quinta-feira, 6 de agosto de 2026

“Vila dos Confins” – Mário Palmério

 Vila dos Confins” – Mário Palmério





Resenha Livro - “Vila dos Confins” – Mário Palmério – Editora José Olympio

 

“Vila dos Confins” (1956) foi o primeiro romance escrito por Mário Palmério (1916/1996).

Foi publicado quando o escritor tinha 40 anos de idade e era, até então, conhecido nacionalmente apenas como educador e deputado federal pelo PTB, partido criado poucos anos antes por Getúlio Vargas.

O surgimento do livro foi uma surpresa às pessoas que até então reconheciam em Palmério apenas um político mineiro ligado ao trabalhismo, responsável pela construção das primeiras instituições de ensino superior no triângulo mineiro. O impacto decorreu da beleza estética e da expressividade com que Palmério soube traduzir o Brasil profundo.

Sem nunca ter participado de qualquer roda literária, a intelectualidade da época não deixou de se impressionar pelo livro de um autor que, até então, apenas deveria discretamente escrever, nos horários livres, entre um ou outro expediente político.

O batismo literário do político/escritor deu-se por ninguém menos que Rachel de Queiroz, a grande escritora cearense que figura entre os maiores expoentes da literatura regionalista  brasileira, ao lado de Graciliano Ramos, José Lins do Rego e João Guimarães Rosa.

 Aquele deputado altivo e poderoso timidamente entra em contato por telefone com Rachel de Queiroz pedindo uma audiência. A escritora estranha o convite, notadamente pelo seu posicionamento mais à direita, oposto ao trabalhismo mais à esquerda de Mário Palmério.

Mas o motivo do encontro era a literatura: Mário Palmério entrega à Rachel de Queiroz o seu “Vila dos Confins”.

O romance causou profunda impacto, conforme Rachel de Queiroz conta no prefácio do livro:  

“A primeira qualidade que me impressionou no escritor Mário Palmério foi este cheiro de terra, que o seu livro traz, tão autêntico. A gente tem a impressão de que ele nos entrega para ver, na sua integralidade primitiva, aquele rio, aquela mata, aqueles bichos, aqueles caboclos, aquelas histórias de caçada e pescaria, que parecem histórias de mentiroso, de tão saborosas. Essa poesia de floresta e rio, tão difícil de captar, sem cair na ênfase”.

Trata-se de uma história que se passa numa terra fictícia chamada “Vila dos Confins”, que poderia ser qualquer canto do Brasil profundo, onde predomina o latifúndio, a política do cabresto, aquelas pacatas cidadezinhas do interior com suas igrejinhas e pequeno comércio. Onde pelos campos passam a boiada conduzida pelos tropeiros e nos dias de chuva se sente o cheiro da terra molhada. Por onde transitam caixeiros viajantes, jagunços, caboclos, boiadeiros e funcionários públicos de baixo escalão como delegados de polícia e coletores de impostos.  

O título do livro já sugere essa intenção de revelar pela literatura, com tonalidades de poesia, o hiterland brasileiro. “Vila” remete à ideia de um local não tão grande e desenvolvido ao ponto de se chamar de “cidade”, mas não tão pequeno e despovoado ao ponto de ser meramente um “arraial”. “Confins “significa um lugar longínquo, de difícil acesso, ou como se diz, o fim do mundo, onde judas perdeu as botas.

Há um evidente conteúdo autobiográfico no livro. A história se centra na primeira eleição municipal da Vila dos Confins e o personagem central se chama Paulo, um deputado federal que se desloca à sua terra natal, onde reside a sua base eleitoral, para costurar articulações políticas em torno do seu candidato à prefeitura. Tal qual Mário Palmério, ele próprio um fazendeiro de Uberaba que ingressou na política.

Nessa peregrinação pelas fazendas e arraiais dos arredores da Vila dos Confins, o protagonista vai travando relações com a gente do campo, recruta alguns proprietários de terra semialfabetizados para candidaturas à vereador. Essa jornada vai conduzindo o jovem político às suas próprias lembranças da infância na fazenda dos pais.

Mas a grande força poética do livro se evidencia na forma como a natureza do sertão brasileira surge como se dotada de humanidade. Desde o movimento dos peixes do Rio Urucunã até os urubus traiçoeiros que pairam pelos ares rodando a carniça do boi morto, é como se os animais fossem alçados à condição de personagens, levam adiante alguma conduta, sentimentos profundos, que não os limita a aparecer meramente como parte da paisagem.

Desde a descrição de uma lagartixa, “desconfiada, vasqueira, a lagartixa apontou a cabecinha de feto de jacaré por cima da tesoura do telhado. Encompridou o pescoço, parou. Os olhinhos estufados eram dois grãozinhos graúdos de chumbo de caça”. Ou passarinho João de Barro que “despertara com o canto do galo índio. Morava perto, na casa redonda do pé de laranja-da-terra. Levantou-se e veio até à porta olhar o céu. E quase perde a paciência. Tivera um dia trabalhoso consertando a casa arrombada pelo tucano”.

A natureza se expressando pelos animais, dos peixes dourados que sabem enganar os pescadores tirando-lhes a isca sem serem capturados; até a onça pintada em seus movimentos sub-reptícios quando ataca a presa, o que vemos é um dos mais belos retratos da essência do Brasil. O que se soma às marcas da política regional que grassam  ainda nos dias de hoje nas cidades do interior: os currais eleitorais, a compra de votos, analfabetos que redigem as cédulas eleitorais com as mãos conduzidas por membros do partido político, mortos no papel que aparecem na lista de eleitores.  

Consta que “Vila dos Confins” foi ao seu tempo um sucesso editorial. Contudo, Mário Palmério hoje é um esquecido representante da literatura regionalista brasileira. Simbolicamente, foi conduzido à Academia Brasileira de Letras na cadeira até então ocupada por ninguém menos que João Guimarães Rosa, o escritor que mais foi capaz de alçar à condição de universalidade o sertão brasileiro.  

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

A Vida de São Francisco de Assis

 A Vida de São Francisco de Assis




 

“Oh Mestre, faze que eu procure menos

Ser consolado do que consolar;

Ser compreendido do que compreender;

Ser amado do que amar.

Porquanto

É dando que se recebe;

É perdoando que se é perdoado;

É morrendo que se ressuscita para a Vida Eterna”

Oração de São Francisco de Assis

 

Resenha Livro – “As Aventuras do Menino Chico de Assis” – Luís Jardim – Editora José Olympio

 

Não há salvação fora da caridade. Essa poderia ser a palavra de ordem mais representativa da vida de São Francisco de Assis.

O frade católico ficou notabilizado pelo seu amor incondicional à natureza e aos animais, pela renúncia radical dos bens materiais e pela dedicação e auxílio aos pobres e marginalizados. O que há por de trás do impulso do amparo aos excluídos é a ideia de que há muito mais prazer e alegria em dar do que receber. Consolar a ser consolado. Perdoar a ser perdoado. E até mesmo amar sem ser amado.

Seu nome de batismo não era Francisco, mas João, ou, no italiano, Giovanni. Seu pai era um rico comerciante de sedas oriundo de Assis na Itália. Sua mãe, uma mulher extremamente piedosa, tinha origem francesa. Existe a hipótese que daí veio o apelido Francisco que significava então pessoa oriunda da França.

Na juventude consta que Francisco servia-se da riqueza do pai para viver uma vida mundana, baseada nos prazeres terrenos. Sua conversão religiosa só daria aos 20 e poucos anos de idade após uma enfermidade que o afligiu pouco antes de se engajar voluntariamente numa campanha militar envolvendo as cidades italianas Assis e Perugia.

O jovem Assis teria escutado vozes lhe sugerindo dever deixar de servir aos homens para servir à Deus. O que pode ser interpretado não como a renúncia pura e simples da companhia dos seus pares – dado que isso lhe retiraria a possibilidade de exercer a caridade – mas a rejeição da efemeridade da vida material em detrimento da plenitude da vida na espiritualidade.  

Outro momento marcante na vida do jovem Francisco de Assis deu-se certa feita em que cruza em seu caminho um leproso lhe pedindo auxílio. Chico presta o apoio e dá um beijo na mão em carne viva pelas lesões da lepra, sujeitando-se ao risco pelo ato de amor. Esse evento lhe causou uma profunda sensação de ternura no coração, sendo considerado o ponto de partida de sua orientação na caridade.

Essa orientação causaria um grave conflito familiar. Após se ligar a uma Igreja em Assis, Francisco decide tomar o estoque de sedas da loja do pai para vender a preços módicos e arrecadar o dinheiro para auxiliar os pobres. O evento desperta a fúria do pai que posteriormente o conduz ao bispado para o obrigar a renunciar a herança. Aqui surge outro evento culminante na vida do Santo: Francisco aceita de bom grado a renúncia da herança e até mesmo tira as suas roupas para serem devolvidas ao pai. Em ato solene, afirma que a partir daquele momento, o seu pai passaria a ser Deus.

E aqui reside a origem daquilo que ficou conhecido como o traço mais conhecido e bonito do santo frade da Igreja católica.

Francisco de Assis levava até as últimas consequências a ideia de que todos somos irmãos, porquanto somos fruto da mesma criação divina. Não só os homens, mas os animais, a natureza e até mesmo as coisas inanimadas como o vento, a chuva e o sol. Ele nos evidencia a beleza e divindade de cada pequeno detalhe da natureza e nos ensina a captar a poesia dos passarinhos cantando ou do cheiro da terra molhada de chuva.

Os doutores da Igreja Católica parecem querer retratar um outro Francisco de Assis, diferente daquele que se popularizou no senso comum. Baseando-se em textos antiguíssimos, dos tempos da Idade Média, tentam criar a figura de um homem brutalmente ascético, um eremita que mutilava o seu corpo dormindo de forma proposital em camas de espinho para desafiar a tentação da carne.

Sem prejuízo do questionamento em torno da idoneidade das fontes históricas, aqui preferimos o mito franciscano: uma alma sentimental, dotada de ternura para com tudo que o cerca e que extrai felicidade em ajudar aqueles que precisam. Ser escrupuloso consigo próprio deve ter como consequência a complacência, o perdão e a caridade em relação ao próximo.

Dedico essa resenha à Ana Paula Siqueira Santos cujo coração, na sua simplicidade e bondade, retrata aquilo que ainda resta de bom na Igreja Católica.

Quadro: São Francisco de Assis - José de Ribera – 1643

domingo, 26 de julho de 2026

O Grande Oeste Brasileiro

 O Grande Oeste Brasileiro



Resenha Livro – “História do Brasil Geral e Regional: Grande Oeste V. VI” – Ernani Silva Bruno

O “Grande Oeste Brasileiro” se caracterizou historicamente como trecho do nosso território onde a interiorização da ocupação foi levada até as últimas consequências. Essa grande fatia de terras que abrange hoje os estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás era inteiramente desabitada pelo menos até 1720, quando a descoberta do “ouro de Cuiabá” e o início do ciclo da mineração daria um primeiro impulso de desenvolvimento econômico da região.

Os primeiros marcos históricos desse processo se deram em 1728 com a criação de Vila Real do Bom Senhor Jesus do Cuiabá e em 1739 da Vila Boa de Goiás, onde respectivamente se criariam os principais focos urbanos do Mato Grosso e de Goiás; no ano de 1748 aquelas terras seriam desmembradas da capitania de São Paulo para se constituir como capitania autônoma. Mas ainda assim, o “Grande Oeste Brasileiro” permanece ainda hoje como uma grande fatia do território brasileiro com as menores densidades demográficas, só perdendo para os estados do norte, ante a vastidão territorial da Amazônia.

Em 1494 pelo Tratado de Tordesilhas, Portugal e Espanha delimitaram o domínio das terras que foram sendo descobertas no novo mundo. As porções mais ao leste pertencendo aos portugueses e ao oeste aos espanhóis, esses últimos criando as primeiras cidades da bacia do Plata, notadamente Buenos Aires (1536) e Assunción (1537); o que significa dizer que o “Grande Oeste Brasileiro”, pelo Tratado de Tordesilhas,  era ao menos teoricamente território espanhol.

Na verdade, havia pouca clareza em torno dos limites fronteiriços daquelas terras entre as duas coroas, o que facilitou a intervenção dos sertanistas paulistas e criou as condições para incorporação do território aos brasileiros.

O marco inicial deu-se pelos bandeirantes que atingiam a região para destruir as missões dos jesuítas e capturar índios para levá-los como escravos ao litoral. Em 1596 uma bandeira liderada por Domingos Rodrigues procedente do Rio São Francisco percorre o território goiano. Em 1648 outra bandeira liderada por Antônio Raposo Tavares destrói uma grande missão jesuítica ao sul do território onde hoje é o Mato Grosso. E aos poucos aquelas terras vão passando ao domínio português, consumando-se formalmente a posse pela coroa de Lisboa em 1750 com o Tratado de Madrid.

Esse novo acordo instituiu o princípio do uti possidetis, o critério pela qual a terra pertence aquele que efetivamente exerce a posse. Eis a maior colaboração dos bandeirantes ao Brasil: suas expedições em busca de índios e, depois, do ouro e diamantes, foram construindo vilas e arraiais que pavimentaram a ocupação da terra e conferiram a fisionomia territorial do Brasil. Nosso país não seria uma nação continental não fossem as expedições dos sertanistas. Nossa homogeneidade cultural e linguística, o português falado do norte ao sul do Brasil também é fruto da grande epopeia bandeirante.

GRANDE OESTE BRASILEIRO: DO INÍCIO DA OCUPAÇÃO AOS DIAS DE HOJE  

Durante os dois primeiros séculos (1500/1700) a terra onde hoje se situa o centro-oeste brasileiro era literalmente desconhecida; o que havia até então eram meramente expedições de reconhecimento territorial pelos espanhóis e portugueses e algumas missões jesuíticas. No mais, uma vasta porção de campos habitados por índios e animais bravios.

As tribos principais da região eram os guaicurus e os paiaguás que levavam adiante a resistência à ocupação por portugueses e espanhóis.

Os paiaguás eram ótimos canoeiros e atacavam as expedições fluviais de abastecimento dos colonizadores. Tinham um código de honra pelo qual o combatente era proibido de recuar. Faziam a guerra com os corpos inteiramente pintados e as cabeças enfeitadas com penas e sabiam contornar os disparos de arma de fogo dos brancos fazendo as canoas de escudo. E quando era necessário o intervalo para carregamento de armas, soltavam uma saraivada de flechas no inimigo.

Outra grande dificuldade para a ocupação populacional e desenvolvimento do “Grande Oeste Brasileiro” deu-se pela dificuldade de comunicação e transportes que se dava essencialmente através dos rios Paraná e Paraguai. O acesso às terras do Mato Grosso vinham da Bahia pelo Rio São Francisco e até Goiás partindo de São Paulo, por meio da navegações e longas viagens guiadas por bois e cavalos.

Essa situação de isolamento também tinha a ver com a própria economia da mineração: pequenos arraiais iam sendo criados aos arredores das jazidas recém-descobertas, que ficavam ilhadas entre si. Quando o ouro e o diamante acabavam, a terra era abandonada, criando verdadeiras cidades mortas.

Os documentos de época retratam uma situação de extrema pobreza daquela região entre os séculos XVIII e XIX.

Não havia famílias ou casamentos, mas meramente brancos amancebados com índias, sem qualquer regramento social.

A alimentação se dava em torno da caça e da pesca, e alguma agricultura de subsistência, notadamente o milho e o feijão, sem acesso ao sal para conservar a carne. Havia alguns poucos engenhos de açúcar para fabricação de aguardente. Os primeiros estabelecimentos de ensino na região só surgiram no final do século XIX. O analfabetismo era absoluto até o século passado.

A partir do século XIX há o esgotamento do ciclo de mineração no “Grande Oeste Brasileiro”  passando a economia a gravitar em torno da pecuária. Durante os dois séculos subsequentes, a criação de gado foi a principal expressão da economia da região e criou a figura típica e folclórica do homem do centro-oeste brasileiro, o boiadeiro do pantanal, com o seu chapéu de abas largas e o seu enorme berrante.   

Na década de 1930 com o surgimento do transporte ferroviário houve um certo desenvolvimento da agricultura, até então restrita à produção de subsistência. Mais ao norte se desenvolveu a exploração dos seringais.

E um último impulso ao desenvolvimento do centro-oeste brasileiro ocorre através da constituição de 1946 que traçou como objetivo a transferência da capital brasileira para o Planalto Central.  Dez anos depois se iniciaria a construção de Brasília, uma cidade simbolicamente criada do zero, evidenciando a imensidade de um vasto território pouco habitado e ainda a ser descoberto.

Imagem: "Pastoreio em Goiás - Começo do Século XIX - Johann Moritz Rugendas



domingo, 12 de julho de 2026

A História da Paraíba

 A História da Paraíba




 

“Quando o rei de Portugal

Fundou a capitania

Da Paraíba visando

Combater a valentia

Dos índios, não imaginava

Quanto trabalho teria

Outra meta lusitana,

Era avançar rumo ao norte

Para ocupar o território

Em obstáculos dar um corte

Banir piratas franceses

Com braço firme e forte.

Foram cinco expedições

Até chegar à conquista

Em todas elas formou-se

De mortos enorme lista

Os índios nunca baixaram

Nem as armas nem a vista”

Vicente Campos Filho – “A Conquista da Paraíba” – Literatura de Cordel

 

Nas artes, Jackson do Pandeiro, José Lins do Rego, Ariano Suassuna, Pedro Américo e Augusto dos Anjos. Na política, Epitácio Pessoa, João Pessoa, João Suassuna e José Américo de Almeida, esse último também escritor.  

Eis aqui os nomes de alguns ilustres personagens da história brasileira oriundos da Paraíba.

Inicialmente, no início da colonização, essa terra começou como um pequeno trecho quase inabitado ao sul da Capitania de Itamaracá, concedida pelo Rei de Portugal ao donatário Pero Lopes de Souza em 1534. Depois de uma guerra de mais de dez anos contra os índios potiguares, houve a chamada “conquista da Paraíba”, com a criação da cidade de Nossa Senhora das Neve, hoje João Pessoa, isso no dia 5 de agosto de 1585. A Paraíba passou à condição de Província após a independência brasileira de 1822 e, finalmente, tornou-se um Estado da federação a partir da Proclamação da República em 1889.

Além da contribuição cultural dos paraibanos à formação do Brasil, a partir daquele território se iniciou uma sequência de eventos dramáticos que iriam decidir os rumos da nossa civilização: o assassinato do governador João Pessoa em 26 de Julho de 1930, então candidato à vice presidência na chapa de Getúlio Vargas, serviria de estopim para o movimento revolucionário de 1930, que colocaria abaixo  a Velha República baseada na política do café com leite para instituir um novo ciclo de desenvolvimento nacional. Os eventos da política local paraibana deram impulso à transformação do país em direção à industrialização, em oposição ao predomínio absoluto do modelo agrário exportador, ao desenvolvimento urbano, à modernização dos costumes, à formação da classe operária e à criação dos primeiros direitos trabalhistas.

A História da Paraíba se inicia através de um evento trágico que confere àquele povo a altivez e coragem característicos da conhecida figura do “cabra macho” nordestino. Trata-se do “Massacre de Tracunhaém!” (1574), evento pouco conhecido dos brasileiros dos estados ao sul e sudeste.

O território onde hoje se situa a Paraíba foi objeto de uma ocupação relativamente tardia pelos portugueses. A título de comparação, o Rio de Janeiro foi fundado em 1º de março de 1565 por Estácio de Sá, após anos de luta contra o invasor francês. São Paulo começou em 25 de Janeiro de 1554 quando foi rezada a primeira missa no planalto de Piratininga pelos jesuítas. No caso paraibano, após a expulsão dos piratas franceses do Rio de Janeiro, muitos deles ocuparam justamente aquele território ao sul da Capitania de Itamaracá, onde travaram relações com os índios potiguares que habitavam o litoral, para contrabandear o pau brasil e estabelecer pequenas feitorias.

Essa forte articulação entre franceses e índios potiguares dificultou a ocupação da Paraíba pelos portugueses que, ao seu passo, buscaram travar relações com índios tabajaras, oriundos da Bahia e que atingiam o território pelo rio são Francisco fugindo de tribos inimigas.

Como canta o poeta Vicente Campos nos seus versos de cordel:

“Os potiguares que eram

Os legítimos nativos,

Nunca deram trégua aos brancos

Nem se fizeram cativos

Braveza, orgulho e raça

Eram esses seus motivos

E a tribo tabajara

Oriunda da Bahia

Das margens do São Francisco

Chegou nessa terra um dia

Fugindo dos inimigos

Que ali lhe perseguia”.  

Conta a história que um mameluco português se apaixonou por uma bela índia de 15 anos que era filha do chefe dos potiguaras. O nome da nativa era Iratembé, também conhecida como lábios de mel, filha do chefe Iniguaçu. O mestiço português pediu a mão da cunhã ao seu pai, sendo autorizado o casamento, desde que o mameluco passasse a viver na tribo, incorporando-se aos hábitos e estilo de vida dos índios.

O português aceita a promessa, mas rompe o acordo, sequestra Iratembé e a leva para Olinda.  Os potiguares marcharam até a capitania vizinha para exigir a volta da cunhã raptada. Houve intervenção até mesmo de autoridades portuguesas para que o conflito não escalasse: foi determinado que o tal mameluco e Iratembé retornassem às terras dos potiguares, atendendo à requisição dos índios. O acordo, entretanto, foi logrado por Diogo Dias, um cristão novo, dono de um engenho às margens do Rio Paraíba, que tomou a bela cunhã para si.

Esse foi fato detonador do massacre de Tracunhaém. Já havia um ódio acumulado dos índios potiguares pelos portugueses, açulado pelos franceses, de modo que o sequestro da bela Iratembé apenas serviu como estopim de uma guerra que já vinha se gestando.

Cerca de 2000 índios marcharam até o engenho de Diogo Dias e assassinaram mais de 600 pessoas – consta que houve apenas dois sobreviventes, no caso, filhos do dono daquelas terras.

Assim canta o poeta paraibano:

“Os índios caíram em cima

Com uma gritaria incrível

E voltar para o engenho

Tornou-se algo impossível

Na manhã daquele dia

Deu-se uma matança horrível.

Não teve branco, nem negro

Que os índios não matassem

Nem mulher e nem menino

Que eles não esquartejassem

Não deixaram o engenho

Sem que tudo antes queimassem”

O massacre chegou ao conhecimento das autoridades da coroa na Europa, sendo determinada a realizações de expedições para subjugar os potiguaras. As quatro primeiras tentativas foram derrotadas e apenas em 1585 haveria a definitiva conquista da Paraíba, através da fundação da cidade onde hoje se situa a capital João Pessoa.

A economia local inicialmente se deu em torno dos engenhos de açúcar, sem, contudo, o mesmo êxito da produção na capitania vizinha de Pernambuco. Após a invasão holandesa, os engenhos paraibanos foram destruídos, sem recuperação posterior. A interiorização da ocupação do estado foi se dando gradualmente através crianção de gado.

O fracasso dos engenhos de açúcar fez com que a participação da população escrava de origem africana fosse relativamente baixa na Paraíba, ao menos se comparada com Bahia e Pernambuco. No caso das criações de gado, as chances de fuga no sertão eram enormes, tornando impossível o regime de trabalho escravo naquelas paragens.

Essa situação se evidencia ainda hoje quando visitamos a Paraíba: poucos negros e muitos mamelucos, brancos (descendência holandesa, os “galegos”) e mestiços com traços indígenas, pele parda, cabeça redonda e olhos levemente puxados.

No que toca aos índios potiguaras, após a conquista da Paraíba, muitos rumaram em direção ao norte, atingindo o Estado do Rio Grande do Norte.

Ainda hoje, na divisa entre os dois estados existe um lugar chamado Baía da Traição, município que abriga a maior parte da população dos antigos potiguares que primeiro ocuparam a Paraíba.  

Bibliografia

“A Escravidão na Paraíba” – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

“A Conquista da Paraíba” – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

“A Paraíba sob o domínio holandês”  – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

“A contribuição dos franciscanos na Capitania da Paraíba”  – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

“O Massacre de Tracunhaém e a fundação da Capitania da Paraíba” – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

quinta-feira, 9 de julho de 2026

“Longe da Terra” – José Mauro de Vasconcelos

 “Longe da Terra” – José Mauro de Vasconcelos


 

Resenha Livro - “Longe da Terra” – José Mauro de Vasconcelos – Edições Melhoramentos

 

O livro mais conhecido do escritor fluminense José Mauro Vasconcelos certamente é “Meu Pé de Laranja Lima” (1968), espécie de relato autobiográfico da infância do escritor, vivenciada na pobreza de um bairro de subúrbio de Bangu/RJ.

As fantasias de uma criança que cultiva amizade com uma árvore de laranjeira do seu quintal, o encanto produzido pela imaginação dos menores, que conseguem abstrair as dificuldades da vida e encará-la com ternura e alegria, certamente cativou leitores de todas as idades e fez de Vasconcelos um dos poucos escritores brasileiros que pôde viver exclusivamente dos direitos autorais de sua obra.

Façanha que encontra poucos paralelos no Brasil: Érico Verissimo, Jorge Amado e Monteiro Lobato são outros poucos exemplos de escritores de uma literatura ao mesmo tempo popular, acessível a todos e de rara qualidade estética.

“Meu Pé de Laranja Lima” vendeu mais de dois milhões de exemplares, tendo sido publicada em 15 países. “Rosinha Minha Canoa” (1962) foi a primeira obra de sucesso do nosso escritor, que igualmente relata um mundo encantado e fantástico, em que o pescador mantém dialogo e afeto com sua canoa, cuja origem advém de uma árvore capaz de sentir e de se comunicar. E a novela “Coração de Vidro” teve mais de 650.000 exemplares vendidos, publicações em 10 países, traduções em três idiomas e mais de 70 edições no Brasil.

A popularidade de Vasconcelos, por diferentes razões, não se traduziu em reconhecimento na academia. Aliás, a própria figura do escritor representa a mas completa oposição a tudo o que se posse considerar acadêmico.

De família pobre, nascido no estado do Rio de Janeiro, aos nove anos mudou-se para a casa dos tios em Natal/RN. Chegou a frequentar dois anos do curso de medicina naquele estado, mas a sua personalidade irrequieta e aventureira o faria abandonar o curso e retornar ao Rio de Janeiro a bordo de um navio cargueiro, levando uma simples maleta de papelão como bagagem.

Nesta peregrinação pelo país a fora, trabalhou como treinador de boxe, carregador de bananas na capital do Rio de Janeiro, pescador do litoral fluminense, professor primário num núcleo de pescadores no Recife, garçom em São Paulo. Além de escritor, foi ator de cinema e modelo.

Em dado momento de sua vida, se junto aos irmãos Villas Bôas, sertanistas e indigenistas, enveredando-se pelo sertão da região do Araguaia, contando povos indígenas desconhecidos e cartografando terras.

O contato direto com aqueles povos sertanejos e indígenas criaria as condições para o escritor fazer relatos minuciosos (ainda que sua arte realista enveredasse para o fantástico, com animais e árvores falantes) dos povos do Araguaia, no seu já mencionado “Rosinha Minha Canoa” e no romance “O Garanhão das Praias” – ambos tratando de missões “civilizatórias” junto aos povos sertanejos e indígenas dos rincões do país.

LONGE DA TERRA

“Longe da terra” (1949) é parte desse conjunto de romances indigenistas que retratam as experiências do autor em suas expedições pelos sertões de Goiás.

A história, talvez mais do que todas, tem um forte elemento autobiográfico.

Trata-se de um dos poucos livros do autor redigido em primeira pessoa: o protagonista também é um jovem idealista que rompe com a civilização, abandona o curso de medicina, a despeito do futuro promisso na carreira, e se lança até uma pequena vila chamada Leopoldina, às margens do Rio Araguaia.

Através de uma nova jornada “longe da terra”, irá se reconciliar com a vida e ressignificar a sua existência e o sentido do tempo, confrontando a dinâmica da cidade com a pasmaceira da vida num aldeamento indígena.

Abandona a vestimenta branca do hospital e a rotina entediante de atendimentos e diagnósticos pelo colorido exuberante da floresta. Desveste-se do seu nome e dos rótulos de “médico” e “bacharel”, e assume o apelido local de “dotô” para exercer a medicina informal e dar aulas às crianças em troca das refeições.

Expressa em diversos momentos a alegria genuína decorrente dos atos de caridade desinteressada. A felicidade reside em olhar a natureza e as pessoas com ternura.

O narrador também renuncia de forma radical o materialismo, notadamente diante da inutilidade dos bens materiais no contexto da vida num aldeamento indígena. Toma seus banhos no rio, deixa a barba crescer, usa poucas vestimentas e doa o pouco que tem a quem precisa. Assim como em outros livros do escritor, vemos uma adesão ao espírito de São Francisco de Assis.

A história se passa em Leopoldina, um vilarejo às margens do Rio Araguaia, para onde o narrador segue acompanhado de um padre que se também se propõe a um desafio, no caso, evangelizar aquele povo abandonado do sertão. Para atingir o local, ambos enveredam até Goiânia para depois realizar uma viagem de quatro horas de barco.

E só conseguem atingir Leopoldina em época de estiagem: durante meses a fio, o local é inundado por chuvas torrenciais e ininterruptas, tornando impossível o acesso. E são nesses seis meses em que a vila fica toda ilhada que se revela aquilo que é mais característico daquele povo: uma preguiça e indolência contagiantes.  

O padre missionário busca sem êxito estimular aquela gente ao trabalho. A chuva sempre serve como justificativa para a procrastinação: depois da época das águas, poderiam desenvolver a agricultura, o que nunca acontece. Mas para que plantar aquela terra fértil se a natureza já lhes fornece o necessário através da pesca e dos frutos das árvores?

A preguiça de Leopoldina é contagiante – todo aquele que vem de fora é por ela contaminado. O índio introjeta no branco a indolência. Mas o branco leva ao índio o vício do tabaco e a cobiça dos bens materiais. Essa cobiça se dá através da intervenção dos garimpeiros, homens destemidos que desbravam os sertões em busca do enriquecimento imediato, resgatando a tradição secular brasileira do bandeirantismo – o próprio narrador, num momento de comoção pela sua nova vida, se pronuncia como um bandeirante.  

Já o missionário religioso desiste da empreitada e deixa o narrador. Este último se vê plenamente aclimatado àquele povo, dentro de seu horizonte de ruptura radical com a civilização.

O livro começa e termina com a mesma imagem do narrador deitado na rede, apreciando a vida passar nos tempos de chuva, revelando como a vida daquele povo sertanejo e dos índios carajás se renova como as fases da natureza.

Todos esses elementos do texto, cotejados com as informações biográficas do escritor, fazem do livro uma espécie de diário de viagem de José Mauro de Vasconcellos durante a sua peregrinação pelo Brasil profundo.

Talvez falte ao livro o mesmo mérito literário de obras subsequentes, mas o interesse da obra reside na descrição do sertanejo e das populações indígenas, especialmente do folclore e das histórias contadas pelos índios carajás e garimpeiros, nas rodas de conversa sob o luar do sertão.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Deus e o Diabo na Terra do Sol

 Deus e o Diabo na Terra do Sol



                        Resenha Filme # 2 - “Deus e o Diabo na Terra do Sol” – Glauber Rocha

Quando Glauber Rocha gravou o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, tinha apenas 24 anos de idade. Dois anos antes, havia produzido a sua primeira película, chamada “Barravento”, isso no ano de 1962.

Mas seria a partir desse segundo trabalho que o cineasta baiano iria se sagrar como o principal expoente do movimento que ficou conhecido como “Cinema Novo” (1960/1970).

Tratava-se de um grupo de jovens cineastas que estava em oposição direta ao cinema convencional praticado até então no país: as chanchadas, comédias musicais fortemente influenciadas pela cultura hollywoodiana, por meio das quais se buscava retratar o Brasil como um “paraíso tropical” habitado por belos atores com perfis de modelos.

Em oposição a essa arte de conteúdo puramente comercial, aqueles jovens cineastas buscavam incluir pessoas reais, literalmente recrutadas de populares da rua, como personagens dos filmes. Voltavam sua atenção à situação dos camponeses, dos operários e dos moradores das favelas. Tinham a pretensão de produzir uma arte politicamente engajada, mas também enraizada na cultura popular brasileira. E levavam como palavra de ordem: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”!

Essa orientação mais independente e o estilo experimental em detrimento do cinema comercial implicavam na falta de recursos financeiros para elaboração dos filmes. O que tinha como contrapartida positiva a mais completa liberdade criativa dos diretores.

“Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) contém todos os ingredientes daquele movimento.

Foi gravado no município de Monte Santo, no sertão baiano. Os figurantes do filme foram recrutados da população local. Sua relação com a cultura popular se evidencia desde a forma como o filme é narrado: explora-se a figura de um cantador nordestino que ocupa a figura do narrador, por meio da palavra cantada e do violão o espectador vai sendo introduzido aos nomes dos personagens e as suas intenções.

Há uma nítida influência da literatura de cordel na obra e dos cantadores de feira. No pano de fundo, o retrato da exploração dos latifundiários sobre o povo, o messianismo religioso, a articulação entre o Estado e a Igreja para repressão do sebastianismo, o recrutamento de matadores a serviço dos detentores da riqueza e do poder; ou seja, o filme também se qualifica como uma obra de forte densidade política, num viés mais próximo da esquerda, dentro do horizonte do Cinema Novo.  

O enredo gira em torno da peregrinação de um sertanejo chamado Manoel e sua companheira Rosa, que irão transitar na sua jornada entre o sublime e o profano, entre o céu e o inferno, perto de Deus e do diabo, participando inicialmente de um movimento messiânico religioso ao estilo daquele liderado por Antônio Conselheiro em Canudos; e depois se engajando em ações de banditismo junto ao cangaceiro Corisco, parceiro de Lampião, para perpetrar crimes de latrocínio com torturas de natureza diabólica.

O ponto de partida daquela jornada deu-se quando Manoel manifesta a pretensão de vender algum gado ao coronel que mandava naquelas terras. Visava cumprir um compromisso anterior, quando lhe foi prometido em troca dos bois uma pequena propriedade para subsistência. O latifundiário serve-se de pretexto de que parte do gado havia morrido por negligência de Manoel e rompe o acordo, tomando para si os bois e ficando com a terra. Esse ato de injustiça seria o estopim da revolta do camponês secularmente oprimido pelo proprietário: Manoel mata o coronel e foge da caçada dos seus jagunços, que atingem a sua roça e lhe assassinam a sogra, mas o deixam escapar.   

Junto com Rosa, o protagonista inicia sua peregrinação, num primeiro momento se ligando a um grupo de populares que segue um líder religioso chamado Sebastião. Trata-se de um personagem representativo do messianismo religioso nordestino; houve alguns na história, desde um líder que desafiava a política local como Antônio Conselheiro, até outro que se associara à política do coronelismo, como Padre Cícero.

A fama de santo milagreiro e a sua atividade puramente religiosa criaram condições para a existência de um movimento popular espontâneo e de massas no Brasil, que traz à tona uma forma de catolicismo aclimatado à pobreza do sertão, voltado à devoção aos santos da Igreja Católica e aos apelos do imaginário do sertanejo e do povo simples. Do ponto de vista cultural, as romarias, que existem até hoje, são uma expressão de uma religiosidade profundamente emotiva e devocional.

Entretanto, esse movimento messiânico não é idealizado no filme. Nele há alusão ao “Massacre da Terra” Bonita que foi objeto de um belo romance de José Lins do Rego, também chamado “Terra Bonita” (1938). Na lenda (e no filme), o líder religioso convence seus seguidores que a salvação exige o sacrifício pelo sangue de inocentes. Isso levou ao assassinato real de dezenas de pessoas, incluindo crianças e bebês, cujos sangues foram derramados sobre as pedras, para purificação do povo.

 

No filme de Glauber Rocha, tal qual no arraial de Canudos, o término do movimento messiânico se dá de forma trágica: o Estado e a Igreja se articulam na figura representativa de um padre e um coronel para contratar os serviços de Antônio das Mortes, jagunço caçador de cangaceiros, recrutado para colocar fim ao movimento sebastianista.

Antônio das Mortes aceita o preço oferecido pela Igreja e pelo Estado – o jagunço nutre a mesma crença mística em torno da santidade de Sebastião, mas é corrompido pelo dinheiro, mesmo acreditando que isso lhe custaria a condenação eterna perante os olhos de Deus.

Apenas Manoel e Rosa escapam vivos do massacre executado por Antônio das Mortes.

Sintomaticamente, no meio de sua fuga, perdidos no sertão nordestinos, são conduzidos por um cego que o levam até Corisco, o cangaceiro. A mesma disposição militante com que Manoel serviu aos desígnios do líder religioso, o fará agora a serviço do cangaceiro. O mesmo destemor da morte e lhaneza na condução da luta orientada pela religião, será agora levada adiante pelo lado do roubo, do saque e do assassinato.

O protagonista Manoel é um militante radical quando atua na causa de Deus, e quando serve ao diabo, respectivamente Sebastião e Corisco. A beleza do filme, todavia, é romper esse maniqueísmo, atribuindo aspectos divinos ao elemento diabólico e aspectos diabólicos ao elemento divino. Há algo de divino em Corisco e algo de diabólico em Sebastião.

Da mesma forma que o movimento religioso expôs algo de diabólico ao permitir o assassinato de um bebê dentro de um ritual macabro para que “o sertão vire mar”, o banditismo conduzido por Corisco terá os seus lances de nobreza, honra e altivez que o aproximam da dimensão divina. Mesmo cercado de forma irremediável pelo inimigo, Corisco decide sucumbir na luta do que se render, não sem antes entregar toda a riqueza doada a dois seguidores.  Já o padre, quando é assassinato a facada por Rosa, logo após o ritual satânico, revelou covardia, tentando covardemente se esquivar do ataque da mulher.

Trata-se daquele trânsito acima referido entre o céu e o inferno, que marca a peregrinação do protagonista Manoel – a transição de um a outro mundo sendo conduzida por um cego. 

Como se a nossa caminhada em direção ao bem ou ao mal fosse um mero lance do acaso...

terça-feira, 30 de junho de 2026

A Lenda do Jurupari

 A Lenda do Jurupari





Resenha Livro – “Jurupari” – Francisco Brasileiro – Livraria Martins Fontes – 1948

O folclore é expressão da cultura popular que, se via de regra, se transmite através de tradição oral – pode até ser reunido e compilado através da literatura (como a literatura de cordel) ou estudos históricos, mas a sua fonte deriva de histórias contadas, de geração a geração. No que toca às lendas indígenas, suas origens remetem ao período pré-colombiano: figuras como Tupã e Jurupari existiam no imaginário dos índios Tupi muito antes da chegada dos Portugueses ao território onde hoje se situa o Brasil.

Essa circunstância cria um primeiro problema: a dificuldade enorme de dimensionar o que foram aqueles mitos e como eles foram aclimatados a partir da chegada dos portugueses, notadamente através das missões dos jesuítas, que dialogavam com as entidades espirituais indígenas para levar adiante o seu plano missionário.

É o caso do mito do Jurupari, entidade espiritual amplamente disseminada entre os povos indígenas ao tempo da instalação dos portugueses. Dentro do dualismo envolvendo céu e o inferno, bem e o mal, os missionários utilizaram do mito de Jurupari traduzindo-o como a figura do Diabo ou de Satã, em oposição à Tupã, figurando como o Deus cristão.

A tentativa de aclimatar o cristianismo ao imaginário do índio significou, portanto, a ressignificação das lendas, tornando hoje difícil situar com precisão como essas figuras mitológicas foram originalmente concebidas. O risco de anacronismo é enorme: entender como correto um determinado conceito de passado longínquo desconsiderando a forma como ele foi se ressignificando ao logo dos séculos e a nova roupagem que adquiriu a partir da intervenção dos padres.

O que se sabe é que Jurupari não era para os povos indígenas propriamente uma figura do mal, ainda que sempre temida. Consta que foi concebido como uma espécie de legislador, uma liderança que granjeou autoridade moral perante a pajelança para instituir um novo código de conduta estruturada no regime do patriarcado.

É através da figura do Jurupari que se evidencia a centralidade da pajelança: talvez por conta disso, foi um alvo fácil dos jesuítas, já que a atividade de conversão ao cristianismo envolvia o confronto direto com as tradições religiosas milenares dos pajés.

A mãe de Jurupari, remetendo à figura de Eva (e novamente vemos aqui a influência dos jesuítas) concebeu o herói após comer um fruto proibido. Foi expulsa da tribo pelo ato ilícito e concebeu Jurupari, conhecido como filho do sol.

A lenda também está associada a fenômenos de premonições e terror noturno. Fala-se que Jurupari atacava no período da noite e, até hoje, se encontra numa rápida busca pelo tema no Youtube depoimento de indígenas que se referem a Jurupari como algo parecido como um demônio da floresta que traz maus presságios[1].

Uma forma de conhecer a história do mito se dá através da leitura do romance injustamente pouco conhecido de Francisco Brasileiro, chamado “Jurupari”. Há pouquíssimas informações sobre a obra e seu autor na internet. Sabe-se que ela se sagrou vitoriosa classificada em 1º Lugar do Prêmio Monteiro Lobato do Departamento de Cultura de São Paulo no ano de 1948.

A história, contada em primeira pessoa, retrata a epopeia de um sertanista que se lança à floresta amazônica em busca do ouro, remetendo à milenar epopeia que conduziu através da cobiça a atividade bandeirante em busca de uma terra misteriosa onde há a abundância dos diamantes.  

Esse narrador reúne em si as qualidades de poeta e sertanista. A narrativa tem forte conteúdo poético e lírico e, como é feita em primeira pessoa, temos a impressão de estar diante de um matuto sertanejo dotado da mais alta sensibilidade em perceber a natureza e os índios.

Isso cria um impacto no leitor e até gera uma certa inverossimilhança quando se constata no narrador um caboclo capaz de viver como os índios, sobrevivendo na floresta, caçando, pescando, construindo barcos e guerreando, e ao mesmo tempo extremamente imaginativo ao ponto de escrever um livro cercado de lirismo e poesia.

Vejamos uma cena em que esse narrador narra os seus contatos com um grupo de índios:

“A tudo eu assisti, sentado com as pernas cruzadas fitando o fogo à minha frente. Uma estranha capacidade de sentir me havia tocado de tal forma, que aquelas cenas me atingiam profundamente. Era um novo mundo a se abrir ante os meus olhos cheios de pasmo, eram novas emoções a ferirem minha sensibilidade. Um acendrado respeito fazia-me reverenciar aquelas práticas como se eu me tivesse remontado aos primórdios do gênero humano e me fosse dado assistir à conduta de meus semelhantes na aurora da raça. Ali, diante de mim, estava o remoto passado. Entre eu e aqueles índios havia talvez um espaço de cem mil anos”.

Na peregrinação pelos sertões, o narrador se depara com uma reunião de pajés que lhe confiam um manuscrito contendo uma lenda até então indecifrável. Ainda que fosse capaz de ler, o narrador demora algum tempo até conseguir traduzir o texto, escrito num português antigo, redigido por um sertanista português que se perdera por aquelas terras no ano de 1600 e foi rebatizado como Abá.

Orgulhoso e arrogante, esse lusitano serve-se de sua arma de fogo para se impor perante os índios. Até que certo dia é confrontado com um feiticeiro chamado Abarê que será posteriormente o seu mentor espiritual. Num primeiro momento, esse pajé num passe de mágica transforma as armas de Abá em pó e lhe provoca um sentimento de pânico que o desmoraliza perante a tribo – para o índio, nada mais desmoralizante do que a covardia.

O branco é imediatamente cercado e atacado pelos homens da tribo que lhe desferem golpes nos pés impossibilitando-o de andar. É obrigado a passar certo tempo se rastejando, implorando água e comida, na mais completa situação de humilhação.

Quando consegue depois de algum tempo ficar de pé, Abá é feito escravo da tribo por vinte anos. Executa os trabalhos mais humilhantes e é alvo de desdém das mulheres, crianças, idosos e até dos bichos.

Depois de duas décadas humilhado como escravo, Abá aprendeu através da prática o valor da humildade e adquiriu forças físicas pelo trabalho forçado. Desenvolveu a capacidade de conter o orgulho e a exaltação de si próprio, ao mesmo tempo que aprimorou o rigor físico.

Novamente inspirado por Abarê, rompe com as amarras da escravidão esmagando o crânio de um índio com os próprios punhos. É novamente alçado à condição de liderança moral da tribo, mas agora um rei justo, que inclusive determinava que cada um era obrigado a passar certo tempo como escravo só para aprender dessa forma a desenvolver a humildade. Depois disso é convidado a uma longa peregrinação com o seu mentor para aprendizado.

Acredito que Abá, no romance de Francisco Brasileiro, na condição de reformador dos costumes do índio, é nada menos do que o próprio Jurupari!  

A inadequação do mito à noção do bem e do mal dos missionários cristãos se revela no livro pela forma peculiar com que os índios encaram a vida e a morte. Para eles, diferentemente de nós, nossa jornada não consiste num começo, meio e fim, que nos conduzirá ao céu, ao inferno ou ao purgatório.

Para o índio, a existência é uma só, consistindo em ciclos eternos de começo, meio e fim.

Em outras palavras:  a vida é uma somatória de ciclos, parecida com cada dia com o seu alvorecer, o entardecer e o anoitecer; ao passo que a morte encerra o último e derradeiro ciclo. Nada mais do que isso.

Por isso a morte é encarada com extrema naturalidade pelos índios, que detestam profundamente manifestações de covardia nas guerras: nas suas batalhas, os índios não transmitem em sua face nem ódio, nem medo, nem piedade e nem tristeza. O índio é ensimesmado, soturno e fatalista.



[1] https://www.youtube.com/watch?v=HvtQ22T61zQ  

“Pegadas de “Mapinguari” ou “Jurupari” assustam moradores da Vila Amazônia, interior de Parintins.