domingo, 12 de julho de 2026

A História da Paraíba

 A História da Paraíba




 

“Quando o rei de Portugal

Fundou a capitania

Da Paraíba visando

Combater a valentia

Dos índios, não imaginava

Quanto trabalho teria

Outra meta lusitana,

Era avançar rumo ao norte

Para ocupar o território

Em obstáculos dar um corte

Banir piratas franceses

Com braço firme e forte.

Foram cinco expedições

Até chegar à conquista

Em todas elas formou-se

De mortos enorme lista

Os índios nunca baixaram

Nem as armas nem a vista”

Vicente Campos Filho – “A Conquista da Paraíba” – Literatura de Cordel

 

Nas artes, Jackson do Pandeiro, José Lins do Rego, Ariano Suassuna, Pedro Américo e Augusto dos Anjos. Na política, Epitácio Pessoa, João Pessoa, João Suassuna e José Américo de Almeida, esse último também escritor.  

Eis aqui os nomes de alguns ilustres personagens da história brasileira oriundos da Paraíba.

Inicialmente, no início da colonização, essa terra começou como um pequeno trecho quase inabitado ao sul da Capitania de Itamaracá, concedida pelo Rei de Portugal ao donatário Pero Lopes de Souza em 1534. Depois de uma guerra de mais de dez anos contra os índios potiguares, houve a chamada “conquista da Paraíba”, com a criação da cidade de Nossa Senhora das Neve, hoje João Pessoa, isso no dia 5 de agosto de 1585. A Paraíba passou à condição de Província após a independência brasileira de 1822 e, finalmente, tornou-se um Estado da federação a partir da Proclamação da República em 1889.

Além da contribuição cultural dos paraibanos à formação do Brasil, a partir daquele território se iniciou uma sequência de eventos dramáticos que iriam decidir os rumos da nossa civilização: o assassinato do governador João Pessoa em 26 de Julho de 1930, então candidato à vice presidência na chapa de Getúlio Vargas, serviria de estopim para o movimento revolucionário de 1930, que colocaria abaixo  a Velha República baseada na política do café com leite para instituir um novo ciclo de desenvolvimento nacional. Os eventos da política local paraibana deram impulso à transformação do país em direção à industrialização, em oposição ao predomínio absoluto do modelo agrário exportador, ao desenvolvimento urbano, à modernização dos costumes, à formação da classe operária e à criação dos primeiros direitos trabalhistas.

A História da Paraíba se inicia através de um evento trágico que confere àquele povo a altivez e coragem característicos da conhecida figura do “cabra macho” nordestino. Trata-se do “Massacre de Tracunhaém!” (1574), evento pouco conhecido dos brasileiros dos estados ao sul e sudeste.

O território onde hoje se situa a Paraíba foi objeto de uma ocupação relativamente tardia pelos portugueses. A título de comparação, o Rio de Janeiro foi fundado em 1º de março de 1565 por Estácio de Sá, após anos de luta contra o invasor francês. São Paulo começou em 25 de Janeiro de 1554 quando foi rezada a primeira missa no planalto de Piratininga pelos jesuítas. No caso paraibano, após a expulsão dos piratas franceses do Rio de Janeiro, muitos deles ocuparam justamente aquele território ao sul da Capitania de Itamaracá, onde travaram relações com os índios potiguares que habitavam o litoral, para contrabandear o pau brasil e estabelecer pequenas feitorias.

Essa forte articulação entre franceses e índios potiguares dificultou a ocupação da Paraíba pelos portugueses que, ao seu passo, buscaram travar relações com índios tabajaras, oriundos da Bahia e que atingiam o território pelo rio são Francisco fugindo de tribos inimigas.

Como canta o poeta Vicente Campos nos seus versos de cordel:

“Os potiguares que eram

Os legítimos nativos,

Nunca deram trégua aos brancos

Nem se fizeram cativos

Braveza, orgulho e raça

Eram esses seus motivos

E a tribo tabajara

Oriunda da Bahia

Das margens do São Francisco

Chegou nessa terra um dia

Fugindo dos inimigos

Que ali lhe perseguia”.  

Conta a história que um mameluco português se apaixonou por uma bela índia de 15 anos que era filha do chefe dos potiguaras. O nome da nativa era Iratembé, também conhecida como lábios de mel, filha do chefe Iniguaçu. O mestiço português pediu a mão da cunhã ao seu pai, sendo autorizado o casamento, desde que o mameluco passasse a viver na tribo, incorporando-se aos hábitos e estilo de vida dos índios.

O português aceita a promessa, mas rompe o acordo, sequestra Iratembé e a leva para Olinda.  Os potiguares marcharam até a capitania vizinha para exigir a volta da cunhã raptada. Houve intervenção até mesmo de autoridades portuguesas para que o conflito não escalasse: foi determinado que o tal mameluco e Iratembé retornassem às terras dos potiguares, atendendo à requisição dos índios. O acordo, entretanto, foi logrado por Diogo Dias, um cristão novo, dono de um engenho às margens do Rio Paraíba, que tomou a bela cunhã para si.

Esse foi fato detonador do massacre de Tracunhaém. Já havia um ódio acumulado dos índios potiguares pelos portugueses, açulado pelos franceses, de modo que o sequestro da bela Iratembé apenas serviu como estopim de uma guerra que já vinha se gestando.

Cerca de 2000 índios marcharam até o engenho de Diogo Dias e assassinaram mais de 600 pessoas – consta que houve apenas dois sobreviventes, no caso, filhos do dono daquelas terras.

Assim canta o poeta paraibano:

“Os índios caíram em cima

Com uma gritaria incrível

E voltar para o engenho

Tornou-se algo impossível

Na manhã daquele dia

Deu-se uma matança horrível.

Não teve branco, nem negro

Que os índios não matassem

Nem mulher e nem menino

Que eles não esquartejassem

Não deixaram o engenho

Sem que tudo antes queimassem”

O massacre chegou ao conhecimento das autoridades da coroa na Europa, sendo determinada a realizações de expedições para subjugar os potiguaras. As quatro primeiras tentativas foram derrotadas e apenas em 1585 haveria a definitiva conquista da Paraíba, através da fundação da cidade onde hoje se situa a capital João Pessoa.

A economia local inicialmente se deu em torno dos engenhos de açúcar, sem, contudo, o mesmo êxito da produção na capitania vizinha de Pernambuco. Após a invasão holandesa, os engenhos paraibanos foram destruídos, sem recuperação posterior. A interiorização da ocupação do estado foi se dando gradualmente através crianção de gado.

O fracasso dos engenhos de açúcar fez com que a participação da população escrava de origem africana fosse relativamente baixa na Paraíba, ao menos se comparada com Bahia e Pernambuco. No caso das criações de gado, as chances de fuga no sertão eram enormes, tornando impossível o regime de trabalho escravo naquelas paragens.

Essa situação se evidencia ainda hoje quando visitamos a Paraíba: poucos negros e muitos mamelucos, brancos (descendência holandesa, os “galegos”) e mestiços com traços indígenas, pele parda, cabeça redonda e olhos levemente puxados.

No que toca aos índios potiguaras, após a conquista da Paraíba, muitos rumaram em direção ao norte, atingindo o Estado do Rio Grande do Norte.

Ainda hoje, na divisa entre os dois estados existe um lugar chamado Baía da Traição, município que abriga a maior parte da população dos antigos potiguares que primeiro ocuparam a Paraíba.  

Bibliografia

“A Escravidão na Paraíba” – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

“A Conquista da Paraíba” – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

“A Paraíba sob o domínio holandês”  – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

“A contribuição dos franciscanos na Capitania da Paraíba”  – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

“O Massacre de Tracunhaém e a fundação da Capitania da Paraíba” – Vicente Campos Filho – Literatura de Cordel

Nenhum comentário:

Postar um comentário