sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Monteiro Lobato (1882/1948)

 Monteiro Lobato (1882/1948)




 

Monteiro Lobato certamente é o escritor mais conhecido do Brasil. E ficou notabilizado por conta dos seus livros infantis. Mas os seus serviços ao país foram muito além das histórias do Sítio do Picapau Amarelo.

 

Foi precursor da indústria editorial brasileira, tendo ele próprio criado as primeiras editoras de livros no país já na década de 1920. Também foi o responsável pela edição dos primeiros materiais didáticos no Brasil: parte das histórias do Sítio do Picapau Amarelo são também lições de História (“História do Mundo Para Crianças”), de Geografia (“Geografia de Dona Benta”), de Gramática (“Gramática Para Crianças”) e de Geologia (“O Poço do Visconde”).  

 

Foi também o primeiro a levantar a voz em defesa do petróleo brasileiro, o que lhe custou alguns meses de prisão durante o Estado Novo presidido por Getúlio Vargas; isso foi 1941, quando fora condenado a seis meses de cadeia por criticar publicamente o Conselho Nacional de Petróleo. Mais de uma década depois, em 03.10.1953, o mesmo Getúlio Vargas, alçado ao poder pela via democrática, criaria a Petrobrás.

 

Monteiro Lobato teve também intensa participação na vida cultural do país através de artigos e crônicas na imprensa paulista.

 

Ficou conhecida a sua polêmica com os modernistas de 1922, quando criticou exposição de Anita Malfatti num artigo publicado no Estado de São Paulo chamado “Paranoia ou Mistificação”.

 

Lobato não deixava de reconhecer o talento da jovem artista, mas, como bom nacionalista, criticava a arte moderna pela sua filiação às tendências artísticas importadas da Europa: futurismo, cubismo, impressionismo, etc. Ainda que a nova estética moderna buscasse criar uma arte nacional através da “antropofagia”, essa rejeição ao estrangeirismo do romantismo/naturalismo ainda implicava numa assimilação pela “antropofagia”, contra a qual Lobato se opunha.

 

Mas certamente Monteiro Lobato é ainda hoje conhecido pelos livros dedicados ao público infantil.

 

Ocorre que a opção do escritor por escrever esses livros para crianças ocorreu num momento relativamente tardio da sua produção ficcional.

 

O primeiro livro da Coleção Sítio do Picapau Amarelo, chamado “O Saci”, foi publicado em 1921, quando o escritor tinha 39 anos de idade. Um anos antes, Monteiro Lobato havia publicado “Narizinho Arrebitado”, considerada a sua primeira obra dedicada às crianças. Consta ter sido o retorno à literatura infantil um reflexo dos desgostos dos adultos que o perseguiram injustamente. 

 

Injustas perseguições de ontem e que persistem até os dias de hoje.

 

VIDA E OBRA

 

O escritor nasceu na cidade de Taubaté, no interior paulista em 21 de abril de 1882.

 

Aos treze anos é mandado pela família para São Paulo para estudar no Instituto de Ciências e Letras. Lá, escreve seus primeiros contos e crônicas e desenvolve interesse pela pintura. Manifesta desejo de estudar no Instituto de Belas Artes, mas por imposição do seu avô materno, o Visconde de Tremembé, foi estudar Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, hoje pertencente à Universidade de São Paulo.

 

Morou numa república estudantil na Rua Direita, na região central da cidade. Quando estudante, travou amizade com Godofredo Rangel, pessoa com quem se correspondeu por carta por quarenta anos, depois reunidas no livro “A Barca de Gleye”.

 

Formado em Direito, regressa à Taubaté no ano de 1904, onde começa advogar. Foi no interior de São Paulo que passou a maior parte da sua vida, podendo-se ver na sua literatura aspectos semelhantes ao regionalismo modernista da década de 1930: enquanto Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e José Lins do Rego discorrem sobre o sertanejo nordestino, Lobato se notabilizaria pela descrição do caipira paulista, representado na figura do Jeca Tatu.

 

De volta à Taubaté, tem a pretensão de criar uma fábrica de geleias, mas a empreitada não vai para frente. Em todo o caso, seria essa a primeira de uma série de iniciativas de “empreendedorismo” que o escritor levaria adiante: criou jornais, revistas, editoras de livro, investiu e perdeu dinheiro na prospecção de petróleo e aço. Esse “empreendedorismo” não era conduzido por um espírito burguês, mas dentro de um horizonte nacionalista, de desenvolvimento nacional, o que lhe levaria mais de uma vez à ruína financeira.

 

É nomeado Promotor na cidade de Areias em maio de 1907.

 

Trata-se de um Município situado no interior de São Paulo na divisa com o Estado do Rio de Janeiro, que se notabilizou como zona pioneira da produção de café. Mas quando Lobato lá se instalou, a cidade já se encontrava em estado de decadência, especialmente desde a abolição da escravatura em 1888 – apenas as zonas mais dinâmicas do oeste paulista se adaptaram à nova conjuntura econômica através da importação de mão de obra de imigrantes italianos.

 

Não devia haver muito trabalho ao promotor de justiça de uma cidade minúscula e esquecida do interior paulista.

 

O que deu tempo a Monteiro Lobato a se dedicar à leitura e à escrita. Redigiu contos, faz traduções e colabora com jornais locais.  É aquele sertão abandonado que lhe serve de inspiração para escrever a série de contos reunidas posteriormente sob o nome simbólico de “Cidades Mortas” (1919).

 

Na roça, os dias se repetem invariavelmente, exceto aos domingos, feriados religiosos e eventos políticos, quando a população se encontra nas calçadas da rua e na praça, a comentar sobre a vida alheia. Os homens matam o tempo pitando cigarros e as mulheres parindo filhos. Um ou outro livro de literatura circula na mão de poucos, considerando o peso do analfabetismo na população

 

Essas “Cidades Mortas” correspondem às regiões pioneiras da economia do café do Vale do Paraíba que outrora foram vanguarda da economia nacional e, entre fins do século XIX e início do século XX, vão paulatinamente entrando em decadência por conta da desvalorização mundial dos preços do produto e da falta de mão de obra.

 

O abandono das plantações de café do Vale do Paraíba dava-se também pelo próprio esgotamento do solo, com a migração dos proprietários daquela região para o Oeste Paulista:

 

Léguas a fio sucedem de morraria áspera, onde reinam soberanos a saúva e seus aliados, o sapé e a samambaia. Por ela passou o Café, como um Átila. Toda a seiva foi bebida e, sob forma de grão, ensacada e mandada para fora. Mas do ouro que veio em troca nem uma onça permaneceu ali, empregada em restaurar o torrão. Transfiltrou-se para o Oeste, na avidez de novos assaltos à virgindade da terra nova; ou se transfez nos palacetes em ruína; ou reentrou na circulação europeia por mão de herdeiros dissipados. (...) À mãe fecunda que o produziu nada coube; por isso ressentida, vinga-se agora, enclausurando-se numa esterilidade feroz. E o deserto lentamente retoma as posições perdidas.”.  (“LOBATO, Monteiro. “Cidades Mortas”).

 

No ano de 1911, morre o avô, o Visconde de Tremembé, e dele herda a fazenda de Buquira. Monteiro Lobato deixou de ser promotor de justiça para ser fazendeiro. E foi o cenário dessa fazenda que imaginou e criou as histórias do Sítio do Pica Pau Amarelo.

 

O sítio de Dona Benta ficava num lugar muito bonito. A casa era das antigas, de cômodos espaçosos e frescos. Havia o quarto de Dona Benta, o maior de todos, e junto o de Narizinho, que morava com sua avó. Havia ainda o ‘quarto de Pedrinho’ que lá passava as férias todos os anos; e o da tia Nastácia, a cozinheira e faz-tudo da casa. Emília e Visconde não tinham quartos; moravam num cantinho do escritório, onde ficavam as três estantes de livros e a mesa de estudo da menina”. (LOBATO, Monteiro. “O Saci”).

 

Também não teve êxito como fazendeiro. Em 1917 vende a fazenda e muda-se para Caçapava, onde funda a “Revista Paraíba”. Um ano depois, publica o seu primeiro livro, “Urupês”. Trata-se de uma reunião de 14 contos, 12 deles retratando pequenas histórias que se passam no interior paulista. Foi um sucesso de público, especialmente depois de que Rui Barbosa, num discurso de campanha eleitoral, faz alusão ao Jeca Tatu.

 

São os “causos” que retratam a vida de pequenos funcionários públicos (“Um Suplício Moderno”), de fazendeiros endividados (“O Comprador de Fazendas”), da rixa entre vizinhos (“A Vingança da Peroba”), do casamentos por interesse (“O Estigma”) e até mesmo o folclore e as lendas populares das pessoas do campo, tratados em “Bocatorta”, em que um velho e odioso matuto, filho bastardo de uma escrava e senhor de engenho, “disforme, horripilante como não há memória de outro”, assombra a população do arraial do Atoleiro, causando, por razões inexplicáveis, a morte e a desgraça daqueles que com ele se encontram, tal qual o Curupira e o Saci Pererê.

 

Já os últimos dois contos da Coletânea, denominados “Velha Praga” e “Urupês”, não são pequenas histórias e mais crônicas tratando criticamente a situação do caboclo paulista, frequentemente denominado como “Jeca Tatu”:

 

“De pé ou sentado as ideias lhe entram, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.

De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para ‘aquentá-lo’, imitado da mulher e da prole.

Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostar um cabo da foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há de ser de cócoras.

Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir de Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos.

Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio da realidade”.

 

 A crítica da idealização do indígena pelos românticos é explícita no livro de Monteiro Lobato e aparece logo no começo do conto “Urupês”, tudo a confirmar que Lobato não era exatamente um opositor do modernismo, mas levava adiante, até as últimas consequências, a nacionalização da arte e da literatura.

 

Monteiro Lobato, além dos livros de contos e literatura infantil, das traduções, das críticas literárias e das iniciativas empresariais, também participou da vida política do país.

 

Apoiou o presidente Washington Luiz, valendo-lhe a nomeação como adido comercial dos EUA para onde segue no ano de 1927. E novamente vai a falência: tentou organizar uma empresa brasileira para produzir aço mas perdeu todo seu dinheiro com a quebra da bolsa de 1929. Retornando ao país, apoia Júlio Prestes contra Getúlio Vargas nas eleições presidenciais. Como se sabe, as eleições foram vencidas, através da fraude corriqueira na República Velha, pelo candidato paulista, desencadeando a Revolução de 1930, o que o colocaria desde então na mira do getulismo.

 

É com o seu retorno ao Brasil em 1930, influenciado pelo progresso tecnológico que vira nos EUA, que Monteiro Lobato inicia sua campanha em defesa da prospecção do petróleo no país. Isso num momento em que os interesses econômicos estrangeiros buscavam fazer uma campanha de que não havia no território nacional uma gota do “ouro negro”. Lobato publica em 1936 o livro “O Escândalo do Petróleo” no qual acusa o governo de não levar adiante a pesquisa das jazidas, nem deixar que os particulares o façam. Como dito, alguns anos depois, o seu corajoso posicionamento lhe valeria seis meses de prisão.

 

Um aspecto pouco conhecido de Monteiro Lobato se refere à sua aproximação tardia com o movimento democrático e os comunistas, já no final da sua vida. Nunca foi um comunista de fato, mas, nos estertores do Estado Novo, participa da campanha pela  democratização do país: consta que Luiz Carlos Prestes leu uma carta de saudação do escritor paulista num comício em São Paulo realizado em 1945.

 

Antes mesmo, travou relação de amizade íntima com Caio Prado Júnior, talvez o maior intelectual brasileiro egresso das fileiras do Partido Comunista Brasileiro. A editora brasiliense, fundada por Caio Prado Júnior, adquiriu os direitos autorais de toda obra de Monteiro Lobato, ainda quando o escritor paulista era vivo.

 

MONTEIRO LOBATO E O RACISMO   

 

No ano de 2010 ganhou evidência na mídia uma ação judicial proposta por uma ONG propondo a remoção do livro “Caçadas de Pedrinho” da lista de leitura obrigatória da rede pública de ensino.

 

Argumentou-se que certas passagens do livro fazem alusões racistas à personagem Tia Nastácia. Outros afirmam que Lobato era eugenista e que seus livros sequer merecem ser lidos nos dias de hoje.

 

Podemos dizer o contrário: Lobato foi antes um precursor da crítica ao determinismo racial através de sua “autocrítica” ao Jeca Tatu. Originalmente, a degeneração do caipira paulista consubstanciado no Jeca Tatu encontrava fundamentos raciais - num contexto em que as teses de eugenia, as críticas da miscigenação e as propostas do embranquecimento da população eram parte do vocabulário do pensamento social, de Nina Rodrigues à Sílvio Romero, de Euclides da Cunha à Joaquim Nabuco.

 

Sim, o mesmo líder abolicionista, frequentemente lembrado por suas campanhas em prol da libertação dos escravos, refutava no parlamento a vinda da imigração chinesa (“amarelos”) por considerações puramente raciais.

 

Joaquim Nabuco, amigo íntimo de Machado de Assis, censurou o crítico literário José Veríssimo quando, após a morte do Bruxo do Cosme Velho, em artigo memorial, Veríssimo chamava atenção para o fato de que nosso maior romancista fora da cor preta.  Na opinião de Joaquim Nabuco, a despeito do fenótipo do falecido escritor, a sua alma era branca e o artigo de Veríssimo depunha contra o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. 

 

No começo do século XX as campanhas sanitaristas ajudam as elites intelectuais a abandonarem, de forma palatina, os critérios de análise social baseadas exclusivamente na raça. O atraso do país paulatinamente deixa de ser relacionado ao problema da raça e passa a ser explicado pela (falta de) saúde e salubridade.

 

Importante papel foi cumprido por Gilberto Freire no seu “Casa Grande e Senzala” (1933), dizendo que os problemas do brasileiro não diziam respeito à raça ou à miscigenação envolvendo negros, índios e portugueses,  mas à salubridade, à saúde, à alimentação e à higiene. A miscigenação, pelo contrário, era algo positivo.

 

Esta mudança de posicionamento se expressou também em Monteiro Lobato: quando criou o seu personagem Jeca Tatu, atribuía o atraso do caipira ao problema da raça. Já em 1918, Monteiro Lobato em prefácio da obra faz a sua autocrítica, já reconhecendo a predominância das doenças e da insalubridade no temperamento de Jeca Tatu.

 

Em 1924 escreve o conto infantil “Jeca Tatuzinho” em que consolida a sua tese: o caipira é visitado por um médico que lhe receita erva de santa maria e o uso de botas para prevenir e curar a doença do amarelão. Curado do doença, aprendida as lições de higiene, a disposição ao trabalho e à luta de Jeca Tatu surpreende a todos: sua fazenda prospera e cresce mais do que a do seu vizinho italiano, que torna o seu agregado. O triunfo de Jeca, o caipira brasileiro caboclo, sobre o imigrante italiano (branco) põe uma pá de cal no alegado racismo do escritor.  

 

Quem lê com atenção o “Casa Grande e Senzala” observa que a refutação das teses eugenistas e raciais em Gilberto Freire dizia respeito a debates que ainda estavam na ordem do dia. Casa Grande e Senzala e sua proposta de explicação da especificidade da formação nacional Brasileira envolvia novidades no campo metodológico, buscando chaves explicativas na cultura, na sexualidade, na vida íntima e nos hábitos de alimentação e higiene.

 

Ora, lendo os contos de Monteiro Lobato redigidos entre anos 1900-1920 verifica-se que o escritor paulista foi nada menos do que um pioneiro na superação de teses puramente raciais na explicação da realidade nacional.  

 

No conto “Negrinha”, publicado em 1920, o tema da mentalidade escravocrata, que sobrevive quase intacta após o 1888, é descrito mediante a denúncia da proprietária Dona Inácia, “excelente senhora, gorda, rica, animada dos padres”, que se entretém brutalizando Negrinha, uma órfã de sete anos, que “não era preta, mas fusca”.

 

A excelente Dona Inácia era mestra na arte de judiar crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos – e daqueles ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se fizera ao regime novo – essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! (...) O 13 de maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para o frenesis”. (LOBATO, Monteiro. “Negrinha”).

 

BIBLIOGRAFIA

 

RESENDE, Beatriz. “Os Imprescindíveis Contos de Monteiro Lobato”.  Ed. Biblioteca Azul.

 

LOBATO, Monteiro. “Urupês”. Ed. Biblioteca Azul.

 

LOBATO, Monteiro. “O Presidente Negro”. Ed. Principis

 

LOBATO, Monteiro. “Cidades Mortas e Outros Contos”. Ed. Principis.

 

LOBATO, Monteiro. “Hans Staden”. Ed. Círculo do Livro.

 

LOBATO, Monteiro. “Reinações de Narizinho”. Ed. Círculo do Livro.

 

LOBATO, Monteiro. “Dom Quixote Para Crianças”. Ed. LPM.

 

LOBATO, Monteiro. “Viagem ao Céu”. Ed. Biblioteca Azul.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Silva Jardim (1860/1891)

 SILVA JARDIM (1860/1891)





Regime federativo, abolição da escravatura, separação da Igreja e do Estado, instituição do casamento civil, regulamentação do trabalho industrial, reforma educacional: essas eram as principais bandeiras defendidas pelos partidários do regime republicano no Brasil, alçados ao poder através do golpe militar de 15 de Novembro de 1889.

A proclamação da República foi conduzida pelos militares, tendo à frente Deodoro da Fonseca, o que se deu através de um golpe palaciano, que quase não encontrou resistência por parte da Monarquia. Os conspiradores tomaram de assalto o quartel general do Rio de Janeiro e o Ministério de Guerra durante a madrugada do dia 15.11. Prenderam o Visconde de Ouro Preto e alguns outros ministros. Consta que o único ferido na quartelada foi o Barão de Ladário, Ministro da Marinha, que desacatou a ordem de prisão e foi baleado.

Concretizava-se dessa maneira o plano do Partido Republicano criando em 1870 – a sua ala majoritária acreditava numa transição pacífica do regime monárquico para a República, ou seja, a evolução natural dos acontecimentos levaria o país a superar o II Império, seguindo leis históricas inflexíveis, dentro do horizonte positivista. Os partidários de August Comte, especialmente os militares brasileiros, acreditavam na ideia de uma evolução natural da sociedade, regida por leis científicas, em direção ao progresso. Daí vem o lema inscrito na bandeia nacional desde o advento da República: Ordem e Progresso.

Silva Jardim (1860/1891) foi um jornalista incendiário que defendeu na imprensa e através de comícios o regime republicano e o abolicionismo. Mas ao contrário da maioria dos demais partidários da República, acreditava que a Monarquia deveria ser derrubada por métodos revolucionários. Defendia abertamente a insurreição popular como a via adequada para mudança de regime, resgatando uma tradição de luta política que remontam à Inconfidência Mineira (1789) e à figura de Tiradentes. E foi justamente o seu radicalismo político que o levou ao isolamento assim que os republicanos moderados tomaram o poder.

Antônio Silva Jardim nasceu em 18 de agosto de 1860 numa pequena cidade do interior do Rio de Janeiro. Seu pai era um professor primário e a família viva em condições modestas,  num pequeno sítio. Tinha a saúde frágil mas em contrapartida se destacou logo cedo pelo bom desempenho nos estudos. Quando estudante secundarista, redige um jornal com os seus colegas e o seu primeiro artigo é sobre Tiradentes.

Dada a falta de recursos da família, foi obrigado a começar a trabalhar cedo: inicia como guarda livros numa sapataria e à noite leciona primeiras letras. Em 1877, recebe do pai um valor em dinheiro que o permite ir para São Paulo e matricular-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Mora numa república estudantil e toma contato com os embates políticos candentes da época: liberalismo, republicanismo e abolicionismo. Liga-se a Luiz Gama para não só apoiar a causa abolicionista como auxiliar um movimento clandestino de facilitação de fuga de escravos fugidos das fazendas de café de São Paulo. Passa a colaborar na imprensa, desde quando se notabilizou como jornalista, profissão que exerceria em conjunto com o magistério e a advocacia.

Entretanto, seria lançado à vida pública do país a partir de 1888 quando realiza um grande discurso republicano em Santos, com sucesso estrondoso, o que o lançou definitivamente à carreira política.

Os eventos que precipitaram o comício republicano de Santos tiveram como origem a dissolução da câmara dos vereadores de São Borja pelo Império.

D. Pedro II encontra-se gravemente doente e o risco da sua morte colocaria o país numa situação de perigo. Isso porque a sua sucessora direta era a Princesa Isabel. Diziam os vereadores que a herdeira do trono era “uma mulher obcecada pela educação jesuítica”. E pior: casada como um estrangeiro, o Conde D’eu, o que colocava o Brasil sob o risco de ser governado por um príncipe ligado à Dinastia dos Orléans da França. A soberania nacional estava ameaçada por culpa das regras de sucessão monárquica, fortalecendo o ponto de vista republicano.

Os vereadores de São Borja aprovam monção sugerindo consulta à nação para decidir pela manutenção da Monarquia ou instituição da República, dado o risco de morte de D. Pedro II. O fato repercute pelo Brasil e ganha a adesão das câmaras de São Paulo e do Rio de Janeiro. O presidente do Conselho de Ministro do Império, Barão de Cotegipe, decide reprimir o movimento e dissolve a Câmara de São Borja.

Foi o estopim de uma crise que levou Silva Jardim a convocar o grande comício de Santos em 1888. Numa época em que a esmagadora maioria do povo não sabia ler, eram através dos meetings e comícios públicos que se convocava a massas ao debate político.  O orador passava horas fazendo os discursos substituindo através da palavra falada a doutrina republicana dos livros e jornais.

Silva Jardim e os demais republicanos exploravam as contradições internas do Regime Monárquico para defender a República.  Já vinham usando a figura impopular do Conde D’eu para atacar o Império através da imprensa republicana, acusando o genro de Dom Pedro II de negociatas e até mesmo de explorar cortiços no Rio de Janeiro. O conde e sua esposa eram o bode expiatório ideal para a propaganda republicana.

O sucesso do comício de Santos leva Silva Jardim a levar adiante uma grande campanha nacional em defesa da república - pretende fazer manifestações por todo o país. Seu objetivo era erguer as massas para a derrubada violenta da Monarquia. Abandona a advocacia, vendendo a sua participação societária da banca que tinha na cidade de Santos. Todo o dinheiro arrecadado foi destinado à campanha.

As manifestações republicanas eram assaltadas pelos chamadas Guardas Negras. A tardia abolição da escravatura do Brasil foi feita ainda sob o regime monárquico, fazendo com que parcela do povo negro, beneficiado pela alforria, depositasse toda sua simpatia à Princesa Isabel. Isso colocava os ex-escravos em choque direto com os republicanos – acusavam-nos de querer restaurar a escravidão.

Os Guardas Negros eram capoeiras e alforriados recrutados com a finalidade de dissolver os comícios republicanos. Atacavam armados de navalhas e cacetes. Conta-se que recebiam dinheiro e orientações da polícia do Rio de Janeiro. Numa manifestação no Salão da Sociedade Francesa, os Guardas Negros cercam o prédio e pedem a cabeça de Silva Jardim. O rebelde republicano resiste. Em suas memórias, descreve o evento da seguinte forma:

“Conservei-me de pé, na tribuna, protestando não me retirar dali....Tirei o meu revólver e dispus-me a defender com a vida a liberdade de pensamento. Aí fiquei para bem simbolizar esse direito; era ali que deveria morrer, ou continuar a falar. De resto, era um melhor ponto para dirigir o combate...”.

Pouco tempo depois, o II Império seria derrubado pelo golpe militar de 15 de Novembro. Deodoro da Fonseca assume o poder provisório e uma nova assembleia constituinte foi convocada para o ano de 1890. 

Silva Jardim, representando a ala mais jacobina do movimento republicano brasileiro, é logo preterido por setor moderada predominante no Partido Republicano – cumpre salientar que o partido sequer emprestou o seu apoio público ao comício de Santos, dados os riscos de se desafiar publicamente a autoridade do II Império.

Após a proclamação da República, Silva Jardim tenta ser eleito como deputado constituinte em 1890 mas é derrotado. Frustrado com os rumos políticos do país, viaja à Europa, onde faleceria num acidente na cidade de Pompeia, Itália.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

José de Anchieta (1534/1597)

 José de Anchieta (1534/1597)



Os primeiros jesuítas que chegaram ao Brasil vieram na esquadra que trazia o 1º Governo Geral à recém descoberta colônia portuguesa. Isso se deu no ano de 1548. A nomeação de Thomé de Souza ao Governo Geral respondia à necessidade da Coroa Portuguesa superar a fragmentação das capitanias hereditárias, restabelecer e reforçar o poder político dos portugueses no território recém descoberto da América, onde o abandono do período que marcou as primeiras décadas da colonização possibilitou o assalto do território pelos franceses e ingleses.

Daquele primeiro grupo de jovens padres oriundos do Colégio dos Jesuítas de Coimbra que aportou no Brasil se notabilizaram Manuel da Nóbrega e José de Anchieta.

Através das primeiras missões jesuíticas na região de São Vicente, buscaram levar a fé católica aos índios através do teatro, da poesia e da música. Anchieta foi o primeiro estudioso e autor de uma gramática tupi, utilizada por todas as demais missões pelo Brasil. Foi também fundador da cidade de São Paulo. Participou ativamente da defesa da Capitania de São Vicente e do Rio de Janeiro contra os franceses e os índios tamoios – e serviu em uma missão de paz em que se entregou voluntariamente como refém dos índios da tribo inimiga por sete meses.

José de Anchieta nasceu em 1534 na ilha das Canárias, àquela época pertencente à Espanha. Ainda criança, muda-se à Portugal, onde se candidata ao Colégio da Companhia de Jesus. A partir de 1550, esse colégio começa a mobilizar seus alunos para atuar como missionários na Colônia. Mesmo com graves problemas de saúde, Anchieta se engaja na missão que aqui aporta em 1553. Era então um jovem de dezenove anos de idade, cujas qualidades morais já o notabilizavam perante seus companheiros.

Em 1554, José de Anchieta e outros doze missionário fundam o Colégio de São Paulo, o que redundou no marco fundador da cidade de São Paulo. Nos primeiros dias daquele ano, um grupo de religiosos, dentre eles, Anchieta, sobe a Serra do Mar a pé e atinge o planalto, onde vão se instalar e constituir as primeiras missões.

No dia 24 de janeiro, os missionários prepararam um barracão no planalto paulista, ao lado de uma tribo indígena. A missa foi rezada no dia 25, dia do Apóstolo São Paulo, e por conta da data a cidade passou a ter o nome do santo. José de Anchieta em carta relata como tudo se deu:

- A 25 de janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos a paupérrima e estreitíssima casinha a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos a nossa casa.

A grande metrópole do Brasil começou, portanto, como um aldeamento indígena. E até hoje diversos cantos da cidade ecoam nomes que remontam à língua falada pelos índios: Itaquera, Mboi-mirim, Tucuruvi, Anhangabaú e Jabaquara são todos nomes que vêm do Tupi.

Imediatamente após a instalação do barracão e do colégio, os missionários passaram ao trabalho de catequese, batizando crianças e buscando levar instrução aos índios, por meio das aulas no Colégio de São Paulo, onde também se formavam novos jesuítas. A atividade missionária abrangia não só a conversão dos índios mas a evangelização dos colonos portugueses – em minoria, os brancos que se aventuravam à exploração da colônia assimilavam a cultura pagã dos nativos, o intercurso sexual irrestrito e até atos bárbaros de assassinato e guerra, demandando a intervenção moralizadora dos jesuítas.

No ano de 1557 os franceses instalam-se no Rio de Janeiro, por onde ficam durante dez anos. Só serão expulsos por Mem de Sá em 1567 quando é fundada a cidade do Rio de Janeiro. Naquele contexto de guerra de expulsão dos franceses, os índios tamoios foram recrutados pelos invasores para atacarem os portugueses, valendo-se de inimizades prévias. Os tamoios, instigados pelos franceses, pretendem atacar São Paulo. Os ataques acontecem em julho de 1562 e a defesa fica a cargo de João Ramalho ajudado por Tibiriçá, seu sogro e cacique tupiniquim.

Os jesuítas, inimigos da escravização dos índios, decidem intervir através de missão de paz junto aos índios Tamoios. São encaminhados dois pacificadores: Manuel da Nóbrega e o Padre Anchieta. É feito um acordo: duas lideranças dos Tamoios ficariam reféns dos portugueses e os dois padres da Companhia ficariam reféns dos Tamoios, tudo para a garantia de paz durante a trégua da Guerra. Por ser o maior conhecedor da língua Tupi, Anchieta era a pessoa certa para cumprir a missão.

Durante os sete meses que ficou com os Tamoios, Anchieta continuou seu trabalho de evangelizar. Esteve sujeito ao assédio e zombaria dos índios – o seu voto de castidade desafiava a imaginação das índias que se ofereciam voluntariamente ao sexo e eram pudicamente rejeitadas. Em determinado momento, um cacique o ameaça de morte, culpando-o pela ausência de caça nas armadilhas.  Anchieta fez uma promessa rogando por sua salvação dos índios: escreveu na areia da praia um longo poema dedicado à “Virgem Maria Mãe de Deus”. O jesuíta memorizou o poema para depois passa-lo no papel: ao todo 4172 versos em latim.

Após a expedição de paz junto aos Tapuias, Anchieta viaja à Bahia onde é ordenado padre aos trinta anos de idade. No ano de 1570 com a morte de Manuel da Nóbrega, Anchieta assume do Colégio dos Jesuítas do Rio de Janeiro. Entretanto, já em 1574 o jesuíta retorno à São Vicente para retomar o trabalho de evangelização dos tapuias . Continuaria sua vida de missionário, viajando por todo o país, até o ano da sua morte em 1597. Faleceu quando tinha 63 anos de idade e 44 anos prestando os seus serviços ao Brasil. Conta a história que milhares de índios acompanharam o enterro do padre caminhando por 90 km. 

Hoje José de Anchieta é conhecido como apóstolo do Brasil.

sábado, 31 de janeiro de 2026

“O Cabeleira” – Franklin Távora

 

“O Cabeleira” – Franklin Távora

Resenha Livro - “O Cabeleira” – Franklin Távora – Ed. Ática – Série Bom Livro



“O Cabeleira” (1876) é o primeiro livro da trilogia qualificada por Franklin Távora (1842/1888) como “Literatura do Norte”.  O contexto literário da obra remete ainda ao romantismo, marcado pelo subjetivismo e idealização da realidade, o sentimentalismo, a ênfase  em personagens dotados de pouca verossimilhança e plausibilidade nas suas condutas, e o nativismo de matriz nacionalista, tendo como maior expoente, naquele momento, José de Alencar (1829/1877).

 

Transcorreram pouco mais de 30 anos entre a independência política do Brasil em relação à Portugal e o início daquilo que ficou conhecido como a primeira fase do nosso romantismo. A recente proclamação da independência de 1822 ensejava uma resposta à pergunta: afinal, quem somos nós brasileiros? A forte presença do índio naquele movimento literário vinha como forma de resposta a essa pergunta.

 

A despeito desse aspecto positivo do romantismo brasileiro, ao criar as bases de uma literatura genuinamente nacional, o modelo ainda estava sujeito à forte idealização da realidade, que tornavam as histórias divorciadas das reais condições de vida do povo.  

 

Pois é justamente através da oposição frontal a essa tradição literária romântica idealista,  capitaneada pelo autor de “Iracema”, que Franklin Távora irá desenvolver a sua proposta literária qualificada como “Literatura do Norte”.

 

Elaborou o seu projeto através do ensaio “Cartas a Seprônio e Cincinato” (1870) onde trava uma polêmica com José de Alencar em torno das obras regionalistas do consagrado escritor cearense, como “O Sertanejo” e “O Gaúcho”. A crítica reside justamente na infidelidade com que as obras românticas retratam a realidade e as especificidades regionais, seja ao retratar os matutos e caboclos ao norte, ou o Brasil sulista,  temperado nas guerras e na animosidade bélica de gaúchos e caudilhos, que se entrincheiram em suas fazendas, disputando terras na bala com os espanhóis.  

 

Franklin Távora acusa José de Alencar de ser um escritor de gabinete, que retrata realidades que só conhece através dos livros. Em oposição, Távora propõe histórias que reproduzam a realidade com a mesma “exatidão daguerrotípica”, referindo-se a um equipamento precursor da máquina fotográfica. O realismo literário proposto pelo autor de “O Cabeleira” antecede em dez anos a publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1880), tradicionalmente compreendida coma a obra que inaugura o realismo/naturalismo na literatura Brasileira.

 

Outra inovação proposta nas “Cartas” diz respeito à oposição entre literatura produzida ao norte e ao sul do Brasil – cumprindo aqui salientar que no século XIX, quando se falava o “norte”, fazia-se alusão tanto à região do nordeste quanto ao norte propriamente dito, conquanto o “sul” se refere especialmente ao Rio de Janeiro, onde, desde o século XVIII, se situava o centro político e cultural do Império. O regionalismo de Távora, se não o conduziu ao separatismo como outros pernambucanos do estilo de Frei Caneca, ao menos o levou a acreditar que cada região do país deveria constituir um projeto literário próprio, autônomo. Uma literatura do norte e outra literatura do sul.

 

“O Cabeleira” pode ser considerando tanto um livro de literatura quanto uma obra de história de Pernambuco do século XVIII, versando sobre um personagem real, que permeia a cultura popular nordestina. O protagonista é um antecessor do Lampião – um bandido dotado de algumas qualidades morais, que desperta o medo mas também alguma admiração no imaginário popular. As fontes das quais se serviu o escritor para contar a história do bandoleiro foram duas: (i) a tradição oral nordestina, incluindo poemas, trovas e cantigas que fazem alusão ao Cabeleira; e (ii) fontes documentais históricas propriamente ditas, inspiradas em passagem das “Memórias da província de Pernambuco” de Fernandes Gama.  

 

O bandoleiro e seu grupo atuaram nos anos de 1770/1780 nos sertões de Pernambuco, levando o terror às populações extremante isoladas dos centros urbanos do litoral, sem qualquer proteção do Estado e suas instituições policiais.

 

Atacavam povoações, matavam indiscriminadamente e geravam o terror, que se acentuava à medida que as notícias dos saques circulavam e a reputação de Cabelereira crescia, conduzindo o povo a abandonar suas casas e esconder-se no mato, quando avisados que o grupo de bandoleiros se aproximava.

 

As históricas ficaram no imaginário popular através de trovas cantadas ao tempo que o escritor escreveu seu livro. Mães e aias, cem anos depois da morte de Cabeleira, cantavam a história desse Rodin Hood pernambucano para fazer as crianças, tomadas de pavor, adormecerem mais depressa:

 

“Fecha porta, gente,

Cabeleira aí vem,

Matando mulheres,

Meninos também”.

 

Fosse Cabeleira um mero bandido cruel e perverso, certamente não teria sido alçado a condição de um “semi-heroi” popular.

 

Poderíamos falar, aqui, de um “quase-heroi” ou um “semi-heroi”.

 

Em todo o livro, o escritor procura defender a tese de que os atos de violência e crueldade do protagonista tiveram como fonte primordial a pobreza, a ignorância e a ausência de cuidados na infância. A duplicidade no espírito do “quase-heroi” se evidencia na sua relação com o pai e com a mãe. Em Cabeleira conviviam de um lado um espírito benigno e amoroso, oriundo do lado materno. José Gomes (assim se chamava Cabeleira) tinha uma mãe boa e cândida, que lutava por manter o filho no caminho correto, mas um pai extremamente cruel e perverso, que o conduziu ao mundo do crime. Foi justamente esse pai, chamado Joaquim, cuja temeridade não conhecia limites, que engajou ou filho desde criança aos saques, roubos e assassinatos – enquanto o genitor era capaz de matar e depois debochar do corpo do morto, Cabeleira, levando em consideração o seu lado materno, era capaz de sentir remorso e arrependimento, depois que matava.  Joaquim nunca se constituiu em um herói, diferentemente do filho, um “quase-heroi”.

 

Ao final da vida, Cabeleira apaixona-se por Luisinha, uma companheira de infância, que o faz renunciar por completo os atos de violência – isso quando já era acossado pela perseguição de milícias constituídas especificamente para caçar o grupo de bandoleiros.

 

Cabeleira tem uma visão, enxerga no exato ponto onde há algum tempo matara um homem, a figura do defunto desafiando-o. A aparição do morto, somada às orações de Lusinha, levam o herói ou “semi-heroi” a abandonar suas armas. Quando foi finalmente capturado e conduzido à forca, enfrenta a morte com altivez e coragem, afirmando: “Morro arrependido dos meus erros. Quando caí no poder da justiça, meu braço era já incapaz de matar, porque eu já tinha entrado no caminho do bem...”.

 

A ideia de “semi-heroi” ou “quase-heroi” se justifica desde a forma com que o Franklin Távora via o problema do banditismo social no nordeste. Logo no primeiro parágrafo do livro, e em diversas outras passagens, o escritor afirma que os atributos morais e a nobreza do coração de Cabeleira poderiam tê-lo conduzido à condição de um herói pernambucano – mas a pobreza e a ignorância levaram-no a usar sua coragem e iniciativa para matar e saquear, para praticar o mal. O seu espírito se debatia entre a candidez materna e a crueldade paterna, prevalecendo o mal ante a situação de extrema pobreza nos sertões do Pernambuco. Assim afirma o romancista em uma das passagens do livro:   

 

“Não é sem grande constrangimento, leitor, que a minha pena, molhada em tinta, graças a Deus, e não em sangue, descreve cenas de estranho canibalismo como as que nesta história se leem. Aperta-se-me naturalmente o coração sempre que me vejo obrigado a relatá-las. Entre os motivos da minha repugnância e da minha tristeza sobressai o seguinte: Eu vejo nestes horrores e desgraças a prova, infelizmente irrecusável, de que o ente por excelência, a criatura fadada, como nenhuma outra, para altíssimos fins, pode cair na abjeção mais profunda, se o afastam dos seus sumos destinos circunstâncias do tempo e lugar que, nada, ou muito pouco valendo por si mesmas, são de grande peso para a perturbação do equilíbrio moral do rei da criação, tal é a fragilidade da realeza, ou antes das realezas humanas.”.  

 

Nos últimos parágrafos do livro, o escritor conclui a história do Cabeleira afirmando o seu posicionamento político em torno do problema da violência e banditismo social. Seu espírito liberal fez com que se opusesse abertamente à morte pela forca do protagonista – reforçando que a origem da violência é a questão social. Defendeu também os direitos do preso à defesa e sua incolumidade no período das investigações. Transcorridos 150 anos desde quando o livro foi escrito, pode-se dizer que esse ponto de vista é ainda hoje desafia abertamente o conservadorismo brasileiro, que afirma que o bandido bom é o bandido morto.

 

SOBRE O ESCRITOR

 

João Franklin da Silveira Távora foi jornalista, deputado provincial, historiador ligado ao IHGB e romancista. Ficou conhecido na história da literatura brasileira como fundador da chamada Literatura do Norte, escola assim designada por Sílvio Romero, precursora do regionalismo literário nordestino, cuja maior expressão se daria dentro da geração modernista do início do século XX, com escritores como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e Jorge Amado.

 

 Nosso escritor nasceu em 13 de Janeiro de 1842 no sítio Serrinha da Glória, antiga Candeia, região encravada na Serra de Baturité, no centro-norte do Ceará. Era filho de Camilo Henrique da Silveira Távora,  alcunhado de “o indígena”, um liberal simpático aos movimentos revolucionários de 1817 e 1824.

 

 A Revolução Pernambucana de 1817 foi um movimento de caráter liberal e republicano, cujas origens remetem à divulgação das ideias revolucionárias da revolução francesa e a oposição ao absolutismo monárquico Português: o descontentamento dos liberais pernambucanos foi agravado pelos enormes gastos pecuniários decorrentes da chegada da Família Real Portuguesa no Rio de Janeiro, com aumento de impostos para manter o luxo da corte e para travar guerras na Cisplatina, sem prejuízo da nomeação de portugueses para os cargos públicos em detrimento da nobreza da terra.

 

 Já em 1824 eclodiu a Confederação do Equador, movimento de caráter mais nitidamente separatista, liderado pelo padre Frei Caneca e que contou com apoio financeiro dos EUA, que já naquele tempo se interessava pela fragmentação territorial do Brasil, a balcanização de um grande país como meio de melhor subjugá-lo.

 

O radicalismo político pernambucano, tanto 1817 quanto 1824, encontra sua origem mais remota em 1710/1711 na Guerra dos Mascates, que seria tratada com minúcia pelo escritor nos livros “O Matuto” e “Lourenço”, que correspondem aos outros dois livros da trilogia “Literatura do Norte”.

 

Politicamente, Franklin Távora seguiu os passos do pai: sempre foi um progressista, defendendo a abolição da escravidão, a república e a reforma das instituições de ensino.

 

Entre os anos de 1859 e 1863, o autor de “O Matuto” estudou na Faculdade de Direito do Recife, quando fundou e participou de centros, sociedades e associações de estudantes voltadas a atividades literárias e políticas. Neste período, também se aproximou do jornalismo, com o nobre objetivo de ajudar financeiramente a família, que passava por dificuldades.   Começou como tipógrafo e foi evoluindo para revisor de provas, repórter, editor, chefe de redação e, mais tarde, fundador de jornais.

 

Sua aproximação com a política deu-se neste período de participação na imprensa, tendo atuado no “Jornal do Recife”, fundado em 1859 por José de Vasconcellos e, alguns anos depois, no Jornal “A Situação” liderado pelo Conselheiro Francisco de Paulo Silveira Lobo, filiado ao Partido Progressista.

 

Já ligado a este último partido, foi eleito deputado provincial de Pernambuco para mandato entre 1867/1868, quando tinha apenas 25 anos de idade. Já no primeiro ano de mandato, é nomeado para o cargo de Diretor Geral da Instrução Pública, cargo que hoje equivale ao secretário estadual de educação.

 

Ao assumir o encargo, declarou que pretendia reformar as instalações da Diretoria-Geral, dos diversos colégios a ela vinculados, reorganizar administrativamente as atribuições dos professores e lutar pela liberdade de ensino em Pernambuco. Neste trabalho, encontro ferrenha oposição do Partido Conservador.

 

Dada a sua orientação política liberal e progressista, Távora se empenhou na campanha de libertação dos escravos na imprensa, sendo responsável por traduzir a famosa carta endereçada ao mundo por Vitor Hugo contra a escravidão, na qual o autor de Os Miseráveis alertava: “Ter Escravo é merecer ser escravo”.

 

O que é curioso é que o seu posicionamento político progressista, ao contrário do que se poderia supor, não fez com que o escritor deixasse de ser simpatizante do lado de Olinda e dos senhores de engenho, contra os mascates de Recife, em seus dois livros sobre a Guerra dos Mascates.

 

Na verdade, mais do que um conflito entre comerciantes burgueses e latifundiários, o escritor via naquela guerra as sementes do movimento de libertação do Brasil em relação à Portugal: a oposição retratada nas obras de dava entre a opressão da metrópole e a reação nacionalista liderada pelos nobres de Olinda.  Ainda que numa leitura mais economicista ou marxista daquele conflito, o lado burguês e citadino de Recife aparecesse como “progressista” em relação ao lado aristocrático dos senhores de engenho de Olinda. O conflito, nesta perspectiva, se deu entre o comércio de natureza capitalista e a agricultura de natureza escravista ou, como querem alguns, “feudal”. Fora dos quadrantes economicistas, o lado progressivas residia na aristocracia de Olinda, como precursora do movimento da Independência Nacional.

 

Já no final da vida, Franklin Távora abandona a literatura e os trabalhos institucionais, passando, inclusive, por dificuldades financeiras. O escritor morreu no dia 18 de agosto de 1888, com poucas pessoas comparecendo ao enterro. Sílvio Romero, um dos poucos escritores presentes no velório, resumiu com estas palavras o drama vivido pelo seu amigo: “Cumpre destacar em síntese o valor deste escritor, sempre muito maltratado pelos literatos de seu tempo.”.

 

BIBLIOGRAFIA

 

“O Matuto” – Franklin Távora – Editor Iba Mendes – www.poeteiro.com

 

“Lourenço” – Franklin Távora – Editor Iba Mendes – www.poeteiro.com

 

“Franklin Távora” – Cláudio Aguiar – Série Essencial – Academia Brasileira de Letras – Imprensa Oficial.

 

“O Cabeleira” – Franklin Távora – Ed. Ática


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Marechal Cândido Rondon (1865/1958)

 Marechal Cândido Rondon (1865/1958)




 

A grande contribuição do Marechal Cândido Rondon ao Brasil diz respeito à constituição de uma nova política indigenista oficial, materializada em 1910 com a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI).  Esse órgão foi o precursor da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e tinha como finalidade prestar assistência aos índios e integrá-los à sociedade brasileira.  

A constituição dessa nova política oficial indigenista se baseou em princípios traçados por Rondon durante os anos em que trabalhou liderando expedições militares nos territórios do Mato Grosso, Rondônia e Acre, entre os anos de 1890 e 1990, com a finalidade de integrar o território nacional através de construção de linhas telegráficas. Contrariando a forma secular com que o Estado, desde os tempos da colônia, tratava as populações indígenas, Cândido Rondon sempre apostou numa orientação pacifista.

Sob a sua liderança, as expedições adotavam como método não revidar pela força da bala os atos de violência dos índios, os seus ataques de arco e flecha, perpetrados sob a proteção das matas cerradas – ele os via até como legítimos, dada a conduta dos brancos de tomarem as terras dos índios e empregarem-nos em trabalhos análogos à escravidão. Quando eram atacados pelos nativos, as colunas militares lideradas pelo Marechal retrocediam e até entregavam presentes, deixando-os expostos nessa retirada ordeira, como meio de conciliação.  

Ainda nos anos de 1900, quando ocorriam essas expedições, o Brasil tinha uma vasta porção do seu território ao norte completamente despovoado e desconhecido, sem qualquer linha de comunicação terrestre com os centros urbanos do litoral. As entradas oficiais, conduzida pelos militares, visava integrar o território nacional e manter o controle de nossas fronteiras, criando os primeiros contatos de brancos com índios, alguns ferozes, que ainda praticavam a antropofagia – o marechal se notabilizou por ter conseguido pacificar uma dessas tribos, a dos Nhambiquaras.

No que toca à relação dos brancos com as populações indígenas, Cândido Rondon adotara como lema: “morrer se necessário, matar nunca”.

Cândido Mariano da Silva nasceu em 05 de maio de 1865 na sesmaria do Morro Redondo, no Mato Grosso. O seu semblante físico revela a origem indígena, de parte materna. Seu pai era de origem mameluca, miscigenação de português e índio. Perdeu os pais ainda muito jovem e foi criado por um tio que o auxiliou nos estudos. Concluído o curso primário, aos dezoito anos de idade, se lança ao Rio de Janeiro para disputar uma vaga na prestigiosa  Escola Militar da Praia Vermelha no Rio de Janeiro. Consegue a aprovação e se notabiliza pela disciplina nos estudos, obtendo aprovação com distinção e em pouco tempo se habilitando ao Ensino Superior.

Cândido Rondon foi aluno de Benjamin Constant na Escola Militar, onde sofreu a influência do pensamento republicano e positivista. Assumiu o republicanismo e o positivismo como doutrina política, inclusive no que concerne às suas políticas indigenistas.

Nunca carta em que expos os seus princípios em torno da causa índios, afirmou: “a catequização dos indígenas, compreendendo a sua incorporação à nossa sociedade pela assimilação de nossa indústria, nossas artes, bem como pela adoção de nossos hábitos – que resultam das nossas crenças religiosas, no sentido positivo desse termo – julgo-a ser um problema inabordável no presente, em que por tantas crenças se repartem as preferências das populações. Como positivista e membro da Igreja Positivista do Brasil, estou convencido de que os nossos indígenas deverão incorporar-se ao Ocidente sem que se tente força-los passar pelo teologismo” (teologismo - uso indiscriminado e abusivo da teologia para a solução de todos os problemas.).

O Marechal participou diretamente dos eventos que conduziram ao quinze de outubro de 1889 e à proclamação da República no Brasil.

Mas seria através das expedições na esteira da construção dos telégrafos que Rondon forjaria as suas ideias sobre o índio brasileiro, através do contato direto, travando amizade com as lideranças indígenas, participando das cerimônias e rituais das tribos, sempre dentro de um viés conciliatório. Foram expedições que remetem às bandeiras paulistas, se não no que se refere à forma como tratava os índios, sem o uso da violência como os bandeirantes, ao menos no que toca às grandes extensões territoriais percorridas.

Em 39 de abril de 1891, quando da inauguração das novas estações telegráficas, a comissão liderada por Rondon percorrera 1574 km, passando pelo Estado do Mato Grosso até as fronteiras com a Bolívia e Paraguai. Enfrentavam a fome, o risco dos ataques dos índios, a malária e beribéri. Como meio de superar o vasto território fechado pela floresta, travava relação com os índios, convocando-os a auxiliarem picando as matas e fornecendo alimentos. Em contrapartida, auxiliava os índios na demarcação das suas terras. Por onde passava, a comissão liderada por Rondon deixava avisos públicos, dizendo que aqueles que tomavam as terras dos nativos estariam sujeitos à autoridade e punição do Estado.

Já ao final da vida, em 1955, recebeu do Congresso Nacional a insígnia de marechal. Nesse mesmo ano, ao antigo território de Guaporé foi dado o nome de Rondônia, onde hoje se situa o Estado de Rondônia, um dos últimos estados criados no país.

Cândido Rondon morreu em 19 de janeiro de 1958, aos 93 anos de idade.

Bibliografia: “Marechal Rondon – 1865/1958” – Coleção Grandes Personagens da Nossa História – (Org. Sérgio Buarque de Holanda) – Ed. Abril