“Terra em Transe”
Resenha Filme #1 – “Terra em Transe” –
Glauber Rocha
“Onde houver um cineasta disposto a
filmar a verdade, e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos da
censura intelectual, aí haverá um germe vivo do Cinema Novo. Onde houver um
cineasta disposto a enfrentar o comercialismo, a exploração, a pornografia, o
tecnicismo, aí haverá um germe do Cinema Novo. Onde houver um cineasta, de
qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua
profissão a serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do
Cinema Novo.” (Glauber
Rocha – “Estética da Fome”).
Glauber Rocha foi o maior expoente do
movimento artístico conhecido como “Cinema Novo” (1960/1970).
Tratava-se de um grupo de jovens
cineastas que estava em oposição direta ao cinema convencional praticado até
então no país: as chanchadas, comédias musicais fortemente influenciadas pela
cultura hollywoodiana, por meio das quais se buscava retratar o Brasil como um
paraíso tropical habitado por belos atores com perfil de modelos.
Em oposição a essa arte de conteúdo
puramente comercial, aqueles jovens cineastas buscavam incluir pessoas reais, literalmente
recrutadas de populares da rua, como personagens dos filmes. Voltavam sua
atenção à situação dos camponeses, dos operários e dos moradores das favelas.
Tinham a pretensão de produzir uma arte politicamente engajada, mas também enraizada
na cultura popular brasileira. E levavam como palavra de ordem: “uma câmera
na mão e uma ideia na cabeça”!
Essa orientação mais independente
implicava a falta de recursos financeiros para elaboração dos filmes. O que
tinha como contrapartida positiva a mais completa liberdade criativa dos
diretores.
“Terra em Transe” (1967) foi o
terceiro filme dirigido por Glauber Rocha e revela todos aquelas
características basilares do “Cinema Novo”. Fortemente influenciado pelo
neorrealismo italiano do pós II Guerra Mundial, o cineasta se serve de atores
amadores, realiza filmagens em espaços públicos contemplando os transeuntes,
atenta-se às classes populares, realiza a crítica política e serve-se de uma
estética de documentário, com uso de luz natural e sem exploração de recursos tecnológicos
nas imagens; aquilo que o seu autor chamou acima de “tecnicismos”.
O enredo trata das lutas políticas em
torno da presidência de Eldorado, uma ilha fictícia que remete a um cenário
tropical, evidenciando a conhecida paródia da “República das Bananas”. O termo
foi cunhado de forma pejorativa para retratar países da América Latina sujeitos
à corrupção política de elites subordinadas à exploração econômica das nações imperialistas.
O início do filme se dá através de um
golpe de estado e a capitulação do governo “esquerdista” de Felipe Vieira;
Paulo Martins, poeta, jornalista e protagonista do filme, decide sacrificar a
si mesmo e morre resistindo a uma batida policial, mesmo após a traição do
presidente que até então apoiava.
Na sequência o filme conta em
retrospectiva a sua história; Paulo ao reunir em si as qualidades de poeta e
político de origem pequeno-burguesa, será o meio com que o cineasta irá
parodiar a política institucional, inclusive a brasileira, já no contexto da Ditadura
Militar.
A origem de classe de Paulo Martins
denota suas vacilações políticas. Trata-se do típico pequeno-burguês que está
sempre vacilando politicamente, frequentemente traindo os seus compromissos
partidários, passando inicialmente do lado da direita, representada por
Porfírio Dias, para o lado da esquerda, representada por Vieira. Além de
jornalista e militante político, também é poeta. O que faz com que as suas
vacilações de classe o conduzam a todo momento ao remorso e à culpa do artista
dotado de sensibilidade aguda.
Confrontado em certo momento por trabalhadores
com consciência política, Paulo Martins é qualificado de forma desdenhosa como
um anarquista. Sua personalidade confusa decorre dessa tensão entre a política
e a poesia: em determinado momento Paulo Martins diz literalmente que “a
política e a poesia são demais para um só homem”. Difícil não imaginar que essa
tensão entre arte e política passava pelas cogitações do próprio Glauber Rocha.
O filme também revela a conhecida farsa
da política institucional, através do embate entre uma “direita” (Porfírio Dias)
e uma “esquerda” (Vieira) ambas igualmente sujeitas ao poder econômico
dominante que controla Eldorado. A diferença aqui, também bastante conhecida, é
que a chamada “esquerda” nada mais é do que o lenitivo eficiente para controlar
a revolta das massas: após um camponês questionar Vieira por trair seu compromisso
de garantir a terra ao povo, acabará posteriormente sendo encontrado morto de
forma misteriosa.
Num diálogo simbólico entre Dias e
Vieira, o representante da “direta” intima o representante da “esquerda”: a luta de classes existe, de que lado você
está? E ambos parecem chegar a uma composição.
O povo, também, não é retratado com qualquer
idealismo no filme, como se a origem social automaticamente o credenciasse à
lucidez política – se assim o fosse, estaríamos diante de um filme militante
convencional e previsível.
A parte mais comovente do filme – aludida
na imagem que ilustra esta resenha – é justamente quando Dias, Paulo Martins e
os demais representantes burgueses do povo finalmente dão a palavra a um
popular.
Um silêncio eloquente se faz.
Todos esperam o que o povo tem a
dizer.
Um sindicalista pede a palavra.
E sua intervenção política é pífia:
- “Acho que está tudo errado, não
sei o que fazer a não ser aguardar as ordens do presidente”. Paulo, o
pequeno burguês, tapa a boca do representante do povo, o chama de analfabeto e
despolitizado. (https://www.youtube.com/watch?v=1VhLNu1KaCY).
O movimento do Cinema Novo existiu
basicamente entre 1960 e 1970. O seu fim se deve entre outros à criação da Embrafilme
em 1969 pelo Regime Militar, o que implicou na institucionalização do cinema
nacional, por meio do financiamento estatal. O que não se relacionava com a
arte independente proposta pelo grupo de Glauber Rocha.






