sábado, 8 de agosto de 2026

Santos Dumont (1873/1932)

 Santos Dumont (1873/1932)


 

O sonho de alçar o homem ao ar e fazê-lo voar remonta aos períodos mais longínquos da história. Leonardo da Vinci ainda no século XVI elaborou cálculos e projetos de engenharia que conduzissem os homens às alturas. Mesmo antes, no século XI, consta que um monge inglês chamado Oliver Malmesbury construiu para si um par de asas mecânicas, atirou-se de uma torre e quebrou as duas pernas.

Um marco inicial da história da aviação deu-se em 1783 na França quando dois cientistas fizeram subir aos céus um balão impulsionado pela força ascensional do ar aquecido em seu interior.

A descoberta traduzia em termos práticos a ideia de Arquimedes em torno do empuxo dos corpos sujeitos à uma força vertical quando imersos na água. Tal qual a bola de pingue pongue jogada no fundo de um balde de água que sofre um impulso em direção à vertical, o balão sofre o mesmo impulso para cima, através do ar quente que cria condições para que o ar interno seja mais leve do que o ar externo, utilizando-se de gases que pesam menos do que o ar atmosférico, como o hidrogênio ou o gás hélio.

O grande problema dos balões era a sua “dirigibilidade” – durante a maior parte do tempo essa invenção fazia o corpo subir mas os seus movimentos estavam inteiramente condicionados às ações do vento, causando não raras vezes acidentes fatais. Havia grandes dificuldades particularmente no pouso, sendo necessário até a contratação de seguros caso o balão desfalecesse numa residência, causando-lhe incêndios e estragos.

Foram duas as grandes descobertas do brasileiro Santos Dumond: pela primeira vez construiu uma máquina mais pesada do que o ar que era capaz de voar; e da mesma maneira resolveu o problema da “dirigibilidade”, criando as condições para uma navegação sem estar sujeita às forças do vento.

Alberto Santos Dumont nasceu em 20 de julho de 1873 no interior de Minas Gerais. Seu pai era um engenheiro com formação em física e engenharia na França, que se transfere ao Brasil  onde desenvolve atividade de exploração de minérios e realiza obras públicas, incluindo a projeção de estradas de ferro em Barbacena. Posteriormente, desloca-se até Ribeirão Preto e instala uma fazenda de café. O jovem Santos Dumond tem os seus primeiros contatos com a engenharia na fazenda, notadamente pelo fato de seu pai ter se notabilizado por ser um dos precursores de novas tecnologias e maquinários na agricultura. Dentro desse pioneirismo, foi também um dos primeiros a introduzir o trabalho de imigrantes em substituição aos escravos.

Na infância, Santos Dumond era leitor de Júlio Verne, o grande escritor francês precursor da ficção científica. Já depois de adulto, consagrado mundialmente como o pai da aviação, receberia uma carta de homenagem desse mesmo escritor.

O pai da aviação mudou-se ainda jovem com a família para Paris, então principal centro cultural e tecnológico do mundo. A França vivia o período da Belle Époque que se caracterizava por uma grande era de desenvolvimento científico. Foi naquele período que surgiram os primeiros automóveis, que não passavam de 30 km por hora. Em paralelo, houve a descoberta dos pneus, inicialmente introduzidos nas bicicletas e depois nos demais veículos. Começou-se a disseminar a luz elétrica em substituição da luz de gás. Na física, se iniciavam as primeiras experiências da radioatividade. Inaugurava-se a indústria do cinema e do rádio. Uma era de otimismo se abria, cuja derrocada se daria a partir da I Guerra Mundial, quando todo o otimismo em torno do progresso foi confrontado com os horrores do campo de batalha. A racionalidade conduziu a humanidade à barbárie. 

Em Paris, Santos Dumond se liga ao grupo de inventores ligados ao manejo dos balões.

Participava de exposições e ia granjeando popularidade ao ponto de se tornar um cientista de reputação internacional. Isso se deu após 1901 quando um dirigível conduzido pelo brasileiro eleva-se em Saint-Cloud, contorna a Torre Eiffel e volta ao campo. Ao tocar o solo, é ovacionado por uma multidão como herói.  

A descoberta do avião tem uma data exata: 23 de Outubro de 1906 em uma exposição em que Dumond apresenta o aeroplano 14-Bis. Conduzido por um motor movido à gasolina, assombrou o público ao se elevar no ar percorrendo 100 metros a 80 cm do solo. Nunca até então se presenciara nada parecido com aquilo: uma máquina mais pesada do que o ar, capaz de alçar voo.

Posteriormente, houve quem dissesse que o avião já teria sido criado pelos norte-americanos em 1903. O que fica facilmente refutado pelo fato de que o tal aeroplano dos irmãos Wright ter alçado voo sem qualquer testemunha, o que é sintomático. 

O pai da aviação é brasileiro e o seu nome é Santos Dumont!

A despeito da notoriedade internacional, Santos Dumont pagou um preço caro pela sua descoberta. Ficou profundamente amargurado ao saber de acidentes e até presenciar em 1928 um acidente de avião  com vítimas fatais. Causou-lhe pesar ver a sua descoberta utilizada para fins destruição e morte de civis  na I Guerra Mundial. Talvez o momento de maior sofrimento ao inventor deu-se no contexto da Revolução Constitucionalista de 1932.

Dois anos após a Revolução que conduziu Getúlio Vargas ao poder, os paulistas, apeados do governo, levam adiante uma guerra civil, sob a palavra de ordem de constitucionalização do país. Santos Dumont apoia os paulistas e inclusive redige um manifesto. Durante o conflito entre brasileiros, o inventor estava em Santos e presenciou aviões ligados aos getulistas bombardeando um cruzador paulista ancorado no porto de Santos. Viu a sua invenção sendo utilizada para uma guerra entre compatriotas.

E assim, em 20 de julho de 1932, aos 59 anos de idade, Santos Dumont suicida-se.

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