quinta-feira, 9 de julho de 2026

“Longe da Terra” – José Mauro de Vasconcelos

 “Longe da Terra” – José Mauro de Vasconcelos


 

Resenha Livro - “Longe da Terra” – José Mauro de Vasconcelos – Edições Melhoramentos

 

O livro mais conhecido do escritor fluminense José Mauro Vasconcelos certamente é “Meu Pé de Laranja Lima” (1968), espécie de relato autobiográfico da infância do escritor, vivenciada na pobreza de um bairro de subúrbio de Bangu/RJ.

As fantasias de uma criança que cultiva amizade com uma árvore de laranjeira do seu quintal, o encanto produzido pela imaginação dos menores, que conseguem abstrair as dificuldades da vida e encará-la com ternura e alegria, certamente cativou leitores de todas as idades e fez de Vasconcelos um dos poucos escritores brasileiros que pôde viver exclusivamente dos direitos autorais de sua obra.

Façanha que encontra poucos paralelos no Brasil: Érico Verissimo, Jorge Amado e Monteiro Lobato são outros poucos exemplos de escritores de uma literatura ao mesmo tempo popular, acessível a todos e de rara qualidade estética.

“Meu Pé de Laranja Lima” vendeu mais de dois milhões de exemplares, tendo sido publicada em 15 países. “Rosinha Minha Canoa” (1962) foi a primeira obra de sucesso do nosso escritor, que igualmente relata um mundo encantado e fantástico, em que o pescador mantém dialogo e afeto com sua canoa, cuja origem advém de uma árvore capaz de sentir e de se comunicar. E a novela “Coração de Vidro” teve mais de 650.000 exemplares vendidos, publicações em 10 países, traduções em três idiomas e mais de 70 edições no Brasil.

A popularidade de Vasconcelos, por diferentes razões, não se traduziu em reconhecimento na academia. Aliás, a própria figura do escritor representa a mas completa oposição a tudo o que se posse considerar acadêmico.

De família pobre, nascido no estado do Rio de Janeiro, aos nove anos mudou-se para a casa dos tios em Natal/RN. Chegou a frequentar dois anos do curso de medicina naquele estado, mas a sua personalidade irrequieta e aventureira o faria abandonar o curso e retornar ao Rio de Janeiro a bordo de um navio cargueiro, levando uma simples maleta de papelão como bagagem.

Nesta peregrinação pelo país a fora, trabalhou como treinador de boxe, carregador de bananas na capital do Rio de Janeiro, pescador do litoral fluminense, professor primário num núcleo de pescadores no Recife, garçom em São Paulo. Além de escritor, foi ator de cinema e modelo.

Em dado momento de sua vida, se junto aos irmãos Villas Bôas, sertanistas e indigenistas, enveredando-se pelo sertão da região do Araguaia, contando povos indígenas desconhecidos e cartografando terras.

O contato direto com aqueles povos sertanejos e indígenas criaria as condições para o escritor fazer relatos minuciosos (ainda que sua arte realista enveredasse para o fantástico, com animais e árvores falantes) dos povos do Araguaia, no seu já mencionado “Rosinha Minha Canoa” e no romance “O Garanhão das Praias” – ambos tratando de missões “civilizatórias” junto aos povos sertanejos e indígenas dos rincões do país.

LONGE DA TERRA

“Longe da terra” (1949) é parte desse conjunto de romances indigenistas que retratam as experiências do autor em suas expedições pelos sertões de Goiás.

A história, talvez mais do que todas, tem um forte elemento autobiográfico.

Trata-se de um dos poucos livros do autor redigido em primeira pessoa: o protagonista também é um jovem idealista que rompe com a civilização, abandona o curso de medicina, a despeito do futuro promisso na carreira, e se lança até uma pequena vila chamada Leopoldina, às margens do Rio Araguaia.

Através de uma nova jornada “longe da terra”, irá se reconciliar com a vida e ressignificar a sua existência e o sentido do tempo, confrontando a dinâmica da cidade com a pasmaceira da vida num aldeamento indígena.

Abandona a vestimenta branca do hospital e a rotina entediante de atendimentos e diagnósticos pelo colorido exuberante da floresta. Desveste-se do seu nome e dos rótulos de “médico” e “bacharel”, e assume o apelido local de “dotô” para exercer a medicina informal e dar aulas às crianças em troca das refeições.

Expressa em diversos momentos a alegria genuína decorrente dos atos de caridade desinteressada. A felicidade reside em olhar a natureza e as pessoas com ternura.

O narrador também renuncia de forma radical o materialismo, notadamente diante da inutilidade dos bens materiais no contexto da vida num aldeamento indígena. Toma seus banhos no rio, deixa a barba crescer, usa poucas vestimentas e doa o pouco que tem a quem precisa. Assim como em outros livros do escritor, vemos uma adesão ao espírito de São Francisco de Assis.

A história se passa em Leopoldina, um vilarejo às margens do Rio Araguaia, para onde o narrador segue acompanhado de um padre que se também se propõe a um desafio, no caso, evangelizar aquele povo abandonado do sertão. Para atingir o local, ambos enveredam até Goiânia para depois realizar uma viagem de quatro horas de barco.

E só conseguem atingir Leopoldina em época de estiagem: durante meses a fio, o local é inundado por chuvas torrenciais e ininterruptas, tornando impossível o acesso. E são nesses seis meses em que a vila fica toda ilhada que se revela aquilo que é mais característico daquele povo: uma preguiça e indolência contagiantes.  

O padre missionário busca sem êxito estimular aquela gente ao trabalho. A chuva sempre serve como justificativa para a procrastinação: depois da época das águas, poderiam desenvolver a agricultura, o que nunca acontece. Mas para que plantar aquela terra fértil se a natureza já lhes fornece o necessário através da pesca e dos frutos das árvores?

A preguiça de Leopoldina é contagiante – todo aquele que vem de fora é por ela contaminado. O índio introjeta no branco a indolência. Mas o branco leva ao índio o vício do tabaco e a cobiça dos bens materiais. Essa cobiça se dá através da intervenção dos garimpeiros, homens destemidos que desbravam os sertões em busca do enriquecimento imediato, resgatando a tradição secular brasileira do bandeirantismo – o próprio narrador, num momento de comoção pela sua nova vida, se pronuncia como um bandeirante.  

Já o missionário religioso desiste da empreitada e deixa o narrador. Este último se vê plenamente aclimatado àquele povo, dentro de seu horizonte de ruptura radical com a civilização.

O livro começa e termina com a mesma imagem do narrador deitado na rede, apreciando a vida passar nos tempos de chuva, revelando como a vida daquele povo sertanejo e dos índios carajás se renova como as fases da natureza.

Todos esses elementos do texto, cotejados com as informações biográficas do escritor, fazem do livro uma espécie de diário de viagem de José Mauro de Vasconcellos durante a sua peregrinação pelo Brasil profundo.

Talvez falte ao livro o mesmo mérito literário de obras subsequentes, mas o interesse da obra reside na descrição do sertanejo e das populações indígenas, especialmente do folclore e das histórias contadas pelos índios carajás e garimpeiros, nas rodas de conversa sob o luar do sertão.

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