terça-feira, 21 de abril de 2026

A Poesia de Thiago de Mello

 A Poesia de Thiago de Mello




 

“Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar

a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras”

(“Os Estatutos da Vida – Ato Institucional Permanente” – Thiago de Mello)

 

Toda arte é, em alguma medida, expressão da vida social. Mesmo quando sua forma envolva o mais alto grau de abstração, dela se evidenciam os valores, as crenças, as ideias e os sentimentos compartilhados pela sociedade em determinada conjuntura histórica.

Na poesia do escritor amazonense Thiago de Mello (1926/2022) essa relação indissociável entre arte e vida é ainda mais evidente.

Sua poesia nasce da vida e, por extensão, sua vida se alimentou da sua poesia; sua intencionalidade de artista não se limitou ao fim estético que almeja a beleza mas também contribuir para que o homem adquira consciência de sua verdadeira condição dentro da sociedade em que vive.

Em outras palavras, a poesia não é só um fim almejado pelo artista que busca extrair a beleza do mundo. A poesia deve servir à Vida da qual ela nasce.

Vida com “v” maiúsculo significando mais do que meramente existir, mas a mais decisiva oportunidade de levar essa existência à plenitude, através do amor ao próximo, da pureza de intenções e da alegria, mesmo em tempos de trevas.  

E é assim que o artista inicia um dos seus livros de poesia:

A VIDA VERDADEIRA

Pois aqui está a minha vida.

Pronta para ser usada.

Vida que não se guarda

nem se esquiva, assustada.

Vida sempre a serviço da vida.

Para servir ao que vale

a pena e o preço do amor.

Ainda que o gesto me doa,

não encolho a mão: avanço

levando um ramo de sol.

Mesmo enrolada de pó,

dentro da noite mais fria,

a vida que vai comigo é fogo:

está sempre acesa.

 

Havendo essa forte coesão entre arte e vida, pode-se também dizer que os versos de Thiago de Mello pavimentaram sua trajetória de vida, a sua biografia.

O poeta nasceu em 30.03.1926 no município de Barreirinhas, Estado do Amazonas. Veio de uma família de comerciantes nordestinos que migraram até a Amazônia no contexto do ciclo da borracha.

Muito estudioso, logo aos 16 anos ganha uma bolsa de estudos e se muda ao Rio de Janeiro para estudar medicina na Faculdade da Praia Vermelha, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Naquela cidade, a capital e centro cultural do país, irá travar relações com artistas e jornalistas, sendo recomendado por Carlos Drummond de Andrade que recebeu com estima os versos enviados pelo jovem amazonense.

Na década de 1950 o jornal “Correio da Manhã” por meio do seu suplemento literário publica o primeiro verso de Thiago de Mello, chamado “Argila”. Logo o escritor conquista a amizade de Manuel Bandeira e José Lins do Rego, também bem impressionados com os versos daquele jovem oriundo dos rincões da floresta amazônica.  

O primeiro livro de poesias foi publicado por uma editora criada pelo próprio escritor, contando com pouco mais de cem exemplares distribuídos. A obra foi celebrada Álvaro Lins, principal crítico literário do país.  Em 1952, Thiago de Mello já lança seu segundo livro chamado “Narciso Cego” desta vez pela editora José Olympio, a mais importante do Brasil de meados do século XX. Com menos de 30 anos de idade, já era saudado pela crítica, sendo alçado à cadeira da Academia Amazonense de Letras no ano de 1955.

A partir da década de 1960, com os eventos políticos que conduziram o golpe militar e deposição do governo nacionalista de João Goulart, a poesia de Thiago de Mello ganha maior conotação política. Àquela época o escritor trabalhava como adido cultural da embaixada brasileira no Chile, pedindo seu desligamento logo após os eventos que alçaram as Forças Armadas ao poder.

Já em maio de 1964, um mês depois do golpe, Thiago de Mello publicou no jornal um poema sarcástico chamado “Os Estatutos do Homem” – seu subtítulo é “Ato Institucional Permanente” tratando de forma irônica o Ato Institucional I, decretado pela Junta Militar que assumiu o poder, determinando “provisoriamente” a suspensão das garantias constitucionais, cassação de mandatos e suspensão dos direitos políticos de opositores.

Os Estatutos do Homem - (Ato Institucional Permanente)

Artigo I.

Fica decretado que agora vale a verdade.

que agora vale a vida,

e que de mãos dadas,

trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.

Fica decretado que todos os dias da semana,

inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.

Fica decretado que, a partir deste instante,

haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.

Fica decretado que o homem

não precisará nunca mais

duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

como a palmeira confia no vento,

como o vento confia no ar,

como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:

O homem confiará no homem

como um menino confia em outro menino.

 

Logo depois, o poeta se aproximou do Movimento Nacionalista Revolucionário, organização que propunha o combate em armas à ditadura e que liderou a Guerrilha do Caparaó, inspirada nos guerrilheiros cubanos de Serra Maestra. Foi obrigado a viver na clandestinidade até 1969, quando foi compelido a se exilar no Chile, no contexto do recrudescimento das perseguições após o AI-5.

Naquele país travou relações com o poeta Pablo Neruda. O Chile era então presidido pelo socialista Salvador Allende e agrupava muitos expatriados brasileiros. Thiago de Mello foi nomeado diretor do Departamento de Comunicação no governo esquerdista chileno, isso até o golpe de Augusto Pinochet em 1972, quando os militares chilenos invadiram e destruíram a casa do poeta, levando livros e material de trabalho.

Thiago de Mello foi conduzido à delegacia e por pouco não foi levado com os demais presos ao fuzilamento: por ser brasileiro, foi liberado junto com o seu filho, conseguindo asilo na Argentina, passando depois para Alemanha, França e Portugal.

O poeta da Amazônia só conseguiu retornar ao Brasil em 30 de Outubro de 1977, no contexto de reabertura “lenta, gradual e segura” do regime militar. Ainda assim, foi conduzido ao DOPS e obrigado a ficar à disposição da polícia para prestar depoimento.

Ao final da vida, Thiago de Melo decide voltar a sua terra natal, o Amazonas que lhe serviu de inspiração para muitos dos seus poemas.

Pediu a um amigo arquiteto que construísse sua casa numa pequena comunidade ribeirinha às margens do Rio Andirá, a 400 Km de Manaus. Nessa fase final de sua vida, dedica seus livros em prosa e verso ao elogio da floresta amazônica onde está internado (num novo exílio?). Alguns dos títulos dos seus livros desse período são: Manaus, Amor e Memória, 1984; Amazonas, Pátria da Água, 1991; e Amazônia — A Menina dos Olhos do Mundo, 1992.

O poeta faleceu em janeiro de 2022, quando tinha 95 anos de idade. A despeito do reconhecimento do seu mérito literário dentro da crítica especializada, ainda é um escritor relativamente desconhecido do público. O que não confere justiça a sua poesia popular, tecida por palavras simples, plenamente acessível ao entendimento do povo.

Bibliografia

“Faz Escuro mas eu canto”  - Thiago de Mello – Ed. Record

“Thiago de Mello: fortuna crítica (1951-1960)” Lima, Pollyanna Furtado – Dissertação de Mestrado UFAM.

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