domingo, 6 de setembro de 2026

“O Sétimo Selo” – Ingmar Bergman

 “O Sétimo Selo” – Ingmar Bergman



O “Sétimo Selo” é uma expressão cinematográfica dos anseios da filosofia existencialista que emergia no contexto histórico do Pós Segunda Guerra Mundial. Não por acaso, o filme do cineasta sueco Ingmar Bergman (1918/2007) foi lançado em 1957, poucos anos depois do livro “A Peste” de Albert Camus. O filme e o romance filosófico convergem ao mesmo horizonte filosófico servindo-se, inclusive, do mesmo tema: as duas histórias tratam de uma grande epidemia de cólera que lança repentinamente uma coletividade a todos os sentimentos inerentes à morte, colocando em pauta os grandes questionamentos existenciais a um vasto número de pessoas; cada qual buscando dimensionar um sentido diferente à peste, mas todos igualados de forma absoluta quando suas vidas são ceifadas pela morte inapelável.   

No contexto da II Guerra Mundial, a destruição e morte de milhões de pessoas, consubstanciadas particularmente nas duas bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki, colocam em pauta o problema do sentido da vida e o questionamento de todas as tradições filosóficas herdeiras do iluminismo que se pautam na teleologia.  

A racionalidade por detrás das grandes ideologias políticas que se confrontaram na II Guerra (fascismo, liberalismo e comunismo) conduziu os homens ao estado de barbárie, fazendo com que filósofos existencialistas como Sartre e Camus propusessem uma espécie de filosofia do absurdo: o paradoxo entre a busca incessante de sentido na vida pelos homens (através da fé ou da razão) e a completa indiferença da realidade ou, se quisermos, de Deus, que lança a espada da morte de maneira igual a cada um dos homens independentemente de sua religião ou ideologia política.

O filme tem como ponto de partida o encontro de um cavaleiro medieval com a morte, personificada por um personagem vestido inteiramente de preto, de semblante sombrio e olhar perscrutador.

A morte imediatamente se apresenta como tal e revela estar na companhia de Antonius, o soldado, há muito tempo. Esse encontro se dá no momento em que o cavaleiro e seu escudeiro retornam à terra natal depois de dez anos combatendo nas cruzadas em defesa da fé cristã. Ironicamente, o retorno ao lar se dá no contexto da peste negra, uma grande epidemia que era vista pela Igreja como um castigo divino; sobreviventes de uma guerra em defesa de Deus, o cavaleiro e seu escudeiro são novamente convocados pelas circunstâncias ao encontro com o divino, a partir do momento em que a morte surge no horizonte para conduzi-lo em direção à escuridão.

O filme ficou bastante conhecido no imaginário daqueles que apreciam o cinema pela imagem desse cavaleiro jogando xadrez com a morte.

O jogo de xadrez possui diversos significados. Sabe-se desde o começo que nenhum homem é capaz de vencer a morte;  por mais astuto, ninguém jamais soube lográ-la. De certo modo, todos sabemos da inevitabilidade da morte (e, portanto, da sua invencibilidade) mas alimentamos um desejo íntimo e irracional de jogar essa partida, ainda que seja para ganhar tempo. O cavaleiro propõe o jogo de xadrez pois precisa de mais tempo para encontrar o sentido da vida e preencher o vazio que orienta a sua alma. O desafio é aceito pela morte, com um certo olhar de ironia.  

Esse personagem principal, o cavaleiro medieval, é a representação do filósofo existencialista açoitado por um sentimento de angústia que não decorre propriamente do medo da morte. O seu pavor decorre da impossibilidade de captar algum sentido na vida e de compreender a existência de Deus. Em certa passagem, o protagonista diz que “a fé é algo doloroso, é como ver remotamente alguém dentro de um quarto escuro, chamá-lo e essa pessoa não sair de lá, não atender ao nosso chamado”.

O desespero do cavaleiro e do filósofo existencialista não surge de um acerto de contas com Deus, muito menos do medo do inferno, mas de um grande vazio, de uma indiferença fria da vida, o que sugere o absurdo da existência, produto de uma incompreensão incontornável da razão por que existimos.  

O cavaleiro e seu escudeiro marcham em direção a vilarejos medievais onde a peste vai desnudando as diversas formas com que o problema da morte emerge no imaginário do povo.

De maneira geral, no contexto da Inquisição medieval, a peste aparecia como manifestação de um Deus punitivo, e indicava o juízo final, pavimentando grandes marchas religiosas, com músicas fúnebres e homens se auto martirizando para a purgação dos pecados. A dinâmica da peste articula-se com as atividades da Inquisição, quando a mistificação se transforma em perseguição religiosa e barbárie.

Uma das cenas mais poderosas do filme se dá quando um grupo de pessoas se mobiliza para queimar em praça pública uma mulher acusada de bruxaria. Acusavam-na de carregar o Diabo no seu próprio corpo e lhe atribuem culpa pela disseminação da peste. O cavaleiro rompe o cerco e trava relação com a mulher antes da aplicação da pena capital. Num ato de desespero, Antonius implora para que a bruxa através do seu olhar evidenciasse o Demônio: o cavaleiro presume que o  diabo teria alguma informação sobre o grande segredo da vida, qual é a natureza divina. O seu desespero se dá justamente quando contempla os olhos da bruxa e enxerga um grande vazio: apenas o simples e banal medo humano, nada de divino ou de sobrenatural.

O término do filme se dá com uma visão poética da morte vista por um artista capaz de ter visões. Ele e sua esposa acompanhavam o cavaleiro e seu grupo de homens condenados à morte mas, por um lance do acaso, conseguem provisoriamente escapar do destino inapelável.

O artista contempla numa visão a imagem do fim, uma fotografia do que é morrer. Seu olhar é de encanto, como se estivesse apreciando uma grande obra de arte: a humanidade numa grande marcha fúnebre, conduzida pela morte à frente munida de sua espada, todos em direção à escuridão, dentro de uma fila indiana. Vão caminhando e dançando até o fim do horizonte.  

O existencialismo é a resposta de um conjunto de filósofos que passam a duvidar de uma noção cristalizada de que a História, dos indivíduos e da coletividade, tenha algum sentido.

Essa filosofia e o filme o “Sétimo Selo” não sugerem a pura e simples rejeição da existência de Deus. Mesmo um ateu pode atribuir sentido à vida e ter uma falsa ilusão de paz e felicidade, quando pautado por uma ideologia política materialista. O que emerge aqui é o grande vazio daqueles que chegaram à conclusão de que somos forçados a perguntar qual o sentido da vida ou para onde vamos, mas sabendo, como no jogo de xadrez, que a partida já está perdida, porquanto jamais atingiremos a resposta. Jamais saberemos qual é o sentido, porque fomos criados e para onde marchamos. Mas ainda insistimos em jogar esse jogo.


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