quinta-feira, 6 de agosto de 2026

“Vila dos Confins” – Mário Palmério

 Vila dos Confins” – Mário Palmério





Resenha Livro - “Vila dos Confins” – Mário Palmério – Editora José Olympio

 

“Vila dos Confins” (1956) foi o primeiro romance escrito por Mário Palmério (1916/1996).

Foi publicado quando o escritor tinha 40 anos de idade e era, até então, conhecido nacionalmente apenas como educador e deputado federal pelo PTB, partido criado poucos anos antes por Getúlio Vargas.

O surgimento do livro foi uma surpresa às pessoas que até então reconheciam em Palmério apenas um político mineiro ligado ao trabalhismo, responsável pela construção das primeiras instituições de ensino superior no triângulo mineiro. O impacto decorreu da beleza estética e da expressividade com que Palmério soube traduzir o Brasil profundo.

Sem nunca ter participado de qualquer roda literária, a intelectualidade da época não deixou de se impressionar pelo livro de um autor que, até então, apenas deveria discretamente escrever, nos horários livres, entre um ou outro expediente político.

O batismo literário do político/escritor deu-se por ninguém menos que Rachel de Queiroz, a grande escritora cearense que figura entre os maiores expoentes da literatura regionalista  brasileira, ao lado de Graciliano Ramos, José Lins do Rego e João Guimarães Rosa.

 Aquele deputado altivo e poderoso timidamente entra em contato por telefone com Rachel de Queiroz pedindo uma audiência. A escritora estranha o convite, notadamente pelo seu posicionamento mais à direita, oposto ao trabalhismo mais à esquerda de Mário Palmério.

Mas o motivo do encontro era a literatura: Mário Palmério entrega à Rachel de Queiroz o seu “Vila dos Confins”.

O romance causou profunda impacto, conforme Rachel de Queiroz conta no prefácio do livro:  

“A primeira qualidade que me impressionou no escritor Mário Palmério foi este cheiro de terra, que o seu livro traz, tão autêntico. A gente tem a impressão de que ele nos entrega para ver, na sua integralidade primitiva, aquele rio, aquela mata, aqueles bichos, aqueles caboclos, aquelas histórias de caçada e pescaria, que parecem histórias de mentiroso, de tão saborosas. Essa poesia de floresta e rio, tão difícil de captar, sem cair na ênfase”.

Trata-se de uma história que se passa numa terra fictícia chamada “Vila dos Confins”, que poderia ser qualquer canto do Brasil profundo, onde predomina o latifúndio, a política do cabresto, aquelas pacatas cidadezinhas do interior com suas igrejinhas e pequeno comércio. Onde pelos campos passam a boiada conduzida pelos tropeiros e nos dias de chuva se sente o cheiro da terra molhada. Por onde transitam caixeiros viajantes, jagunços, caboclos, boiadeiros e funcionários públicos de baixo escalão como delegados de polícia e coletores de impostos.  

O título do livro já sugere essa intenção de revelar pela literatura, com tonalidades de poesia, o hiterland brasileiro. “Vila” remete à ideia de um local não tão grande e desenvolvido ao ponto de se chamar de “cidade”, mas não tão pequeno e despovoado ao ponto de ser meramente um “arraial”. “Confins “significa um lugar longínquo, de difícil acesso, ou como se diz, o fim do mundo, onde judas perdeu as botas.

Há um evidente conteúdo autobiográfico no livro. A história se centra na primeira eleição municipal da Vila dos Confins e o personagem central se chama Paulo, um deputado federal que se desloca à sua terra natal, onde reside a sua base eleitoral, para costurar articulações políticas em torno do seu candidato à prefeitura. Tal qual Mário Palmério, ele próprio um fazendeiro de Uberaba que ingressou na política.

Nessa peregrinação pelas fazendas e arraiais dos arredores da Vila dos Confins, o protagonista vai travando relações com a gente do campo, recruta alguns proprietários de terra semialfabetizados para candidaturas à vereador. Essa jornada vai conduzindo o jovem político às suas próprias lembranças da infância na fazenda dos pais.

Mas a grande força poética do livro se evidencia na forma como a natureza do sertão brasileira surge como se dotada de humanidade. Desde o movimento dos peixes do Rio Urucunã até os urubus traiçoeiros que pairam pelos ares rodando a carniça do boi morto, é como se os animais fossem alçados à condição de personagens, levam adiante alguma conduta, sentimentos profundos, que não os limita a aparecer meramente como parte da paisagem.

Desde a descrição de uma lagartixa, “desconfiada, vasqueira, a lagartixa apontou a cabecinha de feto de jacaré por cima da tesoura do telhado. Encompridou o pescoço, parou. Os olhinhos estufados eram dois grãozinhos graúdos de chumbo de caça”. Ou passarinho João de Barro que “despertara com o canto do galo índio. Morava perto, na casa redonda do pé de laranja-da-terra. Levantou-se e veio até à porta olhar o céu. E quase perde a paciência. Tivera um dia trabalhoso consertando a casa arrombada pelo tucano”.

A natureza se expressando pelos animais, dos peixes dourados que sabem enganar os pescadores tirando-lhes a isca sem serem capturados; até a onça pintada em seus movimentos sub-reptícios quando ataca a presa, o que vemos é um dos mais belos retratos da essência do Brasil. O que se soma às marcas da política regional que grassam  ainda nos dias de hoje nas cidades do interior: os currais eleitorais, a compra de votos, analfabetos que redigem as cédulas eleitorais com as mãos conduzidas por membros do partido político, mortos no papel que aparecem na lista de eleitores.  

Consta que “Vila dos Confins” foi ao seu tempo um sucesso editorial. Contudo, Mário Palmério hoje é um esquecido representante da literatura regionalista brasileira. Simbolicamente, foi conduzido à Academia Brasileira de Letras na cadeira até então ocupada por ninguém menos que João Guimarães Rosa, o escritor que mais foi capaz de alçar à condição de universalidade o sertão brasileiro.  

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