domingo, 26 de julho de 2026

O Grande Oeste Brasileiro

 O Grande Oeste Brasileiro



Resenha Livro – “História do Brasil Geral e Regional: Grande Oeste V. VI” – Ernani Silva Bruno

O “Grande Oeste Brasileiro” se caracterizou historicamente como trecho do nosso território onde a interiorização da ocupação foi levada até as últimas consequências. Essa grande fatia de terras que abrange hoje os estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás era inteiramente desabitada pelo menos até 1720, quando a descoberta do “ouro de Cuiabá” e o início do ciclo da mineração daria um primeiro impulso de desenvolvimento econômico da região.

Os primeiros marcos históricos desse processo se deram em 1728 com a criação de Vila Real do Bom Senhor Jesus do Cuiabá e em 1739 da Vila Boa de Goiás, onde respectivamente se criariam os principais focos urbanos do Mato Grosso e de Goiás; no ano de 1748 aquelas terras seriam desmembradas da capitania de São Paulo para se constituir como capitania autônoma. Mas ainda assim, o “Grande Oeste Brasileiro” permanece ainda hoje como uma grande fatia do território brasileiro com as menores densidades demográficas, só perdendo para os estados do norte, ante a vastidão territorial da Amazônia.

Em 1494 pelo Tratado de Tordesilhas, Portugal e Espanha delimitaram o domínio das terras que foram sendo descobertas no novo mundo. As porções mais ao leste pertencendo aos portugueses e ao oeste aos espanhóis, esses últimos criando as primeiras cidades da bacia do Plata, notadamente Buenos Aires (1536) e Assunción (1537); o que significa dizer que o “Grande Oeste Brasileiro”, pelo Tratado de Tordesilhas,  era ao menos teoricamente território espanhol.

Na verdade, havia pouca clareza em torno dos limites fronteiriços daquelas terras entre as duas coroas, o que facilitou a intervenção dos sertanistas paulistas e criou as condições para incorporação do território aos brasileiros.

O marco inicial deu-se pelos bandeirantes que atingiam a região para destruir as missões dos jesuítas e capturar índios para levá-los como escravos ao litoral. Em 1596 uma bandeira liderada por Domingos Rodrigues procedente do Rio São Francisco percorre o território goiano. Em 1648 outra bandeira liderada por Antônio Raposo Tavares destrói uma grande missão jesuítica ao sul do território onde hoje é o Mato Grosso. E aos poucos aquelas terras vão passando ao domínio português, consumando-se formalmente a posse pela coroa de Lisboa em 1750 com o Tratado de Madrid.

Esse novo acordo instituiu o princípio do uti possidetis, o critério pela qual a terra pertence aquele que efetivamente exerce a posse. Eis a maior colaboração dos bandeirantes ao Brasil: suas expedições em busca de índios e, depois, do ouro e diamantes, foram construindo vilas e arraiais que pavimentaram a ocupação da terra e conferiram a fisionomia territorial do Brasil. Nosso país não seria uma nação continental não fossem as expedições dos sertanistas. Nossa homogeneidade cultural e linguística, o português falado do norte ao sul do Brasil também é fruto da grande epopeia bandeirante.

GRANDE OESTE BRASILEIRO: DO INÍCIO DA OCUPAÇÃO AOS DIAS DE HOJE  

Durante os dois primeiros séculos (1500/1700) a terra onde hoje se situa o centro-oeste brasileiro era literalmente desconhecida; o que havia até então eram meramente expedições de reconhecimento territorial pelos espanhóis e portugueses e algumas missões jesuíticas. No mais, uma vasta porção de campos habitados por índios e animais bravios.

As tribos principais da região eram os guaicurus e os paiaguás que levavam adiante a resistência à ocupação por portugueses e espanhóis.

Os paiaguás eram ótimos canoeiros e atacavam as expedições fluviais de abastecimento dos colonizadores. Tinham um código de honra pelo qual o combatente era proibido de recuar. Faziam a guerra com os corpos inteiramente pintados e as cabeças enfeitadas com penas e sabiam contornar os disparos de arma de fogo dos brancos fazendo as canoas de escudo. E quando era necessário o intervalo para carregamento de armas, soltavam uma saraivada de flechas no inimigo.

Outra grande dificuldade para a ocupação populacional e desenvolvimento do “Grande Oeste Brasileiro” deu-se pela dificuldade de comunicação e transportes que se dava essencialmente através dos rios Paraná e Paraguai. O acesso às terras do Mato Grosso vinham da Bahia pelo Rio São Francisco e até Goiás partindo de São Paulo, por meio da navegações e longas viagens guiadas por bois e cavalos.

Essa situação de isolamento também tinha a ver com a própria economia da mineração: pequenos arraiais iam sendo criados aos arredores das jazidas recém-descobertas, que ficavam ilhadas entre si. Quando o ouro e o diamante acabavam, a terra era abandonada, criando verdadeiras cidades mortas.

Os documentos de época retratam uma situação de extrema pobreza daquela região entre os séculos XVIII e XIX.

Não havia famílias ou casamentos, mas meramente brancos amancebados com índias, sem qualquer regramento social.

A alimentação se dava em torno da caça e da pesca, e alguma agricultura de subsistência, notadamente o milho e o feijão, sem acesso ao sal para conservar a carne. Havia alguns poucos engenhos de açúcar para fabricação de aguardente. Os primeiros estabelecimentos de ensino na região só surgiram no final do século XIX. O analfabetismo era absoluto até o século passado.

A partir do século XIX há o esgotamento do ciclo de mineração no “Grande Oeste Brasileiro”  passando a economia a gravitar em torno da pecuária. Durante os dois séculos subsequentes, a criação de gado foi a principal expressão da economia da região e criou a figura típica e folclórica do homem do centro-oeste brasileiro, o boiadeiro do pantanal, com o seu chapéu de abas largas e o seu enorme berrante.   

Na década de 1930 com o surgimento do transporte ferroviário houve um certo desenvolvimento da agricultura, até então restrita à produção de subsistência. Mais ao norte se desenvolveu a exploração dos seringais.

E um último impulso ao desenvolvimento do centro-oeste brasileiro ocorre através da constituição de 1946 que traçou como objetivo a transferência da capital brasileira para o Planalto Central.  Dez anos depois se iniciaria a construção de Brasília, uma cidade simbolicamente criada do zero, evidenciando a imensidade de um vasto território pouco habitado e ainda a ser descoberto.

Imagem: "Pastoreio em Goiás - Começo do Século XIX - Johann Moritz Rugendas



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