“Lavoura Arcaica” – Raduan Nassar
Resenha Livro - “Lavoura Arcaica” – Raduan Nassar – Ed. Livraria José Olympio
“Lavoura Arcaica”
(1975) foi o livro de estreia Raduan Nassar, publicado quando o escritor já
tinha 40 anos de idade. Foi imediatamente reconhecido como escritor de valor
incomum, senão pelo grande público, ao menos pela crítica especializada. Já no
ano subsequente ao lançamento do livro, Nassar ganhou premiação na Academia
Brasileira de Letras, essa que é, ao menos formalmente, a principal instância de
consagração literária do Brasil.
Depois da sua
estreia meteórica, o escritor publicaria apenas outros dois romances. No auge
da sua fulminante trajetória, decide abandonar a literatura para se dedicar à
agricultura no interior de São Paulo.
Uma explicação
dada pelo próprio escritor é que tudo aquilo que tinha para dizer já fora contemplado
nesses poucos romances. “Lavoura Arcaica”, certamente o mais conhecido deles,
foi adaptado para o cinema no ano de 2001, a despeito das enormes dificuldades
de traduzir um texto altamente intimista e poético para a linguagem do cinema,
amparada predominantemente na ação.
Os fatos, os
eventos e o enredo não são os elementos mais decisivos do romance; eles se
misturam e se embaralham com os sentimentos e emoções do narrador, despontam de
maneira acessória porquanto a intenção do autor não é “contar uma história” mas
expressar o fluxo do pensamento do personagem principal.
Neste sentido, o
escritor não utiliza da pontuação: há capítulos de até 4 ou 5 páginas de uma
mesma frase, sem o ponto final, destacando essa simultaneidade de eventos e
emoções que caracteriza o fluxo do pensamento.
O narrador não
conta apenas o que viu ou o que presenciou. Ele comenta, sempre dentro da mesma
oração, o reflexo desses fatos na sua alma, como sente o mundo, faz questionamentos
e reflexões existenciais no mesmo ato de contar a história, sempre dentro de
uma mesma frase. Ao relatar o que disse a um interlocutor, também afirma o que
pensava naquele momento e o que quis falar mas deixou de dizer. Ao lado de diálogos,
faz monólogos. Reproduz aquele fio eterno de continuidade que marca o
pensamento do ser dotado de consciência.
Há nessa
experimentação um forte componente poético do texto. Algumas passagens do
romance podem ser lidas como versos de um poema, sempre observando a orientação
geral das frases longas, em que coexistem, dentro de uma mesma oração:
diálogos, monólogos, reflexões filosóficas, pensamentos íntimos e, por último,
os eventos.
O enredo
propriamente dito remonta à história bíblica do filho pródigo. Aquele que abandona
o lar familiar em busca do gozo para depois exercer o arrependimento e ser
acolhido pelo pai através do perdão. Com algumas diferenças do conto bíblico,
como veremos.
André, o
protagonista, abandona a fazenda onde mora com a família para residir numa pobre
pensão na cidade. É movido pelo desejo de liberdade, pela revolta em torno da
figura opressiva do pai, o patriarca que dita as regras no seio da família. Sentados
na mesa de jantar, os filhos e a mulher estavam diariamente sujeitos aos
sermões do chefe de família. Todos trabalham na lavoura, estão obrigados a
observar a disciplina, a austeridade e a moralidade do patriarca.
Em “Lavoura Arcaica”
o filho pródigo rompe com a família, mas seus sentimentos não se reduzem apenas
à revolta contra a autoridade e a tradição. Ao expressar através da linguagem o
fluxo de pensamento do narrador, vemos em André os mais desejos contraditórios:
medo de abandono do pai, desejo de aceitação da família, saudades do afeto da mãe,
ódio contra o convencionalismo da família, saudades da natureza do campo,
desejos sexuais inconfessáveis. A essas circunstâncias se soma o amor
incestuoso que o protagonista sente por uma de suas irmãs: esse sentimento
bestial é revelado nos diálogos com o irmão mais velho e, ao final da história,
esse amor proibido conduzirá à tragédia do filicídio, ao assassinato da filha
Ana pelo patriarca.
Enquanto a
primeira parte do livro “A Partida” trata da fuga da fazenda à cidade e da
tentativa de o irmão mais velho levar consigo André de volta para família, na
segunda parte chamada “O Retorno”, temos a volta do filho pródigo. Tal qual a
história bíblica, a família igualmente decide realizar uma festa para comemorar
o retorno.
Mas, como dito,
há algumas diferenças importantes entre as duas histórias.
A mais importante delas é que o sentimento de
indiferença de André em relação ao perdão do pai. Diferentemente da parábola
bíblica, o diálogo final de André com o genitor não revela o arrependimento pela
fuga de casa, a despeito do perdão paterno. O que existe é a mais completa inexistência
do entendimento: um diálogo em que o filho expressa seus sentimentos mais
íntimos sem a mais remota compreensão do pai.
Ressalvado o uso
abusivo do termo, pode-se dizer que "Lavoura Arcaica", escrito em 1975, antecede aquilo
que ficou conhecido como “pós-modernidade”. O fim das ideologias dominantes do
século XX dá lugar à perda de referências, à crise de tudo aquilo que conferia
algum sentido coletivo ao homem, a família, a sociedade e o estado.
O protagonista
vive a experiência de solidão brutal daqueles destituídos de vínculo de
pertencimento. A pós modernidade é o rompimento com tudo aquilo que é
teleológico. Essa falta de sentido, de finalidade da vida, é sanada em um dos
sermões do pai: o essencial é olhar o mundo sem questionar jamais os desígnios insondáveis
dos acontecimentos.






