domingo, 26 de abril de 2026

“Juca Mulato” – Menotti Del Picchia

 “Juca Mulato” – Menotti Del Picchia




 Resenha Livro – “Juca Mulato” – Menotti Del Picchia – Edições de Ouro – Clássicos Brasileiros.

“Juca Mulato” (1917) pode ser considerada a grande estreia literária do escritor modernista Menotti Del Picchia (1892/1988).

Antes dela, o poeta paulista havia escrito apenas duas outras obras, sem a repercussão daquele que ainda hoje é o mais conhecido dos seus textos.

O poema foi escrito em 1917, cinco anos antes da Semana de Arte Moderna de 1922, o grande evento que lançou as bases do movimento modernista no Brasil.

Menotti Del Picchia foi um dos idealizadores do evento, tendo discursado na segunda noite de conferências no Theatro Municipal de São Paulo, numa palestra sobre o Futurismo.

É certo que a Semana de Arte Moderna de 1922 tinha como norte a oposição ao academicismo e à arte puramente decorativa. As maiores vítimas dos ataques da nova geração modernista eram o parnasianismo e o estrangeirismo que tinha até então informado todas as tendências literárias importadas da Europa, desde o Romantismo, até o Realismo, do Naturalismo ao Simbolismo.

Os modernistas (Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, e outros)  irão buscar redefinir a relação da nossa arte com escolas estrangeiras  através da fórmula da antropofagia. Não se tratava puramente de rejeitar as fórmulas europeias, nem mesmo meramente aclimatá-las às condições nacionais: assim como os índios ao tempo da chegada dos portugueses, os artistas devem “deglutir” o estrangeiro e reelaborar a arte com autonomia, criando algo novo e original.

O modernismo refletia também as incertezas sociais do contexto da I Guerra Mundial, da Revolução Russa de 1917 e da ascensão do fascismo na Europa ( a Marcha sobre Roma de Mussolini efetivamente ocorreu 9 meses após a Semana de 22). Além disso, o novo grupo de artistas expressava as novas realizações tecnológicas de fins do século XIX e início do XX: os automóveis velozes circulando nas cidades, o advento do cinema, a fotografia, o telefone, o gramofone, os bondes elétricos, a revolução causada pelo desenvolvimento da aviação, implicaram num conceito dinâmico da arte associada à velocidade e à simultaneidade, em oposição ao conceito estático tradicional, baseado no equilíbrio e na ordem.

Sobre o Poema Juca Mulato

Em quarenta páginas, Menotti Del Picchia conta em versos a história de um caboclo rude, mas dotado de sensibilidade poética. Juca Mulato é forte e duro como peroba, mas seu espírito é livre e independente como o vento; os seus braços foram feitos para trabalhar, mas sua alma foi feita para cantar a felicidade e a tristeza. A sua ternura lhe conduz à comoção poética quando confrontado com a beleza exuberante da natureza, dos rios, dos pássaros e das matas do interior paulista: tudo enquanto pita um cigarro de palha.  

O lirismo de Juca Mulato o faz plenamente aclimatado à natureza que o circunda.

Está sempre a cismar enquanto contempla as nuvens, os rios e as florestas, sempre ensimesmado, com o olhar vago e o pensamento nas estrelas:

“Nuvens voam pelo ar como bandos de garças,

Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira

pinceladas esparsas

de ouro fosco.  Num  mastro, apruma-se a bandeira

de São João, desfraldando o seu alvo losango.

Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o

Vem, na tarde que expira e na voz de um curiango,

o narcótico do ar parado, esse veneno

que há no ventre da treva e na alma do silêncio.

Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.”.

Mas a sua candura  também produz o sofrimento do amor não correspondido, quando se apaixona “pela filha da patroa” e descobre que nem a feitiçaria de um negro do candomblé lhe cura a doença do coração não correspondido:  

– Juca Mulato! Esquece o olhar inatingível!

Não há cura, aí de ti! para o amor impossível,

Arranco a lepra ao corpo; extirpo da alma o tédio;

só para o mal de amor nunca encontrei remédio…

Como queres possuir o límpido olhar dela?

Tu és qual um sapo a querer uma estrela…

A peçonha da cobra eu curo… Quem souber

cure o veneno que há no olhar de uma mulher!

Juca Mulato, se ainda não expressa as formas poéticas mais experimentais dos modernistas na forma de um Oswald de Andrade, de certa maneira remete a outra figura conhecida desse modernismo brasileiro, o “Macunaíma” (1922) de Mário de Andrade.

Ambos foram escritos na mesma época. E os dois personagens, o “Macunaíma” de Mário de Andrade e o “Juca Mulato” de Menotti Del Picchia buscam ser representativos de um povo. Macunaíma, nas sucessivas variações de sua fisionomia, índio, branco e preto, e na sua epopeia das matas até a cidade grande, é a síntese do Brasil, ao passo que Juca Mulato é a síntese do caboclo, a figura representativa do caipira paulista, deitado sob uma árvore a contemplar com o olhar vago a vida a passar: está sempre a cismar.  

Também por seu um personagem representativo de um povo, no caso uma síntese do caipira paulista, pode-se dizer ser o Juca Mulato um primo distante do Jeca Tatu de Monteiro Lobato.

A grande diferença é que o Jeca Tatu é, antes, uma caricatura da qual se serviu o autor do “Sítio do Pica Pau Amarelo” para criticar na imprensa a realidade social dos caboclos paulistas em situação de abandono e doença, especialmente o amarelão, que o torna em estado de letargia e inabilitado ao trabalho duro.  

A caricatura é via de regra superficial e busca, através do humor, realçar traços específicos e mais grotescos da personalidade: a preguiça e desleixo com que o caboclo cuida da roça, desde que enfermo cronicamente pelo amarelão, é a forma caricatural com que Lobato criou o Jeca Tatu.

O Juca Mulato é muito mais do que uma caricatura.

No poema, o escritor buscou traduzir a alma do caboclo paulista e isso dentro de uma linguagem clássica. Não há nos poemas até mesmo as variações linguísticas regionalistas e os termos populares comuns dos escritores modernistas, especialmente em sua fase regionalista subsequente, da qual fizeram parte Jorge Amado, João Guimarães Rosa e José Lins do Rego.

Menotti buscou através do personagem síntese “Juca Mulato” sondar a alma e o mais profundo íntimo do homem simples do campo e dela extrair o que é universal: a beleza da natureza e os sofrimentos da alma à luz da imaginação do caboclo.

Talvez aqui resida o “modernismo” mais decisivo de Juca Mulato: ele antecipa João Guimarães Rosa que também através do regionalismo, com os seus sertanejos a tocar boiadas nos sertões, afirmou através do local aquilo que é universal.

terça-feira, 21 de abril de 2026

A Poesia de Thiago de Mello

 A Poesia de Thiago de Mello




 

“Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar

a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras”

(“Os Estatutos da Vida – Ato Institucional Permanente” – Thiago de Mello)

 

Toda arte é, em alguma medida, expressão da vida social. Mesmo quando sua forma envolva o mais alto grau de abstração, dela se evidenciam os valores, as crenças, as ideias e os sentimentos compartilhados pela sociedade em determinada conjuntura histórica.

Na poesia do escritor amazonense Thiago de Mello (1926/2022) essa relação indissociável entre arte e vida é ainda mais evidente.

Sua poesia nasce da vida e, por extensão, sua vida se alimentou da sua poesia; sua intencionalidade de artista não se limitou ao fim estético que almeja a beleza mas também contribuir para que o homem adquira consciência de sua verdadeira condição dentro da sociedade em que vive.

Em outras palavras, a poesia não é só um fim almejado pelo artista que busca extrair a beleza do mundo. A poesia deve servir à Vida da qual ela nasce.

Vida com “v” maiúsculo significando mais do que meramente existir, mas a mais decisiva oportunidade de levar essa existência à plenitude, através do amor ao próximo, da pureza de intenções e da alegria, mesmo em tempos de trevas.  

E é assim que o artista inicia um dos seus livros de poesia:

A VIDA VERDADEIRA

Pois aqui está a minha vida.

Pronta para ser usada.

Vida que não se guarda

nem se esquiva, assustada.

Vida sempre a serviço da vida.

Para servir ao que vale

a pena e o preço do amor.

Ainda que o gesto me doa,

não encolho a mão: avanço

levando um ramo de sol.

Mesmo enrolada de pó,

dentro da noite mais fria,

a vida que vai comigo é fogo:

está sempre acesa.

 

Havendo essa forte coesão entre arte e vida, pode-se também dizer que os versos de Thiago de Mello pavimentaram sua trajetória de vida, a sua biografia.

O poeta nasceu em 30.03.1926 no município de Barreirinhas, Estado do Amazonas. Veio de uma família de comerciantes nordestinos que migraram até a Amazônia no contexto do ciclo da borracha.

Muito estudioso, logo aos 16 anos ganha uma bolsa de estudos e se muda ao Rio de Janeiro para estudar medicina na Faculdade da Praia Vermelha, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Naquela cidade, a capital e centro cultural do país, irá travar relações com artistas e jornalistas, sendo recomendado por Carlos Drummond de Andrade que recebeu com estima os versos enviados pelo jovem amazonense.

Na década de 1950 o jornal “Correio da Manhã” por meio do seu suplemento literário publica o primeiro verso de Thiago de Mello, chamado “Argila”. Logo o escritor conquista a amizade de Manuel Bandeira e José Lins do Rego, também bem impressionados com os versos daquele jovem oriundo dos rincões da floresta amazônica.  

O primeiro livro de poesias foi publicado por uma editora criada pelo próprio escritor, contando com pouco mais de cem exemplares distribuídos. A obra foi celebrada Álvaro Lins, principal crítico literário do país.  Em 1952, Thiago de Mello já lança seu segundo livro chamado “Narciso Cego” desta vez pela editora José Olympio, a mais importante do Brasil de meados do século XX. Com menos de 30 anos de idade, já era saudado pela crítica, sendo alçado à cadeira da Academia Amazonense de Letras no ano de 1955.

A partir da década de 1960, com os eventos políticos que conduziram o golpe militar e deposição do governo nacionalista de João Goulart, a poesia de Thiago de Mello ganha maior conotação política. Àquela época o escritor trabalhava como adido cultural da embaixada brasileira no Chile, pedindo seu desligamento logo após os eventos que alçaram as Forças Armadas ao poder.

Já em maio de 1964, um mês depois do golpe, Thiago de Mello publicou no jornal um poema sarcástico chamado “Os Estatutos do Homem” – seu subtítulo é “Ato Institucional Permanente” tratando de forma irônica o Ato Institucional I, decretado pela Junta Militar que assumiu o poder, determinando “provisoriamente” a suspensão das garantias constitucionais, cassação de mandatos e suspensão dos direitos políticos de opositores.

Os Estatutos do Homem - (Ato Institucional Permanente)

Artigo I.

Fica decretado que agora vale a verdade.

que agora vale a vida,

e que de mãos dadas,

trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.

Fica decretado que todos os dias da semana,

inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.

Fica decretado que, a partir deste instante,

haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.

Fica decretado que o homem

não precisará nunca mais

duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

como a palmeira confia no vento,

como o vento confia no ar,

como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:

O homem confiará no homem

como um menino confia em outro menino.

 

Logo depois, o poeta se aproximou do Movimento Nacionalista Revolucionário, organização que propunha o combate em armas à ditadura e que liderou a Guerrilha do Caparaó, inspirada nos guerrilheiros cubanos de Serra Maestra. Foi obrigado a viver na clandestinidade até 1969, quando foi compelido a se exilar no Chile, no contexto do recrudescimento das perseguições após o AI-5.

Naquele país travou relações com o poeta Pablo Neruda. O Chile era então presidido pelo socialista Salvador Allende e agrupava muitos expatriados brasileiros. Thiago de Mello foi nomeado diretor do Departamento de Comunicação no governo esquerdista chileno, isso até o golpe de Augusto Pinochet em 1972, quando os militares chilenos invadiram e destruíram a casa do poeta, levando livros e material de trabalho.

Thiago de Mello foi conduzido à delegacia e por pouco não foi levado com os demais presos ao fuzilamento: por ser brasileiro, foi liberado junto com o seu filho, conseguindo asilo na Argentina, passando depois para Alemanha, França e Portugal.

O poeta da Amazônia só conseguiu retornar ao Brasil em 30 de Outubro de 1977, no contexto de reabertura “lenta, gradual e segura” do regime militar. Ainda assim, foi conduzido ao DOPS e obrigado a ficar à disposição da polícia para prestar depoimento.

Ao final da vida, Thiago de Melo decide voltar a sua terra natal, o Amazonas que lhe serviu de inspiração para muitos dos seus poemas.

Pediu a um amigo arquiteto que construísse sua casa numa pequena comunidade ribeirinha às margens do Rio Andirá, a 400 Km de Manaus. Nessa fase final de sua vida, dedica seus livros em prosa e verso ao elogio da floresta amazônica onde está internado (num novo exílio?). Alguns dos títulos dos seus livros desse período são: Manaus, Amor e Memória, 1984; Amazonas, Pátria da Água, 1991; e Amazônia — A Menina dos Olhos do Mundo, 1992.

O poeta faleceu em janeiro de 2022, quando tinha 95 anos de idade. A despeito do reconhecimento do seu mérito literário dentro da crítica especializada, ainda é um escritor relativamente desconhecido do público. O que não confere justiça a sua poesia popular, tecida por palavras simples, plenamente acessível ao entendimento do povo.

Bibliografia

“Faz Escuro mas eu canto”  - Thiago de Mello – Ed. Record

“Thiago de Mello: fortuna crítica (1951-1960)” Lima, Pollyanna Furtado – Dissertação de Mestrado UFAM.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Os Caifazes e o Quilombo do Jabaquara

 Os Caifazes e o Quilombo do Jabaquara


 

Resenha Livro – “A Marcha” – Afonso Schmidt – Instituto Afonso Schmidt – Cubatão 2023

Ainda é pouco conhecida a história os Caifazes paulistas e do Quilombo do Jabaquara, situado na cidade de Santos.

Eles surgiram nos instantes imediatamente anteriores à abolição da escravatura no Brasil e sua existência evidencia outro fato pouco comentado da história nacional: existia uma situação pré-revolucionária no país no momento que antecedeu o 13 de Maio de 1888.

A opinião pública favorável à abolição se generalizara por todo o país.

Desde a Guerra do Paraguai (1864/1870) foram muitos os escravos alforriados para lutar no exército, fazendo com que as forças armadas desde meados do século XIX se posicionassem pela abolição: inclusive se negando a emprestar apoio na captura dos cativos que fugiam das fazendas.

Sob o impacto da opinião pública, algumas províncias ao norte, menos dependentes do trabalho escravo, já tomaram a iniciativa de abolir a escravidão, a começar pelo Estado do Ceará em 1884. Naquela província ficou conhecida a atividade heroica dos jangadeiros que emprestavam os seus barcos de pesca para acolher e auxiliar negros fugidos do cativeiro oriundos de embarcações vindas de Santos.

Além disso, a maior concentração de população livre nos meios urbanos fez com que as cidades se tornassem núcleos do abolicionismo.

Nas cidades multiplicam-se instituições culturais, jornais, editoras e livrarias. Há aumento de pessoas que trabalham como profissionais liberais: médicos, engenheiros, advogados, funcionários públicos e professores, constituindo uma opinião pública refratária à escravidão predominante no meio rural.

É na cidade de São Paulo atuando como advogado (“rábula”) que Luiz Gama defendeu nos Tribunais a liberdade dos escravos com base na lei de proibição do tráfego de 1831.

Ficou conhecida as palavras proferidas pelo principal líder abolicionista de SP num Tribunal do Juri em Araraquara: “para o coração não há códigos; e, se a piedade humana e a caridade cristã se devem enclausurar no peito de cada um, sem se manifestarem por atos, em verdade vos digo aqui, afrontando a lei, que todo o escravo que assassina o seu senhor pratica um ato de legítima defesa.”.

Com a morte de Luiz Gama, o movimento abolicionista paulista passa por um processo de radicalização ainda maior, agora sob a liderança de Antônio Bento, um ex-juiz municipal que passou a conduzir a mobilização através do grupo Caifazes a partir de 1883.

Tratava-se de um movimento clandestino de luta contra a escravidão com traços que remetem à guerrilha urbana dos comunistas na época da ditadura militar. Através daquilo que hoje poderíamos chamar de “ação direta” eles organizavam fugas de escravos nas fazendas e mobilizavam alforriados para fazer propaganda abolicionista dentro das senzalas. Com a diferença que, diferentemente dos comunistas, os Caifazes contavam com um amplo apoio popular que os auxiliava na atividade clandestina.

Em Santos, principal foco do abolicionismo em São Paulo, os Caifazes chegaram a levar a diante um levante popular contra a escravidão, fazendo com que o trabalho escravo fosse extinto naquela cidade ainda no ano de 1886.

Há relatos de linchamentos promovidos pelos Caifazes dos capitães do mato, num momento em que ampla camada da população repudiava a tortura e assassinatos executados pelos caçadores de quilombolas.

Além de ex escravos, o grupo dos Caifazes era composto por setores médios e trabalhadores livres e pobres, que emprestavam o seu apoio à atividade guerrilheira de acordo com suas ocupações.

Caixeiros viajantes nas suas viagens distribuíam material abolicionista. Ferroviários ajudavam a embarcar nas viagens de trens escravos fugitivos de forma clandestina. Comerciantes se voluntariavam para esconder fugitivos em suas lojas. Jornalistas, intelectuais e estudantes davam apoio à propaganda política, através da Imprensa e em reuniões secretas.

Dentro dos Caifazes havia forte presença dos estudantes, especialmente acadêmicos da Faculdade de Direito de São Paulo.

 Em Santos, a juventude organizou a chamada “Boemia Abolicionista de Santos”, um grupo clandestino, sem sede fixa, do qual participavam intelectuais que se encontram nas praças e parques da cidade para fazer pequenos comícios abolicionistas. Chegaram a fazer peças de teatro ao ar livre, como meio de arrecadar dinheiro para pagamento de alforrias.

Naquele contexto surgiu em 1882 na cidade de Santos o Quilombo do Jabaquara, onde se agruparam entre 10 e 20 mil escravos fugidos das fazendas de café do interior paulista.

Contando com a rede de apoio dos Caifazes, os cativos faziam uma marcha a pé, descendo a serra até o litoral. Contavam com a conivência do exército: quando mobilizados pelo governo a reprimir a marcha, os militares deliberadamente buscavam se desencontrar do grupo de fugitivos. A tarefa inglória de caçar os fugitivos ficava na mão do reduzido (e odiado) grupo dos capitães do mato e pequenas forças policiais leais às ordens do governo.

Ao chegar em Santos, abrigados no Quilombo do Jabaquara, muitos ex escravos eram encaminhados de forma clandestina até o Ceará onde a abolição da escravatura já era uma realidade.

Em termos numéricos, o Jabaquara foi o segundo maior agrupamento de negros fugidos do Brasil, só atrás do Quilombo dos Palmares. Com uma diferença fundamental: o Quilombo paulista contou com o apoio dos abolicionistas pardos e brancos ligados ao movimento dos Caifazes, diferentemente do seu irmão situado em Alagoas que foi um movimento essencialmente negro. Inclusive, consta que o terreno onde estava localizado o Quilombo do Jabaquara foi cedido por um italiano abolicionista... Talvez por isso, hoje, em tempos de hegemonia da demagogia identitária, se fale muito do Quilombo de Palmares e pouco do Quilombo de Jabaquara.

Como se sabe, o Brasil foi um dos últimos países do ocidente a abolir a escravidão e esse é um dos traços que dão especificidade ao escravismo brasileiro: a manutenção do regime escravista no país perdurou por décadas convivendo com vedações legais, pelo menos desde 1831, quando, sob pressão da Inglaterra, o Império formalmente abolia o tráfico de escravos.

É neste contexto de progressiva e permanente desagregação do regime escravagista que a Lei Áurea foi aprovada em 1888.

A lei foi votada em regime de urgência:  83 deputados votam a favor e 9 contra (todos do partido conservador, provenientes de regiões rurais menos preparadas para transição ao regime livre).

Não se tratou o 13 de maio de uma concessão benevolente da princesa Isabel mas uma resposta tardia do Império a uma forma social em decomposição, dentro de um contexto de crise que poderia colocar a própria existência do regime político em cheque.  Os Caifazes paulistas e o Quilombo do Jabaquara são a mais importante expressão da situação pré revolucionária que antecedeu a Lei Áurea.

Na imagem: Quintino de Lacerda – Líder do Quilombo do Jabaquara e considerado o primeiro vereador negro do Brasil, eleito em Santos em 1895.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

“Clarissa” – Érico Veríssimo

 “Clarissa” – Érico Veríssimo


 

Resenha Livro - “Clarissa” – Érico Veríssimo – Editora Globo

 

Não seria exagero dizer que o escritor gaúcho Érico Veríssimo foi o mais fiel retratista do povo gaúcho, da sua história e dos seus costumes.

 Não seria correto, porém, dizer que toda a sua obra, elaborada entre os anos 1930/1970, apenas tivesse tratado e se situado dentro daquilo que ele próprio dizia ser o “Continente”, a antiga Província de São Pedro das Missões, hoje Estado do Rio Grande do Sul.

Os seus primeiros livros, situados naquilo que ficou conhecido como “O Ciclo de Porto Alegre”, não são obras propriamente regionalistas. Ainda que todas as histórias deste conjunto de narrativas se passem na capital gaúcha, a cidade, que tinha então cerca de 300.000,00, era apenas o cenário, o mero pano de fundo dos enredos.

Dos primeiros livros, o mais conhecido (e aquele que levou o escritor ao sucesso de público) foi “Olhai os Lírios do Campo” (1932). Esse e os demais foram escritos na juventude de Veríssimo, quando acabara de se mudar do interior gaúcho para a capital riograndense, para trabalhar como jornalista na Editora Globo. A cidade de Porto Alegre, nessas histórias, aparece mais como um detalhe, já que a narrativa tem um conteúdo mais universal, podendo tido as situações se passado em qualquer outro lugar.

Nas palavras do próprio escritor: “procurando analisar com imparcialidade os meus romances anteriores ao Tempo e o Vento, eu percebo o quão pouco, na sua essência e na sua existência, eles tinham a ver com o Rio Grande do Sul. Tendiam para um cosmopolitismo sofisticado, que me levava a descrever a provincianíssima Porto Alegre de 1934 como uma metrópole tentacular e turbulenta (...)”. (“Solo de Clarineta”, V. 1).

O ponto alto da literatura de Érico Veríssimo dar-se-á depois, na década de 1940, quando começou a escrever a sua obra prima, na verdade, uma triologia chamada “O Tempo e o Vento”. Nesta coletânea, o escritor pretendeu contar a história do Rio Grande do Sul desde 1745 até meados do século XX, na forma de literatura.

Há nesses três livros um painel e mosaico das histórias de famílias, grupos e clãs políticos locais que por duzentos anos ocuparam o território, constituíram vilas e cidades, promoveram guerras com os castelhanos pelo domínio da terra e envolveram-se em brutais guerras civis, essas últimas até mais sangrentas que os conflitos com os espanhóis.

“Clarissa” (1933) pertence à primeira fase das obras do escritor gaúcho, está fora da orientação regionalista que marcou os seus livros subsequentes. Trata-se do primeiro romance publicado por Érico Verissimo, escrito quando tinha 27 anos de idade. Nele há um forte conteúdo autobiográfico: o escritor retrata a si mesmo na figura do personagem Amaro, um pianista, com alma de poeta, triste, silencioso, ensimesmado, capaz de captar através da sensibilidade do artista as nuanças do mundo, sem ser compreendido pelos outros, exceto pela menina Clarissa.

No próprio prefácio da obra, o escritor conta a fonte da inspiração para a história:

“Sob os jacarandás floridos da velha praça da Matriz de Porto Alegre, caminhava uma rapariga metida no seu uniforme de normalista. Teria quando muito treze anos de idade, seu andar era uma dança, seu rosto uma fruta madura e seus olhos, que imaginei escuros, deviam estar sorvendo com avidez a graça luminosa e também adolescente daquela manhã de primavera. De minha janela eu a contemplava com a sensação de estar ouvindo uma sonata matinal e ao mesmo tempo vendo uma pintura animada. (...) Desejei saber compor música para traduzir em melodia aquele momento poético; ou então pintar, para prender numa tela as imagens daquele minuto milagroso”.

A essa menina deu o nome de Clarissa e, ao invés de retratá-la em pintura ou música, o fez através de uma novela.

O tema central do livro é a transição da infância à vida adulta.

A história se passa na cidade de Porto Alegre, para onde a protagonista é mandada pelos pais para os estudos secundaristas. Clarissa vem de uma cidade do interior para morar na pensão de sua Tia Zina. A história se passa no ano de 1933, durante o ano letivo em que a personagem principal passará dos 13 aos 14 anos de idade. Momento da vida de transição: dos estertores da infância, quando vê o mundo com olhos cheios de surpresa e encanto, para a adolescência, quando dá os seus primeiros suspiros de amor e percebe que o mundo não é perfeito.

Naquele ambiente da pensão, vai entrando em contato com os demais moradores da pequena hospedaria, que dão o pano de fundo da história: o tio Couto, desempregado que vive prometendo arranjar um serviço, mas parece acomodado com sua situação; Major Nico Pombo que passa horas conversando sobre histórias do seu passado militar; Zezinho, aluno de medicina com jeito afeminado; e Amaro, um solteirão que vive calado no seu canto, refém da sua sensibilidade de poeta que o faz se afastar de todos, a despeito de vê-los com a mesma ternura com que o artista retrata o mundo na sua obra.

O processo de amadurecimento de Clarissa gravita em torno da descoberta da injustiça, da mentira e do sofrimento.

Ao lado da pensão vive Tonico, um menino pobre e paralítico, que passa o dia inteiro na cadeira de rodas, no quintal, triste e sorumbático, gritando pela mãe quando sente frio e deseja voltar para dentro de casa. O menino tinha sonho de lutar numa guerra, queria ser militar mas jamais poderá sê-lo pela sua condição. Tornou-se deficiente após ser atropelado: Clarissa confronta a situação de pobreza do vizinho com casas ricas e as crianças felizes que brincam em outro canto da rua. É através dessa experiência de desencanto pelas injustiças do mundo que a personagem vai se distanciando da infância e se tornando adulta.

Clarissa é dotada da mesma sensibilidade de Amaro. Ela também sofre na pele as dores do mundo, tal qual os poetas. Por isso, ao longo da história, é a única a travar alguma conexão com Amaro. No seu aniversário de quatorze anos ganha do pianista um peixinho, a quem dá o nome de Pirulito.  O peixe isolado dentro do aquário evoca a imagem daquele mesmo homem triste, silencioso e solitário.

Com o fim do ano letivo, Clarissa retorna à casa de seus pais no interior para nunca mais voltar. É quando Amaro descobre um segredo guardado até mesmo de si mesmo: sentia amor pela menina, não um sentimento que evoca o relacionamento conjugal, mas o encanto misterioso decorrente da beleza da vida e da natureza.

sexta-feira, 27 de março de 2026

A VIDA DE GETÚLIO VARGAS (1882/1954)

 A VIDA DE GETÚLIO VARGAS (1882/1954)



 

“Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram o meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo ao caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”. (Carta-testamento, Getúlio Vargas, 24 de agosto de 1954).  

Getúlio Vargas foi alçado ao poder através da Revolução de 1930, desencadeada pelos Estados de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, em conjunto com os tenentes, militares de baixa patentes que lutavam pelo voto secreto, pelo fim da corrupção eleitoral e por reformas sociais. Esses foram os setores que se organizaram através da Aliança Liberal, a coligação oposicionista derrotada nas eleições de 30 para o candidato oficial, indicado pelo presidente Washington Luiz.

A crise da República Velha já vinha se arrastando pelo menos desde 1922, ainda durante a gestão de Arthur Bernardes, quando o estado de sítio, ao invés de ser a exceção, virou a regra. A ampla insatisfação contra a República Velha já não se reduzia à oposição parlamentar, mas alcançava o povo; partia do incipiente sindicalismo, conduzido por anarquistas e depois pelos comunistas, mas principalmente pelos militares de baixa patente.

O fim da I Guerra Mundial (1914/1918) colocava a necessidade do país se modernizar e desenvolver a sua indústria; os centros urbanos cresciam, uma nova classe média se fortalecia e a base social da República Velha (1889/1930), alicerçada no coronelismo e nas oligarquias agrárias, ia desmilinguindo.  Mesmo nas artes, aparecia a necessidade de renovação, com a assimilação, através dos modernistas, de novas tendências artísticas europeias de vanguarda, e o rechaço ao academicismo e a rigidez formal que marcavam a literatura e arte do século XIX. 

Tratava-se de uma conjuntura revolucionária. Esse era o pano de fundo da Revolução de 30. Foi neste contexto que Getúlio Vargas assumiu o poder.

Dentro do amplo movimento de insatisfação contra a República Velha, Getúlio Vargas laçou-se como candidato à presidência pela oposição na Aliança Liberal. Parecia estar dentro do setor mais moderado daquele movimento. Após a “vitória” do candidato oficial, ensaiou até mesmo acatar a sua derrota para Júlio Prestes. Mas com o assassinato de João Pessoa, governador do Estado da Paraíba e candidato à vice presidente da Aliança Liberal, a maré revolucionária se tornaria irreversível – Getúlio, até então, era um político convencional e conciliador, foi obrigado pelas circunstâncias a liderar a revolta, sob pena de entregá-la aos setores mais radicais da oposição, notadamente os tenentes, que já haviam pegado em armas contra o regime em 1922 (Revolta de Copacabana) e em 1924 (Revolta Paulista).   

Em 1930, Getúlio Vargas ainda não era o político popular, que empolgava as massas em grandes comícios,  o chamado “pai dos pobres”. Era um político tradicional. Tinha sido, pouco antes, Ministro da Fazenda de Washington Luiz, o presidente por ele mesmo deposto pouco tempo depois. Antes, sua carreira política estava circunscrita à política do seu estado natal. Em 1922 foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul. Em 1928 foi eleito Governador por aquele estado. E dois anos depois, estaria na cabeça do movimento que colocou fim à Primeira República.

 Vargas nasceu em 19 de abril de 1882 em São Borja, Rio Grande do Sul. Seu pai era um veterano da Guerra do Paraguai e ostentava o título de general honorário do Exército brasileiro. Também foi chefe político do Partido Republicano gaúcho, presidido por Borges de Medeiros, liderança política máxima do Rio Grande do Sul.

Logo cedo, Vargas, aos 17 anos de idade, alista-se no 6º batalhão de infantaria em São Borja. Mas pouco tempo depois pede baixa e se muda para Porto Alegre, onde irá se matricular na Faculdade de Direito.

Quando estudante, tem contato com as ideias de Júlio de Castilhos, o que o influenciaria na sua orientação política futura: antiliberal, com forte influência do positivismo de Augusto Comte, num viés autoritário e centralizador em oposição ao federalismo que beneficiava o sistema oligárquico da República Velha. No plano nacional, pode-se dizer que Getúlio Vargas implementou o castilhismo quando instaurada a ditadura do Estado Novo (1937/1945).

A tomada do poder deu-se em 1930, mas Vargas só se tornaria presidente constitucional no ano de 1934, um dia após a promulgação da nova Constituição.

O cenário mundial era de polarização política: se desenhava no horizonte a II Guerra Mundial. Os comunistas se organizavam através da Aliança Nacional Libertadora (recrutando, inclusive, antigos tenentes descontentes com a moderação do novo governo); inspirado no fascismo italiano, o escritor Plínio Salgado constituiu o movimento integralista, também contando com apelo das massas. Choques entre comunistas e integralistas ocorriam nas ruas.

Em novembro de 1935 os comunistas lançam-se a uma tentativa improvisada e mal organizada de tomada do poder, conhecida depois como “Intentona Comunista”. Era o pretexto que o regime necessitava para alicerçar-se no poder naquele período de turbulência e polarização.

É desencadeada uma campanha anti-comunista, com a criação da polícia política sob a chefia de Felinto Muller, o maior torturador do Estado Novo. O risco de uma revolução presidida pelo PCB era remoto, mas a propaganda anti-soviética foi criando o ambiente favorável à instauração de uma ditadura de fato.

Em 10 de novembro de 1937 Getúlio Vargas outorga uma nova constituição e implementa o Estado Novo, tornando-se um ditador.

O líder popular e carismático surge naquele momento. Não só pela campanha contra os comunistas, mas especialmente pela legislação social e trabalhista, que conferiu a popularidade daquele que foi chamado o “pai dos pobres”. É durante o Estado Novo que é instituída a CLT (1943), consolidando uma série de direitos sociais e trabalhistas inexistentes na República Velha, quando a questão social era vista como questão de polícia.

O salário mínimo foi regulamentado e foram instituídos direitos aos trabalhadores vigentes até os dias de hoje: jornada de oito horas, férias remuneradas, descanso semanal remunerado e regulamentação da previdência social.

Getúlio Vargas foi derrubado do poder em outubro de 1945, no contexto do pós II Guerra, quando a vitória das “democracias” ocidentais sobre o nazi-fascismo tornava insustentável a ditadura estadonovista. Foi deposto através de um ultimato do alto comando do Exército, num golpe palaciano que não lhe tirou em nada a sua popularidade – tanto que se retira pouco tempo depois para sua fazenda no Rio Grande do Sul e, sem fazer campanha, é eleito senador com ampla quantidade de votos.

Deposto em 1945, seria, cinco anos depois, alçado de novo à presidência, agora através do voto. Dizia-se que Getúlio Vargas voltou “nos braços do povo”. E essa seria a fase em que a liderança carismática deixaria a sua natural tendência contemporizadora para levar adiante o enfrentamento cos setores dominantes da política brasileira.

A campanha do “petróleo é nosso” daria as condições para a criação da Petrobrás em 1953. O objetivo de estabelecer o monopólio estatal do petróleo desafiava os interesses imperialistas norte americanos e agitava a oposição mais ligada aos norte-americanos, particularmente a UDN e a imprensa carioca. Vargas nomeia João Goulart como Ministro do Trabalho que, diante do alto custo de vida, propõe aumentar em 100% o salário mínimo, despertando a fúria do empresariado.

Estávamos então em plena Guerra Fria razão pela qual as políticas sociais e nacionalistas do governo eram utilizadas como pretexto para oposição novamente levar adiante a campanha anticomunista.

O golpismo avançava a passos largos. Um evento detonador da crise foi a tentativa de assassinato do jornalista/udenista Carlos Lacerda que através do seu jornal “Tribuna da Imprensa” vinha desencadeando uma campanha furiosa contra o governo.

A situação ficou irreversível quando os militares brasileiros passaram a apoiar o golpe. Getúlio, poucos dias antes da sua morte, afirmava que só sairia do palácio do Catete morto. Dizia que já estava muito velho para aceitar ser desmoralizado e para temer a morte.

No dia 24 de agosto de 1954 recebeu no palácio do governo um emissário das Forças Armadas intimando-o a renunciar. Optou pelo suicídio, como a solução política mais eficiente: ao mesmo tempo que colocou a oposição sob ataque do povo que apoiava o governo, pode através daquele ato reagrupar as forças políticas varguistas, organizadas no PTB e PSB.

 Bibliografia:

“Getúlio” – Coleção Os Grandes Líderes – Nova Cultural – Bolívar Lamounier

quarta-feira, 25 de março de 2026

A História da Primeira República

 A História da Primeira República




 

Regime federativo, abolição da escravatura, separação da Igreja e do Estado, instituição do casamento civil, regulamentação do trabalho industrial, reforma educacional: essas eram as principais bandeiras defendidas pelos partidários do regime republicano no Brasil, alçados ao poder através do golpe militar de 15 de Novembro de 1889.

A proclamação da república foi conduzida pelos militares, tendo à frente Deodoro da Fonseca, o que se deu através de um golpe palaciano, que quase não encontrou resistência por parte da monarquia. Os conspiradores tomaram de assalto o quartel general do Rio de Janeiro e o Ministério de Guerra durante a madrugada do dia 15.11. Prenderam o Visconde de Ouro Preto e alguns outros ministros.

Consta que o único ferido na quartelada foi o Barão de Ladário, Ministro da Marinha, que desacatou a ordem de prisão e foi baleado. Um incidente mais grave ocorreu no Maranhão com o massacre de 17 de Novembro, quando tropas republicanas abriram fogo contra cerca de 2.000 manifestantes; eram ex-escravos que compartilhavam a ideia de que a queda da monarquia acarretaria a restauração da escravidão.

É de se lembrar que muitos abolicionistas, a começar por José do Patrocínio, passaram a reivindicar a monarquia, associado o fim a escravidão e a lei Áurea à Princesa Isabel. Antes do golpe do dia 15 de novembro, foi desencadeada uma campanha procurando convencer o povo de que a instauração da república iria acarretar a volta da escravidão. As manifestações republicanas eram assaltadas pelos chamadas Guardas Negras, capoeiras e alforriados recrutados com a finalidade de dissolver os comícios republicanos, armados de navalhas e cacetes

Entretanto, pode-se dizer em linhas gerais que o povo assistiu “bestializado” à Proclamação da República, para utilizar a famosa frase do jornalista republicano Aristides Lobo. Ou seja, a queda da monarquia produziu na população, ao menos num primeiro momento, um misto de espanto e apatia.    

Essa transição de regime relativamente pacífica concretizava o plano do Partido Republicano criado em 1870 – a sua ala majoritária acreditava numa transição não violenta do regime monárquico para a República, ou seja, a evolução natural dos acontecimentos levaria o país a superar o II Império, seguindo leis históricas inflexíveis, dentro do horizonte positivista. Os partidários de August Comte, especialmente os militares brasileiros, acreditavam na ideia de uma evolução natural da sociedade, regida por leis científicas, em direção ao progresso. Daí vem o lema inscrito na bandeia nacional desde o advento da República: Ordem e Progresso.

Entretanto, os dois primeiros governos militares da Primeira República, o de Deodoro da Fonseca (1889/1891) e especialmente o de Floriano Peixoto (1891/1894), iriam se confrontar com a reação violenta (e tardia) ao novo regime. Essa primeira fase da 1ª República pode ser justamente caracterizada como o momento da consolidação do regime republicano e o esmagamento/eliminação dos resíduos monárquicos.

Dentro das forças armadas brasileiras, era a marinha a que tinha maiores vinculações com o regime monárquico. A sua própria composição social a tornaria uma força mais elitista que o exército, onde predominava a orientação republicana e positivista. Neste contexto ocorre a Revolta da Armada, quando unidades da marinha se insurgem contra o fechamento do congresso por Deodoro da Fonseca  - na segunda fase da revolta, já no governo de Floriano Peixoto, os rebeldes exigiam não só a tomada do poder mas sugeriam a restauração da monarquia, ameaçando inclusive bombardear a cidade do Rio de Janeiro.   

Outro movimento que buscava desafiar o novo regime republicano foi a Revolta de Canudos, conduzida por um líder messiânico chamado Antônio Conselheiro. Isso ocorreu já no primeiro governo civil da República de Prudente de Morais (1894/1898). O arraial surgiu em pleno sertão nordestino, chegando a reunir 10 mil habitantes. O primeiro ato de rebeldia se deu quando o Conselheiro, conduzindo o seu séquito de seguidores, se insurgiu contra a obrigatoriedade de pagamento de impostos, após o advento de uma lei de 1893, concedendo autonomia aos municípios. Mandou queimar em praça pública a tábua de cobrança dos tributos e afirmava para quem quisesse ouvir  que a implantação do regime republicano era uma invenção do demônio. Foram necessárias quatro expedições militares para a destruição de Canudos, até o extermínio literal de toda a sua população.

Os primeiros dez anos da República Velha corresponderam, portanto, à fase de consolidação do novo regime e ao desmantelamento da reação monárquica tardia. Uma segunda fase se iniciaria a partir do governo de Campos Salles (1898–1902) com a instituição da política do café com leite e a política dos governadores.

Ao contrário dos dias de hoje, a 1ª Constituição Republicana (1891) previa um regime acentuadamente federalista. Se hoje as lideranças dos estados são chamadas de “governadores”, na República Velha eram “presidentes”. O grau de autonomia conferido aos estados era muito maior, envolvendo até mesmo disputas territoriais entre distintos entes da federação – da mesma forma que ocorrem as disputas de territórios entre diferentes nações. Uma delas, envolvendo disputa de território entre os estados do Paraná e Santa Catarina, foi a causa inicial de guerra civil, a chamada Revolta do Contestado, que levou à morte mais de 10 mil pessoas.

O acentuado federalismo da República Velha era alicerçado nas elites agrário-exportadoras que passaram a dirigir o governo, após a fase inicial de implantação da República conduzida pelos militares do exército. Num país ainda sem indústrias e com baixo desenvolvimento urbano, a política era conduzida pelos fazendeiros do café, pelos estancieiros do Rio Grande do Sul, pelos latifundiários de Minas Gerais e pelos senhores de engenho do nordeste, esses últimos já em fase de franca decadência.

O coronelismo que marca a política local na República Velha revela o espírito de clã, muito bem evidenciado por Oliveira Viana no seu estudo sobre as chamadas “populações meridionais do Brasil”. A grande dimensão territorial do Brasil colabora para o isolacionismo das fazendas. Tudo isso cria as condições para o fortalecimento de clãs familiares que conduzem a política e a jurisdição de todo povo agregado aos Potentados Rurais. Do escravo ao agregado, passando pelos trabalhadores livres e pobres, lavradores e pequenos funcionários estatais, estão subordinados ao grande senhor de terras. Aliás, é justamente a propriedade de terras e escravos que dá prestígio social e não os títulos de nobreza, como na Europa.

É nesse contexto de afirmação do poder civil, alicerçado na aristocracia rural, em detrimento dos precursores da república no exército que se instituiu a política dos governadores, por meio do qual o governo federal emprestava o seu apoio aos presidentes dos estados, que, via coronelismo, garantiam eleições de parlamentares da base governista, eliminando a oposição.

Essa circunstância fazia com que em absolutamente todas as eleições da República Velha fossem alçados à vitória os candidatos “oficiais” – a constituição daquela época não permitia a reeleição, fazendo com que cada presidente buscasse afirmar o seu sucessor, dentro da lógica do café com leite, ou seja, com o predomínio de São Paulo e Minas Gerais, onde estão os setores mais fortes da elite agrária do país.

Uma terceira e última etapa da Primeira República se evidencia em 1922, com a eleição de Arthur Bernardes. Estamos diante da fase de decadência do regime. Aquele seria o ano do advento do modernismo nas artes através da Semana da Arte Moderna de 1922. Naquele ano foi fundado também o Partido Comunista Brasileiro. E já na posse do novo governo, marcada pela grotesca fraude eleitoral que caracteriza a República Velha,  haveria o martírio heroico de militares e um civil na Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Iniciava-se, naquele momento, o movimento tenentista, conduzido por militares de baixa patente, que almejavam reformas que combatessem a fraude eleitoral, incluindo o voto secreto, e o fim do predomínio absoluto das oligarquias agrárias na direção do governo.

No governo de Arthur Bernardes, o estado de sítio, ao invés de ser a exceção, virou a regra. A ampla insatisfação contra a República Velha já não se reduzia à oposição parlamentar, mas alcançava o povo; partia do incipiente sindicalismo, conduzido por anarquistas e depois pelos comunistas, mas principalmente pelos tenentes, os militares de baixa patente. O fim da I Guerra Mundial colocava a necessidade do país se modernizar e desenvolver a sua indústria; os centros urbanos cresciam, uma nova classe média se fortalecia e a base social do regime político, alicerçada no coronelismo e nas oligarquias agrárias, ia desmilinguindo.  Mesmo nas artes, aparecia a necessidade de renovação, com a assimilação, através dos modernistas, de novas tendências artísticas europeias de vanguarda, e o rechaço ao academicismo e a rigidez formal que marcavam a literatura e arte do século XIX.  

Já no último governo da República Velha, sob a direção de Washington Luiz, estavam criadas as condições para o fim da ordem instituída no dia 15 de novembro de 1889. A fraude eleitoral que conduziu Júlio Prestes à presidência seria apenas o estopim de uma crise que se iniciara ainda em 1922. É neste contexto que muitos daqueles velhos tenentes seriam alçados ao poder através da Revolução de 1930 encabeçada por Getúlio Vargas.

Era o fim da República Velha.

BIBLIOGRAFIA

“Populações Meridionais do Brasil” – Oliveira Viana – Edições do Senado Federal V. 27.

“História do Povo Brasileiro”  - Org. Jânio Quadros e Afonso Arinos – J. Quadros Editores Culturais S/A

Quadro: Juramento da primeira Constituição republicana: Deodoro, Floriano, Prudente de Moraes (quadro de Aurélio de Figueiredo, óleo sobre tela, Museu da República)

segunda-feira, 2 de março de 2026

“Rua Descalça” – José Mauro de Vasconcelos

 “Rua Descalça” – José Mauro de Vasconcelos



Resenha Livro - “Rua Descalça” – José Mauro de Vasconcelos - Edições Melhoramentos 

O livro mais conhecido do escritor fluminense José Mauro Vasconcelos certamente é “Meu Pé de Laranja Lima” (1968), espécie de relato autobiográfico da infância do escritor, vivenciada na pobreza de um bairro de subúrbio de Bangu/RJ.

As fantasias de uma criança que cultiva amizade com uma árvore de laranjeira do seu quintal, o encanto produzido pela imaginação dos menores, que conseguem abstrair as dificuldades da vida e encará-la com ternura e alegria, certamente cativou leitores de todas as idades e fez de Vasconcelos um dos poucos escritores brasileiros que pôde viver exclusivamente dos direitos autorais de sua obra.

Façanha que encontra poucos paralelos no Brasil: Érico Verissimo, Jorge Amado e Monteiro Lobato são outros poucos exemplos de escritores de uma literatura ao mesmo tempo popular, acessível a todos e de rara qualidade estética.

“Meu Pé de Laranja Lima” vendeu mais de dois milhões de exemplares, tendo sido publicada em 15 países. “Rosinha Minha Canoa” (1962) foi a primeira obra de sucesso do nosso escritor, que igualmente relata um mundo encantado e fantástico, em que o pescador mantém dialogo e afeto com sua canoa, cuja origem advém de uma árvore capaz de sentir e de se comunicar. E esta pequena novela “Coração de Vidro” teve mais de 650.000 exemplares vendidos, publicações em 10 países, traduções em três idiomas e mais de 70 edições no Brasil.

A popularidade de Vasconcelos, por diferentes razões, não se traduziu em reconhecimento na academia. Aliás, a própria figura do escritor representa a mas completa oposição a tudo o que se posse considerar acadêmico.

De família pobre, nascido no estado do Rio de Janeiro, aos nove anos mudou-se para a casa dos tios em Natal/RN. Chegou a frequentar dois anos do curso de medicina naquele estado, mas a sua personalidade irrequieta e aventureira o faria abandonar o curso e retornar ao Rio de Janeiro a bordo de um navio cargueiro, levando uma simples maleta de papelão como bagagem.

 Nesta peregrinação pelo país a fora, trabalhou como treinador de boxe, carregador de bananas na capital do Rio de Janeiro, pescador do litoral fluminense, professor primário num núcleo de pescadores no Recife, garçom em São Paulo. Além de escritor, foi ator de cinema e modelo.

Em dado momento de sua vida, se junto aos irmãos Villas Bôas, sertanistas e indigenistas, enveredando-se pelo sertão da região do Araguaia, contando povos indígenas desconhecidos e cartografando terras. O contato direto com aqueles povos sertanejos e indígenas criaria as condições para o escritor fazer relatos minuciosos (ainda que sua arte realista enveredasse para o fantástico, com animais e árvores falantes) dos povos do Araguaia, no seu já mencionado “Rosinha Minha Canoa” e no romance “O Garanhão das Praias” – ambos tratando de missões “civilizatórias” junto aos povos sertanejos e indígenas dos rincões do país.

RUA DESCALÇA

O romance “Rua Descalça” (1969), tal qual “Meu Pé de Laranja Lima” (1968), é uma história do subúrbio carioca.

A descrição do povo em suas interações na rua e nos bondes, indo e voltando do trabalho, falando mal da vida alheia, mas exercendo também belos atos de solidariedade, é o pano de fundo da história:

“A rua branca do subúrbio se perdia igual, indiferente, imutável. (...) Gente passava levando marmitas em direção à fábrica. Os homens da pedreira se encaminhavam para o Murundu.

O peixeiro aparecia perto com o cesto na cabeça e uma porção de gatos fazendo miau atrás. Parava e os gatos paravam. Andava e os gatos repetiam o miau.

Mulheres mal vestidas, despenteadas coçando a cabeça, dando cafuné nos piolhos vinham olhar a rua e gritar qualquer coisa. Ou chamar um filho ou brigar com as vizinhas. Meninos barrigudos com o pipiu de fora, remelentos seguravam nas saias da mãe e olhavam a rua sem compreender ainda o seu significado”.

O tema do livro é a adesão voluntária do rico ao mundo dos pobres; este movimento é conduzido pelos protagonistas Roberto e Ricardo, dois irmãos oriundos de uma família endinheirada de Copacabana.

O chefe dessa família era um capitalista que, após ir à falência, dá um tiro na cara, suicida-se dentro do lar. Sua mulher e filhos, desamparados, são obrigados a se mudar para o subúrbio do Rio de Janeiro. Lá, a matriarca, chamada Magda, se vê na condição de levar e passar a roupa da família. Os filhos ricos devem agora acordar às 05:00 da madrugada e enfrentar o bonde lotado até o local de trabalho. Uma tia que parasitava a família rica, se recusa a mudar-se para a Rua Descalça e procura outro lugar onde pudesse viver sem o suor do seu rosto.

Aquilo que parecia uma tragédia familiar surge como a oportunidade aos irmãos Roberto e Ricardo conhecerem um mundo em que a pobreza material tem como contrapartida a riqueza do amor, da ternura e da gratidão. É a realidade dos pobres que, pelas  circunstâncias materiais e pela falta de recursos, necessitam da solidariedade dos outros, obrigando-os a serem também solidários.

A tragédia familiar parece ser remediada por um fato inesperado. A morte de um tio rico e solteiro tornaria a família, na condição de herdeira de uma grande fortuna, novamente habilitada ao mundo da alta classe carioca. O falecimento é até mesmo comemorado, exceto por Roberto e Ricardo que se recusam a sair da “Rua Descalça”. A partir de então fazem o voto de pobreza e se dedicam inteiramente à caridade. Vão neste processo se santificando: só aquele que consegue se desprender dos bens materiais será capaz de ver a bondade dos outros. E são bem aventurados os puros do coração, pois a eles será dado ver o reino dos seus.

Neste processo, Roberto assume o nome de “Antão” e Ricardo o nome de “Ananias”. Vão se beatificando no trabalho de caridade, passando do auxílio material à cura e ao milagre, despertando através dessa ajuda desinteressada ao próximo o amor incondicional do povo da “Rua Descalça”.

Na casa dos irmãos, o relógio não funciona. Representa a paralisia do tempo: todos os dias são iguais na casa de Antão e Ananias, inclusive o dia de Natal. Para os santos, a noção do tempo é diferente daquela dos mortais: sua natureza espiritual superior torna desnecessário o relógio pela inutilidade de ver as horas se sucedendo, porquanto seus dias são todos iguais.

Quando o resto da cidade calunia-os chamando de macumbeiros, é o povo que luta pela honra dos irmãos, não permitem que desrespeitem aqueles que lhe aparecem como santos.

Ao término da histórica, há mesmo uma iminência de guerra: o resto da cidade exige que os irmãos sejam internados num hospício, gerando a reação dos homens e mulheres da “Rua Descalça”, que saem em defesa de Antão e Ananias.

Um padre, comovido com a caridade e amor desinteressado dos dois, mas também pressionado pelos fiéis que exigem a prisão dos milagreiros, atua como Pôncio Pilatos: não sem um peso no coração, lava suas mãos e leva mensagem aos santos da “Rua Descalça” convidando-os a renunciar à vida de caridade, sob pena de levar a cidade ao pé de guerra.

São tentados ao final da história a retornar para a família agora instalada num bairro confortável desde a morte do tio rico. Não aceitam o convite, mas abandonam a “Rua Descalça” com um objetivo maior: levar a assistência para todo o “resto do mundo.”.  

Antão e Ananias remetem a outras figuras que também abandonam a riqueza como meio de purificar a alma. A inspiração do escritor, evidenciada logo no prefácio, é criar uma versão carioca de “Gotama Buda”, que abandonou as pompas para viver entre os pobres ou de São Francisco de Assis que do mesmo modo deixou tudo para participar da vida dos menos favorecidos.

Também foi o caso de José Mauro de Vasconcelos – ainda que não seja oriundo de uma família rica, foi através do seu contato com o povo que desenvolveu a sua capacidade de contar histórias e através delas defender e afirmar o amor e a ternura – a palavra ”ternura” é literalmente reiterada em todos os seus livros.

Desde muito jovem, o escritor deixou o conforto da casa da família para iniciar um eterno vai e vem, trabalhando ora como carregador de banana, ora como pescador e ora como professor primário. E mesmo depois do seu sucesso através dos seus livros e das adaptações no cinema, sempre que podia se lançava no mato em expedições junto às populações indígenas do Araguaia.