A Lenda do Jurupari
Resenha
Livro – “Jurupari” – Francisco Brasileiro – Livraria Martins Fontes – 1948
O folclore é
expressão da cultura popular que, se via de regra, se transmite através de
tradição oral – pode até ser reunido e compilado através da literatura (como a
literatura de cordel) ou estudos históricos, mas a sua fonte deriva de
histórias contadas, de geração a geração. No que toca às lendas indígenas, suas
origens remetem ao período pré-colombiano: figuras como Tupã e Jurupari
existiam no imaginário dos índios Tupi muito antes da chegada dos Portugueses
ao território onde hoje se situa o Brasil.
Essa
circunstância cria um primeiro problema: a dificuldade enorme de dimensionar o
que foram aqueles mitos e como eles foram aclimatados a partir da chegada dos
portugueses, notadamente através das missões dos jesuítas, que dialogavam com
as entidades espirituais indígenas para levar adiante o seu plano missionário.
É o caso do mito
do Jurupari, entidade espiritual amplamente disseminada entre os povos indígenas
ao tempo da instalação dos portugueses. Dentro do dualismo envolvendo céu e o
inferno, bem e o mal, os missionários utilizaram do mito de Jurupari
traduzindo-o como a figura do Diabo ou de Satã, em oposição à Tupã, figurando
como o Deus cristão.
A tentativa de
aclimatar o cristianismo ao imaginário do índio significou, portanto, a ressignificação
das lendas, tornando hoje difícil situar com precisão como essas figuras
mitológicas foram originalmente concebidas. O risco de anacronismo é enorme:
entender como correto um determinado conceito de passado longínquo desconsiderando
a forma como ele foi se ressignificando ao logo dos séculos e a nova roupagem
que adquiriu a partir da intervenção dos padres.
O que se sabe é
que Jurupari não era para os povos indígenas propriamente uma figura do mal,
ainda que sempre temida. Consta que foi concebido como uma espécie de
legislador, uma liderança que granjeou autoridade moral perante a pajelança
para instituir um novo código de conduta estruturada no regime do patriarcado.
É através da
figura do Jurupari que se evidencia a centralidade da pajelança: talvez por
conta disso, foi um alvo fácil dos jesuítas, já que a atividade de conversão ao
cristianismo envolvia o confronto direto com as tradições religiosas milenares
dos pajés.
A mãe de
Jurupari, remetendo à figura de Eva (e novamente vemos aqui a influência dos
jesuítas) concebeu o herói após comer um fruto proibido. Foi expulsa da tribo
pelo ato ilícito e concebeu Jurupari, conhecido como filho do sol.
A lenda também
está associada a fenômenos de premonições e terror noturno. Fala-se que
Jurupari atacava no período da noite e, até hoje, se encontra numa rápida busca
pelo tema no Youtube depoimento de indígenas que se referem a Jurupari como
algo parecido como um demônio da floresta que traz maus presságios[1].
Uma forma de
conhecer a história do mito se dá através da leitura do romance injustamente
pouco conhecido de Francisco Brasileiro, chamado “Jurupari”. Há pouquíssimas
informações sobre a obra e seu autor na internet. Sabe-se que ela se sagrou
vitoriosa classificada em 1º Lugar do Prêmio Monteiro Lobato do Departamento de
Cultura de São Paulo no ano de 1948.
A história,
contada em primeira pessoa, retrata a epopeia de um sertanista que se lança à
floresta amazônica em busca do ouro, remetendo à milenar epopeia que conduziu
através da cobiça a atividade bandeirante em busca de uma terra misteriosa onde
há a abundância dos diamantes.
Esse narrador reúne
em si as qualidades de poeta e sertanista. A narrativa tem forte conteúdo
poético e lírico e, como é feita em primeira pessoa, temos a impressão de estar
diante de um matuto sertanejo dotado da mais alta sensibilidade em perceber a
natureza e os índios.
Isso cria um
impacto no leitor e até gera uma certa inverossimilhança quando se constata no
narrador um caboclo capaz de viver como os índios, sobrevivendo na floresta,
caçando, pescando, construindo barcos e guerreando, e ao mesmo tempo extremamente
imaginativo ao ponto de escrever um livro cercado de lirismo e poesia.
Vejamos uma cena
em que esse narrador narra os seus contatos com um grupo de índios:
“A tudo eu
assisti, sentado com as pernas cruzadas fitando o fogo à minha frente. Uma estranha
capacidade de sentir me havia tocado de tal forma, que aquelas cenas me
atingiam profundamente. Era um novo mundo a se abrir ante os meus olhos cheios
de pasmo, eram novas emoções a ferirem minha sensibilidade. Um acendrado
respeito fazia-me reverenciar aquelas práticas como se eu me tivesse remontado
aos primórdios do gênero humano e me fosse dado assistir à conduta de meus
semelhantes na aurora da raça. Ali, diante de mim, estava o remoto passado.
Entre eu e aqueles índios havia talvez um espaço de cem mil anos”.
Na peregrinação pelos sertões, o narrador se depara com uma reunião de pajés que lhe confiam um manuscrito contendo uma lenda até então indecifrável. Ainda que fosse capaz de ler, o narrador demora algum tempo até conseguir traduzir o texto, escrito num português antigo, redigido por um sertanista português que se perdera por aquelas terras no ano de 1600 e foi rebatizado como Abá.
Orgulhoso e
arrogante, esse lusitano serve-se de sua arma de fogo para se impor perante os
índios. Até que certo dia é confrontado com um feiticeiro chamado Abarê que
será posteriormente o seu mentor espiritual. Num primeiro momento, esse pajé num
passe de mágica transforma as armas de Abá em pó e lhe provoca um sentimento de
pânico que o desmoraliza perante a tribo – para o índio, nada mais
desmoralizante do que a covardia.
O branco é
imediatamente cercado e atacado pelos homens da tribo que lhe desferem golpes
nos pés impossibilitando-o de andar. É obrigado a passar certo tempo se
rastejando, implorando água e comida, na mais completa situação de humilhação.
Quando consegue
depois de algum tempo ficar de pé, Abá é feito escravo da tribo por vinte anos.
Executa os trabalhos mais humilhantes e é alvo de desdém das mulheres,
crianças, idosos e até dos bichos.
Depois de duas
décadas humilhado como escravo, Abá aprendeu através da prática o valor da
humildade e adquiriu forças físicas pelo trabalho forçado. Desenvolveu a
capacidade de conter o orgulho e a exaltação de si próprio, ao mesmo tempo que aprimorou
o rigor físico.
Novamente
inspirado por Abarê, rompe com as amarras da escravidão esmagando o crânio de
um índio com os próprios punhos. É novamente alçado à condição de liderança
moral da tribo, mas agora um rei justo, que inclusive determinava que cada um
era obrigado a passar certo tempo como escravo só para aprender dessa forma a
desenvolver a humildade. Depois disso é convidado a uma longa peregrinação com
o seu mentor para aprendizado.
Acredito que Abá,
no romance de Francisco Brasileiro, na condição de reformador dos costumes do
índio, é nada menos do que o próprio Jurupari!
A inadequação do
mito à noção do bem e do mal dos missionários cristãos se revela no livro pela
forma peculiar com que os índios encaram a vida e a morte. Para eles, diferentemente de
nós, nossa jornada não consiste num começo, meio e fim, que nos conduzirá ao
céu, ao inferno ou ao purgatório.
Para o índio, a existência
é uma só, consistindo em ciclos eternos de começo, meio e fim.
Em outras
palavras: a vida é uma somatória de
ciclos, parecida com cada dia com o seu alvorecer, o entardecer e o anoitecer; ao
passo que a morte encerra o último e derradeiro ciclo. Nada mais do que isso.
Por isso a morte
é encarada com extrema naturalidade pelos índios, que detestam profundamente
manifestações de covardia nas guerras: nas suas batalhas, os índios não
transmitem em sua face nem ódio, nem medo, nem piedade e nem tristeza. O índio
é ensimesmado, soturno e fatalista.
[1] https://www.youtube.com/watch?v=HvtQ22T61zQ
“Pegadas de “Mapinguari” ou “Jurupari” assustam
moradores da Vila Amazônia, interior de Parintins.








