Qorpo Santo e o Teatro do Absurdo
O chamado teatro
do absurdo surge em meados do século XX como uma expressão tardia dos
movimentos revolucionários de vanguarda nas artes plásticas e literatura que
despontaram no início do século. A mais importante delas o surrealismo que surge
através de um manifesto escrito em 1924 pelo poeta francês André Breton.
O que pouca
gente sabe é que quase cem anos antes daqueles movimentos de vanguarda, numa
pequena cidade do interior Rio Grande do Sul havia um artista que já antecipava
a orientação disruptiva da arte moderna, explorando os limites entre a razão e
a loucura. Em 1866, numa época em que o teatro brasileiro se baseava na banalidade
de comédia de costumes, nos dramalhões e o no teatro musicado, esse gaúcho
literalmente tido como louco criou cenas absurdas em que personagem sugere usar
o código criminal do Império como papel higiênico (“Matheus e Matheusa”) ou
inversões ilógicas como mulheres da vida que lançam recriminações morais ao
homem casado que lhe procura no prostíbulo. (“Relações Naturais”).
Esse artista foi
Qorpo Santo, pseudônimo de José Joaquim de Campos Leão, nascido em Triunfo/RS
no ano de 1829. Iniciou a vida trabalhando como professor de português e
comerciante, passando ao cargo de vereador e delegado de polícia na cidade de
Alegrete.
Pelos idos do
ano de 1866, começou a manifestar alucinações e sinais de esquizofrenia,
fazendo com que seus familiares, contra a sua vontade, movessem um processo de
interdição. Foi suscitada a hipótese de o artista sofrer de quadro de
monomania, no qual a pessoa é domada por uma obsessão ou delírio fixado num
único objeto, numa ideia ou numa tarefa.
A hipótese da
monomania é plausível: praticamente
todas as peças do escritor, dezessete no total, foram escritas de forma
obsessiva dentro de alguns poucos meses do ano de 1866, justamente na época em
que foi aventada a hipótese de loucura. Foi nesse período de alucinações que o
artista, em pouquíssimo tempo, escreveu
toda a sua obra que hoje conhecemos.
Qorpo Santo vai
até o Rio de Janeiro para requerer uma contraprova atestando sua sanidade
mental mas o documento não é aceito quando volta ao estado natal. Aventa-se a
hipótese de que esse pedido de interdição suscitado pela mulher de Qorpo Santo pode
ter se pautado por graves desavenças conjugais, numa época em que o divórcio
era negado legalmente.
Nesta
controvérsia em torno dos limites entre a razão e a loucura, Qorpo Santo
escolhe então fundir através das suas peças a figura do artista e do louco. Como
se acatasse o rótulo de esquizofrênico para com isso levar adiante a sua nova
proposta de teatro do absurdo.
Suas encenações
exploram diversos aspectos da loucura: personagens proferem palavras incoerentes
e nebulosas como se viesse diretamente do inconsciente. No meio de mesma fala,
o fluxo de pensamento é intercalado por ideias conflitantes. Como se o
personagem mudasse de ideia no meio de uma mesma oração. Em peças curtíssimas,
um mesmo personagem surge em diferentes cenas com nomes distintos sem qualquer
explicação. O que melhor poderia definir
o louco senão aquela cisão fundamental do indivíduo, quando aquilo que se fala
é distinto daquilo que se é?
E a lógica é
sempre desafiada por um jogo de inversões que confere humor às peças de teatro,
encenadas mais frequentemente na forma de comédia.
A mais conhecida
delas é “Relações Naturais” dividida em 3 atos com personagens nomeados pelo
temperamento como “impertinente”. “consoladora”, “insperto (que muda o
nome para “criado”) ou neologismos como “truquetruque” ou “malherbe”. O jogo de
inversão ocorre quando um conde é chamado espiritualmente ao prostibulo e lá é
recebido com violência e apelo da moralidade por três prostitutas. Outro
absurdo acontece quando um “amo” (nobre) despede o seu criado (“insperto”) aos
gritos dizendo “nunca mais querer servi-lo” (?).
Numa certa
passagem um personagem confunde sua esposa amada com a sua filha, tangenciando perigosamente
o tema do incesto – lembre-se que Nelson Rodrigues iria só explorar esse crime
em meados do século XX e ainda assim causando um enorme furor.
Qorpo Santo é
reivindicado ainda como o primeiro dramaturgo a colocar em cena um casal
homossexual. Também fez uma crítica contundente ao casamento e às instituições
familiares na peça “Matheus e Matheusa” - em determinada passagem, a esposa arremessa
no marido o Código Criminal como se fosse uma pedra para ataca-lo; o marido sua
vez pega o objeto e sugere o utilizar como papel higiênico. A inversão completa
ocorre logo depois, no final da peça: quando marido e mulher partem finalmente
para a violência física, surge Barriôs o criado da casa, fazendo um estranho discurso
solene e fora de contexto em defesa da autoridade e da sabedoria das
instituições, em nome do progresso da nação.
Qorpo Santo foi
professor de gramática e suscitou uma audaciosa proposta de reforma ortográfica
pautada na exclusão de letras e fonemas que não se relacionam com a palavra
falada. Era por exemplo partidário de excluir definitivamente o Y ou o W ou o K
da língua portuguesa e o seu próprio pseudônimo - “qorpo” ao invés de “corpo” –
dá uma pista dessa nova proposta gramatical.
Como não poderia
eixar de ser, por meio dessas obras absurdas, o que Qorpo Santo conseguiu foi
apenas corroborar a alegação de todos aqueles que o taxavam de louco. Ainda hoje, há aqueles que desconfiam da
idoneidade das peças e pode-se mesmo aventar a hipótese de que se trata de um
documento escrito por alguém fora da razão.
Certamente é
difícil dimensionar o arrojo e audácia do escritor que fala de prostituição,
loucura e sexualidade no Brasil de meados do século XIX quando a arte se
circunscrevia no romantismo convencional de José de Alencar, a política se dava
sob a égide da Monarquia, os meios urbanos eram inexpressivos, o analfabetismo
reinava de forma absoluta e a economia dependente da escravidão.
Como seria
possível que um brasileiro tido como louco num pequeno vilarejo nas montanhas
da serra gaúcha antecipasse experimentações artísticas que brincam com o
inconsciente anos antes do nascimento de Freud e da psicanálise?
Por conta disso,
desse pioneirismo fora do comum, durante décadas após o falecimento de Qorpo
Santo sua obra ficou inteiramente desconhecida. Foi só nos anos de 1960 que
pesquisadores tiveram acesso ao acervo do escritor e essa joia da arte nacional
foi garimpada e descoberta.
Por não ter a
mais remota condição de ver a suas peças publicadas, Qorpo Santo foi obrigado a
criar a sua própria tipografia. Criou uma espécie de “enciclopédia” onde estão
reunidas as suas peças de teatro, poemas e aforismo. E apenas parte desse
material nos foi descoberto.

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