sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Os Contos de Aníbal Machado

Os Contos de Aníbal Machado





 


Resenha Livro – “Histórias Reunidas” – Aníbal Machado – José Olympio Editora

É bastante conhecida a contribuição de Minas Gerais à cultura nacional.

Na literatura, os mineiros nos presentearam com João Guimarães Rosa. Na poesia, com Carlos Drummond de Andrade. Nas artes plásticas e na arquitetura, com o barroco através da obra de Aleijadinho. E no gênero dos contos, poderíamos fazer menção honrosa ao mineiro Aníbal Machado (1894/1964), a despeito de ser um escritor pouco conhecido nos dias de hoje.

O conto é uma espécie de gênero literário que se diferencia do romance e da novela. São histórias mais curtas, geralmente centradas em um único evento. Enquanto o romance se equipara a um loga metragem, o conto poderia se referir a um curta metragem ou, talvez, a uma fotografia.

Os contos de Aníbal Machado reúnem temas tirados do cotidiano em que se fundem o lirismo, a poesia, algumas tragédias e um refinado toque de humor. O escritor, por meio dos seus personagens, reúne em si todos os caracteres típicos do mineiro. Trata-se de uma literatura marcada pela discrição, uma certa timidez, um humor sutil e uma aversão à vulgaridade e a tudo o que soa histriônico. Num ensaio autobiográfico, o contista explica que “o mineiro evita oferecer aos outros o espetáculo da própria fraqueza. Não se chame a isso hipocrisia, mas decência”.

Aníbal Machado nasceu em Sabará no ano de 1894. Na faculdade de Direito de Belo Horizonte iniciou a sua vida literária publicando textos de crítica literária e crônicas. Depois de formado, atua por pouco tempo como promotor mas, sem vocação para o mundo jurídico, muda-se para o Rio de Janeiro onde irá lecionar literatura no prestigiado Colégio Pedro II.

Isso se deu na década de 1920 quando se iniciava um movimento de renovação da literatura brasileira partindo de São Paulo por meio da Semana de Arte Moderna de 1922.

Aníbal Machado se liga aos modernistas desde o Rio de Janeiro e escreve textos para revistas de literatura. Em alguns dos seus contos que seriam publicados no futuro podemos observar alguma influência das tendências vanguardistas e mais experimentais do grupo liderado por Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia.

O movimento modernista buscava romper com as amarras de uma tradição literária toda ancorada rigidamente em modelos europeus; por meio da antropofagia, buscavam incorporar algumas tendências estrangeiras como o surrealismo e o dadaísmo, mas aclimatando-as ao Brasil, criando algo novo, uma forma de arte especificamente brasileira.

Vemos ecos desse horizonte em contos de Aníbal Machado como “O Desfile dos Chapéus”: numa espécie de vertigem surrealista um homem é confrontado com a visão de um desfile de todos os chapéus que colocou na sua cabeça durante toda a vida, num ritmo sucessivo, que vai despontando cada etapa de sua existência: do boné da criança ao chapéu do casamento do adulto. 

Quando morava no Rio de Janeiro, Aníbal Machado travou relações com a nata da intelectualidade brasileira das primeiras décadas do século XX. Sua casa em Ipanema era ponto de encontro de artistas, escritores e poetas como Manoel Bandeira, Carlos Drumond de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda e Vinícius de Moraes.

Infelizmente, a produção literária do escritor de Sabará é escassa. Ele próprio dizia que “não gostava de escrever pois preferia ouvir”. Escreveu apenas um romance, publicado postumamente, chamado “João Ternura”. Já os seus contos estão na obra “Histórias Reunidas” publicada pela Editora José Olympio em 1959. Também foi autor do livro “Brandão entre o mar e o amor”, um romance escrito em co-autoria com Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.

A leitura das “Histórias Reunidas” revela uma riqueza e diversidade do estilo do escritor.

São doze contos com características bastante diferentes entre si. Há algumas histórias que se servem do pitoresco e do humor, como “O Piano”, uma pequena comédia tratando das desventuras de uma família suburbana que se mobiliza para se desvencilhar do instrumento espaçoso, para liberar um quarto destinado ao enxoval de uma filha que irá se casar. Outro conto devotado ao humor é o “Homem Alto”, uma história fantástica na qual um personagem baixinho (1.45m) adquire poderes para aumentar de estatura com a força da mente e com isso descobre a diferença de respeitabilidade que a sociedade e as mulheres conferem ao homem de acordo com o seu tamanho.

Mas o ponto alto da literatura de Aníbal Machado se revela nas histórias em que abandona o pitoresco em troca do lirismo e de uma sensibilidade que nos remete às histórias de João Guimarães Rosa, talvez mais aclimatadas ao ambiente urbano, que predomina nos contos de Aníbal. Poderíamos dizer que contos como “O iniciado do Vento” e “Viagem aos Seios de Duília”  carregam a mesma universalidade e os questionamentos existencialistas que emergem do “Sertão” descrito por João Guimarães Rosa.

“Iniciados ao Vento” retrata a amizade de um jovem engenheiro que busca refúgio numa pequena cidade mineira nas montanhas, para se recuperar da tragédia ocorrida na construção de uma ponte por ele planejada. Lá irá travar relação com um menino que irá lhe apresentar o que melhor amigo: o vento.

São constantes alusões poéticas ao vento, alçado à condição de personagem, com atributos humanos. São os ventos “que se comunicam”, os seus movimentos estão sempre pronunciando algo que está por vir. De forma sagaz, a sensibilidade da criança percebe que sem o vento, o mundo perde a graça, pois deixa de se perceber os movimentos das coisas, como se tudo fosse uma fotografia.  O vento também é misterioso: é algo que não se deixa agarrar mas, ao mesmo tempo, vive em toda parte sempre, dando sempre demonstrações de sua presença.

“Viagem aos seios de Duília” poderia figurar ao lado de “O Alienista” de Machado de Assis e “Urupês” de Monteiro Lobato como a mais bela expressão do conto e da novela de toda história da literatura brasileira.  

Trata-se da história de um homem solteiro, sem filhos e solitário que certo dia foi surpreendido com a chegada da sua aposentadoria. Dedicou a vida inteira à rotina do trabalho e o impacto que lhe causa a surpresa de estar no fim da vida o conduz a ressignificação da vida e de uma busca insensata do passado.

Abandona sua casa no Rio de Janeiro e se lança numa viagem até a sua cidade natal no interior mais remoto de Minas Gerais para o reencontro com Duília. Uma mulher por quem se apaixonou na adolescência por uma mera troca de olhares: num desfile da escola, trocou olhares com a menina e nesse relance a garota lhe revelou discretamente os peitos. Surge no velho aposentado um desejo de alterar a trajetória da sua vida, uma ânsia de retorno ao passado motivado por um desejo de alterar todos os fatos supervenientes por que passou o solteirão na fase adulta: como teria sido se não tivesse sido paralisado pela timidez e travado relações com Duília? 

Ao término da história, o protagonista encontra a mulher irremediavelmente marcada pelos sinais do tempo, agora professora idosa de um pequeno lugarejo, com os peitos simbolicamente decaídos. Há uma comoção seguida de um profundo desencanto nesse reencontro. O protagonista, no final da viagem ao seio de Duília, chega à conclusão melancólica de que o passado não estava lá, na sua cidade natal, mas esteve o tempo todo dentro de si.

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