“Memórias de Martha” – Júlia Lopes de Almeida
Resenha Livro - “Memórias de
Martha” – Júlia Lopes de Almeida – Ed. Principis
Pouco conhecida
nos dias de hoje, a escritora carioca Júlia Lopes de Almeida foi a mulher mais
lida do Brasil da Primeira República. Contemporânea de Machado de Assis e
Aluízio de Azevedo, foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras,
principal instância de consagração literária do Brasil.
Por outro lado,
assim como Lima Barreto, a escritora teve de lidar com as terríveis
vicissitudes relacionadas aos preconceitos da época. Barreto por ser negro,
lidou e descreveu em seus livros o desprezo e a discriminação seculares
relacionados a um país recém egresso da escravidão. E Júlia Lopes, por ser
mulher, teve que arcar com dificuldades relacionadas ao momento histórico,
quando a literatura era uma atividade exclusivamente masculina.
Numa entrevista
concedida a João do Rio em 1905, Júlia Lopes conta que na adolescência fazia
versos escondida: fechava-se num quarto, abria a secretária, escrevia seus
poemas e silenciosamente os guardava na gaveta fechada à chave.
Esta experiência
irá posteriormente se expressar nos seus livros, marcados por um estilo
intimista. Sua literatura tem sempre uma atmosfera de interiorização, como se
ela escrevesse voltada para dentro. Tal qual a adolescente trancada num quarto,
fazendo algo que àquela época era inadmissível a uma mulher.
“Memórias de
Martha” (1899) é um romance representativa dessa orientação introspectiva. Além
de narrar a história de uma jovem que reside num cortiço do subúrbio carioca,
os eventos se combinam com a sondagem dos sentimentos e emoções mais profundos
da protagonista. Martha por meio das
suas memórias, narrando em primeira pessoa, irá contar o que viu, o que viveu e,
mais importante, o que sentiu.
Suas primeiras
memórias da infância despontam um evento trágico. O pai de Martha era um caixeiro
viajante e numa de suas viagens de trabalho, perde acidentalmente um dinheiro
que não lhe pertence. Humilhado pelas insinuações de que fosse um ladrão, decide
se enforcar dentro de casa. A morte do chefe de família conduz Martha e sua mãe
à situação de extrema penúria: são despejadas da casa onde moravam por falta de
alugueis e obrigadas a morar num cortiço, onde grasse a pobreza e a
contaminação pelo sarampo e difteria.
A lembrança do
corpo do pai estendido no chão da sala lhe causa indiferença na vida adulta;
por outro lado, a conexão da protagonista com sua mãe é profunda, o amor pela genitora
é fruto do desvelo com que é cuidada, do sacrifício com que a viúva servia a
filha, trabalhando arduamente para manter Martha na escola, lavando roupas para
fora, adoecendo e envelhecendo pela filha.
Era o amor sincero
de uma alma angelical: essa mãe, mesmo desfalecida pelo trabalho árduo, chegava
aos mais extremos sacrifícios pela filha. Quando Martha, ainda criança, caiu gravemente doente, sua mãe “enlouquecida,
não me desamparava....velava assídua noite e dia, por sua pobre doentinha,
evitando o menor golpe de ar, proporcionando todo o possível conforto”.
Além dos eventos
da vida doméstica, da realidade do cortiço, das aulas na escola, das
brincadeiras de criança no cortiço, do trabalho como professora e do casamento por
conveniência, Martha também narra os seus sentimentos, revela sua percepção
sobre si própria, dentro daquela orientação introspectiva que remonta à literatura
feminina: de Clarice Lispector a Adalgisa Nery, são muitos os exemplos de
romances e contos em que os eventos ganham menos importância do que a forma com
que eles são percebidos e interpretados pela alma feminina. Trata-se de
espíritos dotados de uma sensibilidade extremamente sutil, às vezes
dilacerante, que produz a emotividade e traduz alguns sentimentos íntimos
ignorados pelos homens.
Martha tem uma
visão autodepreciativa do seu corpo: em diversas passagens da história revela
se sentir envergonhada de si própria, do seu jeito retraído e das suas roupas.
Sente uma revolta contra a sua aparência banal e desinteressante por ela não
traduzir a beleza e complexidade de sua alma.
Martha é
extremamente escrupulosa consigo e com o seu passado. Não hesita em revelar
seus erros e até mesmo algumas pequenas imoralidades: por exemplo quando exigiu
da mãe num contexto de pobreza extrema a compra de uma boneca cara, igual a de
uma vizinha rica. Ou quando abandona sua melhor amiga da escola, após a
descoberta de um furto que leva essa colega ao isolamento e expulsão do
colégio.
No amor, Martha
também não deixa de expressá-lo sem se preocupar em omitir o seu fracasso. Nunca
fora cotejada, chegou-se a apaixonar por um homem após uma breve troca de
olhares, para depois descobrir não ter sido correspondida. Apenas aos 24 anos
de idade, recebe uma proposta de casamento: mas vinda de um homem muito mais
velho, que faz o pedido diretamente à mãe, sem nunca ter travado qualquer relação
com a protagonista. O típico casamento convencional daquela época (1900).
Martha aceita o
casamento sem um pingo de entusiasmo. Afirma que aceitou o matrimônio como uma
forma de se vingar de si mesma: todo o ultraje que sentiu na sua imaginação de
moça quando confrontada com a rejeição e sua inaptidão em atrair o interesse
dos homens poderia ser agora “vingado” por um casamento convencional, e isso
pouco tempo depois de ter um diagnóstico de histeria, o resultado mais típico
da mulher que não recebe o amor do homem.
O fim das memórias
coincide com a morte da mãe de Martha, qualificada por ela em diversas
passagens do romance como uma “amiga”, muito mais do que propriamente uma
ascendente. A relação de ternura entre ambas sugere antes um vínculo de irmãs
do que de mãe e filha.
A morte dessa
mãe e “amiga” é fruto da exaustão com que trabalhou lavando roupas no cortiço para
dar um futuro à Martha. A morte ocorre logo após o casamento da protagonista e
sugere, ao final da história, que a mãe/“amiga” apenas sobreviveu o suficiente
para ver sua filha em situação de cuidado no matrimônio. Depois expirou
aliviada por ter cumprido a sua missão.
O livro, a
despeito da sua orientação intimista, ainda segue dentro dos quadrantes do
realismo literário.
Não há
idealizações, a linguagem é simples e o estilo é objetivo; a temática envolve a
descrição da realidade do subúrbio carioca, há incidentalmente a crítica social
da literatura realista, menos em torno da “questão feminina” e mais em torno das
desigualdades sociais e da pobreza do cortiço. Não há nenhum indício de “idealização”
do passado, dada a forma extremamente escrupulosa com que a narradora conta o
seu passado, quase de forma impessoal. Essa combinação entre objetividade e
introspecção, fatos e sentimentos, revela o que há de melhor no romance.






