sábado, 31 de janeiro de 2026

“O Cabeleira” – Franklin Távora

 

“O Cabeleira” – Franklin Távora

Resenha Livro - “O Cabeleira” – Franklin Távora – Ed. Ática – Série Bom Livro



“O Cabeleira” (1876) é o primeiro livro da trilogia qualificada por Franklin Távora (1842/1888) como “Literatura do Norte”.  O contexto literário da obra remete ainda ao romantismo, marcado pelo subjetivismo e idealização da realidade, o sentimentalismo, a ênfase  em personagens dotados de pouca verossimilhança e plausibilidade nas suas condutas, e o nativismo de matriz nacionalista, tendo como maior expoente, naquele momento, José de Alencar (1829/1877).

 

Transcorreram pouco mais de 30 anos entre a independência política do Brasil em relação à Portugal e o início daquilo que ficou conhecido como a primeira fase do nosso romantismo. A recente proclamação da independência de 1822 ensejava uma resposta à pergunta: afinal, quem somos nós brasileiros? A forte presença do índio naquele movimento literário vinha como forma de resposta a essa pergunta.

 

A despeito desse aspecto positivo do romantismo brasileiro, ao criar as bases de uma literatura genuinamente nacional, o modelo ainda estava sujeito à forte idealização da realidade, que tornavam as histórias divorciadas das reais condições de vida do povo.  

 

Pois é justamente através da oposição frontal a essa tradição literária romântica idealista,  capitaneada pelo autor de “Iracema”, que Franklin Távora irá desenvolver a sua proposta literária qualificada como “Literatura do Norte”.

 

Elaborou o seu projeto através do ensaio “Cartas a Seprônio e Cincinato” (1870) onde trava uma polêmica com José de Alencar em torno das obras regionalistas do consagrado escritor cearense, como “O Sertanejo” e “O Gaúcho”. A crítica reside justamente na infidelidade com que as obras românticas retratam a realidade e as especificidades regionais, seja ao retratar os matutos e caboclos ao norte, ou o Brasil sulista,  temperado nas guerras e na animosidade bélica de gaúchos e caudilhos, que se entrincheiram em suas fazendas, disputando terras na bala com os espanhóis.  

 

Franklin Távora acusa José de Alencar de ser um escritor de gabinete, que retrata realidades que só conhece através dos livros. Em oposição, Távora propõe histórias que reproduzam a realidade com a mesma “exatidão daguerrotípica”, referindo-se a um equipamento precursor da máquina fotográfica. O realismo literário proposto pelo autor de “O Cabeleira” antecede em dez anos a publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1880), tradicionalmente compreendida coma a obra que inaugura o realismo/naturalismo na literatura Brasileira.

 

Outra inovação proposta nas “Cartas” diz respeito à oposição entre literatura produzida ao norte e ao sul do Brasil – cumprindo aqui salientar que no século XIX, quando se falava o “norte”, fazia-se alusão tanto à região do nordeste quanto ao norte propriamente dito, conquanto o “sul” se refere especialmente ao Rio de Janeiro, onde, desde o século XVIII, se situava o centro político e cultural do Império. O regionalismo de Távora, se não o conduziu ao separatismo como outros pernambucanos do estilo de Frei Caneca, ao menos o levou a acreditar que cada região do país deveria constituir um projeto literário próprio, autônomo. Uma literatura do norte e outra literatura do sul.

 

“O Cabeleira” pode ser considerando tanto um livro de literatura quanto uma obra de história de Pernambuco do século XVIII, versando sobre um personagem real, que permeia a cultura popular nordestina. O protagonista é um antecessor do Lampião – um bandido dotado de algumas qualidades morais, que desperta o medo mas também alguma admiração no imaginário popular. As fontes das quais se serviu o escritor para contar a história do bandoleiro foram duas: (i) a tradição oral nordestina, incluindo poemas, trovas e cantigas que fazem alusão ao Cabeleira; e (ii) fontes documentais históricas propriamente ditas, inspiradas em passagem das “Memórias da província de Pernambuco” de Fernandes Gama.  

 

O bandoleiro e seu grupo atuaram nos anos de 1770/1780 nos sertões de Pernambuco, levando o terror às populações extremante isoladas dos centros urbanos do litoral, sem qualquer proteção do Estado e suas instituições policiais.

 

Atacavam povoações, matavam indiscriminadamente e geravam o terror, que se acentuava à medida que as notícias dos saques circulavam e a reputação de Cabelereira crescia, conduzindo o povo a abandonar suas casas e esconder-se no mato, quando avisados que o grupo de bandoleiros se aproximava.

 

As históricas ficaram no imaginário popular através de trovas cantadas ao tempo que o escritor escreveu seu livro. Mães e aias, cem anos depois da morte de Cabeleira, cantavam a história desse Rodin Hood pernambucano para fazer as crianças, tomadas de pavor, adormecerem mais depressa:

 

“Fecha porta, gente,

Cabeleira aí vem,

Matando mulheres,

Meninos também”.

 

Fosse Cabeleira um mero bandido cruel e perverso, certamente não teria sido alçado a condição de um “semi-heroi” popular.

 

Poderíamos falar, aqui, de um “quase-heroi” ou um “semi-heroi”.

 

Em todo o livro, o escritor procura defender a tese de que os atos de violência e crueldade do protagonista tiveram como fonte primordial a pobreza, a ignorância e a ausência de cuidados na infância. A duplicidade no espírito do “quase-heroi” se evidencia na sua relação com o pai e com a mãe. Em Cabeleira conviviam de um lado um espírito benigno e amoroso, oriundo do lado materno. José Gomes (assim se chamava Cabeleira) tinha uma mãe boa e cândida, que lutava por manter o filho no caminho correto, mas um pai extremamente cruel e perverso, que o conduziu ao mundo do crime. Foi justamente esse pai, chamado Joaquim, cuja temeridade não conhecia limites, que engajou ou filho desde criança aos saques, roubos e assassinatos – enquanto o genitor era capaz de matar e depois debochar do corpo do morto, Cabeleira, levando em consideração o seu lado materno, era capaz de sentir remorso e arrependimento, depois que matava.  Joaquim nunca se constituiu em um herói, diferentemente do filho, um “quase-heroi”.

 

Ao final da vida, Cabeleira apaixona-se por Luisinha, uma companheira de infância, que o faz renunciar por completo os atos de violência – isso quando já era acossado pela perseguição de milícias constituídas especificamente para caçar o grupo de bandoleiros.

 

Cabeleira tem uma visão, enxerga no exato ponto onde há algum tempo matara um homem, a figura do defunto desafiando-o. A aparição do morto, somada às orações de Lusinha, levam o herói ou “semi-heroi” a abandonar suas armas. Quando foi finalmente capturado e conduzido à forca, enfrenta a morte com altivez e coragem, afirmando: “Morro arrependido dos meus erros. Quando caí no poder da justiça, meu braço era já incapaz de matar, porque eu já tinha entrado no caminho do bem...”.

 

A ideia de “semi-heroi” ou “quase-heroi” se justifica desde a forma com que o Franklin Távora via o problema do banditismo social no nordeste. Logo no primeiro parágrafo do livro, e em diversas outras passagens, o escritor afirma que os atributos morais e a nobreza do coração de Cabeleira poderiam tê-lo conduzido à condição de um herói pernambucano – mas a pobreza e a ignorância levaram-no a usar sua coragem e iniciativa para matar e saquear, para praticar o mal. O seu espírito se debatia entre a candidez materna e a crueldade paterna, prevalecendo o mal ante a situação de extrema pobreza nos sertões do Pernambuco. Assim afirma o romancista em uma das passagens do livro:   

 

“Não é sem grande constrangimento, leitor, que a minha pena, molhada em tinta, graças a Deus, e não em sangue, descreve cenas de estranho canibalismo como as que nesta história se leem. Aperta-se-me naturalmente o coração sempre que me vejo obrigado a relatá-las. Entre os motivos da minha repugnância e da minha tristeza sobressai o seguinte: Eu vejo nestes horrores e desgraças a prova, infelizmente irrecusável, de que o ente por excelência, a criatura fadada, como nenhuma outra, para altíssimos fins, pode cair na abjeção mais profunda, se o afastam dos seus sumos destinos circunstâncias do tempo e lugar que, nada, ou muito pouco valendo por si mesmas, são de grande peso para a perturbação do equilíbrio moral do rei da criação, tal é a fragilidade da realeza, ou antes das realezas humanas.”.  

 

Nos últimos parágrafos do livro, o escritor conclui a história do Cabeleira afirmando o seu posicionamento político em torno do problema da violência e banditismo social. Seu espírito liberal fez com que se opusesse abertamente à morte pela forca do protagonista – reforçando que a origem da violência é a questão social. Defendeu também os direitos do preso à defesa e sua incolumidade no período das investigações. Transcorridos 150 anos desde quando o livro foi escrito, pode-se dizer que esse ponto de vista é ainda hoje desafia abertamente o conservadorismo brasileiro, que afirma que o bandido bom é o bandido morto.

 

SOBRE O ESCRITOR

 

João Franklin da Silveira Távora foi jornalista, deputado provincial, historiador ligado ao IHGB e romancista. Ficou conhecido na história da literatura brasileira como fundador da chamada Literatura do Norte, escola assim designada por Sílvio Romero, precursora do regionalismo literário nordestino, cuja maior expressão se daria dentro da geração modernista do início do século XX, com escritores como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e Jorge Amado.

 

 Nosso escritor nasceu em 13 de Janeiro de 1842 no sítio Serrinha da Glória, antiga Candeia, região encravada na Serra de Baturité, no centro-norte do Ceará. Era filho de Camilo Henrique da Silveira Távora,  alcunhado de “o indígena”, um liberal simpático aos movimentos revolucionários de 1817 e 1824.

 

 A Revolução Pernambucana de 1817 foi um movimento de caráter liberal e republicano, cujas origens remetem à divulgação das ideias revolucionárias da revolução francesa e a oposição ao absolutismo monárquico Português: o descontentamento dos liberais pernambucanos foi agravado pelos enormes gastos pecuniários decorrentes da chegada da Família Real Portuguesa no Rio de Janeiro, com aumento de impostos para manter o luxo da corte e para travar guerras na Cisplatina, sem prejuízo da nomeação de portugueses para os cargos públicos em detrimento da nobreza da terra.

 

 Já em 1824 eclodiu a Confederação do Equador, movimento de caráter mais nitidamente separatista, liderado pelo padre Frei Caneca e que contou com apoio financeiro dos EUA, que já naquele tempo se interessava pela fragmentação territorial do Brasil, a balcanização de um grande país como meio de melhor subjugá-lo.

 

O radicalismo político pernambucano, tanto 1817 quanto 1824, encontra sua origem mais remota em 1710/1711 na Guerra dos Mascates, que seria tratada com minúcia pelo escritor nos livros “O Matuto” e “Lourenço”, que correspondem aos outros dois livros da trilogia “Literatura do Norte”.

 

Politicamente, Franklin Távora seguiu os passos do pai: sempre foi um progressista, defendendo a abolição da escravidão, a república e a reforma das instituições de ensino.

 

Entre os anos de 1859 e 1863, o autor de “O Matuto” estudou na Faculdade de Direito do Recife, quando fundou e participou de centros, sociedades e associações de estudantes voltadas a atividades literárias e políticas. Neste período, também se aproximou do jornalismo, com o nobre objetivo de ajudar financeiramente a família, que passava por dificuldades.   Começou como tipógrafo e foi evoluindo para revisor de provas, repórter, editor, chefe de redação e, mais tarde, fundador de jornais.

 

Sua aproximação com a política deu-se neste período de participação na imprensa, tendo atuado no “Jornal do Recife”, fundado em 1859 por José de Vasconcellos e, alguns anos depois, no Jornal “A Situação” liderado pelo Conselheiro Francisco de Paulo Silveira Lobo, filiado ao Partido Progressista.

 

Já ligado a este último partido, foi eleito deputado provincial de Pernambuco para mandato entre 1867/1868, quando tinha apenas 25 anos de idade. Já no primeiro ano de mandato, é nomeado para o cargo de Diretor Geral da Instrução Pública, cargo que hoje equivale ao secretário estadual de educação.

 

Ao assumir o encargo, declarou que pretendia reformar as instalações da Diretoria-Geral, dos diversos colégios a ela vinculados, reorganizar administrativamente as atribuições dos professores e lutar pela liberdade de ensino em Pernambuco. Neste trabalho, encontro ferrenha oposição do Partido Conservador.

 

Dada a sua orientação política liberal e progressista, Távora se empenhou na campanha de libertação dos escravos na imprensa, sendo responsável por traduzir a famosa carta endereçada ao mundo por Vitor Hugo contra a escravidão, na qual o autor de Os Miseráveis alertava: “Ter Escravo é merecer ser escravo”.

 

O que é curioso é que o seu posicionamento político progressista, ao contrário do que se poderia supor, não fez com que o escritor deixasse de ser simpatizante do lado de Olinda e dos senhores de engenho, contra os mascates de Recife, em seus dois livros sobre a Guerra dos Mascates.

 

Na verdade, mais do que um conflito entre comerciantes burgueses e latifundiários, o escritor via naquela guerra as sementes do movimento de libertação do Brasil em relação à Portugal: a oposição retratada nas obras de dava entre a opressão da metrópole e a reação nacionalista liderada pelos nobres de Olinda.  Ainda que numa leitura mais economicista ou marxista daquele conflito, o lado burguês e citadino de Recife aparecesse como “progressista” em relação ao lado aristocrático dos senhores de engenho de Olinda. O conflito, nesta perspectiva, se deu entre o comércio de natureza capitalista e a agricultura de natureza escravista ou, como querem alguns, “feudal”. Fora dos quadrantes economicistas, o lado progressivas residia na aristocracia de Olinda, como precursora do movimento da Independência Nacional.

 

Já no final da vida, Franklin Távora abandona a literatura e os trabalhos institucionais, passando, inclusive, por dificuldades financeiras. O escritor morreu no dia 18 de agosto de 1888, com poucas pessoas comparecendo ao enterro. Sílvio Romero, um dos poucos escritores presentes no velório, resumiu com estas palavras o drama vivido pelo seu amigo: “Cumpre destacar em síntese o valor deste escritor, sempre muito maltratado pelos literatos de seu tempo.”.

 

BIBLIOGRAFIA

 

“O Matuto” – Franklin Távora – Editor Iba Mendes – www.poeteiro.com

 

“Lourenço” – Franklin Távora – Editor Iba Mendes – www.poeteiro.com

 

“Franklin Távora” – Cláudio Aguiar – Série Essencial – Academia Brasileira de Letras – Imprensa Oficial.

 

“O Cabeleira” – Franklin Távora – Ed. Ática


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Marechal Cândido Rondon (1865/1958)

 Marechal Cândido Rondon (1865/1958)




 

A grande contribuição do Marechal Cândido Rondon ao Brasil diz respeito à constituição de uma nova política indigenista oficial, materializada em 1910 com a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI).  Esse órgão foi o precursor da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e tinha como finalidade prestar assistência aos índios e integrá-los à sociedade brasileira.  

A constituição dessa nova política oficial indigenista se baseou em princípios traçados por Rondon durante os anos em que trabalhou liderando expedições militares nos territórios do Mato Grosso, Rondônia e Acre, entre os anos de 1890 e 1990, com a finalidade de integrar o território nacional através de construção de linhas telegráficas. Contrariando a forma secular com que o Estado, desde os tempos da colônia, tratava as populações indígenas, Cândido Rondon sempre apostou numa orientação pacifista.

Sob a sua liderança, as expedições adotavam como método não revidar pela força da bala os atos de violência dos índios, os seus ataques de arco e flecha, perpetrados sob a proteção das matas cerradas – ele os via até como legítimos, dada a conduta dos brancos de tomarem as terras dos índios e empregarem-nos em trabalhos análogos à escravidão. Quando eram atacados pelos nativos, as colunas militares lideradas pelo Marechal retrocediam e até entregavam presentes, deixando-os expostos nessa retirada ordeira, como meio de conciliação.  

Ainda nos anos de 1900, quando ocorriam essas expedições, o Brasil tinha uma vasta porção do seu território ao norte completamente despovoado e desconhecido, sem qualquer linha de comunicação terrestre com os centros urbanos do litoral. As entradas oficiais, conduzida pelos militares, visava integrar o território nacional e manter o controle de nossas fronteiras, criando os primeiros contatos de brancos com índios, alguns ferozes, que ainda praticavam a antropofagia – o marechal se notabilizou por ter conseguido pacificar uma dessas tribos, a dos Nhambiquaras.

No que toca à relação dos brancos com as populações indígenas, Cândido Rondon adotara como lema: “morrer se necessário, matar nunca”.

Cândido Mariano da Silva nasceu em 05 de maio de 1865 na sesmaria do Morro Redondo, no Mato Grosso. O seu semblante físico revela a origem indígena, de parte materna. Seu pai era de origem mameluca, miscigenação de português e índio. Perdeu os pais ainda muito jovem e foi criado por um tio que o auxiliou nos estudos. Concluído o curso primário, aos dezoito anos de idade, se lança ao Rio de Janeiro para disputar uma vaga na prestigiosa  Escola Militar da Praia Vermelha no Rio de Janeiro. Consegue a aprovação e se notabiliza pela disciplina nos estudos, obtendo aprovação com distinção e em pouco tempo se habilitando ao Ensino Superior.

Cândido Rondon foi aluno de Benjamin Constant na Escola Militar, onde sofreu a influência do pensamento republicano e positivista. Assumiu o republicanismo e o positivismo como doutrina política, inclusive no que concerne às suas políticas indigenistas.

Nunca carta em que expos os seus princípios em torno da causa índios, afirmou: “a catequização dos indígenas, compreendendo a sua incorporação à nossa sociedade pela assimilação de nossa indústria, nossas artes, bem como pela adoção de nossos hábitos – que resultam das nossas crenças religiosas, no sentido positivo desse termo – julgo-a ser um problema inabordável no presente, em que por tantas crenças se repartem as preferências das populações. Como positivista e membro da Igreja Positivista do Brasil, estou convencido de que os nossos indígenas deverão incorporar-se ao Ocidente sem que se tente força-los passar pelo teologismo” (teologismo - uso indiscriminado e abusivo da teologia para a solução de todos os problemas.).

O Marechal participou diretamente dos eventos que conduziram ao quinze de outubro de 1889 e à proclamação da República no Brasil.

Mas seria através das expedições na esteira da construção dos telégrafos que Rondon forjaria as suas ideias sobre o índio brasileiro, através do contato direto, travando amizade com as lideranças indígenas, participando das cerimônias e rituais das tribos, sempre dentro de um viés conciliatório. Foram expedições que remetem às bandeiras paulistas, se não no que se refere à forma como tratava os índios, sem o uso da violência como os bandeirantes, ao menos no que toca às grandes extensões territoriais percorridas.

Em 39 de abril de 1891, quando da inauguração das novas estações telegráficas, a comissão liderada por Rondon percorrera 1574 km, passando pelo Estado do Mato Grosso até as fronteiras com a Bolívia e Paraguai. Enfrentavam a fome, o risco dos ataques dos índios, a malária e beribéri. Como meio de superar o vasto território fechado pela floresta, travava relação com os índios, convocando-os a auxiliarem picando as matas e fornecendo alimentos. Em contrapartida, auxiliava os índios na demarcação das suas terras. Por onde passava, a comissão liderada por Rondon deixava avisos públicos, dizendo que aqueles que tomavam as terras dos nativos estariam sujeitos à autoridade e punição do Estado.

Já ao final da vida, em 1955, recebeu do Congresso Nacional a insígnia de marechal. Nesse mesmo ano, ao antigo território de Guaporé foi dado o nome de Rondônia, onde hoje se situa o Estado de Rondônia, um dos últimos estados criados no país.

Cândido Rondon morreu em 19 de janeiro de 1958, aos 93 anos de idade.

Bibliografia: “Marechal Rondon – 1865/1958” – Coleção Grandes Personagens da Nossa História – (Org. Sérgio Buarque de Holanda) – Ed. Abril

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

“Luzia-Homem” – Domingos Olympio

 “Luzia-Homem” – Domingos Olympio



Resenha livro - “Luzia-Homem” – Domingos Olympio – Ed. Melhoramentos

“A desgraça endurece o coração. Por causa dela, os pais abandonam os filhos; maridos desprezam as mulheres e as criaturas viram bichos, ou ficam piores que eles. Para o fim do mundo, só falta que as mulheres não tenham mais filhos, pois já ninguém ama”.

“Luzia-Homem” (1903) é certamente o livro mais conhecido do escritor cearense Domingos Olímpio. A história foi primeiramente publicada em capítulos num jornal carioca, quando o autor já tinha atrás de si uma carreira consolidada de advogado, promotor e deputado provincial pelo Partido Conservador.

A publicação deu-se um ano depois do lançamento de “Os Sertões” (1902) de Euclides da Cunha. E o sucesso de “Luzia-Homem”, história que versa sobre o drama dos retirantes do sertão cearense no contexto da grande seca de 1877, pode ser explicado pelo interesse do publico, naquele contexto, em torno do homem sertanejo.

Afinal, alguns poucos anos antes, entre 1896/1897, ocorrera a Guerra de Canudos, que repercutira em todo o país como movimento messiânico que desafiava a autoridade da recém proclamada república (1889). E, certamente, o livro de Domingo Olímpio é também precursor da literatura regionalista que despontaria a partir da década de 1930, da qual são tributários: Graciliano Ramos, com suas descrições psicológicas de retirantes e fazendeiros de Alagoas; José Lins do Rego e com o seu ciclo da cana de açúcar descrevendo a Paraíba; Amando Fontes falando de Sergipe; Rachel de Queiroz falando do Ceará; e Jorge Amado falando da Bahia.

Domingos Olímpio Braga Cavalcanti nasceu na cidade de Sobral em 18.09.1850. Bacharelou-se em Direito na Faculdade de Recife em 1873, na mesma época em que floresceu o movimento conhecido como “Escola de Recife” do qual fizeram parte os professores Tobias Barreto e Sílvio Romero. O escritor sobralense mudou-se do Ceará para Belém do Pará em 1879, ao que consta, após alguns desentendimentos com a classe política cearense, quando exercia o cargo de promotor público.

Na condição de deputado provincial, defendeu o abolicionismo e o sistema republicano. Em 1891 transfere-se ao Rio de Janeiro, onde passou a contribuir com a imprensa local. Além do conhecido romance, escreveu peças de teatro e colaborou com a imprensa. Candidatou-se para vaga na Academia Brasileira de Letras mas foi preterido poeta Mário de Alencar, filho de José de Alencar. Ao que consta, Olavo Bilac votara a favor de Domingos Olímpio.

Luzia-homem é o nome da protagonista. Mais propriamente um apelido atribuído pelo povo sertanejo, pelo fato da mulher ter alguns traços masculinos, desde a sua altivez e independência, até a forma como se vestia. Luzia-homem  foi a forma como ficou conhecida essa personagem que congrega a força e higidez física e a disposição ao trabalho masculina, somada à beleza física e graça femininas.

A história se passa em Sobral, no contexto da grande seca de 1877, e nela há descrição viva da miséria dos retirantes. Aquela cidade servia como um entreposto do literal ao sertão – por ela passavam aqueles que fugiam da seca, sujeitos à fome, à sede e às moléstias infecciosas:

“Vinham de longe aqueles magotes heroicos atravessando montanhas e planícies, por estradas ásperas, quase nús, nutridos de cardos, raízes intoxicantes e palmitos amarelos, devoradas as entranhas pela sede, a pele curtida pelo implacável sol incandescente”.    

Luzia-homem trabalha nas obras de construção da cadeia pública na cidade. Passa a ser assediada por um soldado chamado Crapiúna, que move uma perseguição amorosa contra a vontade da mulher, enviando cartas e fazendo gracejos.

A protagonista recorre a um amigo chamado Alexandre para defendê-la do assédio do soldado insolente. Despeitado, Crapiúna decide vingar-se de Alexandre acusando-o de roubar comida e dinheiro do armazém da comissão de socorro aos flagelados. Essa intriga irá resultar na prisão de Alexandre. Luzia-Homem dedica-se a socorrer Alexandre para salvá-lo da prisão injusta, nas visitas diárias irá desenvolver por ele o amor, no que é correspondida. Ao término da história, a disputa dará ensejo a uma grande tragédia de conteúdo passional, movido pela paixão e perversão de Crapiúna, reproduzindo um estilo próprio da literatura naturalista.

“Luzia-Homem” é frequentemente descrito como um romance naturalista. Há nele, de fato, passagens que remontam ao estilo literário – a descrição das hordas e multidões de retirantes chegando em Sobral poderia se equiparar à descrição dos tipos populares do Cortiço em Aluísio Azevedo; a ideia naturalista do meio como fator determinante da conduta dos personagens (determinismo) está presente em Luzia-Homem.

Mas há no livro de Olímpio Azevedo algo que parece destoar do naturalismo.

A protagonista é alçada à condição de heroína. Luta bravamente pela sua vida, ao final da obra. E em toda a sua trajetória, revela a altivez e independência do sertanejo. Ela expressa o sofrimento dos fortes que são resignados e crentes. A criação de uma heroína mais remete ao romantismo do que ao forte comprometimento realista e de objetividade do naturalismo. Não vemos heróis nos livros naturalistas de Aluísio Azevedo, mas personagens vítimas do meio social e das suas próprias paixões.

Mais do que um romance naturalista, seria mais correto dizer que Luzia-Homem se trata de uma percussora da literatura regionalismo da década de 1930, tal qual Franklin Távora com a sua “literatura do Norte” e Inglês de Sousa com os seus “contos amazônicos”.  Três escritores do século XIX que catam a história da sua terra, respectivamente Ceará, Pernambuco e Pará.   

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Jorge Amado e o Partido Comunista Brasileiro

 Jorge Amado e o Partido Comunista Brasileiro




 

Resenha Livro – “A Luz no Túnel” – Jorge Amado – Ed. Martins Editora.

 

Quando Jorge Amado escreveu e publicou “A Luz no Túnel” (1953/1954), o escritor amargurava alguns anos de exílio, desde a proscrição do Partido Comunista Brasileiro promovida pelo Governo Dutra (1946/1951)

O romancista baiano havia sido eleito deputado constituinte pelo partido comunista em 1946.

Fundado em 1922, o PCB até então esteve sob a maior parte do tempo de sua história sujeito ao trabalho clandestino e a uma dura repressão estatal – recrudescida especialmente após 1935 com o fracasso do levante comunista (“Intentona Comunista”) e com o golpe de estado que conduziu o país ao Estado Novo varguista (1937/1945).

Com o término da II Guerra Mundial, dada a vitória dos aliados sobre o eixo nazi-fascista,  numa aliança envolvendo o imperialismo norte americano e britânico e a União Soviética, Roosevelt, Churchill e Stálin, o PCB é alçado a um curto período de legalidade. Vargas, na condição de ditador desde o golpe estadonovista, é apeado do poder e um curto período de liberdades democráticas surge, como resultante política da vitória das “democracias” contra as “ditaduras” do nazi fascismo.

 O PCB, nesse curto período de liberdades democráticas, chegou a ser a quarta maior força política da Assembleia Constituinte de 1946, evidenciando a sua autoridade perante o povo, os trabalhadores e os camponeses, granjeada durante anos de atividade clandestina.

Os comunistas elegeram parlamentares em seis unidades da federação (Bahia, Pernambuco, Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul). O próprio Jorge Amado foi eleito por São Paulo. Carlos Marighella foi eleito pela Bahia. Gregório Bezerra foi eleito por Pernambuco. Luiz Carlos Prestes, a liderança inconteste dos comunistas brasileiros, foi eleito senador pelo Rio de Janeiro, então capital do país. Pelo mesmo Rio de Janeiro, foi eleito Maurício Grabois, amigo pessoal de Jorge Amado, que morreria sexagenário, de armas em punho, na Guerrilha do Araguaia.

A participação direta do escritor na vida do PCB tornou os livros que compõe “Os Subterrâneos da Liberdade” uma fonte histórica preciosa para aqueles que desejam conhecer a forma como os comunistas brasileiros se organizaram e travaram sua luta contra o fascismo, personificado no movimento integralista e seus representantes dentro do governo Vargas, e contra o imperialismo: o anglo-americano de um lado e o alemão de outro.

A história igualmente evidencia as ambiguidades da política internacional de Getúlio Vargas, que buscava, no contexto da II Guerra, acenar tanto para os norte americanos quanto para os alemães, barganhando seu apoio político na Guerra em troca de investimentos na indústria nacional, e só tomando um posicionamento mais claro em favor dos aliados já nos últimos instantes do conflito mundial.

“O Fim do Túnel” corresponde ao último livro da trilogia “Os Subterrâneos da Liberdade” e remonta ao período do Estado Novo, quando Getúlio Vargas, apoiando-se na campanha anticomunista desencadeada pelo fracasso do levante de 1935, fecha o congresso nacional, impõe interventores nos Estados, institui a censura da imprensa através da criação do Departamento de Imprensa e Propaganda e impõe a prisão política a todos os opositores do regime.  

Vargas serviu-se da campanha anticomunista que seguiu ao levante de 1935 para impor a ditadura estadonovista. Esse levante dirigido pela Ação Nacional Libertadora em Novembro de 1935 ficou conhecido na história como a “Intentona Comunista”. O ensaio de insurreição durou 6 dias, não teve adesão do proletariado brasileiro. Houve apenas um modesto apoio popular na cidade de Natal/RN.  

Na década de 1930 havia um cenário de agitação política no país, especialmente na cúpula do poder, com crises institucionais, mudanças de interventores, nomeações sucessivas de ministros, conflitos entre governadores eleitos e interventores. Contudo, o clima de agitação política foi confundido pelas lideranças revolucionárias – nitidamente Prestes – por uma situação revolucionária no Brasil, que não existia.

Naquele tempo, o PCB atuava na prática como uma sucursal brasileira da III Internacional conduzida por Stálin – aliás, esse foi o pretexto utilizado pelo presidente Dutra para colocar o partido na ilegalidade, o PCB não seria um partido “nacional”, mas uma célula do partido comunista da URSS. Consta, em todo o caso, que os dirigentes da Internacional Comunista, que naquele período adotava uma política que variava entre esquerdismo e constituição de frentes amplas antifascistas, manifestaram discordância com a política de levante armado no Brasil.

Contudo, prevaleceram as opiniões de Prestes e da direção do PCB.  O levante, como dito, foi um desastre. Prestes foi preso em 1936 e condenado a mais de uma década de prisão. Iniciou-se uma dura repressão contra os comunistas – logo no início do livro, são descritos em detalhes as torturas promovidas por policiais e investigadores do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).

O tratamento reservado aos presos envolvia espancamentos bárbaros, surras com chicote de arame, alfinetes embaixo da unha ou unhas arrancadas com alicate, queimaduras com pontas acessas de charuto e choques elétricos. Numa passagem, vemos uma militante sendo estuprada na frente de seu companheiro – em outra, no ato de tortura mais repugnante descrito na obra – o delegado de polícia agride uma criança de colo com chicote de arame na frente do pai e da mãe, como meio de constrangê-los a entregar os demais companheiros de partido.  Enquanto a criança de colo chora em cima de uma mesa após ser brutalizada pela surra do delegado de polícia, a mãe, que é obrigada a ver a cena, entra num colapso mental que a leva à loucura incurável e definitiva.

A resistência obstinada dos presos políticos dá um caráter heroico aos militantes comunistas. A história, dentro de uma orientação que remonta ao realismo soviético, exalta a moral do povo, dos trabalhadores e dos camponeses, em oposição direta à burguesia e à alta sociedade carioca e paulista.  No livro se vê também o culto à personalidade e ao partido que caracterizam o stalinismo. Stálin em determinada passagem é descrito por um operário como um “pai” a quem os trabalhadores do mundo devem gratidão. Há o culto do Partido, considerado como um ente a quem todos devem se submeter. E também há o culto à Luiz Carlos Prestes, o portador da esperança socialista no Brasil.

Apropriando-se do conceito de luta de classes, a história reproduz dois universos sociais distintos e que correm em paralelo: cada um desses mundos expressa uma moralidade diversa. Os comunistas e o povo são movidos pela pureza de sentimentos e pela capacidade de se sacrificar em torno de um propósito maior: o advento de uma sociedade livre da exploração econômica. Já os extratos de cima da pirâmide social, personificados por banqueiros, latifundiários, empresários e oportunistas que parasitam essa elite econômica e política, estão sujeitos ao medo da revolução, à covardia que conduz à perversidade, ao ódio dos comunistas e dos pobres em geral, à corrupção dos sentimentos, ao orgulho e ao egoísta levados até as últimas consequências.

Os personagens da história, ainda, são representativos de determinados setores sociais, aparecem como arquétipos que descrevem em detalhes a luta de classes dentro das suas dimensões mais sutis, ou seja, as frações das classes sociais que permeiam a luta entre burguesia e proletariado – camponeses, setores médios, intelectuais, juízes, policiais, etc.

O banqueiro Costa Vale representa a classe dominante brasileira, o setor mais poderoso da economia nacional, capaz de impor e derrubar governos, mas atuando acima de tudo como preposto do imperialismo norte americano. Shopel é um poeta, mulato por sinal, simpatizante do nazismo, que busca adular os ricos e poderosos através da campanha anti comunistas para enriquecer. Saquita é um jornalista que traiu o partido e aderiu ao trotskysmo, serve como propagandista dos interesses imperialistas no país. Cícero de Almeida representa o elemento pequeno burguês simpático aos comunistas, mas preso às vacilações políticas que são produto direto de sua origem de classe – são os comunistas oriundos da classe operária os mais decididos e obstinados, mesmo nos momentos de maior confusão no seio do movimento. Hermes Resende é um sociólogo social democrata que defende formalmente a democracia e o anti fascismo, mas é incapaz de levantar um dedo para defender os comunistas barbarizados nas delegacias do DOPS, diante do risco de comprometer a sua carreira acadêmica.

E ao que consta, cada um desses personagens arquétipos representava personagens reais da vida cultural brasileira. Shopel, o poeta corrompido simpatizante de Hitler seria   Augusto Frederico Schmidt. Saquita, o trotskysta linha auxiliar do imperialismo anticomunista, seria Hermínio Sacchetta. Cícero, o intelectual marxista de origem burguesa, seria o historiador Caio Prado Júnior. E Hermes Resende, o acadêmico social democrata e oportunista, seria Gilberto Freire.

Dois anos depois da publicação do terceiro volume dos Subterrâneos da Liberdade, um evento dilacerante daria ensejo a uma crise mundial do movimento comunista.  

Com a morte de Stálin, Nikita Kruschev, no XX Congresso do PC (1956), apresenta um relatório denunciando seu antecessor, o que levaria diversos grupos políticos a romperem com a orientação soviética. O desencanto de alguns, como Carlos Marighella, levou-os à ruptura pela esquerda, com a defesa da revolução armada urbana, sob o impacto e influência da Revolução Cubana. Outros aderiram ao maoismo, com a sua proposta de revolução camponesa. Já Jorge Amado se afastaria dos comunistas na década de 1950, a partir de quando abandonaria o horizonte do realismo soviético e do culto à personalidade de Stálin e de Luís Carlos Prestes. São dessa segunda fase romances não tão abertamente ideológicos como “Gabriela Cravo e Canela” (1958) e “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1966).

domingo, 21 de dezembro de 2025

“Populações Meridionais do Brasil” – Oliveira Viana

“Populações Meridionais do Brasil” – Oliveira Viana






Resenha Livro - “Populações Meridionais do Brasil” – Oliveira Viana – Edições do Senado Federal V. 27.

Oliveira Viana foi um dos principais formuladores do pensamento conservador brasileiro. Suas ideias serviram como substrato ideológico e referencial teórico do movimento político que conduziu Getúlio Vargas ao poder (1930/1945). Sua oposição frontal ao liberalismo, visto como fonte de desagregação social e anarquia, e sua proposta de constituição de um Estado Nacional, que dê as coordenadas de funcionamento da sociedade, foram reproduzidas na Era Vargas, em especial na sua fase mais autoritária, durante o período do Estado Novo (1937-1945). Da mesma forma como a República Velha encerra uma fase de descentralização política e predomínio das oligarquias regionais, a Revolução de 1930 irá almejar a superação dessas tendências de fragmentação e a imposição de uma ordem institucional unitária, centralizadora e autoritária. Oliveira Viana, neste sentido, defende no plano das ideias aquilo que o movimento getulista implantou na prática.

Foi um herdeiro do castilhismo, movimento de inspiração positivista que defende um Estado intervencionista e que exerça um papel moralizador da sociedade. Não foi entretanto um apóstolo do positivismo: de origem católica, os seus principais interlocutores são Alberto Torres, Silvio Romero e Tobias Barreto.

Em conjunto com esses pensadores, procurou desenvolver uma interpretação original do Brasil, do seu povo e das suas instituições políticas. A grande relevância aqui reside na crítica radical à tendência de se importar sistemas políticos e filosóficos oriundos da Europa, mas não aclimatáveis à sociedade brasileira.

O fracasso do liberalismo no Brasil decorre das particularidades da formação histórica da nacionalidade que o torna incompatível ao nosso meio social – enquanto na Europa o liberalismo surge como uma reação espontânea da burguesia e do Terceiro Estado contra abusos do Estado Absolutista, no Brasil a conformação de uma sociedade baseada na hegemonia dos latifundiários implica num tipo original de relação entre o povo e o Estado Nacional.  

Aqui temos uma sociedade rarefeita, esparsa dentro de um vasto território, dispersa em torno de grandes fazendas e engenhos de características “autárquicas”, que produzem quase tudo do que precisam, sendo presididos por clã familiares que exercem o poder de fato – ao contrário da Europa, o Estado no Brasil surge como um mero espectador das lutas travadas entre os clãs rurais, ou das guerras travadas por esses mesmos senhores de engenho com tribos indígenas furiosas e negros em assaltos,  oriundos do Quilombo.

Para Oliveira Viana, aqui jamais poderia ter germinado o sistema liberal clássico, a despeito das nossas elites políticas, especialmente após a Independência (1822), insistentemente intentarem importar os modelos e arranjos institucionais estrangeiros, seja o parlamentarismo inglês, seja o sistema representativo norte americano, seja o liberalismo político produto da Revolução Francesa.

“Populações Meridionais do Brasil” é o primeiro livro de Oliveira Viana. Foi escrito em 1918, mas só publicado dois anos depois, sob os auspícios de Monteiro Lobato que, ao que consta, foi amigo pessoal do Autor.

Aqui, Oliveira Viana traça uma proposta de trabalho pioneira e ambiciosa. Numa época em que a historiografia brasileira ainda se ressente de sua influência positivista, com sua ênfase nos grandes eventos, nas fontes históricas puramente documentais e oficiais, e na missão meramente descritiva do historiador, Oliveira Viana propõe a assimilação das ciência sociais e das ciências naturais à História.  

Foi tanto historiador, quanto sociólogo e antropólogo. É preciso, para Oliveira Viana, compreender as particularidades e especificidades da sociedade e da psicologia do brasileiro, previamente ao estudo das suas instituições políticas. O Estado Nacional para cumprir o seu papel deve exsurgir naturalmente e estar plenamente aclimatado à conformação da sociedade e ao espírito do povo. Não basta, portanto, a mera história dos grandes eventos, de tipo positivista, pautada na sucessão de governos e formas de regime político – descoberta do Brasil, Capitanias Hereditárias, Governo Geral, I Reinado, Regência, II Reinado, República, etc. O que o Autor procura são as mais remotas origens da personalidade, da psicologia e da moral do brasileiro para, a partir daí, perscrutar a forma como essa sociedade criou as suas instituições políticos, mesmo porque elas nada mais são do que uma necessidade, uma resposta aos problemas criados pela sociedade.  

Oliveira Viana não vê o brasileiro como um povo único, mas como um conjunto de três grandes civilizações: os sertanejos que aparecem com a interiorização da ocupação territorial no nordeste através da pecuária, com as suas figuras messiânicas e o banditismo social dos cangaceiros; os gaúchos nos pampas ao Sul, temperados nas guerras e na animosidade bélica entre os seus caudilhos, que se entrincheiram em suas fazendas, disputando terras na bala com os espanhóis; e finalmente as populações meridionais, situadas na região Centro Sul do país, também denominados de matutos.

As populações meridionais ganham maior prepondância em relação às outras duas civilizações, diante da maior importância econômica e política conferida a essa região do país, desde a abertura do ciclo da mineração, passando pela transferência da corte portuguesa ao Brasil (1808), à Independência (1888), à cultura do café e já no século XX à industrialização. Para Oliveira Viana, são essas populações meridionais de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro as mais representativas na conformação do povo brasileiro, ao passo que o gaúcho dos pampas e os sertanejos do nordeste ganham relevância mais regional.

Concordando ou não com esse ponto de vista, deve-se ao menos reconhecer que o grosso da população brasileira habita, trabalha e produz riqueza nesses três estados, até hoje considerados de conjunto o principal centro político e econômico do Brasil.  

Essas populações meridionais surgem através das bandeiras paulistas, que expandem as fronteiras geográficas do país, na atividade de captura dos índios para o trabalho escravo e depois nas expedições em busca do ouro e diamantes a partir do ciclo da mineração. Foram esses sertanistas paulistas que asseguraram a posse das terras onde hoje se situa o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, através da guerra às missões jesuíticas, levando as fronteiras da colônia portuguesa para além dos limites de Tordesilhas. Também são os grandes pioneiros de ocupação do grande centro oeste e norte do país, chegando mesmo a bandeira de Antônio Raposo Tavares espantosamente atingir a pé, partindo de São Paulo, o território do Peru, na sanha pelo eldorado.

Esses sertanistas, que são considerados por Oliveira Viana como a família mais remota das populações meridionais, também pavimentaram a criação de uma unidade cultural e linguística do Brasil.

As bandeiras eram conduzidas por alguns brancos de origem nobre, muitos mamelucos que falam a língua geral e multidões de índios flecheiros conhecedores do território. Inicialmente, fazem as expedições de reconhecimento de território.  Depois,  constituem um curral, depois uma fazenda, depois um engenho, depois um arraial, depois uma povoação e finalmente uma vila. Partindo de um tronco comum, desde São Paulo, as bandeiras levam um mesmo estilo de sociedade e cultura a todos os recantos do país, onde fundam os seus currais e vilas. A língua geral passa a ser falada na maior parte do território e em cada novo arraial se constitui a mesma sociedade de clãs baseados na propriedade agrícola. É como se os sertanista paulistas fosse um povo de origem comum que se lança a ocupar um grande território levando-lhe a sua própria civilização. E aqui se revela a proeminência dessa parcela da população brasileira sobre as outras duas manifestações de caráter mais regional.

As populações meridionais são conduzidas por aquilo que Oliveira Viana irá chamar de “Elite Agrária”, “Nobreza Campesina”, “Nobreza Territorial”, “Potentados Rurais” e “Aristocracia Rural”. O que dá especificidade na formação da sociedade e das instituições políticas no Brasil foi justamente o papel exercido pelos senhores dos engenhos, os latifundiários do café, os empresários da mineração e os estancieiros da pecuária, advindos especialmente de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Oliveira Viana evidencia uma natureza de clã envolvendo os latifundiários. No passado colonial, o grande proprietário de terra se orgulha em dizer que para suas fazendas apenas importa “ferro, sal, pólvora e chumbo”. Todos os demais produtos de subsistência, incluindo as fontes alimentares, o tecido da roupa e os utensílios domésticos, são produzidos no próprio engenho ou na própria fazenda, tornando-a independente dos centros comerciais das cidades portuárias, onde se situa as autoridades régias delegadas do Império Português. Tudo conspira para que esses clãs e essas fazendas surgem como um Estado dentro do Estado.

Além disso, a grande dimensão territorial do país colabora para o isolacionismo das fazendas. Tudo isso cria as condições para o fortalecimento de clãs familiares que conduzem a política e a jurisdição de todo povo agregado aos Potentados Rurais. Do escravo ao agregado, passando pelos trabalhadores livres e pobres, lavradores e pequenos funcionários estatais, estão subordinados ao grande senhor de terras. É justamente a propriedade de terras e escravos que dá prestígio e não os títulos de nobreza, como na Europa.

Os primeiros dois séculos de colonização, ou seja, de 1500 até 1700, para Oliveira Viana, marca o predomínio absoluto desses clãs familiares, que conduzem do ponto de vista político e institucional, a uma situação de “anarquia” (conceito empregado pelo próprio autor). Os potentados servem-se de um exército de agregados, lavradores destituídos de terras e escravos, que irão ser recrutados nas bandeiras e servir de fonte de defesa militar, seja nas guerras entre os diferentes clãs, seja na defesa da fazenda em face dos ataques de índios, quilombolas e ataques de nações estrangeiras.

Seria apenas com a descoberta das jazidas de ouro, quando do ciclo da mineração, que o Estado deixa o papel de mero espectador da liderança política dos clãs para impor a sua jurisdição – interessava-lhe o controle fiscal absoluto das minas, o que gerou revoltas, a mais conhecida delas a Guerra dos Emboabas (1707-1709).

E assim sucessivamente Oliveira Viana irá evidenciar momentos de centralização e descentralização do poder político no país – ora a predominância dos clãs, que levam à desagregação, ao separatismo e às revoltas, ora a força disciplinadora do Estado, como meio legítimo de impor alguma coesão social e racionalidade na organização da sociedade. É essa controvérsia que irá conduzir as principais discussões políticas do Brasil por todo o século XIX e ainda nos dias de hoje: a disputa parlamentar entre liberais e conservadores, as propostas de descentralização e centralização políticas, os movimentos separatistas e a correspondente reação nacionalista, a predominância dos poderes municipais controlados pelos clãs e a autoridade do Estado Nacional. 

sábado, 6 de dezembro de 2025

A História do Padre Cícero

 A História do Padre Cícero



 

Resenha Livro – “Juazeiro do Padre Cícero” – M. B. Lourenço Filho – Ed. Melhoramentos

 

Anualmente, no mês de março, ocorre a Romaria de Padre Cícero na cidade do Juazeiro do Norte, onde o líder messiânico desenvolveu sua atividade religiosa e política. A peregrinação envolve milhares de romeiros que lá se dirigem para agradecer e pagar as suas promessas atendidas. É um movimento popular espontâneo que fortalece a identidade cultural do país em torno de um catolicismo aclimatado à alma do povo sertanejo. Transcorridos quase cem anos desde a morte do líder carismático cearense, as romarias em sua homenagem chegam a reunir centenas de milhares de pessoas, denotando o potencial nacional revolucionário e engajador do movimento de romarias em torno de Cícero Romão Batista, o Padre Cícero.

Entretanto, se esse aspecto cultural e religioso se revelam como a face mais positiva do padre, o seu envolvimento político junto à oligarquia Acyoly e ao deputado/jagunço Floro Bartolomeu parecem revelar os traços mais negativos dessa figura carismática e profundamente contraditória.  

 Cícero Romão Batista nasceu em 1844 na cidade do Crato, no interior do Ceará. Quando tinha 16 anos de idade matriculou-se num seminário de padres dirigido por um duro clérigo chamado Inácio de Sousa Rolim. Consta que ao final dos estudos, a liderança da escola recomendou a não ordenação do futuro messias como padre, por ter demonstrado ser uma pessoa excessivamente obstinada. Foi necessária a intervenção de um coronel próximo da família de Cícero demandando junto à escola que ele fosse finalmente admitido como padre.

O líder religioso foi ordenado em 1870. Naquela época, mais de 80% da população do Ceará era analfabeta e havia em todo o estado cerca de 40 padres. A atividade desses jovens missionários não era propriamente constituir um terreno fixo de ação em torno de uma paróquia. Eles tinham que percorrer léguas a fio, através de uma atividade de andarilhos, para contemplar todo aquele vasto sertão nordestino, com suas cidades longínquas. Naquela época, o padre seguia de cidade em cidade, e em cada parada, além de ministrar as missas, abençoa os açudes e os animais, para que fossem atendidas as preces pelas chuvas. Atendem os pedidos dos beatos e quando os milagres acontecem, atribuem-nos à benção do padre. Em certo sentido, essa atividade tem como origem mais remota as missões jesuíticas por meio dos quais os religiosos se lançavam aos cantos mais longínquos do território, ao norte e ao sul, para catequizar índios bravios no meio do mato.  

Além de Padre Cícero, outro que desempenhou essa atividade de padre andarilho foi Antônio Conselheiro, que depois se tornou o grande líder da Guerra de Canudos. 

No ano de 1890 ocorreria o grande evento milagroso que consagraria a popularidade do Padre Cícero. Ao ministrar uma hóstia para a beata Maria de Araújo, constatou-se a transformação dessa hóstia em sangue. O fato foi testemunhado pelas diversas outras pessoas e a boato se disseminou como pólvora sertão a dentro. Logo, essa hóstia transformada em sangue foi descrita pelo povo como o sangue de cristo, e a terra onde ele foi derramado como uma terra sagrada. Essa terra é Juazeiro, a cidade onde ocorreu o milagre e onde se criou o mito político e religioso em torno de Padre Cícero.

Diante da popularização do padre pelo milagre de Maria de Araújo, sua autoridade perante o povo do Cariri iria despertar o interesse das oligarquias políticas que dirigiam o estado do Ceará. De todo o conhecido coronelismo familiar dos estados do nordeste, parece que o Ceará é aquele em que o tom familiar das oligarquias é dos mais evidentes. Na época de Padre Cícero, o estado era governado há tempos imemoriais pelo clã Acyoly

Naquele contexto ocorreu a "Política das Salvações" (1910-1914) do presidente Hermes da Fonseca por meio do qual o governo federal começou a intervir na política dos estados, nomeando governadores e destituindo as oligarquias locais, inclusive através do uso da força. Isso ocorreu o Ceará, quando apearam do poder a família Acyoly. Esse clã familiar se apoiou na popularidade do Padre Cícero para travar uma contraofensiva política naquilo que ficou conhecido com a sedição de Juazeiro (1913/1914).

Aqui entra na história a figura de Floro Bartolomeu, um médico e rábula que se internou no sertão de Cariri, onde travou relações pessoais com o Padre Cícero. Conquistou a confiança íntima do missionário ao ponto de se tornar uma espécie de “braço político” do movimento religioso do Padre Cícero. Floro Bartolomeu constituiu um exército de Jagunços de milhares de homens e ajudou a fazer de Juazeiro uma trincheira contra o governo ilegítimo de Fortaleza, imposto dentro da Política das Salvações. Enquanto o Padre Cícero mantinha sua autoridade moral e religiosa perante o povo do Cariri, Floro Bartolomeu se credenciou como a sua liderança política e militar.

A sedição de Juazeiro foi um movimento de revolta contra o Governo Estadual. Inicialmente, o povo em armas em muito se assemelha com a campanha de Canudos. Jagunços e fanáticos religiosos fizeram de Juazeiro uma trincheira militar e travaram uma guerra de guerrilha contra expedições mandadas desde Fortaleza. Nas duas primeiras campanhas, o exército popular do Padre Cícero sagrou-se vitorioso. Não contentes, os milicianos de Juazeiro levaram adiante uma marcha em direção à capital, passando por vilarejos e povoados, onde saqueavam e destruíam as casas e bens de todos aqueles que tinham ligação com o governo ilegítimo de Fortaleza. Os fanáticos apenas respeitavam as imagens e quadros sagrados nas casas, roubando e destruindo todo o resto. Alcançaram finalmente a capital e depuseram o governador Franco Rabelo em 15 de março de 1914.

Desde então, o movimento dirigido por Floro Bartolomeu e por Padre Cícero, cada qual representando a frente político-militar e espiritual, se tornam a principal força política do Ceará. Posteriormente, Bartolomeu seria eleito Deputado Federal e da Tribuna no Rio de Janeiro faria a defesa dos interesses das oligarquias regionais ligadas à figura do Santo Padre.

No testamento de Padre Cícero se nota um esforço do religioso em se dissociar dos eventos políticos que levaram ao movimento sedicioso de 1913/1914. No texto declara que “nunca desejou ser político” e que apenas autorizou que o nome dele fosse utilizado na campanha política de 1913/1914 “a pedido da população dessa terra”.

Neste sentido, há bastante controvérsia em torno do tipo exato de relacionamento existente entre Padre Cícero e Floro Bartolomeu, desde aqueles que defendem que o clérigo agia sob pressão da política local dos coroneis, emprestando a sua popularidade aos interesses do clã Acyoly, até outros que entendem ser Bartolomeu um mero testa de ferro de iniciativas de cunho político advindas do próprio padre.

Esse mesmo testamento revela a existência de um vasto acervo de bens, especialmente terras, no nome do Padre Cícero, o que não parece se coadunar com a figura de um santo ascético.   

Assim, a figura do Padre Cícero se revela aos olhos daqueles que estudam a sua história bastante contraditória.

A fama de santo milagreiro e a sua atividade puramente religiosa criaram condições para a existência de um movimento popular espontâneo e de massas, que traz à tona uma forma de catolicismo aclimatado à pobreza do sertão, voltado à devoção aos santos da Igreja Católica e aos apelos do imaginário do sertanejo e do povo simples. Do ponto de vista cultural, as romarias, que existem até hoje, são uma expressão de uma religiosidade profundamente emotiva e devocional, que devem ser saudada por todos aqueles que amam o Brasil, já que reforçam a existência de uma identidade cultural que fortalece o nacionalismo e o amor pelo país.

Já do ponto de vista puramente político, Padre Cícero talvez revele aqui a sua faceta mais negativa: mesmo nos dias de hoje, a sua fama e o seu nome são explorados pelas oligarquias regionais, que se servem dos mitos em torno do santo milagreiro para manutenção da ordem social baseada no latifúndio, no coronelismo, na desigualdade social e na violência contra qualquer tipo de movimento contestatório.

domingo, 30 de novembro de 2025

“Pensão Riso de Noite” – José Condé

 “Pensão Riso de Noite” – José Condé



Resenha Livro - “Pensão Riso de Noite: Rua das Mágoas (cerveja, sanfona e amor)” – José Condé – Livraria José Olímpio Editora

O livro mais conhecido do escritor José Ferreira Condé (1917/1971) chama-se “Terra de Caruaru” (1960) com o qual venceu o prêmio “Coelho Neto” da Academia Brasileira de Letras. É uma história de sua cidade natal, onde o escritor passou a sua infância e para quem dedicou a sua literatura, incluindo as novelas reunidas sob o título “Pensão Riso da Noite” (1966).

A novela enquanto gênero literário está a meio caminho entre conto e o romance. Consiste em histórias não tão curtas como os contos e nem não extensas quanto o romance.  A variedade de personagens e a dinâmica do espaço e tempo dentro do enredo, na novela, também ficam a meio termo entre o conto e o romance. No Brasil não foram muitos os escritores que se dedicaram a essa forma de literatura.  Alguns exemplos mais conhecidos são “O Alienista” de Machado de Assis e “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector.

“Pensão Riso da Noite: Rua das Mágoas (cerveja, sanfona e amor” é uma reunião de novelas que gravitam em torno de uma casa de meretrizes situada em Caruaru/PE. Todas as histórias se passam no ano de 1927 naquela cidade, situada no interior do Estado de Pernambuco. E há um baralhamento dos personagens entre cada uma das novelas – um protagonista de uma novela, surge como um  coadjuvante na história subsequente. Os mesmos personagens se confundem nas diferentes histórias. E todas elas têm o tom da comédia.  

Neste sentido, pode-se dizer que o livro revela a pretensão do artista contar histórias de sua terra. A cidade de Caruaru, conhecida como a “Princesa do Agreste”, é a verdadeira protagonista do livro, de forma semelhante com que Aluísio Azevedo atribuiu o protagonista do espaço em relação aos próprios personagens no seu livro “O Cortiço”. Nas novelas de José Condé, o leitor entra em contato com toda variedade dos tipos populares que compõem uma cidade do agreste nordestinos no início do século XX: ex escravos, recém libertos do cativeiro, caixeiros viajantes, juízes, advogados, delegados de polícia, prostitutas, beatas, padres e até um líder religioso missionário ao estilo de Antônio Conselheiro.

Esse elogio de sua terra natal realça uma dimensão heroica de alguns personagens. É o caso Ezequias Vanderlei Lins, mais conhecido como seu Quequé, um caixeiro viajante dotado de carisma especial para conquistar o amor feminino.

Como a sua profissão obriga-o a estar sempre em viajem, fazendo comércio, Quequé termina constituindo três famílias em três cidades diferentes. Ele é casado com Eleuzina em Caruaru, com Santinha na cidade de Penedo em Alagoas e com Nicinha na cidade de Estância em Sergipe. Nenhuma das mulheres, e seus respectivos filhos, sabe da existência das outras com que o herói contraiu matrimônio.  Não existe por parte de Quequé maiores escrúpulos em torno da mentira. Não se julgava imoral, mas, pelo contrário, buscava o amor através de suas múltiplas faces. Adaptava-se a cada situação, a cada relacionamento amoroso com as suas particularidades, procurando tirar de cada uma delas o melhor proveito que o amor feminino pode oferecer. Em determinada passagem da novela, o caixeiro viajante menciona uns versos que escrevera na mocidade:

“Não amo mulher nenhuma,

Amo a mulher, sim senhor.

Pois amando a espécie em suma,

Vou amando o próprio amor.”.

Essa forma variável com que o protagonista experimentoU o amor se revela nas cartas que escreve para cada uma das suas companheiras.

O estilo com que escreve revela os diferentes traços de personalidade de cada mulher e as particularidades em torno de cada casamento, evidenciando as tais possibilidades infinitas do amor.

Eleuzina de Caruaru tem um perfil boêmio e acompanha Quequé nos saraus do Major Sindô, regados à cachaça, música e aos elogios do Major à figura de D. Pedro II. Santinha, como o nome sugere, é uma mulher cândida, viúva muito jovem, e que, depois do luto pela morte do marido, adotou uma vida beata, trancada dentro de casa. Até conhecer Quequé, por quem se apaixonou e travou um casamento convencional. E por último Nicinha, uma jovem e belíssima sergipana, desmiolada, e a única que despertara ciúmes mortal do caixeiro viajante.

Ao fim da história, o protagonista é dedurado por um invejoso e levado às barras dos Tribunais pelo crime de poligamia, ao constituir três casamentos em três estados diferentes. No dia do julgamento, as três esposas comparecem no Tribunal e, curiosamente, ficam ao lado de Quequé, dizendo que elas eram as maiores interessadas em torno do crime de trigamia, conquanto não tinham o menor desejo de punir o Réu. A defesa inusitada das vítimas em favor do seu algoz levou o público que assistia ao julgamento às gargalhadas. De nada adiantou: Quequé pegou três meses de prisão.

José Condé faleceu em 1971 no Rio de Janeiro, cidade onde morou a maior parte de sua vida, a despeito do foco de sua obra estar voltado à sua cidade natal. As suas novelas retratam de forma realista a vida urbana de uma cidade do interior nordestino, com ênfase especial aos extratos sociais mais baixos. A descrição daquelas cidades é comovente àqueles que conhecem o Brasil profundo: são as igrejinhas situadas no centro da cidade, as zonas de meretrício, as feiras barulhentas e agitadas, as festas religiosas, aos bares onde se bebe cachaça e se toca sanfona. Trata-se de fonte preciosa aos interessados em conhecer a cultura popular nordestina.