domingo, 6 de setembro de 2026

“O Sétimo Selo” – Ingmar Bergman

 “O Sétimo Selo” – Ingmar Bergman



O “Sétimo Selo” é uma expressão cinematográfica dos anseios da filosofia existencialista que emergia no contexto histórico do Pós Segunda Guerra Mundial. Não por acaso, o filme do cineasta sueco Ingmar Bergman (1918/2007) foi lançado em 1957, poucos anos depois do livro “A Peste” de Albert Camus. O filme e o romance filosófico convergem ao mesmo horizonte filosófico servindo-se, inclusive, do mesmo tema: as duas histórias tratam de uma grande epidemia de cólera que lança repentinamente uma coletividade a todos os sentimentos inerentes à morte, colocando em pauta os grandes questionamentos existenciais a um vasto número de pessoas; cada qual buscando dimensionar um sentido diferente à peste, mas todos igualados de forma absoluta quando suas vidas são ceifadas pela morte inapelável.   

No contexto da II Guerra Mundial, a destruição e morte de milhões de pessoas, consubstanciadas particularmente nas duas bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki, colocam em pauta o problema do sentido da vida e o questionamento de todas as tradições filosóficas herdeiras do iluminismo que se pautam na teleologia.  

A racionalidade por detrás das grandes ideologias políticas que se confrontaram na II Guerra (fascismo, liberalismo e comunismo) conduziu os homens ao estado de barbárie, fazendo com que filósofos existencialistas como Sartre e Camus propusessem uma espécie de filosofia do absurdo: o paradoxo entre a busca incessante de sentido na vida pelos homens (através da fé ou da razão) e a completa indiferença da realidade ou, se quisermos, de Deus, que lança a espada da morte de maneira igual a cada um dos homens independentemente de sua religião ou ideologia política.

O filme tem como ponto de partida o encontro de um cavaleiro medieval com a morte, personificada por um personagem vestido inteiramente de preto, de semblante sombrio e olhar perscrutador.

A morte imediatamente se apresenta como tal e revela estar na companhia de Antonius, o soldado, há muito tempo. Esse encontro se dá no momento em que o cavaleiro e seu escudeiro retornam à terra natal depois de dez anos combatendo nas cruzadas em defesa da fé cristã. Ironicamente, o retorno ao lar se dá no contexto da peste negra, uma grande epidemia que era vista pela Igreja como um castigo divino; sobreviventes de uma guerra em defesa de Deus, o cavaleiro e seu escudeiro são novamente convocados pelas circunstâncias ao encontro com o divino, a partir do momento em que a morte surge no horizonte para conduzi-lo em direção à escuridão.

O filme ficou bastante conhecido no imaginário daqueles que apreciam o cinema pela imagem desse cavaleiro jogando xadrez com a morte.

O jogo de xadrez possui diversos significados. Sabe-se desde o começo que nenhum homem é capaz de vencer a morte;  por mais astuto, ninguém jamais soube lográ-la. De certo modo, todos sabemos da inevitabilidade da morte (e, portanto, da sua invencibilidade) mas alimentamos um desejo íntimo e irracional de jogar essa partida, ainda que seja para ganhar tempo. O cavaleiro propõe o jogo de xadrez pois precisa de mais tempo para encontrar o sentido da vida e preencher o vazio que orienta a sua alma. O desafio é aceito pela morte, com um certo olhar de ironia.  

Esse personagem principal, o cavaleiro medieval, é a representação do filósofo existencialista açoitado por um sentimento de angústia que não decorre propriamente do medo da morte. O seu pavor decorre da impossibilidade de captar algum sentido na vida e de compreender a existência de Deus. Em certa passagem, o protagonista diz que “a fé é algo doloroso, é como ver remotamente alguém dentro de um quarto escuro, chamá-lo e essa pessoa não sair de lá, não atender ao nosso chamado”.

O desespero do cavaleiro e do filósofo existencialista não surge de um acerto de contas com Deus, muito menos do medo do inferno, mas de um grande vazio, de uma indiferença fria da vida, o que sugere o absurdo da existência, produto de uma incompreensão incontornável da razão por que existimos.  

O cavaleiro e seu escudeiro marcham em direção a vilarejos medievais onde a peste vai desnudando as diversas formas com que o problema da morte emerge no imaginário do povo.

De maneira geral, no contexto da Inquisição medieval, a peste aparecia como manifestação de um Deus punitivo, e indicava o juízo final, pavimentando grandes marchas religiosas, com músicas fúnebres e homens se auto martirizando para a purgação dos pecados. A dinâmica da peste articula-se com as atividades da Inquisição, quando a mistificação se transforma em perseguição religiosa e barbárie.

Uma das cenas mais poderosas do filme se dá quando um grupo de pessoas se mobiliza para queimar em praça pública uma mulher acusada de bruxaria. Acusavam-na de carregar o Diabo no seu próprio corpo e lhe atribuem culpa pela disseminação da peste. O cavaleiro rompe o cerco e trava relação com a mulher antes da aplicação da pena capital. Num ato de desespero, Antonius implora para que a bruxa através do seu olhar evidenciasse o Demônio: o cavaleiro presume que o  diabo teria alguma informação sobre o grande segredo da vida, qual é a natureza divina. O seu desespero se dá justamente quando contempla os olhos da bruxa e enxerga um grande vazio: apenas o simples e banal medo humano, nada de divino ou de sobrenatural.

O término do filme se dá com uma visão poética da morte vista por um artista capaz de ter visões. Ele e sua esposa acompanhavam o cavaleiro e seu grupo de homens condenados à morte mas, por um lance do acaso, conseguem provisoriamente escapar do destino inapelável.

O artista contempla numa visão a imagem do fim, uma fotografia do que é morrer. Seu olhar é de encanto, como se estivesse apreciando uma grande obra de arte: a humanidade numa grande marcha fúnebre, conduzida pela morte à frente munida de sua espada, todos em direção à escuridão, dentro de uma fila indiana. Vão caminhando e dançando até o fim do horizonte.  

O existencialismo é a resposta de um conjunto de filósofos que passam a duvidar de uma noção cristalizada de que a História, dos indivíduos e da coletividade, tenha algum sentido.

Essa filosofia e o filme o “Sétimo Selo” não sugerem a pura e simples rejeição da existência de Deus. Mesmo um ateu pode atribuir sentido à vida e ter uma falsa ilusão de paz e felicidade, quando pautado por uma ideologia política materialista. O que emerge aqui é o grande vazio daqueles que chegaram à conclusão de que somos forçados a perguntar qual o sentido da vida ou para onde vamos, mas sabendo, como no jogo de xadrez, que a partida já está perdida, porquanto jamais atingiremos a resposta. Jamais saberemos qual é o sentido, porque fomos criados e para onde marchamos. Mas ainda insistimos em jogar esse jogo.


terça-feira, 1 de setembro de 2026

A Coluna Prestes

 A Coluna Prestes





A Coluna Prestes foi a maior marcha militar (em termos de distância percorrida) de toda a história mundial.

Enquanto a “Grande Marcha” conduzida por Mao Tse Tung na Revolução Chinesa percorreu cerca de 10.000 Km, os tenentes liderados por Luiz Carlos Prestes, entre 1924 e 1927, trilharam incríveis 24 mil quilômetros.

Os brasileiros levaram adiante uma guerra de movimento, percorrendo até 60 Km por dia, enveredando pelos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Piauí, Paraíba, Pernambuco, Bahia e Minas Gerais. Nunca estacionaram as tropas em lugar nenhum por mais do que 48 horas; em três anos percorreram os planaltos do centro oeste brasileiro, as mata cerradas do Piauí e do Maranhão, onde travaram relações com indígenas da nação Xerente,  atravessaram em pequenas embarcações o Rio São Francisco e atingiram o sertão baiano, quando foram perseguidos por jagunços recrutados pelas oligarquias locais.

Se não alcançaram o pleno êxito de colocar abaixo o Governo de Arthur Bernardes, não se pode dizer que saíram derrotados: mantiveram a luta por 647 dias até alcançarem o exílio na Bolívia em fevereiro de 1927. A Coluna Prestes levou adiante uma campanha nacional bem sucedida defendendo o voto secreto, o fim da censura à imprensa e a anistia aos militares de baixa patente que lutavam contra a República Oligárquica desde 1922. E, mais importante, o movimento de agitação política promovido pelos revolucionários na grande epopeia pelo interior do Brasil pavimentou a vitória da Revolução de 1930 que colocaria fim à Primeira República e abriria um novo horizonte de modernização e desenvolvimento do país dentro do velho espírito tenentista.

O primeiro sintoma da crise terminal da República Velha (1889/1930) dá-se no ano de 1922.

Aquele seria o ano do advento do modernismo nas artes através da Semana da Arte Moderna de 1922. Naquele ano foi fundado também o Partido Comunista Brasileiro. E já na posse do novo governo de Arthur Bernardes, marcada pela grotesca fraude eleitoral, haveria o martírio heroico de militares e de um civil na Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Trata-se do primeiro levante dos militares contra o regime político e pode ser considerado como o ponto de partida mais remoto da Coluna Prestes.

Iniciava-se, naquele momento de 1922, o movimento tenentista, conduzido por militares de baixa patente, que almejavam reformas institucionais que combatessem a fraude eleitoral, incluindo o voto secreto, e o fim do predomínio absoluto das oligarquias agrárias na direção do governo.

A partir daquele momento a ampla insatisfação contra a República Velha já não se reduzia à oposição parlamentar, mas alcançava o povo; partia do incipiente sindicalismo, conduzido por anarquistas e depois pelos comunistas, mas principalmente pelos tenentes, os militares oriundos de setores médios e do povo que viam nas forças armadas e nas poucas escolas militares uma possibilidade de ascensão social.

Em 1924 os tenentes levam adiante um novo movimento insurrecional contra o governo, aos moldes da revolta de 1922, mas agora com maior grau de organização e adesão. Em cinco de julho, 2600 soldados se levantam em São Paulo sob o comando do Major Miguel Costa. As forças rebeldes tomam o controle das estações da Luz e Sorocabana. Abrem fogo de artilharia contra o Palácio dos Campos Elísios onde estava o Presidente do Estado. Tropas federais são enviadas do Rio de Janeiro, mas parte dos militares enviados adere ao movimento. O governador paulista abandona a cidade no dia 9 e São Paulo cai nas mãos dos rebeldes que lançam um manifesto público pedindo a deposição de Arthur Bernardes.

O odiado Arthur Bernardes ordena o bombardeiro de São Paulo obrigando os revolucionários a recuarem. Abandonam a cidade em 27 de julho e descem pelo Paraná até estacionarem em Foz de Iguaçu. Um segundo levante com a mesma diretriz política é levado adiante pelos militares no Rio Grande do Sul. Na madrugada do dia 29 de outubro de 1924 um motim dirigido por Luiz Carlos Prestes toma de assalto um batalhão militar na cidade de Santo Ângelo com a conquista da cidade. O tenente Antônio de Siqueira Campos, sobrevivente da Revolta do Forte de Copacabana, toma a cidade de São Borja. Juarez Távora conduz o motim em Uruguaiana.

Depois de algumas escaramuças com as tropas do governo, cerca de 3.000 revolucionários gaúchos se agrupam em São Luís Gonzaga sob o comando de Luiz Carlos Prestes. Tomam a decisão de mover em direção ao norte, passando por Santa Catarina e chegar até o Paraná para cerrar fileiras com os revolucionários de São Paulo. Com a reunião dos dois movimentos revolucionários do Rio Grande do Sul e de São Paulo que constituiu uma coluna militar que seria depois conhecida como a Coluna Prestes.

A ampla insatisfação dentro das forças armadas com o governo de Arthur Bernardes criava dificuldades na repressão do movimento. Eram comuns as deserções de militares legalistas para o lado dos rebeldes. Havia em outros casos uma franca simpatia pelo movimento ou, na melhor das hipóteses, nenhum interesse dos soldados levantar as armas contra compatriotas para defender um regime visto como ilegítimo.

Num primeiro momento, o governo foi obrigado a recrutar Cândido Rondon, o grande sertanista que conduzia expedições militares na Amazônia, com o objetivo de reprimir o movimento. O  amplo conhecimento do futuro marechal do hinterlândia brasileiro, adquirido no trabalho de levar adiante telégrafos  pelo grande centro oeste brasileiro, tornava-o o homem certo para a tarefa de esmagar a coluna. Homem de extrema lhaneza, mas fiel ao juramento de Farda, Rondon assumiu a missão a contragosto. Causando-lhe provavelmente muita satisfação, nesse primeiro momento, apenas algumas poucas escaramuças ocorreram. Os revolucionários retiraram-se de Guaíra no Paraná para o território Paraguaio, retornando depois pelo estado do Mato Grosso. Rondon dava por encerrada a sua inglória missão de combater a coluna.

Como os militares não eram cofiáveis ao governo para a tarefa de destruir a coluna, o governo foi obrigado a apelar para os batalhões de polícias estaduais, sob o comando dos Presidentes dos Estados (o que hoje chamaríamos de governadores). Quando as tropas insurgente atingem o nordeste, surgem os maiores enfrentamentos com baixas e feridos, a partir de quando as oligarquias locais arregimentam jagunços e bandoleiros para perseguir os tenentes.

Ficou para história o conhecido encontro entre Lampião e o Padre Cícero de Juazeiro do Norte. O líder religioso recebeu a incumbência do governo de recrutar Virgulino para organizar o seu bando e combater a Coluna Prestes. Concederam-lhe até mesmo o título de capitão e forneceram armas aos cangaceiros. Lampião e seus parceiros depois de receberem de bom grado a munição e a patente militar, ignoraram a missão e prosseguiram com a atividade bandoleira, sem se preocupar com a coluna.

A vantagem militar dos revolucionários decorrida da maior capacidade de movimento. As tropas oficiais conduzidas pelas cavalarias não conseguiam percorrer mais do que 20 km por dia, enquanto a coluna percorria até 60 quilômetros. Naquela época ainda era incipiente o uso da aviação para combates militares. Os tenentes organizavam ainda as “potreadas”, uma espécie de guerrilha dentro da guerrilha. Eram pequenos grupos de assalto que faziam o abastecimento das tropas capturando cavalos e gado para transporte e alimentação, além de fazer o reconhecimento do território, surpreendendo e confundindo o inimigo que nunca sabia ao certo para onde a coluna estava se dirigindo.

Havia ainda uma franca superioridade moral e política dos tenentes: eram em muitos lugares recebidos com simpatia pela população dos pequenos vilarejos do sertão brasileiro, onde distribuíam o seu jornal “O Libertador”. Numa cidade, invadiram um cartório e fizeram uma exposição pública queimando a certidão dos devedores dos impostos do município, evidenciando a ilegitimidade do governo/credor dos tributos.

O término da Coluna Prestes dá-se em 03 de fevereiro de 1927, logo no início do Governo Whashington Luiz, o último da chamada República Velha. Foram ao todo 680 sobreviventes que se dispersam na Bolívia que os recepcionou como exilados.  

Luiz Carlos Prestes segue para a Argentina onde irá entrar em contato com a literatura marxistas e aderir ao comunismo. Seria, dentro do movimento tenentista, uma voz isolada. Todas as principais lideranças daquele movimento iriam apoiar a Revolução de 1930 e aderir ao Governo de Getúlio Vargas: Juarez Távora e Cordeiro de Farias permaneceriam como figuras de destaque dentro do novo regime. Já Prestes, consultado no exílio pelos seus correligionário, recusou-se a emprestar apoio à Getúlio Vargas. O líder gaúcho era visto como um preposto de Borges de Medeiro, o oligarca gaúcho que até poucos anos atrás combatia os tenentes na Revolta de 1924.

Depois de confrontar todo o conhecimento da realidade social brasileira através da grande epopeia da marcha com as ideias marxistas, Prestes chegaria à conclusão de que a mera alteração do governo não iria resolver os problemas do Brasil.

A partir daquele momento, passaria a acreditar que a resolução da questão nacional dar-se-ia através de uma Revolução Social conduzida pelo povo, pelos trabalhadores e pelos camponeses, e não através de uma vanguarda alicerçada nas forças armadas.

O fim do tenentismo sugere o encerramento de uma etapa histórica em que a pequena burguesia vai perdendo a sua potência revolucionária em detrimento da emergência do movimento dos trabalhadores e da ascensão do operariado como novo sujeito histórico da Revolução – fato que fora percebido apenas por Luiz Carlos Prestes, o elemento mais audacioso da Coluna.

Bibliografia:

VEIGA, Luiz Maria. “A Coluna Prestes”. Ed. Sciprione. 1992.

CASTRO, Chico. “A Coluna Prestes no Piauí”. Edições Senado Federal.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Os Contos de Aníbal Machado

Os Contos de Aníbal Machado





 


Resenha Livro – “Histórias Reunidas” – Aníbal Machado – José Olympio Editora

É bastante conhecida a contribuição de Minas Gerais à cultura nacional.

Na literatura, os mineiros nos presentearam com João Guimarães Rosa. Na poesia, com Carlos Drummond de Andrade. Nas artes plásticas e na arquitetura, com o barroco através da obra de Aleijadinho. E no gênero dos contos, poderíamos fazer menção honrosa ao mineiro Aníbal Machado (1894/1964), a despeito de ser um escritor pouco conhecido nos dias de hoje.

O conto é uma espécie de gênero literário que se diferencia do romance e da novela. São histórias mais curtas, geralmente centradas em um único evento. Enquanto o romance se equipara a um loga metragem, o conto poderia se referir a um curta metragem ou, talvez, a uma fotografia.

Os contos de Aníbal Machado reúnem temas tirados do cotidiano em que se fundem o lirismo, a poesia, algumas tragédias e um refinado toque de humor. O escritor, por meio dos seus personagens, reúne em si todos os caracteres típicos do mineiro. Trata-se de uma literatura marcada pela discrição, uma certa timidez, um humor sutil e uma aversão à vulgaridade e a tudo o que soa histriônico. Num ensaio autobiográfico, o contista explica que “o mineiro evita oferecer aos outros o espetáculo da própria fraqueza. Não se chame a isso hipocrisia, mas decência”.

Aníbal Machado nasceu em Sabará no ano de 1894. Na faculdade de Direito de Belo Horizonte iniciou a sua vida literária publicando textos de crítica literária e crônicas. Depois de formado, atua por pouco tempo como promotor mas, sem vocação para o mundo jurídico, muda-se para o Rio de Janeiro onde irá lecionar literatura no prestigiado Colégio Pedro II.

Isso se deu na década de 1920 quando se iniciava um movimento de renovação da literatura brasileira partindo de São Paulo por meio da Semana de Arte Moderna de 1922.

Aníbal Machado se liga aos modernistas desde o Rio de Janeiro e escreve textos para revistas de literatura. Em alguns dos seus contos que seriam publicados no futuro podemos observar alguma influência das tendências vanguardistas e mais experimentais do grupo liderado por Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia.

O movimento modernista buscava romper com as amarras de uma tradição literária toda ancorada rigidamente em modelos europeus; por meio da antropofagia, buscavam incorporar algumas tendências estrangeiras como o surrealismo e o dadaísmo, mas aclimatando-as ao Brasil, criando algo novo, uma forma de arte especificamente brasileira.

Vemos ecos desse horizonte em contos de Aníbal Machado como “O Desfile dos Chapéus”: numa espécie de vertigem surrealista um homem é confrontado com a visão de um desfile de todos os chapéus que colocou na sua cabeça durante toda a vida, num ritmo sucessivo, que vai despontando cada etapa de sua existência: do boné da criança ao chapéu do casamento do adulto. 

Quando morava no Rio de Janeiro, Aníbal Machado travou relações com a nata da intelectualidade brasileira das primeiras décadas do século XX. Sua casa em Ipanema era ponto de encontro de artistas, escritores e poetas como Manoel Bandeira, Carlos Drumond de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda e Vinícius de Moraes.

Infelizmente, a produção literária do escritor de Sabará é escassa. Ele próprio dizia que “não gostava de escrever pois preferia ouvir”. Escreveu apenas um romance, publicado postumamente, chamado “João Ternura”. Já os seus contos estão na obra “Histórias Reunidas” publicada pela Editora José Olympio em 1959. Também foi autor do livro “Brandão entre o mar e o amor”, um romance escrito em co-autoria com Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.

A leitura das “Histórias Reunidas” revela uma riqueza e diversidade do estilo do escritor.

São doze contos com características bastante diferentes entre si. Há algumas histórias que se servem do pitoresco e do humor, como “O Piano”, uma pequena comédia tratando das desventuras de uma família suburbana que se mobiliza para se desvencilhar do instrumento espaçoso, para liberar um quarto destinado ao enxoval de uma filha que irá se casar. Outro conto devotado ao humor é o “Homem Alto”, uma história fantástica na qual um personagem baixinho (1.45m) adquire poderes para aumentar de estatura com a força da mente e com isso descobre a diferença de respeitabilidade que a sociedade e as mulheres conferem ao homem de acordo com o seu tamanho.

Mas o ponto alto da literatura de Aníbal Machado se revela nas histórias em que abandona o pitoresco em troca do lirismo e de uma sensibilidade que nos remete às histórias de João Guimarães Rosa, talvez mais aclimatadas ao ambiente urbano, que predomina nos contos de Aníbal. Poderíamos dizer que contos como “O iniciado do Vento” e “Viagem aos Seios de Duília”  carregam a mesma universalidade e os questionamentos existencialistas que emergem do “Sertão” descrito por João Guimarães Rosa.

“Iniciados ao Vento” retrata a amizade de um jovem engenheiro que busca refúgio numa pequena cidade mineira nas montanhas, para se recuperar da tragédia ocorrida na construção de uma ponte por ele planejada. Lá irá travar relação com um menino que irá lhe apresentar o que melhor amigo: o vento.

São constantes alusões poéticas ao vento, alçado à condição de personagem, com atributos humanos. São os ventos “que se comunicam”, os seus movimentos estão sempre pronunciando algo que está por vir. De forma sagaz, a sensibilidade da criança percebe que sem o vento, o mundo perde a graça, pois deixa de se perceber os movimentos das coisas, como se tudo fosse uma fotografia.  O vento também é misterioso: é algo que não se deixa agarrar mas, ao mesmo tempo, vive em toda parte sempre, dando sempre demonstrações de sua presença.

“Viagem aos seios de Duília” poderia figurar ao lado de “O Alienista” de Machado de Assis e “Urupês” de Monteiro Lobato como a mais bela expressão do conto e da novela de toda história da literatura brasileira.  

Trata-se da história de um homem solteiro, sem filhos e solitário que certo dia foi surpreendido com a chegada da sua aposentadoria. Dedicou a vida inteira à rotina do trabalho e o impacto que lhe causa a surpresa de estar no fim da vida o conduz a ressignificação da vida e de uma busca insensata do passado.

Abandona sua casa no Rio de Janeiro e se lança numa viagem até a sua cidade natal no interior mais remoto de Minas Gerais para o reencontro com Duília. Uma mulher por quem se apaixonou na adolescência por uma mera troca de olhares: num desfile da escola, trocou olhares com a menina e nesse relance a garota lhe revelou discretamente os peitos. Surge no velho aposentado um desejo de alterar a trajetória da sua vida, uma ânsia de retorno ao passado motivado por um desejo de alterar todos os fatos supervenientes por que passou o solteirão na fase adulta: como teria sido se não tivesse sido paralisado pela timidez e travado relações com Duília? 

Ao término da história, o protagonista encontra a mulher irremediavelmente marcada pelos sinais do tempo, agora professora idosa de um pequeno lugarejo, com os peitos simbolicamente decaídos. Há uma comoção seguida de um profundo desencanto nesse reencontro. O protagonista, no final da viagem ao seio de Duília, chega à conclusão melancólica de que o passado não estava lá, na sua cidade natal, mas esteve o tempo todo dentro de si.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

“Angústia” – Graciliano Ramos

 “Angústia” – Graciliano Ramos




Resenha Livro - “Angústia” – Graciliano Ramos – Ed. Record

Consta que Graciliano Ramos, anos após a publicação de “Angústia” (1936), demonstrou enormes reservas à qualidade do seu próprio livro. Apesar de o romance despontar como uma das mais altas expressões artísticas do chamado romance regionalista brasileiro, a restrição revelada pelo escritor tinha alguma justificativa por conta da forma como a obra saiu à lume, notadamente pela impossibilidade de sua revisão.

Isso porque o manuscrito que daria origem ao livro foi literalmente entregue às pressas à  secretária de Graciliano Ramos no dia da sua prisão em março de 1936, alguns meses antes da instauração da ditadura do Estado Novo por Getúlio Vargas. O escritor alagoano era então Diretor de Instrução Pública de Maceió, o equivalente ao secretário estadual de educação, e fora acusado pelos integralistas de associação ao comunismo, dentro do contexto de recrudescimento da repressão após o fracassado levante comunista de 1935.

Por conta disso, o escritor não teve tempo de fazer a dilapidação, a revisão obsessiva que marcou as suas obras demais obras, marcadas pela concisão, pela escolha precisa de cada palavra e por uma certa aridez que poeticamente se confunde com o cenário da seca do nordeste e que remontam aos demais livros, o mais conhecido deles chamado “Vidas Secas” (1938).

Isso fez com que Antônio Cândido, o mais importante estudioso da obra de Graciliano Ramos, e pessoa que travou relações pessoais com o escritor, falar que “Angústia” se trata de o livro mais gorduroso do escritor. O que não lhe retira o mérito literário; trata-se de um livro bastante singular dentro das obras de Graciliano Ramos que, por meio do protagonista Luís da Silva e a descrição do seu colapso psicológico, constrói uma narrativa que o coloca no mesmo patamar dos livros mais viscerais de Dostoievski.

É uma obra em que a mais profunda sondagem psicológica e a experimentação em torno das temporalidades da narrativa, quando a história contada se embaralha com as memórias da infância dentro de um mesmo fio condutor,  evidenciam algo bastante distinto dos outros escritores da chamada 2ª Fase do Modernismo Brasileiro: Rachel de Queiroz, José Lins do Rego e Jorge Amado, os mais conhecidos deles. Trata-se do livro mais vanguardista daquela geração.

Graciliano Ramos iniciou na literatura relativamente tarde. O seu primeiro romance, chamado “Caetés”, foi publicado em 1933, quando o escritor já tinha sido prefeito de uma cidade no interior de Alagoas e contava, então, com 41 anos de idade.

Antes disso, já havia colaborado com artigos literários na imprensa através de pseudônimos. Curiosamente, a sua descoberta literária se deu após se tornar público um relatório burocrático do prefeito ao governador de Alagoas prestando contas do seu trabalho no município. Esse documento chegou às mãos do poeta e editor Augusto Schmidt, que procura Graciliano Ramos para saber se tem outros escritos que possam ser publicados.

“Caetés” é um romance que vale a pena ser lido mas se trata de uma história mais convencional. A obra acaba se apagando por conta da potência dos livros subsequentes: Angústia, São Bernardo e Vidas Secas certamente estão entre o que de melhor já foi produzido na história da língua portuguesa.

Esse primeiro livro conta a história de um guarda livros que mora numa Casa de Pensão em Palmeira dos Índios; a história se centra na descrição dos tipos populares e da pequeno burguesia num contexto histórico de transição da decadência do mundo rural lastreada no coronelismo e a modernização e urbanização ancorada na emergência da burguesia.

Mas há algo nesse primeiro livro que vai se desdobrar nas demais obras, incluindo Angustia.

Essa mesma tensão entre a herança agrária do passado nordestino e a emergência das cidades se expressa em “Angústia” na figura do protagonista Luís. Ele é o último de uma linhagem que remete ao seu avô, um latifundiário poderoso chamado Trajano Pereira Aquino Cavalcanti, que simbolicamente morre senil e deixa a fazenda em situação de abandono. Isso porque o herdeiro do coronel, Camilo Pereira da Silva, prefere passar os dias na rede lendo livros, usufruindo e exaurindo a riqueza do pai. E aqui nasce o protagonista Luís da Silva, já amargando a pobreza e sendo obrigado a se transferir para a capital Maceió, onde irá amargar a fome, até conseguir um trabalho numa repartição pública e morar numa casa alugada na cidade, acossado por dívidas, sendo constantemente ameaçado de despejo pelo Dr. Tavares.  

Note que essa transição do mundo patriarcal rural baseado na riqueza do avô, passando pelo pai indolente, pródigo e remediado, até o filho amargando a pobreza na cidade, se desdobra simbolicamente na extensão dos nomes de cada personagem: o avó chamado pomposamente de “Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, o filho na zona intermediária chamado Camilo Pereira da Silva e o último da linhagem, como o mero Luís da Silva.

O esquema da história é relativamente simples. Luís da Silva exerce um cargo burocrático numa repartição e à noite escreve no jornal artigos elogiando o governo, sujeitando-se a escrever o que lhe for ordenado para receber um magro ordenado. Trava relações com Moisés, um judeu simpatizante do comunismo que lhe empresta dinheiro e depois se envergonha de cobrá-lo, enquanto o devedor se envergonha de enfrentar o credor. Essa situação curiosa ressalva a contumaz solidão do protagonista. Moisés que poderia ser o único amigo, um laço que prendesse Luís à solidariedade humana é afastado pelo mútuo vexame em torno dos empréstimos.

Vive numa casa do subúrbio onde rondam ratos pela despensa lhe devorando os livros. Tem em sua companhia Vitória, uma senhora meio senil, que conversa com o papagaio e nas poucas conversas, se limita a dizer platitudes, informando Luís da Silva sobre os nomes dos passageiros que chegavam à cidade de acordo com as notícias dos jornais.

O protagonista se apaixona por uma vizinha jovem e bonita chamada Marina enquanto lia um romance no quintal da casa:

“Fiquei lendo o romance, péssimo romance, enquanto a tipinha se mexeu entre as roseiras. Notei, notei positivamente que ela me observava. Encabulei. Sou tímido: quando me vejo diante de senhoras, emburro, digo besteiras. Trinta e cinco anos, funcionário público, homem de ocupações marcadas pelo regulamento. O Estado não me paga para eu olhar as pernas das garotas. E aquilo era uma garota. Além de tudo, sei que sou feio. Perfeitamente, tenho espelho em casa”.

Ainda assim, Luís consegue travar um relacionamento amoroso com a vizinha, ainda que desprovido completamente de algum afeto verdadeiro. O protagonista se entrega ao impulso sexual e deseja o casamento com a racionalidade de um comerciante; Marina se entrega não por gosto, mas pelo interesse nos presentes e no dinheiro do enxoval. Vai defendendo a virgindade com unhas e dentes em troca de dinheiro. Luís vai contando os niqueis para conseguir atender os desejos da noiva até o surgimento de Julião Tavares, um herdeiro de um rico comerciante que lhe toma Marina por conta dos seus recursos financeiros.

O ódio de Luís por Julião Tavares irá conduzi-lo à tragédia que remonta ao fim da história. Luís vai sendo aniquilado pelos seus próprios pensamentos, movidos de forma cada vez mais obsessiva pelo desejo de matar Julião. Carrega consigo no bolso uma corda e vai fantasiando e planejando a forma de matar o rival. Há no final do livro um crescente estado de colapso mental que conduz Luís à alucinação – o assassinato é o coroamento da loucura. As últimas páginas do livro são manifestações da perda da consciência e da razão.


sábado, 8 de agosto de 2026

Santos Dumont (1873/1932)

 Santos Dumont (1873/1932)


 

O sonho de alçar o homem ao ar e fazê-lo voar remonta aos períodos mais longínquos da história. Leonardo da Vinci ainda no século XVI elaborou cálculos e projetos de engenharia que conduzissem os homens às alturas. Mesmo antes, no século XI, consta que um monge inglês chamado Oliver Malmesbury construiu para si um par de asas mecânicas, atirou-se de uma torre e quebrou as duas pernas.

Um marco inicial da história da aviação deu-se em 1783 na França quando dois cientistas fizeram subir aos céus um balão impulsionado pela força ascensional do ar aquecido em seu interior.

A descoberta traduzia em termos práticos a ideia de Arquimedes em torno do empuxo dos corpos sujeitos à uma força vertical quando imersos na água. Tal qual a bola de pingue pongue jogada no fundo de um balde de água que sofre um impulso em direção à vertical, o balão sofre o mesmo impulso para cima, através do ar quente que cria condições para que o ar interno seja mais leve do que o ar externo, utilizando-se de gases que pesam menos do que o ar atmosférico, como o hidrogênio ou o gás hélio.

O grande problema dos balões era a sua “dirigibilidade” – durante a maior parte do tempo essa invenção fazia o corpo subir mas os seus movimentos estavam inteiramente condicionados às ações do vento, causando não raras vezes acidentes fatais. Havia grandes dificuldades particularmente no pouso, sendo necessário até a contratação de seguros caso o balão desfalecesse numa residência, causando-lhe incêndios e estragos.

Foram duas as grandes descobertas do brasileiro Santos Dumond: pela primeira vez construiu uma máquina mais pesada do que o ar que era capaz de voar; e da mesma maneira resolveu o problema da “dirigibilidade”, criando as condições para uma navegação sem estar sujeita às forças do vento.

Alberto Santos Dumont nasceu em 20 de julho de 1873 no interior de Minas Gerais. Seu pai era um engenheiro com formação em física e engenharia na França, que se transfere ao Brasil  onde desenvolve atividade de exploração de minérios e realiza obras públicas, incluindo a projeção de estradas de ferro em Barbacena. Posteriormente, desloca-se até Ribeirão Preto e instala uma fazenda de café. O jovem Santos Dumond tem os seus primeiros contatos com a engenharia na fazenda, notadamente pelo fato de seu pai ter se notabilizado por ser um dos precursores de novas tecnologias e maquinários na agricultura. Dentro desse pioneirismo, foi também um dos primeiros a introduzir o trabalho de imigrantes em substituição aos escravos.

Na infância, Santos Dumond era leitor de Júlio Verne, o grande escritor francês precursor da ficção científica. Já depois de adulto, consagrado mundialmente como o pai da aviação, receberia uma carta de homenagem desse mesmo escritor.

O pai da aviação mudou-se ainda jovem com a família para Paris, então principal centro cultural e tecnológico do mundo. A França vivia o período da Belle Époque que se caracterizava por uma grande era de desenvolvimento científico. Foi naquele período que surgiram os primeiros automóveis, que não passavam de 30 km por hora. Em paralelo, houve a descoberta dos pneus, inicialmente introduzidos nas bicicletas e depois nos demais veículos. Começou-se a disseminar a luz elétrica em substituição da luz de gás. Na física, se iniciavam as primeiras experiências da radioatividade. Inaugurava-se a indústria do cinema e do rádio. Uma era de otimismo se abria, cuja derrocada se daria a partir da I Guerra Mundial, quando todo o otimismo em torno do progresso foi confrontado com os horrores do campo de batalha. A racionalidade conduziu a humanidade à barbárie. 

Em Paris, Santos Dumond se liga ao grupo de inventores ligados ao manejo dos balões.

Participava de exposições e ia granjeando popularidade ao ponto de se tornar um cientista de reputação internacional. Isso se deu após 1901 quando um dirigível conduzido pelo brasileiro eleva-se em Saint-Cloud, contorna a Torre Eiffel e volta ao campo. Ao tocar o solo, é ovacionado por uma multidão como herói.  

A descoberta do avião tem uma data exata: 23 de Outubro de 1906 em uma exposição em que Dumond apresenta o aeroplano 14-Bis. Conduzido por um motor movido à gasolina, assombrou o público ao se elevar no ar percorrendo 100 metros a 80 cm do solo. Nunca até então se presenciara nada parecido com aquilo: uma máquina mais pesada do que o ar, capaz de alçar voo.

Posteriormente, houve quem dissesse que o avião já teria sido criado pelos norte-americanos em 1903. O que fica facilmente refutado pelo fato de que o tal aeroplano dos irmãos Wright ter alçado voo sem qualquer testemunha, o que é sintomático. 

O pai da aviação é brasileiro e o seu nome é Santos Dumont!

A despeito da notoriedade internacional, Santos Dumont pagou um preço caro pela sua descoberta. Ficou profundamente amargurado ao saber de acidentes e até presenciar em 1928 um acidente de avião  com vítimas fatais. Causou-lhe pesar ver a sua descoberta utilizada para fins destruição e morte de civis  na I Guerra Mundial. Talvez o momento de maior sofrimento ao inventor deu-se no contexto da Revolução Constitucionalista de 1932.

Dois anos após a Revolução que conduziu Getúlio Vargas ao poder, os paulistas, apeados do governo, levam adiante uma guerra civil, sob a palavra de ordem de constitucionalização do país. Santos Dumont apoia os paulistas e inclusive redige um manifesto. Durante o conflito entre brasileiros, o inventor estava em Santos e presenciou aviões ligados aos getulistas bombardeando um cruzador paulista ancorado no porto de Santos. Viu a sua invenção sendo utilizada para uma guerra entre compatriotas.

E assim, em 20 de julho de 1932, aos 59 anos de idade, Santos Dumont suicida-se.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

“Vila dos Confins” – Mário Palmério

 Vila dos Confins” – Mário Palmério





Resenha Livro - “Vila dos Confins” – Mário Palmério – Editora José Olympio

 

“Vila dos Confins” (1956) foi o primeiro romance escrito por Mário Palmério (1916/1996).

Foi publicado quando o escritor tinha 40 anos de idade e era, até então, conhecido nacionalmente apenas como educador e deputado federal pelo PTB, partido criado poucos anos antes por Getúlio Vargas.

O surgimento do livro foi uma surpresa às pessoas que até então reconheciam em Palmério apenas um político mineiro ligado ao trabalhismo, responsável pela construção das primeiras instituições de ensino superior no triângulo mineiro. O impacto decorreu da beleza estética e da expressividade com que Palmério soube traduzir o Brasil profundo.

Sem nunca ter participado de qualquer roda literária, a intelectualidade da época não deixou de se impressionar pelo livro de um autor que, até então, apenas deveria discretamente escrever, nos horários livres, entre um ou outro expediente político.

O batismo literário do político/escritor deu-se por ninguém menos que Rachel de Queiroz, a grande escritora cearense que figura entre os maiores expoentes da literatura regionalista  brasileira, ao lado de Graciliano Ramos, José Lins do Rego e João Guimarães Rosa.

 Aquele deputado altivo e poderoso timidamente entra em contato por telefone com Rachel de Queiroz pedindo uma audiência. A escritora estranha o convite, notadamente pelo seu posicionamento mais à direita, oposto ao trabalhismo mais à esquerda de Mário Palmério.

Mas o motivo do encontro era a literatura: Mário Palmério entrega à Rachel de Queiroz o seu “Vila dos Confins”.

O romance causou profunda impacto, conforme Rachel de Queiroz conta no prefácio do livro:  

“A primeira qualidade que me impressionou no escritor Mário Palmério foi este cheiro de terra, que o seu livro traz, tão autêntico. A gente tem a impressão de que ele nos entrega para ver, na sua integralidade primitiva, aquele rio, aquela mata, aqueles bichos, aqueles caboclos, aquelas histórias de caçada e pescaria, que parecem histórias de mentiroso, de tão saborosas. Essa poesia de floresta e rio, tão difícil de captar, sem cair na ênfase”.

Trata-se de uma história que se passa numa terra fictícia chamada “Vila dos Confins”, que poderia ser qualquer canto do Brasil profundo, onde predomina o latifúndio, a política do cabresto, aquelas pacatas cidadezinhas do interior com suas igrejinhas e pequeno comércio. Onde pelos campos passam a boiada conduzida pelos tropeiros e nos dias de chuva se sente o cheiro da terra molhada. Por onde transitam caixeiros viajantes, jagunços, caboclos, boiadeiros e funcionários públicos de baixo escalão como delegados de polícia e coletores de impostos.  

O título do livro já sugere essa intenção de revelar pela literatura, com tonalidades de poesia, o hiterland brasileiro. “Vila” remete à ideia de um local não tão grande e desenvolvido ao ponto de se chamar de “cidade”, mas não tão pequeno e despovoado ao ponto de ser meramente um “arraial”. “Confins “significa um lugar longínquo, de difícil acesso, ou como se diz, o fim do mundo, onde judas perdeu as botas.

Há um evidente conteúdo autobiográfico no livro. A história se centra na primeira eleição municipal da Vila dos Confins e o personagem central se chama Paulo, um deputado federal que se desloca à sua terra natal, onde reside a sua base eleitoral, para costurar articulações políticas em torno do seu candidato à prefeitura. Tal qual Mário Palmério, ele próprio um fazendeiro de Uberaba que ingressou na política.

Nessa peregrinação pelas fazendas e arraiais dos arredores da Vila dos Confins, o protagonista vai travando relações com a gente do campo, recruta alguns proprietários de terra semialfabetizados para candidaturas à vereador. Essa jornada vai conduzindo o jovem político às suas próprias lembranças da infância na fazenda dos pais.

Mas a grande força poética do livro se evidencia na forma como a natureza do sertão brasileira surge como se dotada de humanidade. Desde o movimento dos peixes do Rio Urucunã até os urubus traiçoeiros que pairam pelos ares rodando a carniça do boi morto, é como se os animais fossem alçados à condição de personagens, levam adiante alguma conduta, sentimentos profundos, que não os limita a aparecer meramente como parte da paisagem.

Desde a descrição de uma lagartixa, “desconfiada, vasqueira, a lagartixa apontou a cabecinha de feto de jacaré por cima da tesoura do telhado. Encompridou o pescoço, parou. Os olhinhos estufados eram dois grãozinhos graúdos de chumbo de caça”. Ou passarinho João de Barro que “despertara com o canto do galo índio. Morava perto, na casa redonda do pé de laranja-da-terra. Levantou-se e veio até à porta olhar o céu. E quase perde a paciência. Tivera um dia trabalhoso consertando a casa arrombada pelo tucano”.

A natureza se expressando pelos animais, dos peixes dourados que sabem enganar os pescadores tirando-lhes a isca sem serem capturados; até a onça pintada em seus movimentos sub-reptícios quando ataca a presa, o que vemos é um dos mais belos retratos da essência do Brasil. O que se soma às marcas da política regional que grassam  ainda nos dias de hoje nas cidades do interior: os currais eleitorais, a compra de votos, analfabetos que redigem as cédulas eleitorais com as mãos conduzidas por membros do partido político, mortos no papel que aparecem na lista de eleitores.  

Consta que “Vila dos Confins” foi ao seu tempo um sucesso editorial. Contudo, Mário Palmério hoje é um esquecido representante da literatura regionalista brasileira. Simbolicamente, foi conduzido à Academia Brasileira de Letras na cadeira até então ocupada por ninguém menos que João Guimarães Rosa, o escritor que mais foi capaz de alçar à condição de universalidade o sertão brasileiro.  

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

A Vida de São Francisco de Assis

 A Vida de São Francisco de Assis




 

“Oh Mestre, faze que eu procure menos

Ser consolado do que consolar;

Ser compreendido do que compreender;

Ser amado do que amar.

Porquanto

É dando que se recebe;

É perdoando que se é perdoado;

É morrendo que se ressuscita para a Vida Eterna”

Oração de São Francisco de Assis

 

Resenha Livro – “As Aventuras do Menino Chico de Assis” – Luís Jardim – Editora José Olympio

 

Não há salvação fora da caridade. Essa poderia ser a palavra de ordem mais representativa da vida de São Francisco de Assis.

O frade católico ficou notabilizado pelo seu amor incondicional à natureza e aos animais, pela renúncia radical dos bens materiais e pela dedicação e auxílio aos pobres e marginalizados. O que há por de trás do impulso do amparo aos excluídos é a ideia de que há muito mais prazer e alegria em dar do que receber. Consolar a ser consolado. Perdoar a ser perdoado. E até mesmo amar sem ser amado.

Seu nome de batismo não era Francisco, mas João, ou, no italiano, Giovanni. Seu pai era um rico comerciante de sedas oriundo de Assis na Itália. Sua mãe, uma mulher extremamente piedosa, tinha origem francesa. Existe a hipótese que daí veio o apelido Francisco que significava então pessoa oriunda da França.

Na juventude consta que Francisco servia-se da riqueza do pai para viver uma vida mundana, baseada nos prazeres terrenos. Sua conversão religiosa só daria aos 20 e poucos anos de idade após uma enfermidade que o afligiu pouco antes de se engajar voluntariamente numa campanha militar envolvendo as cidades italianas Assis e Perugia.

O jovem Assis teria escutado vozes lhe sugerindo dever deixar de servir aos homens para servir à Deus. O que pode ser interpretado não como a renúncia pura e simples da companhia dos seus pares – dado que isso lhe retiraria a possibilidade de exercer a caridade – mas a rejeição da efemeridade da vida material em detrimento da plenitude da vida na espiritualidade.  

Outro momento marcante na vida do jovem Francisco de Assis deu-se certa feita em que cruza em seu caminho um leproso lhe pedindo auxílio. Chico presta o apoio e dá um beijo na mão em carne viva pelas lesões da lepra, sujeitando-se ao risco pelo ato de amor. Esse evento lhe causou uma profunda sensação de ternura no coração, sendo considerado o ponto de partida de sua orientação na caridade.

Essa orientação causaria um grave conflito familiar. Após se ligar a uma Igreja em Assis, Francisco decide tomar o estoque de sedas da loja do pai para vender a preços módicos e arrecadar o dinheiro para auxiliar os pobres. O evento desperta a fúria do pai que posteriormente o conduz ao bispado para o obrigar a renunciar a herança. Aqui surge outro evento culminante na vida do Santo: Francisco aceita de bom grado a renúncia da herança e até mesmo tira as suas roupas para serem devolvidas ao pai. Em ato solene, afirma que a partir daquele momento, o seu pai passaria a ser Deus.

E aqui reside a origem daquilo que ficou conhecido como o traço mais conhecido e bonito do santo frade da Igreja católica.

Francisco de Assis levava até as últimas consequências a ideia de que todos somos irmãos, porquanto somos fruto da mesma criação divina. Não só os homens, mas os animais, a natureza e até mesmo as coisas inanimadas como o vento, a chuva e o sol. Ele nos evidencia a beleza e divindade de cada pequeno detalhe da natureza e nos ensina a captar a poesia dos passarinhos cantando ou do cheiro da terra molhada de chuva.

Os doutores da Igreja Católica parecem querer retratar um outro Francisco de Assis, diferente daquele que se popularizou no senso comum. Baseando-se em textos antiguíssimos, dos tempos da Idade Média, tentam criar a figura de um homem brutalmente ascético, um eremita que mutilava o seu corpo dormindo de forma proposital em camas de espinho para desafiar a tentação da carne.

Sem prejuízo do questionamento em torno da idoneidade das fontes históricas, aqui preferimos o mito franciscano: uma alma sentimental, dotada de ternura para com tudo que o cerca e que extrai felicidade em ajudar aqueles que precisam. Ser escrupuloso consigo próprio deve ter como consequência a complacência, o perdão e a caridade em relação ao próximo.

Dedico essa resenha à Ana Paula Siqueira Santos cujo coração, na sua simplicidade e bondade, retrata aquilo que ainda resta de bom na Igreja Católica.

Quadro: São Francisco de Assis - José de Ribera – 1643