domingo, 12 de julho de 2026

A História da Paraíba

 A História da Paraíba




 

“Quando o rei de Portugal

Fundou a capitania

Da Paraíba visando

Combater a valentia

Dos índios, não imaginava

Quanto trabalho teria

Outra meta lusitana,

Era avançar rumo ao norte

Para ocupar o território

Em obstáculos dar um corte

Banir piratas franceses

Com braço firme e forte.

Foram cinco expedições

Até chegar à conquista

Em todas elas formou-se

De mortos enorme lista

Os índios nunca baixaram

Nem as armas nem a vista”

Vicente Campos Filho – “A Conquista da Paraíba” – Literatura de Cordel

 

Nas artes, Jackson do Pandeiro, José Lins do Rego, Ariano Suassuna, Pedro Américo e Augusto dos Anjos. Na política, Epitácio Pessoa, João Pessoa, João Suassuna e José Américo de Almeida, esse último também escritor.  

Eis aqui os nomes de alguns ilustres personagens da história brasileira oriundos da Paraíba.

Inicialmente, no início da colonização, essa terra começou como um pequeno trecho quase inabitado ao sul da Capitania de Itamaracá, concedida pelo Rei de Portugal ao donatário Pero Lopes de Souza em 1534. Depois de uma guerra de mais de dez anos contra os índios potiguares, houve a chamada “conquista da Paraíba”, com a criação da cidade de Nossa Senhora das Neve, hoje João Pessoa, isso no dia 5 de agosto de 1585. A Paraíba passou à condição de Província após a independência brasileira de 1822 e, finalmente, tornou-se um Estado da federação a partir da Proclamação da República em 1889.

Além da contribuição cultural dos paraibanos à formação do Brasil, a partir daquele território se iniciou uma sequência de eventos dramáticos que iriam decidir os rumos da nossa civilização: o assassinato do governador João Pessoa em 26 de Julho de 1930, então candidato à vice presidência na chapa de Getúlio Vargas, serviria de estopim para o movimento revolucionário de 1930, que colocaria abaixo  a Velha República baseada na política do café com leite para instituir um novo ciclo de desenvolvimento nacional. Os eventos da política local paraibana deram impulso à transformação do país em direção à industrialização, em oposição ao predomínio absoluto do modelo agrário exportador, ao desenvolvimento urbano, à modernização dos costumes, à formação da classe operária e à criação dos primeiros direitos trabalhistas.

A História da Paraíba se inicia através de um evento trágico que confere àquele povo a altivez e coragem característicos da conhecida figura do “cabra macho” nordestino. Trata-se do “Massacre de Tracunhaém!” (1574), evento pouco conhecido dos brasileiros dos estados ao sul e sudeste.

O território onde hoje se situa a Paraíba foi objeto de uma ocupação relativamente tardia pelos portugueses. A título de comparação, o Rio de Janeiro foi fundado em 1º de março de 1565 por Estácio de Sá, após anos de luta contra o invasor francês. São Paulo começou em 25 de Janeiro de 1554 quando foi rezada a primeira missa no planalto de Piratininga pelos jesuítas. No caso paraibano, após a expulsão dos piratas franceses do Rio de Janeiro, muitos deles ocuparam justamente aquele território ao sul da Capitania de Itamaracá, onde travaram relações com os índios potiguares que habitavam o litoral, para contrabandear o pau brasil e estabelecer pequenas feitorias.

Essa forte articulação entre franceses e índios potiguares dificultou a ocupação da Paraíba pelos portugueses que, ao seu passo, buscaram travar relações com índios tabajaras, oriundos da Bahia e que atingiam o território pelo rio são Francisco fugindo de tribos inimigas.

Como canta o poeta Vicente Campos nos seus versos de cordel:

“Os potiguares que eram

Os legítimos nativos,

Nunca deram trégua aos brancos

Nem se fizeram cativos

Braveza, orgulho e raça

Eram esses seus motivos

E a tribo tabajara

Oriunda da Bahia

Das margens do São Francisco

Chegou nessa terra um dia

Fugindo dos inimigos

Que ali lhe perseguia”.  

Conta a história que um mameluco português se apaixonou por uma bela índia de 15 anos que era filha do chefe dos potiguaras. O nome da nativa era Iratembé, também conhecida como lábios de mel, filha do chefe Iniguaçu. O mestiço português pediu a mão da cunhã ao seu pai, sendo autorizado o casamento, desde que o mameluco passasse a viver na tribo, incorporando-se aos hábitos e estilo de vida dos índios.

O português aceita a promessa, mas rompe o acordo, sequestra Iratembé e a leva para Olinda.  Os potiguares marcharam até a capitania vizinha para exigir a volta da cunhã raptada. Houve intervenção até mesmo de autoridades portuguesas para que o conflito não escalasse: foi determinado que o tal mameluco e Iratembé retornassem às terras dos potiguares, atendendo à requisição dos índios. O acordo, entretanto, foi logrado por Diogo Dias, um cristão novo, dono de um engenho às margens do Rio Paraíba, que tomou a bela cunhã para si.

Esse foi fato detonador do massacre de Tracunhaém. Já havia um ódio acumulado dos índios potiguares pelos portugueses, açulado pelos franceses, de modo que o sequestro da bela Iratembé apenas serviu como estopim de uma guerra que já vinha se gestando.

Cerca de 2000 índios marcharam até o engenho de Diogo Dias e assassinaram mais de 600 pessoas – consta que houve apenas dois sobreviventes, no caso, filhos do dono daquelas terras.

Assim canta o poeta paraibano:

“Os índios caíram em cima

Com uma gritaria incrível

E voltar para o engenho

Tornou-se algo impossível

Na manhã daquele dia

Deu-se uma matança horrível.

Não teve branco, nem negro

Que os índios não matassem

Nem mulher e nem menino

Que eles não esquartejassem

Não deixaram o engenho

Sem que tudo antes queimassem”

O massacre chegou ao conhecimento das autoridades da coroa na Europa, sendo determinada a realizações de expedições para subjugar os potiguaras. As quatro primeiras tentativas foram derrotadas e apenas em 1585 haveria a definitiva conquista da Paraíba, através da fundação da cidade onde hoje se situa a capital João Pessoa.

A economia local inicialmente se deu em torno dos engenhos de açúcar, sem, contudo, o mesmo êxito da produção na capitania vizinha de Pernambuco. Após a invasão holandesa, os engenhos paraibanos foram destruídos, sem recuperação posterior. A interiorização da ocupação do estado foi se dando gradualmente através crianção de gado.

O fracasso dos engenhos de açúcar fez com que a participação da população escrava de origem africana fosse relativamente baixa na Paraíba, ao menos se comparada com Bahia e Pernambuco. No caso das criações de gado, as chances de fuga no sertão eram enormes, tornando impossível o regime de trabalho escravo naquelas paragens.

Essa situação se evidencia ainda hoje quando visitamos a Paraíba: poucos negros e muitos mamelucos, brancos (descendência holandesa, os “galegos”) e mestiços com traços indígenas, pele parda, cabeça redonda e olhos levemente puxados.

No que toca aos índios potiguaras, após a conquista da Paraíba, muitos rumaram em direção ao norte, atingindo o Estado do Rio Grande do Norte.

Ainda hoje, na divisa entre os dois estados existe um lugar chamado Baía da Traição, município que abriga a maior parte da população dos antigos potiguares que primeiro ocuparam a Paraíba.  

Bibliografia

“A Escravidão na Paraíba” – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

“A Conquista da Paraíba” – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

“A Paraíba sob o domínio holandês”  – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

“A contribuição dos franciscanos na Capitania da Paraíba”  – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

“O Massacre de Tracunhaém e a fundação da Capitania da Paraíba” – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

quinta-feira, 9 de julho de 2026

“Longe da Terra” – José Mauro de Vasconcelos

 “Longe da Terra” – José Mauro de Vasconcelos


 

Resenha Livro - “Longe da Terra” – José Mauro de Vasconcelos – Edições Melhoramentos

 

O livro mais conhecido do escritor fluminense José Mauro Vasconcelos certamente é “Meu Pé de Laranja Lima” (1968), espécie de relato autobiográfico da infância do escritor, vivenciada na pobreza de um bairro de subúrbio de Bangu/RJ.

As fantasias de uma criança que cultiva amizade com uma árvore de laranjeira do seu quintal, o encanto produzido pela imaginação dos menores, que conseguem abstrair as dificuldades da vida e encará-la com ternura e alegria, certamente cativou leitores de todas as idades e fez de Vasconcelos um dos poucos escritores brasileiros que pôde viver exclusivamente dos direitos autorais de sua obra.

Façanha que encontra poucos paralelos no Brasil: Érico Verissimo, Jorge Amado e Monteiro Lobato são outros poucos exemplos de escritores de uma literatura ao mesmo tempo popular, acessível a todos e de rara qualidade estética.

“Meu Pé de Laranja Lima” vendeu mais de dois milhões de exemplares, tendo sido publicada em 15 países. “Rosinha Minha Canoa” (1962) foi a primeira obra de sucesso do nosso escritor, que igualmente relata um mundo encantado e fantástico, em que o pescador mantém dialogo e afeto com sua canoa, cuja origem advém de uma árvore capaz de sentir e de se comunicar. E a novela “Coração de Vidro” teve mais de 650.000 exemplares vendidos, publicações em 10 países, traduções em três idiomas e mais de 70 edições no Brasil.

A popularidade de Vasconcelos, por diferentes razões, não se traduziu em reconhecimento na academia. Aliás, a própria figura do escritor representa a mas completa oposição a tudo o que se posse considerar acadêmico.

De família pobre, nascido no estado do Rio de Janeiro, aos nove anos mudou-se para a casa dos tios em Natal/RN. Chegou a frequentar dois anos do curso de medicina naquele estado, mas a sua personalidade irrequieta e aventureira o faria abandonar o curso e retornar ao Rio de Janeiro a bordo de um navio cargueiro, levando uma simples maleta de papelão como bagagem.

Nesta peregrinação pelo país a fora, trabalhou como treinador de boxe, carregador de bananas na capital do Rio de Janeiro, pescador do litoral fluminense, professor primário num núcleo de pescadores no Recife, garçom em São Paulo. Além de escritor, foi ator de cinema e modelo.

Em dado momento de sua vida, se junto aos irmãos Villas Bôas, sertanistas e indigenistas, enveredando-se pelo sertão da região do Araguaia, contando povos indígenas desconhecidos e cartografando terras.

O contato direto com aqueles povos sertanejos e indígenas criaria as condições para o escritor fazer relatos minuciosos (ainda que sua arte realista enveredasse para o fantástico, com animais e árvores falantes) dos povos do Araguaia, no seu já mencionado “Rosinha Minha Canoa” e no romance “O Garanhão das Praias” – ambos tratando de missões “civilizatórias” junto aos povos sertanejos e indígenas dos rincões do país.

LONGE DA TERRA

“Longe da terra” (1949) é parte desse conjunto de romances indigenistas que retratam as experiências do autor em suas expedições pelos sertões de Goiás.

A história, talvez mais do que todas, tem um forte elemento autobiográfico.

Trata-se de um dos poucos livros do autor redigido em primeira pessoa: o protagonista também é um jovem idealista que rompe com a civilização, abandona o curso de medicina, a despeito do futuro promisso na carreira, e se lança até uma pequena vila chamada Leopoldina, às margens do Rio Araguaia.

Através de uma nova jornada “longe da terra”, irá se reconciliar com a vida e ressignificar a sua existência e o sentido do tempo, confrontando a dinâmica da cidade com a pasmaceira da vida num aldeamento indígena.

Abandona a vestimenta branca do hospital e a rotina entediante de atendimentos e diagnósticos pelo colorido exuberante da floresta. Desveste-se do seu nome e dos rótulos de “médico” e “bacharel”, e assume o apelido local de “dotô” para exercer a medicina informal e dar aulas às crianças em troca das refeições.

Expressa em diversos momentos a alegria genuína decorrente dos atos de caridade desinteressada. A felicidade reside em olhar a natureza e as pessoas com ternura.

O narrador também renuncia de forma radical o materialismo, notadamente diante da inutilidade dos bens materiais no contexto da vida num aldeamento indígena. Toma seus banhos no rio, deixa a barba crescer, usa poucas vestimentas e doa o pouco que tem a quem precisa. Assim como em outros livros do escritor, vemos uma adesão ao espírito de São Francisco de Assis.

A história se passa em Leopoldina, um vilarejo às margens do Rio Araguaia, para onde o narrador segue acompanhado de um padre que se também se propõe a um desafio, no caso, evangelizar aquele povo abandonado do sertão. Para atingir o local, ambos enveredam até Goiânia para depois realizar uma viagem de quatro horas de barco.

E só conseguem atingir Leopoldina em época de estiagem: durante meses a fio, o local é inundado por chuvas torrenciais e ininterruptas, tornando impossível o acesso. E são nesses seis meses em que a vila fica toda ilhada que se revela aquilo que é mais característico daquele povo: uma preguiça e indolência contagiantes.  

O padre missionário busca sem êxito estimular aquela gente ao trabalho. A chuva sempre serve como justificativa para a procrastinação: depois da época das águas, poderiam desenvolver a agricultura, o que nunca acontece. Mas para que plantar aquela terra fértil se a natureza já lhes fornece o necessário através da pesca e dos frutos das árvores?

A preguiça de Leopoldina é contagiante – todo aquele que vem de fora é por ela contaminado. O índio introjeta no branco a indolência. Mas o branco leva ao índio o vício do tabaco e a cobiça dos bens materiais. Essa cobiça se dá através da intervenção dos garimpeiros, homens destemidos que desbravam os sertões em busca do enriquecimento imediato, resgatando a tradição secular brasileira do bandeirantismo – o próprio narrador, num momento de comoção pela sua nova vida, se pronuncia como um bandeirante.  

Já o missionário religioso desiste da empreitada e deixa o narrador. Este último se vê plenamente aclimatado àquele povo, dentro de seu horizonte de ruptura radical com a civilização.

O livro começa e termina com a mesma imagem do narrador deitado na rede, apreciando a vida passar nos tempos de chuva, revelando como a vida daquele povo sertanejo e dos índios carajás se renova como as fases da natureza.

Todos esses elementos do texto, cotejados com as informações biográficas do escritor, fazem do livro uma espécie de diário de viagem de José Mauro de Vasconcellos durante a sua peregrinação pelo Brasil profundo.

Talvez falte ao livro o mesmo mérito literário de obras subsequentes, mas o interesse da obra reside na descrição do sertanejo e das populações indígenas, especialmente do folclore e das histórias contadas pelos índios carajás e garimpeiros, nas rodas de conversa sob o luar do sertão.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Deus e o Diabo na Terra do Sol

 Deus e o Diabo na Terra do Sol



                        Resenha Filme # 2 - “Deus e o Diabo na Terra do Sol” – Glauber Rocha

Quando Glauber Rocha gravou o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, tinha apenas 24 anos de idade. Dois anos antes, havia produzido a sua primeira película, chamada “Barravento”, isso no ano de 1962.

Mas seria a partir desse segundo trabalho que o cineasta baiano iria se sagrar como o principal expoente do movimento que ficou conhecido como “Cinema Novo” (1960/1970).

Tratava-se de um grupo de jovens cineastas que estava em oposição direta ao cinema convencional praticado até então no país: as chanchadas, comédias musicais fortemente influenciadas pela cultura hollywoodiana, por meio das quais se buscava retratar o Brasil como um “paraíso tropical” habitado por belos atores com perfis de modelos.

Em oposição a essa arte de conteúdo puramente comercial, aqueles jovens cineastas buscavam incluir pessoas reais, literalmente recrutadas de populares da rua, como personagens dos filmes. Voltavam sua atenção à situação dos camponeses, dos operários e dos moradores das favelas. Tinham a pretensão de produzir uma arte politicamente engajada, mas também enraizada na cultura popular brasileira. E levavam como palavra de ordem: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”!

Essa orientação mais independente e o estilo experimental em detrimento do cinema comercial implicavam na falta de recursos financeiros para elaboração dos filmes. O que tinha como contrapartida positiva a mais completa liberdade criativa dos diretores.

“Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) contém todos os ingredientes daquele movimento.

Foi gravado no município de Monte Santo, no sertão baiano. Os figurantes do filme foram recrutados da população local. Sua relação com a cultura popular se evidencia desde a forma como o filme é narrado: explora-se a figura de um cantador nordestino que ocupa a figura do narrador, por meio da palavra cantada e do violão o espectador vai sendo introduzido aos nomes dos personagens e as suas intenções.

Há uma nítida influência da literatura de cordel na obra e dos cantadores de feira. No pano de fundo, o retrato da exploração dos latifundiários sobre o povo, o messianismo religioso, a articulação entre o Estado e a Igreja para repressão do sebastianismo, o recrutamento de matadores a serviço dos detentores da riqueza e do poder; ou seja, o filme também se qualifica como uma obra de forte densidade política, num viés mais próximo da esquerda, dentro do horizonte do Cinema Novo.  

O enredo gira em torno da peregrinação de um sertanejo chamado Manoel e sua companheira Rosa, que irão transitar na sua jornada entre o sublime e o profano, entre o céu e o inferno, perto de Deus e do diabo, participando inicialmente de um movimento messiânico religioso ao estilo daquele liderado por Antônio Conselheiro em Canudos; e depois se engajando em ações de banditismo junto ao cangaceiro Corisco, parceiro de Lampião, para perpetrar crimes de latrocínio com torturas de natureza diabólica.

O ponto de partida daquela jornada deu-se quando Manoel manifesta a pretensão de vender algum gado ao coronel que mandava naquelas terras. Visava cumprir um compromisso anterior, quando lhe foi prometido em troca dos bois uma pequena propriedade para subsistência. O latifundiário serve-se de pretexto de que parte do gado havia morrido por negligência de Manoel e rompe o acordo, tomando para si os bois e ficando com a terra. Esse ato de injustiça seria o estopim da revolta do camponês secularmente oprimido pelo proprietário: Manoel mata o coronel e foge da caçada dos seus jagunços, que atingem a sua roça e lhe assassinam a sogra, mas o deixam escapar.   

Junto com Rosa, o protagonista inicia sua peregrinação, num primeiro momento se ligando a um grupo de populares que segue um líder religioso chamado Sebastião. Trata-se de um personagem representativo do messianismo religioso nordestino; houve alguns na história, desde um líder que desafiava a política local como Antônio Conselheiro, até outro que se associara à política do coronelismo, como Padre Cícero.

A fama de santo milagreiro e a sua atividade puramente religiosa criaram condições para a existência de um movimento popular espontâneo e de massas no Brasil, que traz à tona uma forma de catolicismo aclimatado à pobreza do sertão, voltado à devoção aos santos da Igreja Católica e aos apelos do imaginário do sertanejo e do povo simples. Do ponto de vista cultural, as romarias, que existem até hoje, são uma expressão de uma religiosidade profundamente emotiva e devocional.

Entretanto, esse movimento messiânico não é idealizado no filme. Nele há alusão ao “Massacre da Terra” Bonita que foi objeto de um belo romance de José Lins do Rego, também chamado “Terra Bonita” (1938). Na lenda (e no filme), o líder religioso convence seus seguidores que a salvação exige o sacrifício pelo sangue de inocentes. Isso levou ao assassinato real de dezenas de pessoas, incluindo crianças e bebês, cujos sangues foram derramados sobre as pedras, para purificação do povo.

 

No filme de Glauber Rocha, tal qual no arraial de Canudos, o término do movimento messiânico se dá de forma trágica: o Estado e a Igreja se articulam na figura representativa de um padre e um coronel para contratar os serviços de Antônio das Mortes, jagunço caçador de cangaceiros, recrutado para colocar fim ao movimento sebastianista.

Antônio das Mortes aceita o preço oferecido pela Igreja e pelo Estado – o jagunço nutre a mesma crença mística em torno da santidade de Sebastião, mas é corrompido pelo dinheiro, mesmo acreditando que isso lhe custaria a condenação eterna perante os olhos de Deus.

Apenas Manoel e Rosa escapam vivos do massacre executado por Antônio das Mortes.

Sintomaticamente, no meio de sua fuga, perdidos no sertão nordestinos, são conduzidos por um cego que o levam até Corisco, o cangaceiro. A mesma disposição militante com que Manoel serviu aos desígnios do líder religioso, o fará agora a serviço do cangaceiro. O mesmo destemor da morte e lhaneza na condução da luta orientada pela religião, será agora levada adiante pelo lado do roubo, do saque e do assassinato.

O protagonista Manoel é um militante radical quando atua na causa de Deus, e quando serve ao diabo, respectivamente Sebastião e Corisco. A beleza do filme, todavia, é romper esse maniqueísmo, atribuindo aspectos divinos ao elemento diabólico e aspectos diabólicos ao elemento divino. Há algo de divino em Corisco e algo de diabólico em Sebastião.

Da mesma forma que o movimento religioso expôs algo de diabólico ao permitir o assassinato de um bebê dentro de um ritual macabro para que “o sertão vire mar”, o banditismo conduzido por Corisco terá os seus lances de nobreza, honra e altivez que o aproximam da dimensão divina. Mesmo cercado de forma irremediável pelo inimigo, Corisco decide sucumbir na luta do que se render, não sem antes entregar toda a riqueza doada a dois seguidores.  Já o padre, quando é assassinato a facada por Rosa, logo após o ritual satânico, revelou covardia, tentando covardemente se esquivar do ataque da mulher.

Trata-se daquele trânsito acima referido entre o céu e o inferno, que marca a peregrinação do protagonista Manoel – a transição de um a outro mundo sendo conduzida por um cego. 

Como se a nossa caminhada em direção ao bem ou ao mal fosse um mero lance do acaso...

terça-feira, 30 de junho de 2026

A Lenda do Jurupari

 A Lenda do Jurupari





Resenha Livro – “Jurupari” – Francisco Brasileiro – Livraria Martins Fontes – 1948

O folclore é expressão da cultura popular que, se via de regra, se transmite através de tradição oral – pode até ser reunido e compilado através da literatura (como a literatura de cordel) ou estudos históricos, mas a sua fonte deriva de histórias contadas, de geração a geração. No que toca às lendas indígenas, suas origens remetem ao período pré-colombiano: figuras como Tupã e Jurupari existiam no imaginário dos índios Tupi muito antes da chegada dos Portugueses ao território onde hoje se situa o Brasil.

Essa circunstância cria um primeiro problema: a dificuldade enorme de dimensionar o que foram aqueles mitos e como eles foram aclimatados a partir da chegada dos portugueses, notadamente através das missões dos jesuítas, que dialogavam com as entidades espirituais indígenas para levar adiante o seu plano missionário.

É o caso do mito do Jurupari, entidade espiritual amplamente disseminada entre os povos indígenas ao tempo da instalação dos portugueses. Dentro do dualismo envolvendo céu e o inferno, bem e o mal, os missionários utilizaram do mito de Jurupari traduzindo-o como a figura do Diabo ou de Satã, em oposição à Tupã, figurando como o Deus cristão.

A tentativa de aclimatar o cristianismo ao imaginário do índio significou, portanto, a ressignificação das lendas, tornando hoje difícil situar com precisão como essas figuras mitológicas foram originalmente concebidas. O risco de anacronismo é enorme: entender como correto um determinado conceito de passado longínquo desconsiderando a forma como ele foi se ressignificando ao logo dos séculos e a nova roupagem que adquiriu a partir da intervenção dos padres.

O que se sabe é que Jurupari não era para os povos indígenas propriamente uma figura do mal, ainda que sempre temida. Consta que foi concebido como uma espécie de legislador, uma liderança que granjeou autoridade moral perante a pajelança para instituir um novo código de conduta estruturada no regime do patriarcado.

É através da figura do Jurupari que se evidencia a centralidade da pajelança: talvez por conta disso, foi um alvo fácil dos jesuítas, já que a atividade de conversão ao cristianismo envolvia o confronto direto com as tradições religiosas milenares dos pajés.

A mãe de Jurupari, remetendo à figura de Eva (e novamente vemos aqui a influência dos jesuítas) concebeu o herói após comer um fruto proibido. Foi expulsa da tribo pelo ato ilícito e concebeu Jurupari, conhecido como filho do sol.

A lenda também está associada a fenômenos de premonições e terror noturno. Fala-se que Jurupari atacava no período da noite e, até hoje, se encontra numa rápida busca pelo tema no Youtube depoimento de indígenas que se referem a Jurupari como algo parecido como um demônio da floresta que traz maus presságios[1].

Uma forma de conhecer a história do mito se dá através da leitura do romance injustamente pouco conhecido de Francisco Brasileiro, chamado “Jurupari”. Há pouquíssimas informações sobre a obra e seu autor na internet. Sabe-se que ela se sagrou vitoriosa classificada em 1º Lugar do Prêmio Monteiro Lobato do Departamento de Cultura de São Paulo no ano de 1948.

A história, contada em primeira pessoa, retrata a epopeia de um sertanista que se lança à floresta amazônica em busca do ouro, remetendo à milenar epopeia que conduziu através da cobiça a atividade bandeirante em busca de uma terra misteriosa onde há a abundância dos diamantes.  

Esse narrador reúne em si as qualidades de poeta e sertanista. A narrativa tem forte conteúdo poético e lírico e, como é feita em primeira pessoa, temos a impressão de estar diante de um matuto sertanejo dotado da mais alta sensibilidade em perceber a natureza e os índios.

Isso cria um impacto no leitor e até gera uma certa inverossimilhança quando se constata no narrador um caboclo capaz de viver como os índios, sobrevivendo na floresta, caçando, pescando, construindo barcos e guerreando, e ao mesmo tempo extremamente imaginativo ao ponto de escrever um livro cercado de lirismo e poesia.

Vejamos uma cena em que esse narrador narra os seus contatos com um grupo de índios:

“A tudo eu assisti, sentado com as pernas cruzadas fitando o fogo à minha frente. Uma estranha capacidade de sentir me havia tocado de tal forma, que aquelas cenas me atingiam profundamente. Era um novo mundo a se abrir ante os meus olhos cheios de pasmo, eram novas emoções a ferirem minha sensibilidade. Um acendrado respeito fazia-me reverenciar aquelas práticas como se eu me tivesse remontado aos primórdios do gênero humano e me fosse dado assistir à conduta de meus semelhantes na aurora da raça. Ali, diante de mim, estava o remoto passado. Entre eu e aqueles índios havia talvez um espaço de cem mil anos”.

Na peregrinação pelos sertões, o narrador se depara com uma reunião de pajés que lhe confiam um manuscrito contendo uma lenda até então indecifrável. Ainda que fosse capaz de ler, o narrador demora algum tempo até conseguir traduzir o texto, escrito num português antigo, redigido por um sertanista português que se perdera por aquelas terras no ano de 1600 e foi rebatizado como Abá.

Orgulhoso e arrogante, esse lusitano serve-se de sua arma de fogo para se impor perante os índios. Até que certo dia é confrontado com um feiticeiro chamado Abarê que será posteriormente o seu mentor espiritual. Num primeiro momento, esse pajé num passe de mágica transforma as armas de Abá em pó e lhe provoca um sentimento de pânico que o desmoraliza perante a tribo – para o índio, nada mais desmoralizante do que a covardia.

O branco é imediatamente cercado e atacado pelos homens da tribo que lhe desferem golpes nos pés impossibilitando-o de andar. É obrigado a passar certo tempo se rastejando, implorando água e comida, na mais completa situação de humilhação.

Quando consegue depois de algum tempo ficar de pé, Abá é feito escravo da tribo por vinte anos. Executa os trabalhos mais humilhantes e é alvo de desdém das mulheres, crianças, idosos e até dos bichos.

Depois de duas décadas humilhado como escravo, Abá aprendeu através da prática o valor da humildade e adquiriu forças físicas pelo trabalho forçado. Desenvolveu a capacidade de conter o orgulho e a exaltação de si próprio, ao mesmo tempo que aprimorou o rigor físico.

Novamente inspirado por Abarê, rompe com as amarras da escravidão esmagando o crânio de um índio com os próprios punhos. É novamente alçado à condição de liderança moral da tribo, mas agora um rei justo, que inclusive determinava que cada um era obrigado a passar certo tempo como escravo só para aprender dessa forma a desenvolver a humildade. Depois disso é convidado a uma longa peregrinação com o seu mentor para aprendizado.

Acredito que Abá, no romance de Francisco Brasileiro, na condição de reformador dos costumes do índio, é nada menos do que o próprio Jurupari!  

A inadequação do mito à noção do bem e do mal dos missionários cristãos se revela no livro pela forma peculiar com que os índios encaram a vida e a morte. Para eles, diferentemente de nós, nossa jornada não consiste num começo, meio e fim, que nos conduzirá ao céu, ao inferno ou ao purgatório.

Para o índio, a existência é uma só, consistindo em ciclos eternos de começo, meio e fim.

Em outras palavras:  a vida é uma somatória de ciclos, parecida com cada dia com o seu alvorecer, o entardecer e o anoitecer; ao passo que a morte encerra o último e derradeiro ciclo. Nada mais do que isso.

Por isso a morte é encarada com extrema naturalidade pelos índios, que detestam profundamente manifestações de covardia nas guerras: nas suas batalhas, os índios não transmitem em sua face nem ódio, nem medo, nem piedade e nem tristeza. O índio é ensimesmado, soturno e fatalista.



[1] https://www.youtube.com/watch?v=HvtQ22T61zQ  

“Pegadas de “Mapinguari” ou “Jurupari” assustam moradores da Vila Amazônia, interior de Parintins.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

“A Retirada de Laguna”

 “A Retirada de Laguna”



Resenha Livro - “A Retirada de Laguna” – Alfredo d'Escragnolle Taunay - Iba Mendes Editor Digital - 2019

 

“Os cadáveres paraguaios, objeto dos primeiros esbulhos, ficaram assim nus, estendidos ao sol. Notamos um, o de um rapaz de formas atléticas, cuja cabeça, de uma têmpora à outra, perfurara uma bala. Tinha os olhos tumefatos (inchados) nas órbitas e, apesar de todo o sangue que em abundância correra ainda, de sob a fronte, lhe gotejavam grossas bagas, que pareciam lágrimas. Pungente emblema da passagem exterminadora da guerra sobre sua valorosa nação, aniquilada pelo chefe implacável que a regia” (Alfredo d'Escragnolle Taunay).

A retirada de Laguna foi o mais conhecido evento militar da história das forças armadas brasileiras. Curiosamente, essa grande epopeia foi resultado de uma derrota tática: a própria noção de “retirada” evidencia a necessidade de um “recuo forçado” diante de uma correlação de forças desfavorável no terreno de batalha. Em todo caso, esse grande evento trágico, retratado através de um diário escrito em campana por Visconde de Taunay, não só serviu de fonte àqueles que desejam conhecer a história da guerra como meio de inspiração àqueles que amam o nosso país.

A Guerra do Paraguai (1864/1870) foi um reflexo tardio do movimento de independência das colônias de Espanha e Portugal na América, o que deu ensejo à formação dos Estados Nacionais que hoje conformam a região, a começar pela Independência do Brasil em 1822.

A conjuntura histórica envolvia o colapso do Vice-reino do Prata que deu origem aos estados da Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai. Como é mesmo intuitivo, essa dinâmica histórica implicava disputas territoriais em torno de fronteiras recém-inauguradas.

O conflito decorre das pretensões expansionistas de Francisco Solano López, o ditador Paraguaio que desejava fazer de sua nação a maior potência da América do Sul. Estava dentro das suas cogitações possibilitar, através desse expansionismo, a conquista de territórios que conduzissem à uma saída para o oceano atlântico, interferindo na política interna dos seus países vizinhos.

O ditador atreveu-se a interceptar um navio brasileiro que transitava o Rio Paraguai, marcando o primeiro ato oficial de guerra, isso em 12/11/1864. Um mês depois, Lopez declarou guerra ao Império do Brasil, quando tropas paraguaias invadiram o território da então província do Mato Grosso, atual estado do Mato Grosso do Sul.

Era o início do conflito para o nosso país, podendo-se dizer desde já se tratar de uma guerra justa e defensiva: os paraguaios nos atacaram, nós reagimos e ao final vencemos a Guerra!

Também arcamos com as maiores perdas humanas no campo dos vencedores.  Estima-se em 50 mil mortos no Brasil durante os cinco anos de guerra. Os mortos do lado uruguaio e argentino somados não chegam nem à metade das baixas brasileiras.

A estratégia militar traçada pelo Império envolvia atacar o Paraguai em duas frentes, uma ao norte e outra ao sul. A retirada de laguna retrata a expedição que foi direcionada pelo norte, onde as condições de luta foram as mais adversas. O mapa que segue abaixo evidencia o traçado onde se deu a retirada:




O cenário de guerra deu-se na fronteira com o Paraguai, na província do Mato Grosso, ao passo que as forças armadas brasileiras estavam todas elas concentradas no atlântico, criando uma primeira e grande dificuldade. Partiram do Rio de Janeiro 3000 homens em direção à fronteira do inimigo. Demoraram quase dois anos, percorrendo 320 léguas ou 1544 km. Só nesse trajeto morreram 1.300, assolados pela varíola, pelo beribéri, pelas enchentes e deserções.

Ou seja, quando as tropas brasileiras alcançaram o campo de batalha na divisa com o Paraguai, o seu efetivo baixara de 3000 para 1700 homens. E desse total, apenas 700 sairiam sobreviventes da retirada da Laguna.

Cumpre ainda salientar que as forças armadas eram praticamente inexistentes no país ao tempo da guerra: foi necessário que o Império desenvolvesse uma campanha de voluntários, grande parte deles escravos que foram recrutados com a promessa de lhe ser garantida a alforria ao término da guerra. Sabe-se que o amplo apoio das forças armadas ao movimento abolicionista tem a sua origem na Guerra do Paraguai.

Visconde de Taunay no seu livro não de furta a comentar erros cometidos pelas lideranças militares. Nossas tropas eram comandadas pelo Coronel Carlos de Moraes Camisão.  Taunay, que fazia parte da equipe de engenheiros, afirma que o dirigente apresentava grande receio de demonstrar algum ato de covardia na condução da guerra que o levasse à desmoralização no Brasil. Isso talvez o tenha levado à decisão de invadir o território paraguaio sem dimensionar riscos de abastecimento e o problema da logística. Decidiram atingir o território de Laguna onde se situava uma fazenda do presidente Lopez. Entretanto, os paraguaios se encarregaram de esvaziar o local de qualquer fonte de subsistência, recolhendo o gado e dificultando o transporte.

Gerou-se uma situação dramática de falta de recursos à tropa, obrigando o exército a recuar. Aqui começa a retirada: 35 dias percorrendo 39 léguas, o que equivale a 188 km. Em todo esse trajeto, os brasileiros estiveram no encalço dos paraguaios, ocorrendo escaramuças e diversos conflitos.

Os brasileiros contavam com boa artilharia e dispunham de fuzis, revólveres, granadas e até espadas para combates corporais. Também se serviam de índios terenas e guaicurus como seus auxiliares e mascates que auxiliavam no abastecimento de alimentos. Mas os paraguaios dispunham de maior mobilidade por conta da cavalaria: os brasileiros perderam os seus cavalos por uma epidemia ainda no trajeto até o Mato Grosso.

Um personagem notável daquele evento, retratado no livro de Taunay e em toda a mitologia do evento, foi a do guia José Francisco Lopes.

Trata-se de um sertanista cuja fazenda ficava na região da fronteira, ao passo que sua mulher e filhos haviam sido raptados pelos paraguaios no início da guerra. Lopes se engaja na campanha como guia das tropas diante do seu conhecimento absoluto do terreno de batalha, além do seu desejo de resgatar a família tomados pelo inimigo.

Chegava a gozar dos engenheiros militares, dizendo que todo aquele conhecimento científicos e as bússolas estavam longe de traduzir o conhecimento do terreno pelo sertanejo. Essa noção do território fez com que o guia Lopes fosse obrigatoriamente consultado em todas as decisões táticas da guerra, assumindo papel de destaque nos eventos; o guia morreu e ficou na história nacional como símbolo da abnegação e destemor do caboclo brasileiro. Lopes nada mais é do que um primo não muito distante dos velhos bandeirantes paulistas, desbravadores intrépidos dos sertões brasileiros.

A maior causa de mortes na retirada não se deu por conta dos combates, mas pela fome e doenças. O caso mais grave se deu por uma epidemia de cólera, que vitimou além de Lopes, o próprio comandante Camisão. O surto deve ter tido como causa a contaminação da água. Fez com que em alguns dias morressem mais de cem pessoas. A cólera faz com que o doente vomite e dejete até 15 litros de água, além de causar câimbras tenebrosas e tão doloridas, que se identificou soldados que se suicidaram para se liberar do sofrimento físico. A situação de fome era pavorosa: em certos momentos, os soldados se lançam em restos mortais de gado morto, cuja carne podre deve ter contribuído para a propagação das doenças. Os paraguaios exploravam táticas de guerrilha, com emboscadas e incêndios, fazendo com que alguns morressem carbonizados.  

Finalmente, cerca de 700 homens conseguiram atingir o Rio Aquidauana em 11.06.1867, pondo fim à expedição. A retirada simbolicamente termina consagrando os brasileiros que lutaram pela sobrevivência sonhando com retorno ao país em segurança, enfrentando a fome, a doença e as balas do inimigo; em certos momentos, quando cercados pelo inimigos, flagelados pelas mortes de cólera e pela fome de dias, essa retirada parecia um sonho implausível – a retirada de Laguna remonta à volta a  Pindorama, a terra prometida na lenda dos Tupis.

Quadro: "Batalha do Avaí - Guerra do Paraguai" - Pedro Américo


sexta-feira, 19 de junho de 2026

A Poesia de Catulo de Paixão Cearense

 A Poesia de Catulo de Paixão Cearense





“Não há, ó gente oh não, luar como este do sertão”.

Este é o verso mais conhecida do poeta e violonista Catulo de Paixão Cearense. A música “Luar no Sertão” teve o primeiro registro fonográfico em 1914 quando foi cantada por Eduardo das Neves (https://www.youtube.com/watch?v=1FS-3ZxgyXw). Posteriormente, ganharia adaptações por Luiz Gonzaga, Maria Bethânia, Chitãozinho & Xororó.

O autor da canção, entretanto, é, hoje, um ilustre desconhecido. Foi um poeta sertanejo, autodidata e responsável pela popularização do violão, numa época em que o instrumento era extremamente mal visto pela sociedade. Mas a sua maior importância certamente decorreu do seu trabalho de compilação em texto escrito de uma cultura oral sertaneja do Brasil profundo, numa época em que não existia rádio nem indústria fonográfica.

Catulo de Paixão Cearense  (1863/1946) nasceu em São Luís do Maranhão. Aos dezessete anos mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, então o maior centro urbano do país. Essa mudança configuraria um dos elementos constitutivos da sua poesia: o canto triste do matuto que veio para a cidade e sofre das saudades da sua terra natal.

O poeta foi um autodidata, o que lhe confere maior mérito literário. Não tinha nenhuma escolaridade e foi alfabetizado por sua mãe. Trabalhou como estivador e relojoeiro. Aprendeu o violão e passou a ministrar aulas de música. Foi assim que pôde entrar em contato com a literatura: teve acesso à biblioteca de um Conselheiro e Senador, cujo filho era seu aluno.

Foi por este caminhou que levou a cultura sertaneja ao conhecimento da elite cultural do país. As suas apresentações de violão colaboraram para a maior aceitação do violão e sua popularização. Também publicava seus versos em livros a preços baixos e com alta tiragem. Teve como admiradores o maestro Villa Lobos, Mário de Andrade e o diplomata português Júlio Dantas. Esse fazia questão de visitar o poeta na sua humilde casinha no subúrbio do Rio de Janeiro, onde lhe era oferecida a cachaça brasileira, ao invés do champagne; e o qualificou Catulo como o nosso poeta “Virgílio do Sertão”. É curioso que o maior admirador do nosso grande poeta sertanejo seja um português.

Os seus principais poemas são “O Fazendeiro e o Roceiro”, “João Branco na Capital”, “Braz Macacão” e “Resposta de Jeca Tatu”, reunidas no livro “Sertão em Flor”.

Pode-se destacar em todos eles uma facilidade de rimar típica dos cantadores populares – um deles, inclusive, reproduz o famoso duelo de cantadores, cada qual mangando do outro mediante a poesia e as notas do violão.

Nos versos também se evidencia a beleza da natureza experimentada pelo sertanejo – essas imagens do campo brasileiro desabrocham naturalmente, a poesia surge de forma espontânea, natural, imperfeita como a realidade, reproduzindo o sotaque a linguagem do caipira:

“O verso aqui do sertão

é um bêja-frô que se sente

saí da boca da gente,

cum as penuginha inda quente

do ninho do coração”.

O poeta matuto retrata sua terra com a mesma expressão visual de uma pintura realista. O que se soma ao sentimento de saudades: são diversos versos que abordam o sentimento de saudade da terra natal pelo sertanejo migrado à cidade. O que confere à poesia uma noção de perspectiva: está sempre retratando o espanto com que o matuto descobre os hábitos do mundo urbano. É o camponês que melhor aprecia sua terra natal depois de confrontá-la com a cidade. 

Um poema particularmente notável de Catulo é “Resposta do Jeca Tatu”. 

Dá-se a voz ao sertanejo caluniado pelo homem letrado da cidade, que só sabe ver o homem do campo de uma forma pitoresca. Trata-se de uma resposta direta a um discurso de Rui Barbosa, que usou do personagem criado por Monteiro Lobato para evidenciar aquilo que entendia ser o atraso no homem do campo. O bacharel da cidade que nunca viu um cabo de enxada, nunca experimentou a fome, anda de carro sem nunca percorrer léguas a fio diariamente , esse homem das leis qualifica o caboclo como preguiçoso, indolente e negligente... 

Na sua resposta, Jeca Tatu honra a figura do camponês caluniado por Rui Barbosa:

Priguiçôso? Maracêro?

Não sinhô, Seu Conseiêro!

É pruquê vancê nun sabe

O qui seja um boiadêro

Criá cum tanto cuidado,

Cum amô e aligria,

Umas cabeça de gado...

E, dipôis, a impidimia

Carregá tudo, cos diabo,

In mêno de quato dia!...

É pruquê vancê nun sabe

O trabáio disgraçado

Qui um home tem, Seu Dotô,

Pra incoivará um roçado...

E quano o ôro do mío

Vai ficano inbunecado,

Pra gente, intoce, coiê,

O mío morre de sêde,

Pulo só isturricado,

Sequinho, como vancê!

 É pruquê vancê nun sabe

O quanto é duro, um pai sofrê,

Veno seu fio crescendo,

Dizeno sempre:

Papai, vem mi insiná o ABC!

Si eu subesse, meu sinhô,

Inscrevê, lê e contá,

Intonce, sim, eu havéra

Di sabê como assuntá!

Tarvêis vancê nun dexasse

O sertanejo morrendo,

Mais pió qui um animá!

Apesar de ter sido um músico e poeta popular em seu tempo, consta que Catulo de Paixão Cearense morreu na pobreza. E o Brasil ainda segue em dívida com o seu maior trovador sertanejo.




 Bibliografia

“Sertão em Flor” – Catulo de Paixão Cearense – Ed. Iba Mendes Digital