“O Sétimo Selo” – Ingmar Bergman
O “Sétimo Selo” é
uma expressão cinematográfica dos anseios da filosofia existencialista que
emergia no contexto histórico do Pós Segunda Guerra Mundial. Não por acaso, o
filme do cineasta sueco Ingmar Bergman (1918/2007) foi lançado em 1957, poucos
anos depois do livro “A Peste” de Albert Camus. O filme e o romance filosófico convergem
ao mesmo horizonte filosófico servindo-se, inclusive, do mesmo tema: as duas
histórias tratam de uma grande epidemia de cólera que lança repentinamente uma
coletividade a todos os sentimentos inerentes à morte, colocando em pauta os
grandes questionamentos existenciais a um vasto número de pessoas; cada qual
buscando dimensionar um sentido diferente à peste, mas todos igualados de forma
absoluta quando suas vidas são ceifadas pela morte inapelável.
No contexto da
II Guerra Mundial, a destruição e morte de milhões de pessoas, consubstanciadas
particularmente nas duas bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki, colocam
em pauta o problema do sentido da vida e o questionamento de todas as tradições
filosóficas herdeiras do iluminismo que se pautam na teleologia.
A racionalidade
por detrás das grandes ideologias políticas que se confrontaram na II Guerra
(fascismo, liberalismo e comunismo) conduziu os homens ao estado de barbárie,
fazendo com que filósofos existencialistas como Sartre e Camus propusessem uma
espécie de filosofia do absurdo: o paradoxo entre a busca incessante de sentido
na vida pelos homens (através da fé ou da razão) e a completa indiferença da
realidade ou, se quisermos, de Deus, que lança a espada da morte de maneira igual
a cada um dos homens independentemente de sua religião ou ideologia política.
O filme tem como
ponto de partida o encontro de um cavaleiro medieval com a morte, personificada
por um personagem vestido inteiramente de preto, de semblante sombrio e olhar perscrutador.
A morte imediatamente
se apresenta como tal e revela estar na companhia de Antonius, o soldado, há
muito tempo. Esse encontro se dá no momento em que o cavaleiro e seu escudeiro
retornam à terra natal depois de dez anos combatendo nas cruzadas em defesa da
fé cristã. Ironicamente, o retorno ao lar se dá no contexto da peste negra, uma
grande epidemia que era vista pela Igreja como um castigo divino; sobreviventes
de uma guerra em defesa de Deus, o cavaleiro e seu escudeiro são novamente
convocados pelas circunstâncias ao encontro com o divino, a partir do momento em
que a morte surge no horizonte para conduzi-lo em direção à escuridão.
O filme ficou
bastante conhecido no imaginário daqueles que apreciam o cinema pela imagem
desse cavaleiro jogando xadrez com a morte.
O jogo de xadrez
possui diversos significados. Sabe-se desde o começo que nenhum homem é capaz
de vencer a morte; por mais astuto,
ninguém jamais soube lográ-la. De certo modo, todos sabemos da inevitabilidade
da morte (e, portanto, da sua invencibilidade) mas alimentamos um desejo íntimo
e irracional de jogar essa partida, ainda que seja para ganhar tempo. O
cavaleiro propõe o jogo de xadrez pois precisa de mais tempo para encontrar o
sentido da vida e preencher o vazio que orienta a sua alma. O desafio é aceito
pela morte, com um certo olhar de ironia.
Esse personagem
principal, o cavaleiro medieval, é a representação do filósofo existencialista
açoitado por um sentimento de angústia que não decorre propriamente do medo da
morte. O seu pavor decorre da impossibilidade de captar algum sentido na vida e
de compreender a existência de Deus. Em certa passagem, o protagonista diz que “a
fé é algo doloroso, é como ver remotamente alguém dentro de um quarto escuro, chamá-lo
e essa pessoa não sair de lá, não atender ao nosso chamado”.
O desespero do
cavaleiro e do filósofo existencialista não surge de um acerto de contas com
Deus, muito menos do medo do inferno, mas de um grande vazio, de uma
indiferença fria da vida, o que sugere o absurdo da existência, produto de uma
incompreensão incontornável da razão por que existimos.
O cavaleiro e
seu escudeiro marcham em direção a vilarejos medievais onde a peste vai
desnudando as diversas formas com que o problema da morte emerge no imaginário
do povo.
De maneira
geral, no contexto da Inquisição medieval, a peste aparecia como manifestação de
um Deus punitivo, e indicava o juízo final, pavimentando grandes marchas religiosas,
com músicas fúnebres e homens se auto martirizando para a purgação dos pecados.
A dinâmica da peste articula-se com as atividades da Inquisição, quando a
mistificação se transforma em perseguição religiosa e barbárie.
Uma das cenas
mais poderosas do filme se dá quando um grupo de pessoas se mobiliza para
queimar em praça pública uma mulher acusada de bruxaria. Acusavam-na de carregar
o Diabo no seu próprio corpo e lhe atribuem culpa pela disseminação da peste. O
cavaleiro rompe o cerco e trava relação com a mulher antes da aplicação da pena
capital. Num ato de desespero, Antonius implora para que a bruxa através do seu
olhar evidenciasse o Demônio: o cavaleiro presume que o diabo teria alguma informação sobre o grande
segredo da vida, qual é a natureza divina. O seu desespero se dá justamente
quando contempla os olhos da bruxa e enxerga um grande vazio: apenas o simples e
banal medo humano, nada de divino ou de sobrenatural.
O término do
filme se dá com uma visão poética da morte vista por um artista capaz de ter
visões. Ele e sua esposa acompanhavam o cavaleiro e seu grupo de homens condenados
à morte mas, por um lance do acaso, conseguem provisoriamente escapar do
destino inapelável.
O artista
contempla numa visão a imagem do fim, uma fotografia do que é morrer. Seu olhar
é de encanto, como se estivesse apreciando uma grande obra de arte: a
humanidade numa grande marcha fúnebre, conduzida pela morte à frente munida de
sua espada, todos em direção à escuridão, dentro de uma fila indiana. Vão
caminhando e dançando até o fim do horizonte.
O
existencialismo é a resposta de um conjunto de filósofos que passam a duvidar de
uma noção cristalizada de que a História, dos indivíduos e da coletividade, tenha
algum sentido.
Essa filosofia e
o filme o “Sétimo Selo” não sugerem a pura e simples rejeição da existência de
Deus. Mesmo um ateu pode atribuir sentido à vida e ter uma falsa ilusão de paz
e felicidade, quando pautado por uma ideologia política materialista. O que
emerge aqui é o grande vazio daqueles que chegaram à conclusão de que somos
forçados a perguntar qual o sentido da vida ou para onde vamos, mas sabendo,
como no jogo de xadrez, que a partida já está perdida, porquanto jamais
atingiremos a resposta. Jamais saberemos qual é o sentido, porque fomos criados
e para onde marchamos. Mas ainda insistimos em jogar esse jogo.

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