quarta-feira, 27 de maio de 2026

Teoria Geral da Responsabilidade Civil

 Teoria Geral da Responsabilidade Civil



Resenha Livro – “Direito Civil – Volume IV – Responsabilidade Civil” – Sílvio de Salvo Venosa – Ed. Atlas - 2015

A responsabilidade civil certamente é um dos ramos do Direito com maior incidência no dia a dia do homem comum. Mesmo sem saber conceituá-lo, todos temos alguma noção do que esse instituto do direito privado significa.

No acidente de trânsito, intuitivamente se sabe que os danos causados ao veículo devem ser indenizados por aquele que deu causa à batida. O protesto indevido decorrente de uma dívida inexistente gera restrições de crédito que igualmente evidenciam um dever de reparação. O atraso de um voo que implica na perda de um evento importante, como um casamento, gera uma situação que vai muito além de um mero aborrecimento e também se traduz na obrigação de indenizar.

Justamente por isso, a responsabilidade civil, ou seja, a  obrigação legal de reparar um dano causado a outra pessoa, surge desde os momentos mais remotos da evolução histórica do Direito.

Sílvio Salvo Venosa arrisca dizer que esse princípio de não causar danos a terceiros teve como primeira fonte legal a “Lei de Talião”:

“O famoso princípio da Lei do Talião, da retribuição do mal pelo mal, “olho por olho”, já denota uma forma de reparação do dano. Na verdade, o princípio é de natureza humana, qual seja, reagir a qualquer mal injusto perpetrado contra a pessoa, a família ou o grupo social. A sociedade primitiva reagia com violência. O homem de todas as épocas também o faria, não fosse reprimido pelo ordenamento jurídico. O anseio de obrigar o agente causador do dano a repará-lo inspira-se no mais elementar sentimento de justiça” (VENOSA, Sílvio Salvo. 2015).

São dois os principais artigos do Código Civil que fundamentam a Responsabilidade Civil:

Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo. Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.

A leitura dos dois artigos do CC/02 evidencia os elementos constitutivos da responsabilidade civil: uma conduta ilícita; um dano de natureza patrimonial ou extrapatrimonial; e o nexo de causalidade.

É necessário haver uma conduta, uma ação ou omissão voluntária.

Trata-se do “ato ilícito” aludido no artigo 186, o que significa um comportamento voluntário que transgrida um dever ou uma norma. Para usar um dos exemplos supracitados, o motorista desatento que olha o celular enquanto conduz o veículo comete o ato ilícito, ao transgredir um dever de cuidado, em inobservância às regras do Código de Trânsito Brasileiro.

Deve-se ressaltar a “voluntariedade” do ato, que pode desaparecer no caso de inimputabilidade do agente. O absolutamente incapaz, sem discernimento e impossibilitado de exercer pessoalmente os atos da vida civil pode até gerar danos, mas quem responde por eles será o responsável legal. O mesmo pode ser dito do animal que ataca uma pessoa na rua, obviamente sem capacidade de compreender a ilicitude da sua conduta. Mas o dever de reparação se estende ao responsável legal, ao dono do animal ou ao curador especial do incapaz. E isso pela violação do dever de vigilância (culpa in vigilando.).

O dano de traduz em um prejuízo à vítima. Pode ser individual ou coletivo, patrimonial ou extrapatrimonial, e sua origem pode ou não estar relacionada à uma obrigação contratual: diferencia-se aqui a responsabilidade civil contratual e a responsabilidade civil aquiliana (extracontratual ou extranegocial).

Dano material é aquele que importa na diminuição do patrimônio. Tem um evidente conteúdo econômico. Subdivide-se em danos emergentes, na perda direta decorrente do ato ilícito, e nos lucros cessantes, que corresponde àquilo que a parte deixou de lucrar por conta da conduta do infrator.

 

Os danos emergentes e os lucros cessantes são disciplinados pelo artigo 402 do Código Civil:

Art. 402. Salvo as exceções expressamente previstas em lei, as perdas e danos devidas ao credor abrangem, além do que ele efetivamente perdeu, o que razoavelmente deixou de lucrar.

Já os danos morais são aqueles que importam na violação dos direitos da personalidade da vítima. São atos de lesão à honra, imagem, intimidade e integridade psicológica, que causam algum grau de sofrimento psíquico – a jurisprudência, neste sentido, exaustivamente afirma que o “mero aborrecimento”  do dia a dia não gera o dever de indenizar.

É natural aguardar alguns minutos numa fila de banco para ser atendido. Mas a espera por um ou dois dias numa fila de hospital para atendimento emergencial pode configurar a violação dos direitos da personalidade e o consequente dever de indenizar.

Pouca gente sabe que nem sempre o dano moral foi aceito como fonte da obrigação de indenizar pelo Direito brasileiro.

Até o advento da Constituição Federal de 1988, havia grande reserva na jurisprudência em conceder uma indenização por danos morais, ou seja, situações envolvendo atos ilícitos sem uma repercussão econômica imediata, sem uma diminuição patrimonial evidente, como o prejuízo pelo conserto do carro na supracitada hipótese de acidente.

Mesmo o Supremo Tribunal Federal até 1988 era refratário ao cabimento da  indenização por danos morais, a despeito da sua majoritária aceitação na doutrina.

A Carta Magna pacificou a matéria em dois artigos:

 V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;

X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

Portanto, desde a CF/88 deixou de fazer sentido se discutir sobre o cabimento da indenização por danos morais à luz do ordenamento jurídico brasileiro. O que se discute hoje é se o dano extrapatrimonial ocorreu ou não à luz da controvérsia instaurada em juízo.

Por fim, o último elemento constitutivo da responsabilidade civil é o nexo de causalidade, a relação de causa efeito entre a determinada conduta e o dano experimentado, seja de natureza material, seja de natureza moral.

Pelo nexo de causalidade devemos nos questionar: há uma relação de causa e efeito entre a conduta de A e o dano experimentado por B? Justamente por isso, é por meio do exame da relação causal que se conclui quem foi o causador do dano.

Não havendo esse liame necessário entre a ação ou omissão do infrator e o dano experimentado pela vítima, inexiste dever de indenizar, por falta de nexo causal. Mesmo nas hipóteses de responsabilidade civil objetiva, qual seja, aquela que prescinde do exame de culpa do causador do dano.

Fala-se, por outro lado, em situações excludentes do nexo de causalidade que podem afastar o dever de indenizar: (i) a culpa exclusiva da vítima; (ii) o fato de terceiro; e (iii) o caso fortuito ou de força maior.

Um exemplo: o motorista dirige de acordo com o limite de velocidade e respeitando o sinal vermelho. Um pedestre atravessa a rua correndo fora da faixa de pedestres e é atingido. O dano existiu e ele foi causado pelo veículo conduzido pelo motorista prudente. Entretanto, o acidente ocorreu por culpa exclusiva da vítima imprudente, o que afasta o dever de reparação por ausência do nexo de causalidade pelo causador do dano.

Por se tratar de um ramo de ampla abrangência na vida social, todas as regras supracitadas irão variar bastante: a responsabilidade civil no âmbito das relações de consumo ou no direito ambiental, via de regra, se sujeitam a requisitos mais rígidos para afastar a obrigação de indenizar.

Entende-se que aqueles que desenvolvem atividades de risco, se beneficiando delas economicamente, devem responder independentemente de culpa – trata-se da citada responsabilidade civil objetiva prevista no supracitado parágrafo único do artigo 927 do CC/02 e aquilo que a doutrina qualifica como teoria do risco.

Por fim, cumpre tecer breves comentários sobre as discussões mais recentes na doutrina em torno do tema.

Atualmente, delineiam-se duas tendências históricas nos estudos e na aplicação da  responsabilidade civil.

A primeira delas é um movimento de cada vez maior abrangência do dever de indenizar, um movimento de maior “cobertura” aos danos, ou seja, um esforço de criação de meios cada vez maiores para que todo e qualquer dano causado seja indenizado, servindo-se sempre da teoria do risco. A medida que cada dano seja indenizado, o Direito cumpre a sua função de pacificação dos conflitos sociais.

A segunda tendência histórica é a de se afastar cada vez mais a noção de culpa para fins de arbitramento do valor da indenização.

Em geral, ao fixar o valor da indenização, o juiz não irá se atentar tanto ao grau de culpa do agente mas a extensão do dano – diferentemente do que havia historicamente, ao tempo da criação do instituto no Direito Romano. Especialmente no âmbito do Direito ambiental, a culpa levíssima pode gerar um valor de indenização milionário.

Essa tendência se evidencia pela leitura do artigo 944 do CC/02:   

Art. 944. A indenização mede-se pela extensão do dano. Parágrafo único. Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, equitativamente, a indenização.

Há a ressalva aqui no que toca ao dano moral, evidenciado no parágrafo único do artigo 944 do CC/02.

 Como é intuitivo, é difícil dimensionar em termos pecuniários qual seria a extensão exata de um dano moral – como dimensionar em dinheiro a dor decorrente de um atraso de voo que gerou o cancelamento de um casamento? O sofrimento decorrente de um erro médico que causa a morte de um filho?

A tarefa da liquidação do dano moral cabe ao juiz à luz do caso concreto. Em todo o caso, nessas hipóteses, a indenização servirá antes como um lenitivo à vítima, uma compensação em dinheiro pelo dano extrapatrimonial. E também servirá como uma sanção ao infrator, ou seja, terá a finalidade de compeli-lo a evitar repetir a conduta.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

“Lavoura Arcaica” – Raduan Nassar

 “Lavoura Arcaica” – Raduan Nassar




Resenha Livro - “Lavoura Arcaica” – Raduan Nassar – Ed. Livraria José Olympio

“Lavoura Arcaica” (1975) foi o livro de estreia Raduan Nassar, publicado quando o escritor já tinha 40 anos de idade. Foi imediatamente reconhecido como escritor de valor incomum, senão pelo grande público, ao menos pela crítica especializada. Já no ano subsequente ao lançamento do livro, Nassar ganhou premiação na Academia Brasileira de Letras, essa que é, ao menos formalmente, a principal instância de consagração literária do Brasil.

Depois da sua estreia meteórica, o escritor publicaria apenas outros dois romances. No auge da sua fulminante trajetória, decide abandonar a literatura para se dedicar à agricultura no interior de São Paulo.

Uma explicação dada pelo próprio escritor é que tudo aquilo que tinha para dizer já fora contemplado nesses poucos romances. “Lavoura Arcaica”, certamente o mais conhecido deles, foi adaptado para o cinema no ano de 2001, a despeito das enormes dificuldades de traduzir um texto altamente intimista e poético para a linguagem do cinema, amparada predominantemente na ação.

Os fatos, os eventos e o enredo não são os elementos mais decisivos do romance; eles se misturam e se embaralham com os sentimentos e emoções do narrador, despontam de maneira acessória porquanto a intenção do autor não é “contar uma história” mas expressar o fluxo do pensamento do personagem principal.

Neste sentido, o escritor não utiliza da pontuação: há capítulos de até 4 ou 5 páginas de uma mesma frase, sem o ponto final, destacando essa simultaneidade de eventos e emoções que caracteriza o fluxo do pensamento.

O narrador não conta apenas o que viu ou o que presenciou. Ele comenta, sempre dentro da mesma oração, o reflexo desses fatos na sua alma, como sente o mundo, faz questionamentos e reflexões existenciais no mesmo ato de contar a história, sempre dentro de uma mesma frase. Ao relatar o que disse a um interlocutor, também afirma o que pensava naquele momento e o que quis falar mas deixou de dizer. Ao lado de diálogos, faz monólogos. Reproduz aquele fio eterno de continuidade que marca o pensamento do ser dotado de consciência.

Há nessa experimentação um forte componente poético do texto. Algumas passagens do romance podem ser lidas como versos de um poema, sempre observando a orientação geral das frases longas, em que coexistem, dentro de uma mesma oração: diálogos, monólogos, reflexões filosóficas, pensamentos íntimos e, por último, os eventos.  

O enredo propriamente dito remonta à história bíblica do filho pródigo. Aquele que abandona o lar familiar em busca do gozo para depois exercer o arrependimento e ser acolhido pelo pai através do perdão. Com algumas diferenças do conto bíblico, como veremos.

André, o protagonista, abandona a fazenda onde mora com a família para residir numa pobre pensão na cidade. É movido pelo desejo de liberdade, pela revolta em torno da figura opressiva do pai, o patriarca que dita as regras no seio da família. Sentados na mesa de jantar, os filhos e a mulher estavam diariamente sujeitos aos sermões do chefe de família. Todos trabalham na lavoura, estão obrigados a observar a disciplina, a austeridade e a moralidade do patriarca.

Em “Lavoura Arcaica” o filho pródigo rompe com a família, mas seus sentimentos não se reduzem apenas à revolta contra a autoridade e a tradição. Ao expressar através da linguagem o fluxo de pensamento do narrador, vemos em André os mais desejos contraditórios: medo de abandono do pai, desejo de aceitação da família, saudades do afeto da mãe, ódio contra o convencionalismo da família, saudades da natureza do campo, desejos sexuais inconfessáveis. A essas circunstâncias se soma o amor incestuoso que o protagonista sente por uma de suas irmãs: esse sentimento bestial é revelado nos diálogos com o irmão mais velho e, ao final da história, esse amor proibido conduzirá à tragédia do filicídio, ao assassinato da filha Ana pelo patriarca.

Enquanto a primeira parte do livro “A Partida” trata da fuga da fazenda à cidade e da tentativa de o irmão mais velho levar consigo André de volta para família, na segunda parte chamada “O Retorno”, temos a volta do filho pródigo. Tal qual a história bíblica, a família igualmente decide realizar uma festa para comemorar o retorno.

Mas, como dito, há algumas diferenças importantes entre as duas histórias.

 A mais importante delas é que o sentimento de indiferença de André em relação ao perdão do pai. Diferentemente da parábola bíblica, o diálogo final de André com o genitor não revela o arrependimento pela fuga de casa, a despeito do perdão paterno. O que existe é a mais completa inexistência do entendimento: um diálogo em que o filho expressa seus sentimentos mais íntimos sem a mais remota compreensão do pai.

Ressalvado o uso abusivo do termo, pode-se dizer que "Lavoura Arcaica", escrito em 1975, antecede aquilo que ficou conhecido como “pós-modernidade”. O fim das ideologias dominantes do século XX dá lugar à perda de referências, à crise de tudo aquilo que conferia algum sentido coletivo ao homem, a família, a sociedade e o estado.

O protagonista vive a experiência de solidão brutal daqueles destituídos de vínculo de pertencimento. A pós modernidade é o rompimento com tudo aquilo que é teleológico. Essa falta de sentido, de finalidade da vida, é sanada em um dos sermões do pai: o essencial é olhar o mundo sem questionar jamais os desígnios insondáveis dos acontecimentos.

sábado, 2 de maio de 2026

“Memórias de Martha” – Júlia Lopes de Almeida

 “Memórias de Martha” – Júlia Lopes de Almeida





Resenha Livro - “Memórias de Martha” – Júlia Lopes de Almeida – Ed. Principis

Pouco conhecida nos dias de hoje, a escritora carioca Júlia Lopes de Almeida foi a mulher mais lida do Brasil da Primeira República. Contemporânea de Machado de Assis e Aluízio de Azevedo, foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras, principal instância de consagração literária do Brasil.

Por outro lado, assim como Lima Barreto, a escritora teve de lidar com as terríveis vicissitudes relacionadas aos preconceitos da época. Barreto por ser negro, lidou e descreveu em seus livros o desprezo e a discriminação seculares relacionados a um país recém egresso da escravidão. E Júlia Lopes, por ser mulher, teve que arcar com dificuldades relacionadas ao momento histórico, quando a literatura era uma atividade exclusivamente masculina.

Numa entrevista concedida a João do Rio em 1905, Júlia Lopes conta que na adolescência fazia versos escondida: fechava-se num quarto, abria a secretária, escrevia seus poemas e silenciosamente os guardava na gaveta fechada à chave.

Esta experiência irá posteriormente se expressar nos seus livros, marcados por um estilo intimista. Sua literatura tem sempre uma atmosfera de interiorização, como se ela escrevesse voltada para dentro. Tal qual a adolescente trancada num quarto, fazendo algo que àquela época era inadmissível a uma mulher.

“Memórias de Martha” (1899) é um romance representativa dessa orientação introspectiva. Além de narrar a história de uma jovem que reside num cortiço do subúrbio carioca, os eventos se combinam com a sondagem dos sentimentos e emoções mais profundos da protagonista.  Martha por meio das suas memórias, narrando em primeira pessoa, irá contar o que viu, o que viveu e, mais importante, o que sentiu.

Suas primeiras memórias da infância despontam um evento trágico. O pai de Martha era um caixeiro viajante e numa de suas viagens de trabalho, perde acidentalmente um dinheiro que não lhe pertence. Humilhado pelas insinuações de que fosse um ladrão, decide se enforcar dentro de casa. A morte do chefe de família conduz Martha e sua mãe à situação de extrema penúria: são despejadas da casa onde moravam por falta de alugueis e obrigadas a morar num cortiço, onde grasse a pobreza e a contaminação pelo sarampo e difteria.

A lembrança do corpo do pai estendido no chão da sala lhe causa indiferença na vida adulta; por outro lado, a conexão da protagonista com sua mãe é profunda, o amor pela genitora é fruto do desvelo com que é cuidada, do sacrifício com que a viúva servia a filha, trabalhando arduamente para manter Martha na escola, lavando roupas para fora, adoecendo e envelhecendo pela filha.

Era o amor sincero de uma alma angelical: essa mãe, mesmo desfalecida pelo trabalho árduo, chegava aos mais extremos sacrifícios pela filha. Quando Martha, ainda criança,  caiu gravemente doente, sua mãe “enlouquecida, não me desamparava....velava assídua noite e dia, por sua pobre doentinha, evitando o menor golpe de ar, proporcionando todo o possível conforto”.  

Além dos eventos da vida doméstica, da realidade do cortiço, das aulas na escola, das brincadeiras de criança no cortiço, do trabalho como professora e do casamento por conveniência, Martha também narra os seus sentimentos, revela sua percepção sobre si própria, dentro daquela orientação introspectiva que remonta à literatura feminina: de Clarice Lispector a Adalgisa Nery, são muitos os exemplos de romances e contos em que os eventos ganham menos importância do que a forma com que eles são percebidos e interpretados pela alma feminina. Trata-se de espíritos dotados de uma sensibilidade extremamente sutil, às vezes dilacerante, que produz a emotividade e traduz alguns sentimentos íntimos ignorados pelos homens.

Martha tem uma visão autodepreciativa do seu corpo: em diversas passagens da história revela se sentir envergonhada de si própria, do seu jeito retraído e das suas roupas. Sente uma revolta contra a sua aparência banal e desinteressante por ela não traduzir a beleza e complexidade de sua alma.

Martha é extremamente escrupulosa consigo e com o seu passado. Não hesita em revelar seus erros e até mesmo algumas pequenas imoralidades: por exemplo quando exigiu da mãe num contexto de pobreza extrema a compra de uma boneca cara, igual a de uma vizinha rica. Ou quando abandona sua melhor amiga da escola, após a descoberta de um furto que leva essa colega ao isolamento e expulsão do colégio.

No amor, Martha também não deixa de expressá-lo sem se preocupar em omitir o seu fracasso. Nunca fora cotejada, chegou-se a apaixonar por um homem após uma breve troca de olhares, para depois descobrir não ter sido correspondida. Apenas aos 24 anos de idade, recebe uma proposta de casamento: mas vinda de um homem muito mais velho, que faz o pedido diretamente à mãe, sem nunca ter travado qualquer relação com a protagonista. O típico casamento convencional daquela época (1900).

Martha aceita o casamento sem um pingo de entusiasmo. Afirma que aceitou o matrimônio como uma forma de se vingar de si mesma: todo o ultraje que sentiu na sua imaginação de moça quando confrontada com a rejeição e sua inaptidão em atrair o interesse dos homens poderia ser agora “vingado” por um casamento convencional, e isso pouco tempo depois de ter um diagnóstico de histeria, o resultado mais típico da mulher que não recebe o amor do homem.

O fim das memórias coincide com a morte da mãe de Martha, qualificada por ela em diversas passagens do romance como uma “amiga”, muito mais do que propriamente uma ascendente. A relação de ternura entre ambas sugere antes um vínculo de irmãs do que de mãe e filha.

A morte dessa mãe e “amiga” é fruto da exaustão com que trabalhou lavando roupas no cortiço para dar um futuro à Martha. A morte ocorre logo após o casamento da protagonista e sugere, ao final da história, que a mãe/“amiga” apenas sobreviveu o suficiente para ver sua filha em situação de cuidado no matrimônio. Depois expirou aliviada por ter cumprido a sua missão.

O livro, a despeito da sua orientação intimista, ainda segue dentro dos quadrantes do realismo literário.

Não há idealizações, a linguagem é simples e o estilo é objetivo; a temática envolve a descrição da realidade do subúrbio carioca, há incidentalmente a crítica social da literatura realista, menos em torno da “questão feminina” e mais em torno das desigualdades sociais e da pobreza do cortiço. Não há nenhum indício de “idealização” do passado, dada a forma extremamente escrupulosa com que a narradora conta o seu passado, quase de forma impessoal. Essa combinação entre objetividade e introspecção, fatos e sentimentos, revela o que há de melhor no romance.

domingo, 26 de abril de 2026

“Juca Mulato” – Menotti Del Picchia

 “Juca Mulato” – Menotti Del Picchia




 Resenha Livro – “Juca Mulato” – Menotti Del Picchia – Edições de Ouro – Clássicos Brasileiros.

“Juca Mulato” (1917) pode ser considerada a grande estreia literária do escritor modernista Menotti Del Picchia (1892/1988).

Antes dela, o poeta paulista havia escrito apenas duas outras obras, sem a repercussão daquele que ainda hoje é o mais conhecido dos seus textos.

O poema foi escrito em 1917, cinco anos antes da Semana de Arte Moderna de 1922, o grande evento que lançou as bases do movimento modernista no Brasil.

Menotti Del Picchia foi um dos idealizadores do evento, tendo discursado na segunda noite de conferências no Theatro Municipal de São Paulo, numa palestra sobre o Futurismo.

É certo que a Semana de Arte Moderna de 1922 tinha como norte a oposição ao academicismo e à arte puramente decorativa. As maiores vítimas dos ataques da nova geração modernista eram o parnasianismo e o estrangeirismo que tinha até então informado todas as tendências literárias importadas da Europa, desde o Romantismo, até o Realismo, do Naturalismo ao Simbolismo.

Os modernistas (Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, e outros)  irão buscar redefinir a relação da nossa arte com escolas estrangeiras  através da fórmula da antropofagia. Não se tratava puramente de rejeitar as fórmulas europeias, nem mesmo meramente aclimatá-las às condições nacionais: assim como os índios ao tempo da chegada dos portugueses, os artistas devem “deglutir” o estrangeiro e reelaborar a arte com autonomia, criando algo novo e original.

O modernismo refletia também as incertezas sociais do contexto da I Guerra Mundial, da Revolução Russa de 1917 e da ascensão do fascismo na Europa ( a Marcha sobre Roma de Mussolini efetivamente ocorreu 9 meses após a Semana de 22). Além disso, o novo grupo de artistas expressava as novas realizações tecnológicas de fins do século XIX e início do XX: os automóveis velozes circulando nas cidades, o advento do cinema, a fotografia, o telefone, o gramofone, os bondes elétricos, a revolução causada pelo desenvolvimento da aviação, implicaram num conceito dinâmico da arte associada à velocidade e à simultaneidade, em oposição ao conceito estático tradicional, baseado no equilíbrio e na ordem.

Sobre o Poema Juca Mulato

Em quarenta páginas, Menotti Del Picchia conta em versos a história de um caboclo rude, mas dotado de sensibilidade poética. Juca Mulato é forte e duro como peroba, mas seu espírito é livre e independente como o vento; os seus braços foram feitos para trabalhar, mas sua alma foi feita para cantar a felicidade e a tristeza. A sua ternura lhe conduz à comoção poética quando confrontado com a beleza exuberante da natureza, dos rios, dos pássaros e das matas do interior paulista: tudo enquanto pita um cigarro de palha.  

O lirismo de Juca Mulato o faz plenamente aclimatado à natureza que o circunda.

Está sempre a cismar enquanto contempla as nuvens, os rios e as florestas, sempre ensimesmado, com o olhar vago e o pensamento nas estrelas:

“Nuvens voam pelo ar como bandos de garças,

Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira

pinceladas esparsas

de ouro fosco.  Num  mastro, apruma-se a bandeira

de São João, desfraldando o seu alvo losango.

Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o

Vem, na tarde que expira e na voz de um curiango,

o narcótico do ar parado, esse veneno

que há no ventre da treva e na alma do silêncio.

Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.”.

Mas a sua candura  também produz o sofrimento do amor não correspondido, quando se apaixona “pela filha da patroa” e descobre que nem a feitiçaria de um negro do candomblé lhe cura a doença do coração não correspondido:  

– Juca Mulato! Esquece o olhar inatingível!

Não há cura, aí de ti! para o amor impossível,

Arranco a lepra ao corpo; extirpo da alma o tédio;

só para o mal de amor nunca encontrei remédio…

Como queres possuir o límpido olhar dela?

Tu és qual um sapo a querer uma estrela…

A peçonha da cobra eu curo… Quem souber

cure o veneno que há no olhar de uma mulher!

Juca Mulato, se ainda não expressa as formas poéticas mais experimentais dos modernistas na forma de um Oswald de Andrade, de certa maneira remete a outra figura conhecida desse modernismo brasileiro, o “Macunaíma” (1922) de Mário de Andrade.

Ambos foram escritos na mesma época. E os dois personagens, o “Macunaíma” de Mário de Andrade e o “Juca Mulato” de Menotti Del Picchia buscam ser representativos de um povo. Macunaíma, nas sucessivas variações de sua fisionomia, índio, branco e preto, e na sua epopeia das matas até a cidade grande, é a síntese do Brasil, ao passo que Juca Mulato é a síntese do caboclo, a figura representativa do caipira paulista, deitado sob uma árvore a contemplar com o olhar vago a vida a passar: está sempre a cismar.  

Também por seu um personagem representativo de um povo, no caso uma síntese do caipira paulista, pode-se dizer ser o Juca Mulato um primo distante do Jeca Tatu de Monteiro Lobato.

A grande diferença é que o Jeca Tatu é, antes, uma caricatura da qual se serviu o autor do “Sítio do Pica Pau Amarelo” para criticar na imprensa a realidade social dos caboclos paulistas em situação de abandono e doença, especialmente o amarelão, que o torna em estado de letargia e inabilitado ao trabalho duro.  

A caricatura é via de regra superficial e busca, através do humor, realçar traços específicos e mais grotescos da personalidade: a preguiça e desleixo com que o caboclo cuida da roça, desde que enfermo cronicamente pelo amarelão, é a forma caricatural com que Lobato criou o Jeca Tatu.

O Juca Mulato é muito mais do que uma caricatura.

No poema, o escritor buscou traduzir a alma do caboclo paulista e isso dentro de uma linguagem clássica. Não há nos poemas até mesmo as variações linguísticas regionalistas e os termos populares comuns dos escritores modernistas, especialmente em sua fase regionalista subsequente, da qual fizeram parte Jorge Amado, João Guimarães Rosa e José Lins do Rego.

Menotti buscou através do personagem síntese “Juca Mulato” sondar a alma e o mais profundo íntimo do homem simples do campo e dela extrair o que é universal: a beleza da natureza e os sofrimentos da alma à luz da imaginação do caboclo.

Talvez aqui resida o “modernismo” mais decisivo de Juca Mulato: ele antecipa João Guimarães Rosa que também através do regionalismo, com os seus sertanejos a tocar boiadas nos sertões, afirmou através do local aquilo que é universal.

terça-feira, 21 de abril de 2026

A Poesia de Thiago de Mello

 A Poesia de Thiago de Mello




 

“Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar

a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras”

(“Os Estatutos da Vida – Ato Institucional Permanente” – Thiago de Mello)

 

Toda arte é, em alguma medida, expressão da vida social. Mesmo quando sua forma envolva o mais alto grau de abstração, dela se evidenciam os valores, as crenças, as ideias e os sentimentos compartilhados pela sociedade em determinada conjuntura histórica.

Na poesia do escritor amazonense Thiago de Mello (1926/2022) essa relação indissociável entre arte e vida é ainda mais evidente.

Sua poesia nasce da vida e, por extensão, sua vida se alimentou da sua poesia; sua intencionalidade de artista não se limitou ao fim estético que almeja a beleza mas também contribuir para que o homem adquira consciência de sua verdadeira condição dentro da sociedade em que vive.

Em outras palavras, a poesia não é só um fim almejado pelo artista que busca extrair a beleza do mundo. A poesia deve servir à Vida da qual ela nasce.

Vida com “v” maiúsculo significando mais do que meramente existir, mas a mais decisiva oportunidade de levar essa existência à plenitude, através do amor ao próximo, da pureza de intenções e da alegria, mesmo em tempos de trevas.  

E é assim que o artista inicia um dos seus livros de poesia:

A VIDA VERDADEIRA

Pois aqui está a minha vida.

Pronta para ser usada.

Vida que não se guarda

nem se esquiva, assustada.

Vida sempre a serviço da vida.

Para servir ao que vale

a pena e o preço do amor.

Ainda que o gesto me doa,

não encolho a mão: avanço

levando um ramo de sol.

Mesmo enrolada de pó,

dentro da noite mais fria,

a vida que vai comigo é fogo:

está sempre acesa.

 

Havendo essa forte coesão entre arte e vida, pode-se também dizer que os versos de Thiago de Mello pavimentaram sua trajetória de vida, a sua biografia.

O poeta nasceu em 30.03.1926 no município de Barreirinhas, Estado do Amazonas. Veio de uma família de comerciantes nordestinos que migraram até a Amazônia no contexto do ciclo da borracha.

Muito estudioso, logo aos 16 anos ganha uma bolsa de estudos e se muda ao Rio de Janeiro para estudar medicina na Faculdade da Praia Vermelha, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Naquela cidade, a capital e centro cultural do país, irá travar relações com artistas e jornalistas, sendo recomendado por Carlos Drummond de Andrade que recebeu com estima os versos enviados pelo jovem amazonense.

Na década de 1950 o jornal “Correio da Manhã” por meio do seu suplemento literário publica o primeiro verso de Thiago de Mello, chamado “Argila”. Logo o escritor conquista a amizade de Manuel Bandeira e José Lins do Rego, também bem impressionados com os versos daquele jovem oriundo dos rincões da floresta amazônica.  

O primeiro livro de poesias foi publicado por uma editora criada pelo próprio escritor, contando com pouco mais de cem exemplares distribuídos. A obra foi celebrada Álvaro Lins, principal crítico literário do país.  Em 1952, Thiago de Mello já lança seu segundo livro chamado “Narciso Cego” desta vez pela editora José Olympio, a mais importante do Brasil de meados do século XX. Com menos de 30 anos de idade, já era saudado pela crítica, sendo alçado à cadeira da Academia Amazonense de Letras no ano de 1955.

A partir da década de 1960, com os eventos políticos que conduziram o golpe militar e deposição do governo nacionalista de João Goulart, a poesia de Thiago de Mello ganha maior conotação política. Àquela época o escritor trabalhava como adido cultural da embaixada brasileira no Chile, pedindo seu desligamento logo após os eventos que alçaram as Forças Armadas ao poder.

Já em maio de 1964, um mês depois do golpe, Thiago de Mello publicou no jornal um poema sarcástico chamado “Os Estatutos do Homem” – seu subtítulo é “Ato Institucional Permanente” tratando de forma irônica o Ato Institucional I, decretado pela Junta Militar que assumiu o poder, determinando “provisoriamente” a suspensão das garantias constitucionais, cassação de mandatos e suspensão dos direitos políticos de opositores.

Os Estatutos do Homem - (Ato Institucional Permanente)

Artigo I.

Fica decretado que agora vale a verdade.

que agora vale a vida,

e que de mãos dadas,

trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.

Fica decretado que todos os dias da semana,

inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.

Fica decretado que, a partir deste instante,

haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.

Fica decretado que o homem

não precisará nunca mais

duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

como a palmeira confia no vento,

como o vento confia no ar,

como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:

O homem confiará no homem

como um menino confia em outro menino.

 

Logo depois, o poeta se aproximou do Movimento Nacionalista Revolucionário, organização que propunha o combate em armas à ditadura e que liderou a Guerrilha do Caparaó, inspirada nos guerrilheiros cubanos de Serra Maestra. Foi obrigado a viver na clandestinidade até 1969, quando foi compelido a se exilar no Chile, no contexto do recrudescimento das perseguições após o AI-5.

Naquele país travou relações com o poeta Pablo Neruda. O Chile era então presidido pelo socialista Salvador Allende e agrupava muitos expatriados brasileiros. Thiago de Mello foi nomeado diretor do Departamento de Comunicação no governo esquerdista chileno, isso até o golpe de Augusto Pinochet em 1972, quando os militares chilenos invadiram e destruíram a casa do poeta, levando livros e material de trabalho.

Thiago de Mello foi conduzido à delegacia e por pouco não foi levado com os demais presos ao fuzilamento: por ser brasileiro, foi liberado junto com o seu filho, conseguindo asilo na Argentina, passando depois para Alemanha, França e Portugal.

O poeta da Amazônia só conseguiu retornar ao Brasil em 30 de Outubro de 1977, no contexto de reabertura “lenta, gradual e segura” do regime militar. Ainda assim, foi conduzido ao DOPS e obrigado a ficar à disposição da polícia para prestar depoimento.

Ao final da vida, Thiago de Melo decide voltar a sua terra natal, o Amazonas que lhe serviu de inspiração para muitos dos seus poemas.

Pediu a um amigo arquiteto que construísse sua casa numa pequena comunidade ribeirinha às margens do Rio Andirá, a 400 Km de Manaus. Nessa fase final de sua vida, dedica seus livros em prosa e verso ao elogio da floresta amazônica onde está internado (num novo exílio?). Alguns dos títulos dos seus livros desse período são: Manaus, Amor e Memória, 1984; Amazonas, Pátria da Água, 1991; e Amazônia — A Menina dos Olhos do Mundo, 1992.

O poeta faleceu em janeiro de 2022, quando tinha 95 anos de idade. A despeito do reconhecimento do seu mérito literário dentro da crítica especializada, ainda é um escritor relativamente desconhecido do público. O que não confere justiça a sua poesia popular, tecida por palavras simples, plenamente acessível ao entendimento do povo.

Bibliografia

“Faz Escuro mas eu canto”  - Thiago de Mello – Ed. Record

“Thiago de Mello: fortuna crítica (1951-1960)” Lima, Pollyanna Furtado – Dissertação de Mestrado UFAM.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Os Caifazes e o Quilombo do Jabaquara

 Os Caifazes e o Quilombo do Jabaquara


 

Resenha Livro – “A Marcha” – Afonso Schmidt – Instituto Afonso Schmidt – Cubatão 2023

Ainda é pouco conhecida a história os Caifazes paulistas e do Quilombo do Jabaquara, situado na cidade de Santos.

Eles surgiram nos instantes imediatamente anteriores à abolição da escravatura no Brasil e sua existência evidencia outro fato pouco comentado da história nacional: existia uma situação pré-revolucionária no país no momento que antecedeu o 13 de Maio de 1888.

A opinião pública favorável à abolição se generalizara por todo o país.

Desde a Guerra do Paraguai (1864/1870) foram muitos os escravos alforriados para lutar no exército, fazendo com que as forças armadas desde meados do século XIX se posicionassem pela abolição: inclusive se negando a emprestar apoio na captura dos cativos que fugiam das fazendas.

Sob o impacto da opinião pública, algumas províncias ao norte, menos dependentes do trabalho escravo, já tomaram a iniciativa de abolir a escravidão, a começar pelo Estado do Ceará em 1884. Naquela província ficou conhecida a atividade heroica dos jangadeiros que emprestavam os seus barcos de pesca para acolher e auxiliar negros fugidos do cativeiro oriundos de embarcações vindas de Santos.

Além disso, a maior concentração de população livre nos meios urbanos fez com que as cidades se tornassem núcleos do abolicionismo.

Nas cidades multiplicam-se instituições culturais, jornais, editoras e livrarias. Há aumento de pessoas que trabalham como profissionais liberais: médicos, engenheiros, advogados, funcionários públicos e professores, constituindo uma opinião pública refratária à escravidão predominante no meio rural.

É na cidade de São Paulo atuando como advogado (“rábula”) que Luiz Gama defendeu nos Tribunais a liberdade dos escravos com base na lei de proibição do tráfego de 1831.

Ficou conhecida as palavras proferidas pelo principal líder abolicionista de SP num Tribunal do Juri em Araraquara: “para o coração não há códigos; e, se a piedade humana e a caridade cristã se devem enclausurar no peito de cada um, sem se manifestarem por atos, em verdade vos digo aqui, afrontando a lei, que todo o escravo que assassina o seu senhor pratica um ato de legítima defesa.”.

Com a morte de Luiz Gama, o movimento abolicionista paulista passa por um processo de radicalização ainda maior, agora sob a liderança de Antônio Bento, um ex-juiz municipal que passou a conduzir a mobilização através do grupo Caifazes a partir de 1883.

Tratava-se de um movimento clandestino de luta contra a escravidão com traços que remetem à guerrilha urbana dos comunistas na época da ditadura militar. Através daquilo que hoje poderíamos chamar de “ação direta” eles organizavam fugas de escravos nas fazendas e mobilizavam alforriados para fazer propaganda abolicionista dentro das senzalas. Com a diferença que, diferentemente dos comunistas, os Caifazes contavam com um amplo apoio popular que os auxiliava na atividade clandestina.

Em Santos, principal foco do abolicionismo em São Paulo, os Caifazes chegaram a levar a diante um levante popular contra a escravidão, fazendo com que o trabalho escravo fosse extinto naquela cidade ainda no ano de 1886.

Há relatos de linchamentos promovidos pelos Caifazes dos capitães do mato, num momento em que ampla camada da população repudiava a tortura e assassinatos executados pelos caçadores de quilombolas.

Além de ex escravos, o grupo dos Caifazes era composto por setores médios e trabalhadores livres e pobres, que emprestavam o seu apoio à atividade guerrilheira de acordo com suas ocupações.

Caixeiros viajantes nas suas viagens distribuíam material abolicionista. Ferroviários ajudavam a embarcar nas viagens de trens escravos fugitivos de forma clandestina. Comerciantes se voluntariavam para esconder fugitivos em suas lojas. Jornalistas, intelectuais e estudantes davam apoio à propaganda política, através da Imprensa e em reuniões secretas.

Dentro dos Caifazes havia forte presença dos estudantes, especialmente acadêmicos da Faculdade de Direito de São Paulo.

 Em Santos, a juventude organizou a chamada “Boemia Abolicionista de Santos”, um grupo clandestino, sem sede fixa, do qual participavam intelectuais que se encontram nas praças e parques da cidade para fazer pequenos comícios abolicionistas. Chegaram a fazer peças de teatro ao ar livre, como meio de arrecadar dinheiro para pagamento de alforrias.

Naquele contexto surgiu em 1882 na cidade de Santos o Quilombo do Jabaquara, onde se agruparam entre 10 e 20 mil escravos fugidos das fazendas de café do interior paulista.

Contando com a rede de apoio dos Caifazes, os cativos faziam uma marcha a pé, descendo a serra até o litoral. Contavam com a conivência do exército: quando mobilizados pelo governo a reprimir a marcha, os militares deliberadamente buscavam se desencontrar do grupo de fugitivos. A tarefa inglória de caçar os fugitivos ficava na mão do reduzido (e odiado) grupo dos capitães do mato e pequenas forças policiais leais às ordens do governo.

Ao chegar em Santos, abrigados no Quilombo do Jabaquara, muitos ex escravos eram encaminhados de forma clandestina até o Ceará onde a abolição da escravatura já era uma realidade.

Em termos numéricos, o Jabaquara foi o segundo maior agrupamento de negros fugidos do Brasil, só atrás do Quilombo dos Palmares. Com uma diferença fundamental: o Quilombo paulista contou com o apoio dos abolicionistas pardos e brancos ligados ao movimento dos Caifazes, diferentemente do seu irmão situado em Alagoas que foi um movimento essencialmente negro. Inclusive, consta que o terreno onde estava localizado o Quilombo do Jabaquara foi cedido por um italiano abolicionista... Talvez por isso, hoje, em tempos de hegemonia da demagogia identitária, se fale muito do Quilombo de Palmares e pouco do Quilombo de Jabaquara.

Como se sabe, o Brasil foi um dos últimos países do ocidente a abolir a escravidão e esse é um dos traços que dão especificidade ao escravismo brasileiro: a manutenção do regime escravista no país perdurou por décadas convivendo com vedações legais, pelo menos desde 1831, quando, sob pressão da Inglaterra, o Império formalmente abolia o tráfico de escravos.

É neste contexto de progressiva e permanente desagregação do regime escravagista que a Lei Áurea foi aprovada em 1888.

A lei foi votada em regime de urgência:  83 deputados votam a favor e 9 contra (todos do partido conservador, provenientes de regiões rurais menos preparadas para transição ao regime livre).

Não se tratou o 13 de maio de uma concessão benevolente da princesa Isabel mas uma resposta tardia do Império a uma forma social em decomposição, dentro de um contexto de crise que poderia colocar a própria existência do regime político em cheque.  Os Caifazes paulistas e o Quilombo do Jabaquara são a mais importante expressão da situação pré revolucionária que antecedeu a Lei Áurea.

Na imagem: Quintino de Lacerda – Líder do Quilombo do Jabaquara e considerado o primeiro vereador negro do Brasil, eleito em Santos em 1895.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

“Clarissa” – Érico Veríssimo

 “Clarissa” – Érico Veríssimo


 

Resenha Livro - “Clarissa” – Érico Veríssimo – Editora Globo

 

Não seria exagero dizer que o escritor gaúcho Érico Veríssimo foi o mais fiel retratista do povo gaúcho, da sua história e dos seus costumes.

 Não seria correto, porém, dizer que toda a sua obra, elaborada entre os anos 1930/1970, apenas tivesse tratado e se situado dentro daquilo que ele próprio dizia ser o “Continente”, a antiga Província de São Pedro das Missões, hoje Estado do Rio Grande do Sul.

Os seus primeiros livros, situados naquilo que ficou conhecido como “O Ciclo de Porto Alegre”, não são obras propriamente regionalistas. Ainda que todas as histórias deste conjunto de narrativas se passem na capital gaúcha, a cidade, que tinha então cerca de 300.000,00, era apenas o cenário, o mero pano de fundo dos enredos.

Dos primeiros livros, o mais conhecido (e aquele que levou o escritor ao sucesso de público) foi “Olhai os Lírios do Campo” (1932). Esse e os demais foram escritos na juventude de Veríssimo, quando acabara de se mudar do interior gaúcho para a capital riograndense, para trabalhar como jornalista na Editora Globo. A cidade de Porto Alegre, nessas histórias, aparece mais como um detalhe, já que a narrativa tem um conteúdo mais universal, podendo tido as situações se passado em qualquer outro lugar.

Nas palavras do próprio escritor: “procurando analisar com imparcialidade os meus romances anteriores ao Tempo e o Vento, eu percebo o quão pouco, na sua essência e na sua existência, eles tinham a ver com o Rio Grande do Sul. Tendiam para um cosmopolitismo sofisticado, que me levava a descrever a provincianíssima Porto Alegre de 1934 como uma metrópole tentacular e turbulenta (...)”. (“Solo de Clarineta”, V. 1).

O ponto alto da literatura de Érico Veríssimo dar-se-á depois, na década de 1940, quando começou a escrever a sua obra prima, na verdade, uma triologia chamada “O Tempo e o Vento”. Nesta coletânea, o escritor pretendeu contar a história do Rio Grande do Sul desde 1745 até meados do século XX, na forma de literatura.

Há nesses três livros um painel e mosaico das histórias de famílias, grupos e clãs políticos locais que por duzentos anos ocuparam o território, constituíram vilas e cidades, promoveram guerras com os castelhanos pelo domínio da terra e envolveram-se em brutais guerras civis, essas últimas até mais sangrentas que os conflitos com os espanhóis.

“Clarissa” (1933) pertence à primeira fase das obras do escritor gaúcho, está fora da orientação regionalista que marcou os seus livros subsequentes. Trata-se do primeiro romance publicado por Érico Verissimo, escrito quando tinha 27 anos de idade. Nele há um forte conteúdo autobiográfico: o escritor retrata a si mesmo na figura do personagem Amaro, um pianista, com alma de poeta, triste, silencioso, ensimesmado, capaz de captar através da sensibilidade do artista as nuanças do mundo, sem ser compreendido pelos outros, exceto pela menina Clarissa.

No próprio prefácio da obra, o escritor conta a fonte da inspiração para a história:

“Sob os jacarandás floridos da velha praça da Matriz de Porto Alegre, caminhava uma rapariga metida no seu uniforme de normalista. Teria quando muito treze anos de idade, seu andar era uma dança, seu rosto uma fruta madura e seus olhos, que imaginei escuros, deviam estar sorvendo com avidez a graça luminosa e também adolescente daquela manhã de primavera. De minha janela eu a contemplava com a sensação de estar ouvindo uma sonata matinal e ao mesmo tempo vendo uma pintura animada. (...) Desejei saber compor música para traduzir em melodia aquele momento poético; ou então pintar, para prender numa tela as imagens daquele minuto milagroso”.

A essa menina deu o nome de Clarissa e, ao invés de retratá-la em pintura ou música, o fez através de uma novela.

O tema central do livro é a transição da infância à vida adulta.

A história se passa na cidade de Porto Alegre, para onde a protagonista é mandada pelos pais para os estudos secundaristas. Clarissa vem de uma cidade do interior para morar na pensão de sua Tia Zina. A história se passa no ano de 1933, durante o ano letivo em que a personagem principal passará dos 13 aos 14 anos de idade. Momento da vida de transição: dos estertores da infância, quando vê o mundo com olhos cheios de surpresa e encanto, para a adolescência, quando dá os seus primeiros suspiros de amor e percebe que o mundo não é perfeito.

Naquele ambiente da pensão, vai entrando em contato com os demais moradores da pequena hospedaria, que dão o pano de fundo da história: o tio Couto, desempregado que vive prometendo arranjar um serviço, mas parece acomodado com sua situação; Major Nico Pombo que passa horas conversando sobre histórias do seu passado militar; Zezinho, aluno de medicina com jeito afeminado; e Amaro, um solteirão que vive calado no seu canto, refém da sua sensibilidade de poeta que o faz se afastar de todos, a despeito de vê-los com a mesma ternura com que o artista retrata o mundo na sua obra.

O processo de amadurecimento de Clarissa gravita em torno da descoberta da injustiça, da mentira e do sofrimento.

Ao lado da pensão vive Tonico, um menino pobre e paralítico, que passa o dia inteiro na cadeira de rodas, no quintal, triste e sorumbático, gritando pela mãe quando sente frio e deseja voltar para dentro de casa. O menino tinha sonho de lutar numa guerra, queria ser militar mas jamais poderá sê-lo pela sua condição. Tornou-se deficiente após ser atropelado: Clarissa confronta a situação de pobreza do vizinho com casas ricas e as crianças felizes que brincam em outro canto da rua. É através dessa experiência de desencanto pelas injustiças do mundo que a personagem vai se distanciando da infância e se tornando adulta.

Clarissa é dotada da mesma sensibilidade de Amaro. Ela também sofre na pele as dores do mundo, tal qual os poetas. Por isso, ao longo da história, é a única a travar alguma conexão com Amaro. No seu aniversário de quatorze anos ganha do pianista um peixinho, a quem dá o nome de Pirulito.  O peixe isolado dentro do aquário evoca a imagem daquele mesmo homem triste, silencioso e solitário.

Com o fim do ano letivo, Clarissa retorna à casa de seus pais no interior para nunca mais voltar. É quando Amaro descobre um segredo guardado até mesmo de si mesmo: sentia amor pela menina, não um sentimento que evoca o relacionamento conjugal, mas o encanto misterioso decorrente da beleza da vida e da natureza.