O Grande Oeste Brasileiro
Resenha Livro – “História
do Brasil Geral e Regional: Grande Oeste V. VI” – Ernani Silva Bruno
O “Grande Oeste Brasileiro”
se caracterizou historicamente como trecho do nosso território onde a
interiorização da ocupação foi levada até as últimas consequências. Essa grande
fatia de terras que abrange hoje os estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul
e Goiás era inteiramente desabitada pelo menos até 1720, quando a descoberta do
“ouro de Cuiabá” e o início do ciclo da mineração daria um primeiro impulso de
desenvolvimento econômico da região.
Os primeiros
marcos históricos desse processo se deram em 1728 com a criação de Vila Real do
Bom Senhor Jesus do Cuiabá e em 1739 da Vila Boa de Goiás, onde respectivamente
se criariam os principais focos urbanos do Mato Grosso e de Goiás; no ano de
1748 aquelas terras seriam desmembradas da capitania de São Paulo para se constituir
como capitania autônoma. Mas ainda assim, o “Grande Oeste Brasileiro” permanece
ainda hoje como uma grande fatia do território brasileiro com as menores
densidades demográficas, só perdendo para os estados do norte, ante a vastidão territorial
da Amazônia.
Em 1494 pelo
Tratado de Tordesilhas, Portugal e Espanha delimitaram o domínio das terras que
foram sendo descobertas no novo mundo. As porções mais ao leste pertencendo aos
portugueses e ao oeste aos espanhóis, esses últimos criando as primeiras
cidades da bacia do Plata, notadamente Buenos Aires (1536) e Assunción (1537); o
que significa dizer que o “Grande Oeste Brasileiro”, pelo Tratado de
Tordesilhas, era ao menos teoricamente território
espanhol.
Na verdade, havia
pouca clareza em torno dos limites fronteiriços daquelas terras entre as duas
coroas, o que facilitou a intervenção dos sertanistas paulistas e criou as
condições para incorporação do território aos brasileiros.
O marco inicial deu-se
pelos bandeirantes que atingiam a região para destruir as missões dos jesuítas e
capturar índios para levá-los como escravos ao litoral. Em 1596 uma bandeira liderada
por Domingos Rodrigues procedente do Rio São Francisco percorre o território
goiano. Em 1648 outra bandeira liderada por Antônio Raposo Tavares destrói uma
grande missão jesuítica ao sul do território onde hoje é o Mato Grosso. E aos
poucos aquelas terras vão passando ao domínio português, consumando-se
formalmente a posse pela coroa de Lisboa em 1750 com o Tratado de Madrid.
Esse novo acordo
instituiu o princípio do uti possidetis, o critério pela qual a terra
pertence aquele que efetivamente exerce a posse. Eis a maior colaboração dos
bandeirantes ao Brasil: suas expedições em busca de índios e, depois, do ouro e
diamantes, foram construindo vilas e arraiais que pavimentaram a ocupação da
terra e conferiram a fisionomia territorial do Brasil. Nosso país não seria uma
nação continental não fossem as expedições dos sertanistas. Nossa homogeneidade
cultural e linguística, o português falado do norte ao sul do Brasil também é
fruto da grande epopeia bandeirante.
GRANDE OESTE
BRASILEIRO: DO INÍCIO DA OCUPAÇÃO AOS DIAS DE HOJE
Durante os dois
primeiros séculos (1500/1700) a terra onde hoje se situa o centro-oeste
brasileiro era literalmente desconhecida; o que havia até então eram meramente
expedições de reconhecimento territorial pelos espanhóis e portugueses e algumas
missões jesuíticas. No mais, uma vasta porção de campos habitados por índios e
animais bravios.
As tribos
principais da região eram os guaicurus e os paiaguás que levavam adiante a
resistência à ocupação por portugueses e espanhóis.
Os paiaguás eram
ótimos canoeiros e atacavam as expedições fluviais de abastecimento dos
colonizadores. Tinham um código de honra pelo qual o combatente era proibido de
recuar. Faziam a guerra com os corpos inteiramente pintados e as cabeças
enfeitadas com penas e sabiam contornar os disparos de arma de fogo dos brancos
fazendo as canoas de escudo. E quando era necessário o intervalo para
carregamento de armas, soltavam uma saraivada de flechas no inimigo.
Outra grande dificuldade
para a ocupação populacional e desenvolvimento do “Grande Oeste Brasileiro”
deu-se pela dificuldade de comunicação e transportes que se dava essencialmente
através dos rios Paraná e Paraguai. O acesso às terras do Mato Grosso vinham da
Bahia pelo Rio São Francisco e até Goiás partindo de São Paulo, por meio da navegações
e longas viagens guiadas por bois e cavalos.
Essa situação de
isolamento também tinha a ver com a própria economia da mineração: pequenos
arraiais iam sendo criados aos arredores das jazidas recém-descobertas, que
ficavam ilhadas entre si. Quando o ouro e o diamante acabavam, a terra era abandonada,
criando verdadeiras cidades mortas.
Os documentos de
época retratam uma situação de extrema pobreza daquela região entre os séculos
XVIII e XIX.
Não havia
famílias ou casamentos, mas meramente brancos amancebados com índias, sem
qualquer regramento social.
A alimentação se
dava em torno da caça e da pesca, e alguma agricultura de subsistência,
notadamente o milho e o feijão, sem acesso ao sal para conservar a carne. Havia
alguns poucos engenhos de açúcar para fabricação de aguardente. Os primeiros
estabelecimentos de ensino na região só surgiram no final do século XIX. O
analfabetismo era absoluto até o século passado.
A partir do
século XIX há o esgotamento do ciclo de mineração no “Grande Oeste Brasileiro” passando a economia a gravitar em torno da
pecuária. Durante os dois séculos subsequentes, a criação de gado foi a
principal expressão da economia da região e criou a figura típica e folclórica do
homem do centro-oeste brasileiro, o boiadeiro do pantanal, com o seu chapéu de
abas largas e o seu enorme berrante.
Na década de
1930 com o surgimento do transporte ferroviário houve um certo desenvolvimento
da agricultura, até então restrita à produção de subsistência. Mais ao norte se
desenvolveu a exploração dos seringais.
E um último
impulso ao desenvolvimento do centro-oeste brasileiro ocorre através da
constituição de 1946 que traçou como objetivo a transferência da capital
brasileira para o Planalto Central. Dez
anos depois se iniciaria a construção de Brasília, uma cidade simbolicamente
criada do zero, evidenciando a imensidade de um vasto território pouco habitado
e ainda a ser descoberto.

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