Santos Dumont (1873/1932)
O sonho de alçar
o homem ao ar e fazê-lo voar remonta aos períodos mais longínquos da história. Leonardo
da Vinci ainda no século XVI elaborou cálculos e projetos de engenharia que
conduzissem os homens às alturas. Mesmo antes, no século XI, consta que um
monge inglês chamado Oliver Malmesbury construiu para si um par de asas
mecânicas, atirou-se de uma torre e quebrou as duas pernas.
Um marco inicial
da história da aviação deu-se em 1783 na França quando dois cientistas fizeram
subir aos céus um balão impulsionado pela força ascensional do ar aquecido em
seu interior.
A descoberta
traduzia em termos práticos a ideia de Arquimedes em torno do empuxo dos corpos
sujeitos à uma força vertical quando imersos na água. Tal qual a bola de pingue
pongue jogada no fundo de um balde de água que sofre um impulso em direção à vertical,
o balão sofre o mesmo impulso para cima, através do ar quente que cria
condições para que o ar interno seja mais leve do que o ar externo,
utilizando-se de gases que pesam menos do que o ar atmosférico, como o
hidrogênio ou o gás hélio.
O grande
problema dos balões era a sua “dirigibilidade” – durante a maior parte do tempo
essa invenção fazia o corpo subir mas os seus movimentos estavam inteiramente condicionados
às ações do vento, causando não raras vezes acidentes fatais. Havia grandes
dificuldades particularmente no pouso, sendo necessário até a contratação de
seguros caso o balão desfalecesse numa residência, causando-lhe incêndios e estragos.
Foram duas as
grandes descobertas do brasileiro Santos Dumond: pela primeira vez construiu uma
máquina mais pesada do que o ar que era capaz de voar; e da mesma maneira
resolveu o problema da “dirigibilidade”, criando as condições para uma
navegação sem estar sujeita às forças do vento.
Alberto Santos
Dumont nasceu em 20 de julho de 1873 no interior de Minas Gerais. Seu pai era
um engenheiro com formação em física e engenharia na França, que se transfere
ao Brasil onde desenvolve atividade
de exploração de minérios e realiza obras públicas, incluindo a projeção
de estradas de ferro em Barbacena. Posteriormente, desloca-se até Ribeirão Preto e
instala uma fazenda de café. O jovem Santos Dumond tem os seus primeiros
contatos com a engenharia na fazenda, notadamente pelo fato de seu pai ter se
notabilizado por ser um dos precursores de novas tecnologias e maquinários na
agricultura. Dentro desse pioneirismo, foi também um dos primeiros a introduzir
o trabalho de imigrantes em substituição aos escravos.
Na infância, Santos
Dumond era leitor de Júlio Verne, o grande escritor francês precursor da ficção
científica. Já depois de adulto, consagrado mundialmente como o pai da aviação,
receberia uma carta de homenagem desse mesmo escritor.
O pai da aviação
mudou-se ainda jovem com a família para Paris, então principal centro cultural e
tecnológico do mundo. A França vivia o período da Belle Époque que se
caracterizava por uma grande era de desenvolvimento científico. Foi naquele
período que surgiram os primeiros automóveis, que não passavam de 30 km por
hora. Em paralelo, houve a descoberta dos pneus, inicialmente introduzidos nas bicicletas
e depois nos demais veículos. Começou-se a disseminar a luz elétrica em
substituição da luz de gás. Na física, se iniciavam as primeiras experiências da
radioatividade. Inaugurava-se a indústria do cinema e do rádio. Uma era de
otimismo se abria, cuja derrocada se daria a partir da I Guerra Mundial, quando todo o otimismo em torno do progresso foi confrontado com os horrores do
campo de batalha. A racionalidade conduziu a humanidade à barbárie.
Em Paris, Santos
Dumond se liga ao grupo de inventores ligados ao manejo dos balões.
Participava de
exposições e ia granjeando popularidade ao ponto de se tornar um cientista de
reputação internacional. Isso se deu após 1901 quando um dirigível conduzido
pelo brasileiro eleva-se em Saint-Cloud, contorna a Torre Eiffel e volta ao
campo. Ao tocar o solo, é ovacionado por uma multidão como herói.
A descoberta do
avião tem uma data exata: 23 de Outubro de 1906 em uma exposição em que Dumond
apresenta o aeroplano 14-Bis. Conduzido por um motor movido à gasolina, assombrou
o público ao se elevar no ar percorrendo 100 metros a 80 cm do solo. Nunca até
então se presenciara nada parecido com aquilo: uma máquina mais pesada do que o
ar, capaz de alçar voo.
Posteriormente,
houve quem dissesse que o avião já teria sido criado pelos norte-americanos em
1903. O que fica facilmente refutado pelo fato de que o tal aeroplano dos
irmãos Wright ter alçado voo sem qualquer testemunha, o que é sintomático.
O pai da aviação é brasileiro e o seu nome é Santos Dumont!
A despeito da
notoriedade internacional, Santos Dumont pagou um preço caro pela sua
descoberta. Ficou profundamente amargurado ao saber de acidentes e até presenciar em 1928 um
acidente de avião com vítimas fatais. Causou-lhe pesar ver a sua descoberta utilizada para fins destruição e morte de civis na I Guerra Mundial. Talvez o
momento de maior sofrimento ao inventor deu-se no contexto da Revolução
Constitucionalista de 1932.
Dois anos após a
Revolução que conduziu Getúlio Vargas ao poder, os paulistas, apeados do governo,
levam adiante uma guerra civil, sob a palavra de ordem de constitucionalização
do país. Santos Dumont apoia os paulistas e inclusive redige um manifesto.
Durante o conflito entre brasileiros, o inventor estava em Santos e presenciou aviões
ligados aos getulistas bombardeando um cruzador paulista ancorado no porto de
Santos. Viu a sua invenção sendo utilizada para uma guerra entre compatriotas.
E assim, em 20
de julho de 1932, aos 59 anos de idade, Santos Dumont suicida-se.

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