Vila dos Confins” – Mário Palmério
Resenha Livro - “Vila
dos Confins” – Mário Palmério – Editora José Olympio
“Vila dos
Confins” (1956) foi o primeiro romance escrito por Mário Palmério (1916/1996).
Foi publicado
quando o escritor tinha 40 anos de idade e era, até então, conhecido
nacionalmente apenas como educador e deputado federal pelo PTB, partido criado
poucos anos antes por Getúlio Vargas.
O surgimento do
livro foi uma surpresa às pessoas que até então reconheciam em Palmério apenas
um político mineiro ligado ao trabalhismo, responsável pela construção das
primeiras instituições de ensino superior no triângulo mineiro. O impacto
decorreu da beleza estética e da expressividade com que Palmério soube traduzir
o Brasil profundo.
Sem nunca ter
participado de qualquer roda literária, a intelectualidade da época não deixou
de se impressionar pelo livro de um autor que, até então, apenas deveria
discretamente escrever, nos horários livres, entre um ou outro expediente
político.
O batismo
literário do político/escritor deu-se por ninguém menos que Rachel de Queiroz,
a grande escritora cearense que figura entre os maiores expoentes da literatura
regionalista brasileira, ao lado de
Graciliano Ramos, José Lins do Rego e João Guimarães Rosa.
Aquele deputado altivo e poderoso timidamente
entra em contato por telefone com Rachel de Queiroz pedindo uma audiência. A
escritora estranha o convite, notadamente pelo seu posicionamento mais à
direita, oposto ao trabalhismo mais à esquerda de Mário Palmério.
Mas o motivo do
encontro era a literatura: Mário Palmério entrega à Rachel de Queiroz o seu “Vila
dos Confins”.
O romance causou
profunda impacto, conforme Rachel de Queiroz conta no prefácio do livro:
“A primeira
qualidade que me impressionou no escritor Mário Palmério foi este cheiro de
terra, que o seu livro traz, tão autêntico. A gente tem a impressão de que ele
nos entrega para ver, na sua integralidade primitiva, aquele rio, aquela mata,
aqueles bichos, aqueles caboclos, aquelas histórias de caçada e pescaria, que parecem
histórias de mentiroso, de tão saborosas. Essa poesia de floresta e rio, tão
difícil de captar, sem cair na ênfase”.
Trata-se de uma
história que se passa numa terra fictícia chamada “Vila dos Confins”, que
poderia ser qualquer canto do Brasil profundo, onde predomina o latifúndio, a
política do cabresto, aquelas pacatas cidadezinhas do interior com suas
igrejinhas e pequeno comércio. Onde pelos campos passam a boiada conduzida
pelos tropeiros e nos dias de chuva se sente o cheiro da terra molhada. Por
onde transitam caixeiros viajantes, jagunços, caboclos, boiadeiros e funcionários
públicos de baixo escalão como delegados de polícia e coletores de impostos.
O título do
livro já sugere essa intenção de revelar pela literatura, com tonalidades de poesia,
o hiterland brasileiro. “Vila” remete à ideia de um local não tão grande e
desenvolvido ao ponto de se chamar de “cidade”, mas não tão pequeno e
despovoado ao ponto de ser meramente um “arraial”. “Confins “significa um lugar
longínquo, de difícil acesso, ou como se diz, o fim do mundo, onde judas perdeu
as botas.
Há um evidente
conteúdo autobiográfico no livro. A história se centra na primeira eleição municipal
da Vila dos Confins e o personagem central se chama Paulo, um deputado federal
que se desloca à sua terra natal, onde reside a sua base eleitoral, para costurar
articulações políticas em torno do seu candidato à prefeitura. Tal qual Mário
Palmério, ele próprio um fazendeiro de Uberaba que ingressou na política.
Nessa
peregrinação pelas fazendas e arraiais dos arredores da Vila dos Confins, o
protagonista vai travando relações com a gente do campo, recruta alguns
proprietários de terra semialfabetizados para candidaturas à vereador. Essa
jornada vai conduzindo o jovem político às suas próprias lembranças da infância
na fazenda dos pais.
Mas a grande
força poética do livro se evidencia na forma como a natureza do sertão
brasileira surge como se dotada de humanidade. Desde o movimento dos peixes do
Rio Urucunã até os urubus traiçoeiros que pairam pelos ares rodando a carniça
do boi morto, é como se os animais fossem alçados à condição de personagens,
levam adiante alguma conduta, sentimentos profundos, que não os limita a aparecer
meramente como parte da paisagem.
Desde a
descrição de uma lagartixa, “desconfiada, vasqueira, a lagartixa apontou a
cabecinha de feto de jacaré por cima da tesoura do telhado. Encompridou o pescoço,
parou. Os olhinhos estufados eram dois grãozinhos graúdos de chumbo de caça”.
Ou passarinho João de Barro que “despertara com o canto do galo índio.
Morava perto, na casa redonda do pé de laranja-da-terra. Levantou-se e veio até
à porta olhar o céu. E quase perde a paciência. Tivera um dia trabalhoso
consertando a casa arrombada pelo tucano”.
A natureza se
expressando pelos animais, dos peixes dourados que sabem enganar os pescadores
tirando-lhes a isca sem serem capturados; até a onça pintada em seus movimentos
sub-reptícios quando ataca a presa, o que vemos é um dos mais belos retratos da
essência do Brasil. O que se soma às marcas da política regional que grassam ainda nos dias de hoje nas cidades do
interior: os currais eleitorais, a compra de votos, analfabetos que redigem as
cédulas eleitorais com as mãos conduzidas por membros do partido político,
mortos no papel que aparecem na lista de eleitores.
Consta que “Vila
dos Confins” foi ao seu tempo um sucesso editorial. Contudo, Mário Palmério hoje
é um esquecido representante da literatura regionalista brasileira. Simbolicamente,
foi conduzido à Academia Brasileira de Letras na cadeira até então ocupada por
ninguém menos que João Guimarães Rosa, o escritor que mais foi capaz de alçar à
condição de universalidade o sertão brasileiro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário