terça-feira, 1 de setembro de 2026

A Coluna Prestes

 A Coluna Prestes





A Coluna Prestes foi a maior marcha militar (em termos de distância percorrida) de toda a história mundial.

Enquanto a “Grande Marcha” conduzida por Mao Tse Tung na Revolução Chinesa percorreu cerca de 10.000 Km, os tenentes liderados por Luiz Carlos Prestes, entre 1924 e 1927, trilharam incríveis 24 mil quilômetros.

Os brasileiros levaram adiante uma guerra de movimento, percorrendo até 60 Km por dia, enveredando pelos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Piauí, Paraíba, Pernambuco, Bahia e Minas Gerais. Nunca estacionaram as tropas em lugar nenhum por mais do que 48 horas; em três anos percorreram os planaltos do centro oeste brasileiro, as mata cerradas do Piauí e do Maranhão, onde travaram relações com indígenas da nação Xerente,  atravessaram em pequenas embarcações o Rio São Francisco e atingiram o sertão baiano, quando foram perseguidos por jagunços recrutados pelas oligarquias locais.

Se não alcançaram o pleno êxito de colocar abaixo o Governo de Arthur Bernardes, não se pode dizer que saíram derrotados: mantiveram a luta por 647 dias até alcançarem o exílio na Bolívia em fevereiro de 1927. A Coluna Prestes levou adiante uma campanha nacional bem sucedida defendendo o voto secreto, o fim da censura à imprensa e a anistia aos militares de baixa patente que lutavam contra a República Oligárquica desde 1922. E, mais importante, o movimento de agitação política promovido pelos revolucionários na grande epopeia pelo interior do Brasil pavimentou a vitória da Revolução de 1930 que colocaria fim à Primeira República e abriria um novo horizonte de modernização e desenvolvimento do país dentro do velho espírito tenentista.

O primeiro sintoma da crise terminal da República Velha (1889/1930) dá-se no ano de 1922.

Aquele seria o ano do advento do modernismo nas artes através da Semana da Arte Moderna de 1922. Naquele ano foi fundado também o Partido Comunista Brasileiro. E já na posse do novo governo de Arthur Bernardes, marcada pela grotesca fraude eleitoral, haveria o martírio heroico de militares e de um civil na Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Trata-se do primeiro levante dos militares contra o regime político e pode ser considerado como o ponto de partida mais remoto da Coluna Prestes.

Iniciava-se, naquele momento de 1922, o movimento tenentista, conduzido por militares de baixa patente, que almejavam reformas institucionais que combatessem a fraude eleitoral, incluindo o voto secreto, e o fim do predomínio absoluto das oligarquias agrárias na direção do governo.

A partir daquele momento a ampla insatisfação contra a República Velha já não se reduzia à oposição parlamentar, mas alcançava o povo; partia do incipiente sindicalismo, conduzido por anarquistas e depois pelos comunistas, mas principalmente pelos tenentes, os militares oriundos de setores médios e do povo que viam nas forças armadas e nas poucas escolas militares uma possibilidade de ascensão social.

Em 1924 os tenentes levam adiante um novo movimento insurrecional contra o governo, aos moldes da revolta de 1922, mas agora com maior grau de organização e adesão. Em cinco de julho, 2600 soldados se levantam em São Paulo sob o comando do Major Miguel Costa. As forças rebeldes tomam o controle das estações da Luz e Sorocabana. Abrem fogo de artilharia contra o Palácio dos Campos Elísios onde estava o Presidente do Estado. Tropas federais são enviadas do Rio de Janeiro, mas parte dos militares enviados adere ao movimento. O governador paulista abandona a cidade no dia 9 e São Paulo cai nas mãos dos rebeldes que lançam um manifesto público pedindo a deposição de Arthur Bernardes.

O odiado Arthur Bernardes ordena o bombardeiro de São Paulo obrigando os revolucionários a recuarem. Abandonam a cidade em 27 de julho e descem pelo Paraná até estacionarem em Foz de Iguaçu. Um segundo levante com a mesma diretriz política é levado adiante pelos militares no Rio Grande do Sul. Na madrugada do dia 29 de outubro de 1924 um motim dirigido por Luiz Carlos Prestes toma de assalto um batalhão militar na cidade de Santo Ângelo com a conquista da cidade. O tenente Antônio de Siqueira Campos, sobrevivente da Revolta do Forte de Copacabana, toma a cidade de São Borja. Juarez Távora conduz o motim em Uruguaiana.

Depois de algumas escaramuças com as tropas do governo, cerca de 3.000 revolucionários gaúchos se agrupam em São Luís Gonzaga sob o comando de Luiz Carlos Prestes. Tomam a decisão de mover em direção ao norte, passando por Santa Catarina e chegar até o Paraná para cerrar fileiras com os revolucionários de São Paulo. Com a reunião dos dois movimentos revolucionários do Rio Grande do Sul e de São Paulo que constituiu uma coluna militar que seria depois conhecida como a Coluna Prestes.

A ampla insatisfação dentro das forças armadas com o governo de Arthur Bernardes criava dificuldades na repressão do movimento. Eram comuns as deserções de militares legalistas para o lado dos rebeldes. Havia em outros casos uma franca simpatia pelo movimento ou, na melhor das hipóteses, nenhum interesse dos soldados levantar as armas contra compatriotas para defender um regime visto como ilegítimo.

Num primeiro momento, o governo foi obrigado a recrutar Cândido Rondon, o grande sertanista que conduzia expedições militares na Amazônia, com o objetivo de reprimir o movimento. O  amplo conhecimento do futuro marechal do hinterlândia brasileiro, adquirido no trabalho de levar adiante telégrafos  pelo grande centro oeste brasileiro, tornava-o o homem certo para a tarefa de esmagar a coluna. Homem de extrema lhaneza, mas fiel ao juramento de Farda, Rondon assumiu a missão a contragosto. Causando-lhe provavelmente muita satisfação, nesse primeiro momento, apenas algumas poucas escaramuças ocorreram. Os revolucionários retiraram-se de Guaíra no Paraná para o território Paraguaio, retornando depois pelo estado do Mato Grosso. Rondon dava por encerrada a sua inglória missão de combater a coluna.

Como os militares não eram cofiáveis ao governo para a tarefa de destruir a coluna, o governo foi obrigado a apelar para os batalhões de polícias estaduais, sob o comando dos Presidentes dos Estados (o que hoje chamaríamos de governadores). Quando as tropas insurgente atingem o nordeste, surgem os maiores enfrentamentos com baixas e feridos, a partir de quando as oligarquias locais arregimentam jagunços e bandoleiros para perseguir os tenentes.

Ficou para história o conhecido encontro entre Lampião e o Padre Cícero de Juazeiro do Norte. O líder religioso recebeu a incumbência do governo de recrutar Virgulino para organizar o seu bando e combater a Coluna Prestes. Concederam-lhe até mesmo o título de capitão e forneceram armas aos cangaceiros. Lampião e seus parceiros depois de receberem de bom grado a munição e a patente militar, ignoraram a missão e prosseguiram com a atividade bandoleira, sem se preocupar com a coluna.

A vantagem militar dos revolucionários decorrida da maior capacidade de movimento. As tropas oficiais conduzidas pelas cavalarias não conseguiam percorrer mais do que 20 km por dia, enquanto a coluna percorria até 60 quilômetros. Naquela época ainda era incipiente o uso da aviação para combates militares. Os tenentes organizavam ainda as “potreadas”, uma espécie de guerrilha dentro da guerrilha. Eram pequenos grupos de assalto que faziam o abastecimento das tropas capturando cavalos e gado para transporte e alimentação, além de fazer o reconhecimento do território, surpreendendo e confundindo o inimigo que nunca sabia ao certo para onde a coluna estava se dirigindo.

Havia ainda uma franca superioridade moral e política dos tenentes: eram em muitos lugares recebidos com simpatia pela população dos pequenos vilarejos do sertão brasileiro, onde distribuíam o seu jornal “O Libertador”. Numa cidade, invadiram um cartório e fizeram uma exposição pública queimando a certidão dos devedores dos impostos do município, evidenciando a ilegitimidade do governo/credor dos tributos.

O término da Coluna Prestes dá-se em 03 de fevereiro de 1927, logo no início do Governo Whashington Luiz, o último da chamada República Velha. Foram ao todo 680 sobreviventes que se dispersam na Bolívia que os recepcionou como exilados.  

Luiz Carlos Prestes segue para a Argentina onde irá entrar em contato com a literatura marxistas e aderir ao comunismo. Seria, dentro do movimento tenentista, uma voz isolada. Todas as principais lideranças daquele movimento iriam apoiar a Revolução de 1930 e aderir ao Governo de Getúlio Vargas: Juarez Távora e Cordeiro de Farias permaneceriam como figuras de destaque dentro do novo regime. Já Prestes, consultado no exílio pelos seus correligionário, recusou-se a emprestar apoio à Getúlio Vargas. O líder gaúcho era visto como um preposto de Borges de Medeiro, o oligarca gaúcho que até poucos anos atrás combatia os tenentes na Revolta de 1924.

Depois de confrontar todo o conhecimento da realidade social brasileira através da grande epopeia da marcha com as ideias marxistas, Prestes chegaria à conclusão de que a mera alteração do governo não iria resolver os problemas do Brasil.

A partir daquele momento, passaria a acreditar que a resolução da questão nacional dar-se-ia através de uma Revolução Social conduzida pelo povo, pelos trabalhadores e pelos camponeses, e não através de uma vanguarda alicerçada nas forças armadas.

O fim do tenentismo sugere o encerramento de uma etapa histórica em que a pequena burguesia vai perdendo a sua potência revolucionária em detrimento da emergência do movimento dos trabalhadores e da ascensão do operariado como novo sujeito histórico da Revolução – fato que fora percebido apenas por Luiz Carlos Prestes, o elemento mais audacioso da Coluna.

Bibliografia:

VEIGA, Luiz Maria. “A Coluna Prestes”. Ed. Sciprione. 1992.

CASTRO, Chico. “A Coluna Prestes no Piauí”. Edições Senado Federal.