A Vida de São Francisco de Assis
“Oh Mestre, faze que eu procure menos
Ser consolado do que consolar;
Ser compreendido do que compreender;
Ser amado do que amar.
Porquanto
É dando que se recebe;
É perdoando que se é perdoado;
É morrendo que se ressuscita para a
Vida Eterna”
Oração de São Francisco de Assis
Resenha Livro – “As Aventuras do
Menino Chico de Assis” – Luís Jardim – Editora José Olympio
Não há salvação fora da caridade. Essa
poderia ser a palavra de ordem mais representativa da vida de São Francisco de
Assis.
O frade católico ficou notabilizado
pelo seu amor incondicional à natureza e aos animais, pela renúncia radical dos
bens materiais e pela dedicação e auxílio aos pobres e marginalizados. O que há
por de trás do impulso do amparo aos excluídos é a ideia de que há muito mais
prazer e alegria em dar do que receber. Consolar a ser consolado. Perdoar a ser
perdoado. E até mesmo amar sem ser amado.
Seu nome de batismo não era Francisco,
mas João, ou, no italiano, Giovanni. Seu pai era um rico comerciante de sedas
oriundo de Assis na Itália. Sua mãe, uma mulher extremamente piedosa, tinha
origem francesa. Existe a hipótese que daí veio o apelido Francisco que
significava então pessoa oriunda da França.
Na juventude consta que Francisco
servia-se da riqueza do pai para viver uma vida mundana, baseada nos prazeres
terrenos. Sua conversão religiosa só daria aos 20 e poucos anos de idade após uma
enfermidade que o afligiu pouco antes de se engajar voluntariamente numa
campanha militar envolvendo as cidades italianas Assis e Perugia.
O jovem Assis teria escutado vozes
lhe sugerindo dever deixar de servir aos homens para servir à Deus. O que pode
ser interpretado não como a renúncia pura e simples da companhia dos seus pares
– dado que isso lhe retiraria a possibilidade de exercer a caridade – mas a
rejeição da efemeridade da vida material em detrimento da plenitude da vida na
espiritualidade.
Outro momento marcante na vida do
jovem Francisco de Assis deu-se certa feita em que cruza em seu caminho um
leproso lhe pedindo auxílio. Chico presta o apoio e dá um beijo na mão em carne
viva pelas lesões da lepra, sujeitando-se ao risco pelo ato de amor. Esse
evento lhe causou uma profunda sensação de ternura no coração, sendo
considerado o ponto de partida de sua orientação na caridade.
Essa orientação causaria um grave
conflito familiar. Após se ligar a uma Igreja em Assis, Francisco decide tomar
o estoque de sedas da loja do pai para vender a preços módicos e arrecadar o
dinheiro para auxiliar os pobres. O evento desperta a fúria do pai que posteriormente
o conduz ao bispado para o obrigar a renunciar a herança. Aqui surge outro
evento culminante na vida do Santo: Francisco aceita de bom grado a renúncia da
herança e até mesmo tira as suas roupas para serem devolvidas ao pai. Em ato
solene, afirma que a partir daquele momento, o seu pai passaria a ser Deus.
E aqui reside a origem daquilo que
ficou conhecido como o traço mais conhecido e bonito do santo frade da Igreja
católica.
Francisco de Assis levava até as
últimas consequências a ideia de que todos somos irmãos, porquanto somos fruto
da mesma criação divina. Não só os homens, mas os animais, as naturezas e até
mesmo as coisas inanimadas como o vento, a chuva e o sol. Ele nós evidencia a
beleza e divindade de cada pequeno detalhe da natureza e nos exina a captar a
poesia dos passarinhos cantando ou do cheiro da terra molhada de chuva.
Os doutores da Igreja Católica
parecem querer retratar um outro Francisco de Assis, diferente daquele que se
popularizou no senso comum. Baseando-se em textos antiguíssimos, dos tempos da
Idade Média, tentam criar a figura de um homem brutalmente ascético, um eremita
que mutilava o seu corpo dormindo de forma proposital em camas de espinho para
desafiar a tentação da carne.
Sem prejuízo do questionamento em
torno da idoneidade das fontes históricas, aqui preferimos o mito franciscano:
uma alma sentimental, dotada de ternura para com tudo que o cerca e que extrai
felicidade em ajudar aqueles que precisam. Ser escrupuloso consigo próprio deve
ter como consequência a complacência, o perdão e a caridade em relação ao próximo.
Dedico essa resenha à Ana Paula
Siqueira Santos cujo coração, na sua simplicidade e bondade, retrata aquilo que
ainda resta de bom na Igreja Católica.
Quadro: São Francisco de Assis - José
de Ribera – 1643







