A Poesia de Vinícius de Moraes
Vinícius de
Moraes teve como maior mérito traduzir e aclimatar a poesia clássica ao gosto
popular. Ao reunir em torno de si as qualidades de poeta, músico e sambista,
teve a capacidade de criar versos conhecidos por todos os brasileiros, dos mais
humildes aos mais afortunados.
Que outro poeta em
toda história da literatura portuguesa granjeou tamanha popularidade a tal
ponto que os seus versos sejam imediatamente cantados por qualquer um do povo?
Qual de nós
nunca teve contato com alguns desses versos?
“Tristeza não
tem fim,
Felicidade sim...”
Ou
“Era uma
casa, muito engraçada,
Não tinha
teto, não tinha nada”.
Isso para não
falar da canção “Garota de Ipanema” em parceria com Tom Jobim; trata-se
literalmente da música brasileira mais conhecida do mundo de todos os tempos,
ao lado de “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso.
Vinícius de Moraes
remete, neste sentido, ao velho trovadorismo português, primeiro movimento
literário em língua portuguesa que emerge na idade média, unindo a música e a poesia,
para com isso introduzir a arte às massas camponesas, notadamente numa época em
que o analfabetismo reinava de forma absoluta.
Mas essa
popularização da poesia em Vinícius de Moraes deu-se de forma gradual, como
consequência de uma evolução em longa duração dos seus escritos: começou como
um poeta neosimbolista e daí transitou para os sonetos e temas do cotidiano,
aproximando-se da música por meio da bossa nova e depois do samba, sem prejuízo
dos seus versos infantis.
Pode-se dividir
a poesia do escritor carioca em duas grandes fases. Que poderíamos resumir num
trânsito entre o “sublime” (a busca pela transcendência) e a “apologia do cotidiano”.
Uma primeira
fase perdura entre os anos de 1933 até 1943, compreendendo os livros “O Caminho
Para a Distância”; “Forma e Exegese”, “Ariana, A Mulher”; “Novos Poemas” e “Cinco
Elegias”. São os trabalhos de juventude do escritor e têm um estilo bastante
diferente dos versos populares do período subsequente. Estão dentro da estética neosimbolista, de
orientação mística e tendência declamatória. Há uma certa uniformidade no tema dos
poemas circunscritos à figura da mulher, da natureza e da morte. Vão traduzir
uma vontade de transcendência e de fuga da realidade: em um dos poemas, o amor
é descrito como o “infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo”.
Os versos são
mais extensos, há longas orações que tornam a leitura pouco acessível; essa
forma será posteriormente abandonada em detrimento da linguagem concisa e
coloquial que marca os poemas da fase subsequente.
Na juventude,
Vinícius de Moraes estudou num colégio de jesuítas e essa referência religiosa
se combina com o misticismo, um certo formalismo na linguagem e escapismo. Mas
desde sempre, o tema da mulher se fará presente. Nessa primeira fase, muito
relacionada com a experiência de fruir a beleza da natureza, com o sensualismo
e com a experiência da morte – em “Vida
Vivida” por exemplo, o homem caminha para os braços da mulher como se caminhasse
em direção à morte:
“O que é a
mulher em mim senão o Túmulo
O branco
marco da minha rota peregrina
Aquela em
cujos braços vou caminhando para a morte
Mas em cujos
braços somente tenho vida?”
A partir da
década de 1940, podemos situar uma segunda grande fase da poesia de Vinícius de
Morais.
São dessa época
os livros “Poemas, Sonetos e Baladas”, “Antologia Poética” e “Orfeu da
Conceição”. Há aqui o abandono do “sublime” (busca pela transcendência) em direção
ao “elogio do cotidiano”. O tom declamatório é substituído pela concisão e pelo
coloquialismo. As orações extensas são trocadas por sonetos e versos curtos, explorando
mais as rimas e a musicalidade da poesia. Os temas se diversificam: além do
amor e da mulher, aparece os acontecimentos das ruas como o carnaval (“Soneto
do Carnaval” e “Soneto de Quarta Feira de Cinzas”), a reflexão filosófica em
torno da vida (“Dia da Criação” e “O Testamento”) e até mesmo a crítica
política e social (“Operário em Construção” e “Pátria Minha”).
Esse maior apelo
ao cotidiano a partir da segunda fase vai transformando um poeta clássico no
artista popular conhecido dos dias de hoje. O salto qualitativo na popularização
da alta poesia deu-se através da introdução da música, por meio das parcerias
musicais. Foram inúmeras essas parcerias, podendo-se citar as mais conhecidas delas
: Tom Jobim, Baden Powel e Toquinho. O apoio da melodia e da música conferem à poesia
a popularidade.
Vinícius de
Moraes, além de poeta, foi diplomata, jornalista, crítico de cinema e cantor.
Alçou a música
popular brasileira à notoriedade mundial. Suas apresentações musicais pelo
mundo afora foram sempre um grande sucesso de público.
Mas sempre foi
negligente no exercício dos cargos burocráticos. Notoriamente boêmio, fumava,
apreciada o uísque, apreciava a sesta depois do almoço e curtia “as tardes em Itapuã”, cidade baiana onde morou e que
inspirou a famosa canção em parceria com Toquinho. (https://www.youtube.com/watch?v=lWh6py31Dmc)
Também dedicou
muito do seu tempo às mulheres: foi casado nove vezes. Ficou conhecido o seu
poema “Receita de Mulher” que começa assim: “As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental.”.
Vinícius de
Moraes afastado do Ministério das Relações Exteriores em 1968 no contexto do
AI-5 enquanto fazia uma apresentação musical na Europa. Suspeitou-se na época
que esse desligamento compulsório era produto de repressão política dos militares.
Entretanto, foi
posteriormente esclarecido que a demissão teve origem no pouco interesse do
poeta pelo trabalho no consulado – quando prestava serviços em Montevidéu,
passava meses sem bater o ponto na Embaixada.
Isso hoje pouco
importa. Vinícius de Moraes por meio da sua contribuição à poesia e à música
popular brasileira foi o maior embaixador cultural do Brasil de todos os
tempos.
Bibliografia
“Vinícius de
Moraes” – Literatura Comentada – Ed. Abril (org. Carlos Felipe Moisés).






