A Poesia de Thiago de Mello
“Fica decretado que
os homens
estão livres do
jugo da mentira.
Nunca mais será
preciso usar
a couraça do
silêncio
nem a armadura de
palavras”
(“Os Estatutos da
Vida – Ato Institucional Permanente” – Thiago de Mello)
Toda arte é, em
alguma medida, expressão da vida social. Mesmo quando sua forma envolva o mais
alto grau de abstração, dela se evidenciam os valores, as crenças, as ideias e os
sentimentos compartilhados pela sociedade em determinada conjuntura histórica.
Na poesia do
escritor amazonense Thiago de Mello (1926/2022) essa relação indissociável
entre arte e vida é ainda mais evidente.
Sua poesia nasce
da vida e, por extensão, sua vida se alimentou da sua poesia; sua intencionalidade
de artista não se limitou ao fim estético que almeja a beleza mas também contribuir
para que o homem adquira consciência de sua verdadeira condição dentro da
sociedade em que vive.
Em outras
palavras, a poesia não é só um fim almejado pelo artista que busca extrair a
beleza do mundo. A poesia deve servir à Vida da qual ela nasce.
Vida com “v”
maiúsculo significando mais do que meramente existir, mas a mais decisiva oportunidade
de levar essa existência à plenitude, através do amor ao próximo, da pureza de
intenções e da alegria, mesmo em tempos de trevas.
E é assim que o
artista inicia um dos seus livros de poesia:
A
VIDA VERDADEIRA
Pois
aqui está a minha vida.
Pronta
para ser usada.
Vida
que não se guarda
nem
se esquiva, assustada.
Vida
sempre a serviço da vida.
Para
servir ao que vale
a
pena e o preço do amor.
Ainda
que o gesto me doa,
não
encolho a mão: avanço
levando
um ramo de sol.
Mesmo
enrolada de pó,
dentro
da noite mais fria,
a
vida que vai comigo é fogo:
está
sempre acesa.
Havendo essa
forte coesão entre arte e vida, pode-se também dizer que os versos de Thiago de
Mello pavimentaram sua trajetória de vida, a sua biografia.
O poeta nasceu em
30.03.1926 no município de Barreirinhas, Estado do Amazonas. Veio de uma
família de comerciantes nordestinos que migraram até a Amazônia no contexto do
ciclo da borracha.
Muito estudioso,
logo aos 16 anos ganha uma bolsa de estudos e se muda ao Rio de Janeiro para
estudar medicina na Faculdade da Praia Vermelha, atual Universidade Federal do
Rio de Janeiro. Naquela cidade, a capital e centro cultural do país, irá travar
relações com artistas e jornalistas, sendo recomendado por Carlos Drummond de
Andrade que recebeu com estima os versos enviados pelo jovem amazonense.
Na década de
1950 o jornal “Correio da Manhã” por meio do seu suplemento literário publica o
primeiro verso de Thiago de Mello, chamado “Argila”. Logo o escritor conquista
a amizade de Manuel Bandeira e José Lins do Rego, também bem impressionados com
os versos daquele jovem oriundo dos rincões da floresta amazônica.
O primeiro livro
de poesias foi publicado por uma editora criada pelo próprio escritor, contando
com pouco mais de cem exemplares distribuídos. A obra foi celebrada Álvaro
Lins, principal crítico literário do país.
Em 1952, Thiago de Mello já lança seu segundo livro chamado “Narciso
Cego” desta vez pela editora José Olympio, a mais importante do Brasil de
meados do século XX. Com menos de 30 anos de idade, já era saudado pela crítica,
sendo alçado à cadeira da Academia Amazonense de Letras no ano de 1955.
A partir da década
de 1960, com os eventos políticos que conduziram o golpe militar e deposição do
governo nacionalista de João Goulart, a poesia de Thiago de Mello ganha maior
conotação política. Àquela época o escritor trabalhava como adido cultural da
embaixada brasileira no Chile, pedindo seu desligamento logo após os eventos que
alçaram as Forças Armadas ao poder.
Já em maio de
1964, um mês depois do golpe, Thiago de Mello publicou no jornal um poema
sarcástico chamado “Os Estatutos do Homem” – seu subtítulo é “Ato Institucional
Permanente” tratando de forma irônica o Ato Institucional I, decretado pela Junta
Militar que assumiu o poder, determinando “provisoriamente” a suspensão das
garantias constitucionais, cassação de mandatos e suspensão dos direitos políticos
de opositores.
Os
Estatutos do Homem - (Ato Institucional Permanente)
Artigo
I.
Fica
decretado que agora vale a verdade.
que
agora vale a vida,
e
que de mãos dadas,
trabalharemos
todos pela vida verdadeira.
Artigo
II.
Fica
decretado que todos os dias da semana,
inclusive
as terças-feiras mais cinzentas,
têm
direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo
III.
Fica
decretado que, a partir deste instante,
haverá
girassóis em todas as janelas,
que
os girassóis terão direito
a
abrir-se dentro da sombra;
e
que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas
para o verde onde cresce a esperança.
Artigo
IV.
Fica
decretado que o homem
não
precisará nunca mais
duvidar
do homem.
Que
o homem confiará no homem
como
a palmeira confia no vento,
como
o vento confia no ar,
como
o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo
Único:
O
homem confiará no homem
como
um menino confia em outro menino.
Logo depois, o
poeta se aproximou do Movimento Nacionalista Revolucionário, organização que propunha
o combate em armas à ditadura e que liderou a Guerrilha do Caparaó, inspirada
nos guerrilheiros cubanos de Serra Maestra. Foi obrigado a viver na
clandestinidade até 1969, quando foi compelido a se exilar no Chile, no
contexto do recrudescimento das perseguições após o AI-5.
Naquele país
travou relações com o poeta Pablo Neruda. O Chile era então presidido pelo
socialista Salvador Allende e agrupava muitos expatriados brasileiros. Thiago
de Mello foi nomeado diretor do Departamento de Comunicação no governo esquerdista
chileno, isso até o golpe de Augusto Pinochet em 1972, quando os militares
chilenos invadiram e destruíram a casa do poeta, levando livros e material de
trabalho.
Thiago de Mello
foi conduzido à delegacia e por pouco não foi levado com os demais presos ao
fuzilamento: por ser brasileiro, foi liberado junto com o seu filho,
conseguindo asilo na Argentina, passando depois para Alemanha, França e
Portugal.
O poeta da Amazônia
só conseguiu retornar ao Brasil em 30 de Outubro de 1977, no contexto de
reabertura “lenta, gradual e segura” do regime militar. Ainda assim, foi
conduzido ao DOPS e obrigado a ficar à disposição da polícia para prestar
depoimento.
Ao final da
vida, Thiago de Melo decide voltar a sua terra natal, o Amazonas que lhe serviu
de inspiração para muitos dos seus poemas.
Pediu a um amigo
arquiteto que construísse sua casa numa pequena comunidade ribeirinha às
margens do Rio Andirá, a 400 Km de Manaus. Nessa fase final de sua vida, dedica
seus livros em prosa e verso ao elogio da floresta amazônica onde está
internado (num novo exílio?). Alguns dos títulos dos seus livros desse período
são: Manaus, Amor e Memória, 1984; Amazonas, Pátria da Água, 1991; e Amazônia
— A Menina dos Olhos do Mundo, 1992.
O poeta faleceu em
janeiro de 2022, quando tinha 95 anos de idade. A despeito do reconhecimento do
seu mérito literário dentro da crítica especializada, ainda é um escritor
relativamente desconhecido do público. O que não confere justiça a sua poesia
popular, tecida por palavras simples, plenamente acessível ao entendimento do
povo.
Bibliografia
“Faz Escuro mas
eu canto” - Thiago de Mello – Ed. Record
“Thiago de
Mello: fortuna crítica (1951-1960)” Lima, Pollyanna Furtado – Dissertação de
Mestrado UFAM.

Excelente texto!!!
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