antes da morte curiosamente se reconcilia com inimigos e exprime o perdão como
se intimamente sabia que a morte estava por vir. Esse mesmo fazendeiro, chamado
Belmiro, filosoficamente ensina uma criança a não chorar pela morte de um
bezerro, apresentando a tese da reencarnação e dizendo que a vida continua do
lado de lá.
A candidez e
pureza das crianças na sua percepção de mundo, relativizando o que é grande e
pequeno no conto “Diálogo da Relativa Grandeza”. Ou as cogitações íntimas de um
cachorro vira lata adotado numa fazenda, a partir de quando altera o seu
comportamento como se fosse inteiramente movido por sentimentos humanos em “O
cachorro Canibal”. Todas são pequenas histórias que se passam no campo mas que
traduzem cogitações universais.
A dimensão
existencialista e filosófica do texto converge com um realismo brutal que
dialoga com a filosofia do absurdo. Para usar o mesmo exemplo citado, a
tragédia envolvendo uma brincadeira de crianças que termina na morte pela
picada de cobra, esse conto nos faz lembrar de “A Peste” do filósofo
existencialista Albert Camus – são as fatalidades que surgem sem uma explicação
causal aparente, inobstante as tentativas do homem de atribuir um sentido às
coisas, a realidade e a natureza mantém a sua mais completa indiferença,
causando o desconforto do absurdo.
Outro aspecto
notável dos contos de José J. Veiga diz respeito à rara capacidade de captar
emoções e sentimentos; através de alguns pequenos detalhes de comportamento o
escritor revela aquilo que passa pela cabeça dos personagens, como se pequenas condutas
refletissem o que há de mais escondido na alma.
Cito como
exemplo uma criança assolada pelo medo
de ver o seu pai morto mas, no seu inconsciente, um súbito pensamento que
sugere um efeito positivo dessa morte, o que lhe gera prontamente o sentimento
de culpa:
“Tubi
deitou-se no banco da varanda e ficou pensando como seria a vida no Amanhece se
o pai morresse (...). Seria ruim demais não ter o pai, como dizem que é? De
repente ele se lembrou do catecismo, pecado, inferno, fez o nome do pai
disfarçado, virou-se para a parede e dormiu” (conto “Na estrada do amanhece”).
Outras histórias
mantêm esse horizonte universalizante, mas enveredando agora ao realismo
fantástico. É o caso do seu mais conhecido romance, chamado “A Hora dos
Ruminantes”.
A HORA DOS
RUMINANTES
O realismo
fantástico ou mágico foi uma forma com que se qualificou uma série de obras
literárias latino-americanas produzidas entre as décadas de 1960 e 1970.
Diante do
impacto dos golpes militares que instituíram regimes de exceção em praticamente
todos os países da América Latina, criou-se um estilo de narrativa em que o
absurdo emerge da realidade cotidiana e banaliza-se na percepção dos
personagens.
Os elementos
mágicos e fantásticos são concebidos como parte de uma nova “normalidade”, e
assim também são percebidas pelos personagens. Há uma convergência entre aquilo
que é comum e banal com aquilo que é sobrenatural. A conjuntura política
daquele período, marcado por regimes de exceção que se eternizaram por anos a
fio, se comunica com essa proposta de criação de uma expressão literária na
qual a fantasia e o sobrenatural exsurgem da realidade, para elas próprias
tornarem-se um novo estado de normalidade, apenas contestada por alguns
espíritos isolados, dotados de alguma rebeldia.
As ditaduras
militares que apareceram como um regime de exceção provisório para contornar o
risco da revolução impõem um novo estado de normalidade, em que o que era
absurdo deixa de ser percebido como tal.
O romance “A
Hora dos Ruminantes” (1966) do escritor goiano
é talvez a versão mais bem acabada do realismo fantástico na literatura
brasileira.
Escrito dois
anos após o golpe de 1964, o romance trata de um pequeno vilarejo fictício
chamado Manarairema, onde uma população de simples camponeses e artesãos é
surpreendida pelo aparecimento de um povo estrangeiro, que desde o horizonte,
num certo dia, surge e constitui um acampamento. Aqueles estranhos despertam
num primeiro momento a curiosidade do povo de Manarairema, isolados que sempre
estiveram de qualquer novidade vida de fora:
“No dia
seguinte a cidade amanheceu ainda sem toucinho, mas com uma novidade: um grande
acampamento fumegando e pulsando do outro lado do rio, coisa repentina, de se
esfregar os olhos. As pessoas acordavam, chegavam à janela para olhar o tempo
antes de lavar o rosto e davam com a cena nova. Uns chamavam outros, mostravam,
indagavam, ninguém sabia. Em todas as casas era gente se vestindo às pressas,
embaraçando a mão em mangas de paletó, saindo sem tomar café, pisando em
cachorros lerdos, cachorros ganindo, gente dando peitada em gente, derrubando
chapéu, a algazarra, a correria. Todos deviam ter visto ao mesmo tempo a parte
alta do largo, as janelas dos sobrados, os barrancos estavam tomados de gente
olhando, apontando, discutindo”.
Os forasteiros
não têm nome e não têm rosto. Um ou outro cruza com os habitantes de
Manarairema pelas estradas e não cumprimentam, passam-se por ofensivos e
grosseiros. Contudo, aquelas pessoas tão estranhas, chamados pelo povo de
“homens da tapera”, vão misteriosamente se impondo e ganhando uma
preponderância moral sobre o povo do vilarejo.
Num primeiro
momento, os homens da tapera contratam os serviços de Germiniano, um preto que
aluga carroça de burro para o transporte de mercadorias. Não foi bem uma
contratação, mas uma intimação para obrigá-lo a transportar areia, sem que o
leitor saiba com clareza quais os mecanismos com que constrangem, compelem e
ameaçam o trabalhador a prestar os serviços.
Germiniano num
primeiro momento recusa o trabalho com indignação, pela forma com que é
abordado e por desconhecer a natureza daqueles homens. Depois de ser convocado
a ir pessoalmente ao acampamento, transforma-se completamente, assume estar
vivendo um novo estado de coisas, executa as ordens dos homens como se fosse
uma sentença inapelável de um juiz, e o seu medo vai se disseminando aos demais
cidadãos de Manarairema. Faz um eterno transporte de areias, sem coragem de
explicar aos demais o porquê de sua capitulação.
Segue um eterno
ir e vir, transportando a areia, tal qual o mito de Sísifo da mitologia grega,
que conta a história de um homem que foi condenado a empurrar uma pedra até o
topo de uma montanha para sempre, repetindo o processo quando a pedra
caísse. Mais uma vez aqui vemos
lampejos do existencialismo e da filosofia do absurdo de Albert Camus, ele
próprio autor de um ensaio sobre o Mito de Sísifo.
E assim,
sucessivamente, os homens da tapera vão convocando, sem possibilidade de
recursos, um ou outro habitante para lhe prestar serviços.
Constituem um
novo regime de medo e terror: aqueles que se recusam a comparecer aos chamados
são alertados às graves consequências da sua rebeldia. As ameaças não são ditas
de forma expressa por aqueles estrangeiros (eles quase não se manifestam na
história), mas são repercutidas pelos cidadãos que voltam transtornados do
acampamento vizinho. A coação é velada e não se sabe bem quais seriam as
consequências da transgressão da nova ordem; há, por outro lado, uma convicção
crescente no coração do povo do dever de respeitar e atender todos os chamados
dos homens da tapera. Os forasteiros se projetam quase como uma força divina,
capaz de aplicar os mais cruéis castigos às ovelhas que se desviassem da trilha
por eles traçadas ao rebanho.
A invasão dos
homens da tapera é seguida de outros eventos fantásticos.
Há uma segunda
invasão de cachorros, que tomam as ruas e casas de Manarairema sem que os
habitantes tenham força moral e iniciativa para rechaçá-los. Aceitam-nos
entrando nas suas casas e fazendo sujeira, como se fosse uma mera fatalidade da
natureza. Segue-se depois uma segunda invasão de bois, esta ainda mais
catastrófica, com os animais tomando todo o espaço da cidade, entupindo as ruas
de esterco, tornando o ar podre e obrigando os moradores a queimar fumo e casca
de laranja para aturar o odor.
O elemento
fantástico, na história, emerge gradualmente da realidade banal e comezinha de
Manarairema. Ao longo da história, a fantasia mais se avolumando, até resvalar
o absurdo. De uma invasão de forasteiros, à invasão de cachorros e por fim à
invasão de bois.
Por fim, num certo dia, os bois, os cachorros e os
homens da tapera regressam de onde vieram e a pacata cidade retorna à
normalidade. O livro termina com a imagem do tempo, que se interrompeu durante
o período da fantasia, quando se impôs a ditadura dos homens da tapera, para
retornar ao seu trabalho de cronometrar a vida.
E assim termina
o livro: “O relógio da igreja rangeu
as engrenagens, bateu horas, lerdo desregulado. Já estavam erguendo o peso,
acertando os ponteiros. As horas voltavam, todas elas, as boas, as más, como
deve ser”.






