Os Contos de Aníbal
Machado
Resenha Livro – “Histórias Reunidas” – Aníbal Machado – José Olympio Editora
É bastante
conhecida a contribuição de Minas Gerais à cultura nacional.
Na literatura,
os mineiros nos presentearam com João Guimarães Rosa. Na poesia, com Carlos
Drummond de Andrade. Nas artes plásticas e na arquitetura, com o barroco através
da obra de Aleijadinho. E no gênero dos contos, poderíamos fazer menção honrosa
ao mineiro Aníbal Machado (1894/1964), a despeito de ser um escritor pouco
conhecido nos dias de hoje.
O conto é uma
espécie de gênero literário que se diferencia do romance e da novela. São
histórias mais curtas, geralmente centradas em um único evento. Enquanto o
romance se equipara a um loga metragem, o conto poderia se referir a um curta
metragem ou, talvez, a uma fotografia.
Os contos de
Aníbal Machado reúnem temas tirados do cotidiano em que se fundem o lirismo, a
poesia, algumas tragédias e um refinado toque de humor. O escritor, por meio
dos seus personagens, reúne em si todos os caracteres típicos do mineiro.
Trata-se de uma literatura marcada pela discrição, uma certa timidez, um humor
sutil e uma aversão à vulgaridade e a tudo o que soa histriônico. Num ensaio
autobiográfico, o contista explica que “o mineiro evita oferecer aos outros o
espetáculo da própria fraqueza. Não se chame a isso hipocrisia, mas decência”.
Aníbal Machado
nasceu em Sabará no ano de 1894. Na faculdade de Direito de Belo Horizonte
iniciou a sua vida literária publicando textos de crítica literária e crônicas.
Depois de formado, atua por pouco tempo como promotor mas, sem vocação para o
mundo jurídico, muda-se para o Rio de Janeiro onde irá lecionar literatura no
prestigiado Colégio Pedro II.
Isso se deu na
década de 1920 quando se iniciava um movimento de renovação da literatura brasileira
partindo de São Paulo por meio da Semana de Arte Moderna de 1922.
Aníbal Machado
se liga aos modernistas desde o Rio de Janeiro e escreve textos para revistas
de literatura. Em alguns dos seus contos que seriam publicados no futuro podemos
observar alguma influência das tendências vanguardistas e mais experimentais do
grupo liderado por Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia.
O movimento
modernista buscava romper com as amarras de uma tradição literária toda
ancorada rigidamente em modelos europeus; por meio da antropofagia, buscavam
incorporar algumas tendências estrangeiras como o surrealismo e o dadaísmo, mas
aclimatando-as ao Brasil, criando algo novo, uma forma de arte especificamente
brasileira.
Vemos ecos desse
horizonte em contos de Aníbal Machado como “O Desfile dos Chapéus”: numa
espécie de vertigem surrealista um homem é confrontado com a visão de um
desfile de todos os chapéus que colocou na sua cabeça durante toda a vida, num
ritmo sucessivo, que vai despontando cada etapa de sua existência: do boné da
criança ao chapéu do casamento do adulto.
Quando morava no
Rio de Janeiro, Aníbal Machado travou relações com a nata da intelectualidade
brasileira das primeiras décadas do século XX. Sua casa em Ipanema era ponto de
encontro de artistas, escritores e poetas como Manoel Bandeira, Carlos Drumond
de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda e Vinícius de Moraes.
Infelizmente, a
produção literária do escritor de Sabará é escassa. Ele próprio dizia que “não
gostava de escrever pois preferia ouvir”. Escreveu apenas um romance, publicado
postumamente, chamado “João Ternura”. Já os seus contos estão na obra “Histórias
Reunidas” publicada pela Editora José Olympio em 1959. Também foi autor do
livro “Brandão entre o mar e o amor”, um romance escrito em co-autoria com Graciliano
Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.
A leitura das “Histórias
Reunidas” revela uma riqueza e diversidade do estilo do escritor.
São doze contos
com características bastante diferentes entre si. Há algumas histórias
que se servem do pitoresco e do humor, como “O Piano”, uma pequena comédia
tratando das desventuras de uma família suburbana que se mobiliza para se desvencilhar
do instrumento espaçoso, para liberar um quarto destinado ao enxoval de uma
filha que irá se casar. Outro conto devotado ao humor é o “Homem Alto”, uma
história fantástica na qual um personagem baixinho (1.45m) adquire poderes para
aumentar de estatura com a força da mente e com isso descobre a diferença de
respeitabilidade que a sociedade e as mulheres conferem ao homem de acordo com
o seu tamanho.
Mas o ponto alto
da literatura de Aníbal Machado se revela nas histórias em que abandona o
pitoresco em troca do lirismo e de uma sensibilidade que nos remete às
histórias de João Guimarães Rosa, talvez mais aclimatadas ao ambiente urbano,
que predomina nos contos de Aníbal. Poderíamos dizer que contos como “O
iniciado do Vento” e “Viagem aos Seios de Duília” carregam a mesma universalidade e os
questionamentos existencialistas que emergem do “Sertão” descrito por João
Guimarães Rosa.
“Iniciados ao Vento”
retrata a amizade de um jovem engenheiro que busca refúgio numa pequena cidade mineira
nas montanhas, para se recuperar da tragédia ocorrida na construção de uma
ponte por ele planejada. Lá irá travar relação com um menino que irá lhe apresentar
o que melhor amigo: o vento.
São constantes
alusões poéticas ao vento, alçado à condição de personagem, com atributos
humanos. São os ventos “que se comunicam”, os seus movimentos estão sempre
pronunciando algo que está por vir. De forma sagaz, a sensibilidade da criança
percebe que sem o vento, o mundo perde a graça, pois deixa de se perceber os
movimentos das coisas, como se tudo fosse uma fotografia. O vento também é misterioso: é algo que não se
deixa agarrar mas, ao mesmo tempo, vive em toda parte sempre, dando sempre
demonstrações de sua presença.
“Viagem aos
seios de Duília” poderia figurar ao lado de “O Alienista” de Machado de Assis e
“Urupês” de Monteiro Lobato como a mais bela expressão do conto e da novela de
toda história da literatura brasileira.
Trata-se da
história de um homem solteiro, sem filhos e solitário que certo dia foi
surpreendido com a chegada da sua aposentadoria. Dedicou a vida inteira à
rotina do trabalho e o impacto que lhe causa a surpresa de estar no fim da vida
o conduz a ressignificação da vida e de uma busca insensata do passado.
Abandona sua
casa no Rio de Janeiro e se lança numa viagem até a sua cidade natal no
interior mais remoto de Minas Gerais para o reencontro com Duília. Uma mulher
por quem se apaixonou na adolescência por uma mera troca de olhares: num
desfile da escola, trocou olhares com a menina e nesse relance a garota lhe revelou
discretamente os peitos. Surge no velho aposentado um desejo de alterar a trajetória
da sua vida, uma ânsia de retorno ao passado motivado por um desejo de alterar
todos os fatos supervenientes por que passou o solteirão na fase adulta: como
teria sido se não tivesse sido paralisado pela timidez e travado relações com
Duília?
Ao término da
história, o protagonista encontra a mulher irremediavelmente marcada pelos
sinais do tempo, agora professora idosa de um pequeno lugarejo, com os peitos
simbolicamente decaídos. Há uma comoção seguida de um profundo desencanto nesse
reencontro. O protagonista, no final da viagem ao seio de Duília, chega à
conclusão melancólica de que o passado não estava lá, na sua cidade natal, mas
esteve o tempo todo dentro de si.

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