domingo, 13 de setembro de 2026

Qorpo Santo e o Teatro do Absurdo

 Qorpo Santo e o Teatro do Absurdo


 

O chamado teatro do absurdo surge em meados do século XX como uma expressão tardia dos movimentos revolucionários de vanguarda nas artes plásticas e literatura que despontaram no início do século. A mais importante delas o surrealismo que surge através de um manifesto escrito em 1924 pelo poeta francês André Breton.

O que pouca gente sabe é que quase cem anos antes daqueles movimentos de vanguarda, numa pequena cidade do interior Rio Grande do Sul havia um artista que já antecipava a orientação disruptiva da arte moderna, explorando os limites entre a razão e a loucura. Em 1866, numa época em que o teatro brasileiro se baseava na banalidade de comédia de costumes, nos dramalhões e o no teatro musicado, esse gaúcho literalmente tido como louco criou cenas absurdas em que personagem sugere usar o código criminal do Império como papel higiênico (“Matheus e Matheusa”) ou inversões ilógicas como mulheres da vida que lançam recriminações morais ao homem casado que lhe procura no prostíbulo. (“Relações Naturais”).

Esse artista foi Qorpo Santo, pseudônimo de José Joaquim de Campos Leão, nascido em Triunfo/RS no ano de 1829. Iniciou a vida trabalhando como professor de português e comerciante, passando ao cargo de vereador e delegado de polícia na cidade de Alegrete.

Pelos idos do ano de 1866, começou a manifestar alucinações e sinais de esquizofrenia, fazendo com que seus familiares, contra a sua vontade, movessem um processo de interdição. Foi suscitada a hipótese de o artista sofrer de quadro de monomania, no qual a pessoa é domada por uma obsessão ou delírio fixado num único objeto, numa ideia ou numa tarefa.

A hipótese da monomania é plausível:  praticamente todas as peças do escritor, dezessete no total, foram escritas de forma obsessiva dentro de alguns poucos meses do ano de 1866, justamente na época em que foi aventada a hipótese de loucura. Foi nesse período de alucinações que o artista, em pouquíssimo tempo,  escreveu toda a sua obra que hoje conhecemos.  

Qorpo Santo vai até o Rio de Janeiro para requerer uma contraprova atestando sua sanidade mental mas o documento não é aceito quando volta ao estado natal. Aventa-se a hipótese de que esse pedido de interdição suscitado pela mulher de Qorpo Santo pode ter se pautado por graves desavenças conjugais, numa época em que o divórcio era negado legalmente.

Nesta controvérsia em torno dos limites entre a razão e a loucura, Qorpo Santo escolhe então fundir através das suas peças a figura do artista e do louco. Como se acatasse o rótulo de esquizofrênico para com isso levar adiante a sua nova proposta de teatro do absurdo.

Suas encenações exploram diversos aspectos da loucura: personagens proferem palavras incoerentes e nebulosas como se viesse diretamente do inconsciente. No meio de mesma fala, o fluxo de pensamento é intercalado por ideias conflitantes. Como se o personagem mudasse de ideia no meio de uma mesma oração. Em peças curtíssimas, um mesmo personagem surge em diferentes cenas com nomes distintos sem qualquer explicação.  O que melhor poderia definir o louco senão aquela cisão fundamental do indivíduo, quando aquilo que se fala é distinto daquilo que se é?

E a lógica é sempre desafiada por um jogo de inversões que confere humor às peças de teatro, encenadas mais frequentemente na forma de comédia.

A mais conhecida delas é “Relações Naturais” dividida em 3 atos com personagens nomeados  pelo  temperamento como “impertinente”. “consoladora”, “insperto (que muda o nome para “criado”) ou neologismos como “truquetruque” ou “malherbe”. O jogo de inversão ocorre quando um conde é chamado espiritualmente ao prostibulo e lá é recebido com violência e apelo da moralidade por três prostitutas. Outro absurdo acontece quando um “amo” (nobre) despede o seu criado (“insperto”) aos gritos dizendo “nunca mais querer servi-lo” (?).

Numa certa passagem um personagem confunde sua esposa amada com a sua filha, tangenciando perigosamente o tema do incesto – lembre-se que Nelson Rodrigues iria só explorar esse crime em meados do século XX e ainda assim causando um enorme furor.

Qorpo Santo é reivindicado ainda como o primeiro dramaturgo a colocar em cena um casal homossexual. Também fez uma crítica contundente ao casamento e às instituições familiares na peça “Matheus e Matheusa” - em determinada passagem, a esposa arremessa no marido o Código Criminal como se fosse uma pedra para ataca-lo; o marido sua vez pega o objeto e sugere o utilizar como papel higiênico. A inversão completa ocorre logo depois, no final da peça: quando marido e mulher partem finalmente para a violência física, surge Barriôs o criado da casa, fazendo um estranho discurso solene e fora de contexto em defesa da autoridade e da sabedoria das instituições, em nome do progresso da nação.

Qorpo Santo foi professor de gramática e suscitou uma audaciosa proposta de reforma ortográfica pautada na exclusão de letras e fonemas que não se relacionam com a palavra falada. Era por exemplo partidário de excluir definitivamente o Y ou o W ou o K da língua portuguesa e o seu próprio pseudônimo - “qorpo” ao invés de “corpo” – dá uma pista dessa nova proposta gramatical.

Como não poderia eixar de ser, por meio dessas obras absurdas, o que Qorpo Santo conseguiu foi apenas corroborar a alegação de todos aqueles que o taxavam de louco.  Ainda hoje, há aqueles que desconfiam da idoneidade das peças e pode-se mesmo aventar a hipótese de que se trata de um documento escrito por alguém fora da razão.

Certamente é difícil dimensionar o arrojo e audácia do escritor que fala de prostituição, loucura e sexualidade no Brasil de meados do século XIX quando a arte se circunscrevia no romantismo convencional de José de Alencar, a política se dava sob a égide da Monarquia, os meios urbanos eram inexpressivos, o analfabetismo reinava de forma absoluta e a economia dependente da escravidão.

Como seria possível que um brasileiro tido como louco num pequeno vilarejo nas montanhas da serra gaúcha antecipasse experimentações artísticas que brincam com o inconsciente anos antes do nascimento de Freud e da psicanálise?

Por conta disso, desse pioneirismo fora do comum, durante décadas após o falecimento de Qorpo Santo sua obra ficou inteiramente desconhecida. Foi só nos anos de 1960 que pesquisadores tiveram acesso ao acervo do escritor e essa joia da arte nacional foi garimpada e descoberta.

Por não ter a mais remota condição de ver a suas peças publicadas, Qorpo Santo foi obrigado a criar a sua própria tipografia. Criou uma espécie de “enciclopédia” onde estão reunidas as suas peças de teatro, poemas e aforismo. E apenas parte desse material nos foi descoberto. 

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