quarta-feira, 5 de agosto de 2026

A Vida de São Francisco de Assis

 A Vida de São Francisco de Assis




 

“Oh Mestre, faze que eu procure menos

Ser consolado do que consolar;

Ser compreendido do que compreender;

Ser amado do que amar.

Porquanto

É dando que se recebe;

É perdoando que se é perdoado;

É morrendo que se ressuscita para a Vida Eterna”

Oração de São Francisco de Assis

 

Resenha Livro – “As Aventuras do Menino Chico de Assis” – Luís Jardim – Editora José Olympio

 

Não há salvação fora da caridade. Essa poderia ser a palavra de ordem mais representativa da vida de São Francisco de Assis.

O frade católico ficou notabilizado pelo seu amor incondicional à natureza e aos animais, pela renúncia radical dos bens materiais e pela dedicação e auxílio aos pobres e marginalizados. O que há por de trás do impulso do amparo aos excluídos é a ideia de que há muito mais prazer e alegria em dar do que receber. Consolar a ser consolado. Perdoar a ser perdoado. E até mesmo amar sem ser amado.

Seu nome de batismo não era Francisco, mas João, ou, no italiano, Giovanni. Seu pai era um rico comerciante de sedas oriundo de Assis na Itália. Sua mãe, uma mulher extremamente piedosa, tinha origem francesa. Existe a hipótese que daí veio o apelido Francisco que significava então pessoa oriunda da França.

Na juventude consta que Francisco servia-se da riqueza do pai para viver uma vida mundana, baseada nos prazeres terrenos. Sua conversão religiosa só daria aos 20 e poucos anos de idade após uma enfermidade que o afligiu pouco antes de se engajar voluntariamente numa campanha militar envolvendo as cidades italianas Assis e Perugia.

O jovem Assis teria escutado vozes lhe sugerindo dever deixar de servir aos homens para servir à Deus. O que pode ser interpretado não como a renúncia pura e simples da companhia dos seus pares – dado que isso lhe retiraria a possibilidade de exercer a caridade – mas a rejeição da efemeridade da vida material em detrimento da plenitude da vida na espiritualidade.  

Outro momento marcante na vida do jovem Francisco de Assis deu-se certa feita em que cruza em seu caminho um leproso lhe pedindo auxílio. Chico presta o apoio e dá um beijo na mão em carne viva pelas lesões da lepra, sujeitando-se ao risco pelo ato de amor. Esse evento lhe causou uma profunda sensação de ternura no coração, sendo considerado o ponto de partida de sua orientação na caridade.

Essa orientação causaria um grave conflito familiar. Após se ligar a uma Igreja em Assis, Francisco decide tomar o estoque de sedas da loja do pai para vender a preços módicos e arrecadar o dinheiro para auxiliar os pobres. O evento desperta a fúria do pai que posteriormente o conduz ao bispado para o obrigar a renunciar a herança. Aqui surge outro evento culminante na vida do Santo: Francisco aceita de bom grado a renúncia da herança e até mesmo tira as suas roupas para serem devolvidas ao pai. Em ato solene, afirma que a partir daquele momento, o seu pai passaria a ser Deus.

E aqui reside a origem daquilo que ficou conhecido como o traço mais conhecido e bonito do santo frade da Igreja católica.

Francisco de Assis levava até as últimas consequências a ideia de que todos somos irmãos, porquanto somos fruto da mesma criação divina. Não só os homens, mas os animais, as naturezas e até mesmo as coisas inanimadas como o vento, a chuva e o sol. Ele nós evidencia a beleza e divindade de cada pequeno detalhe da natureza e nos exina a captar a poesia dos passarinhos cantando ou do cheiro da terra molhada de chuva.

Os doutores da Igreja Católica parecem querer retratar um outro Francisco de Assis, diferente daquele que se popularizou no senso comum. Baseando-se em textos antiguíssimos, dos tempos da Idade Média, tentam criar a figura de um homem brutalmente ascético, um eremita que mutilava o seu corpo dormindo de forma proposital em camas de espinho para desafiar a tentação da carne.

Sem prejuízo do questionamento em torno da idoneidade das fontes históricas, aqui preferimos o mito franciscano: uma alma sentimental, dotada de ternura para com tudo que o cerca e que extrai felicidade em ajudar aqueles que precisam. Ser escrupuloso consigo próprio deve ter como consequência a complacência, o perdão e a caridade em relação ao próximo.

Dedico essa resenha à Ana Paula Siqueira Santos cujo coração, na sua simplicidade e bondade, retrata aquilo que ainda resta de bom na Igreja Católica.

Quadro: São Francisco de Assis - José de Ribera – 1643

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