quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A Literatura de Adonias Filho

 A Literatura de Adonias Filho



 

Resenha Livro - “Corpo Vivo” – Adonias Filho – Editora Civilização Brasileira – Coleção Literatura Brasileira Contemporânea

São diversos os exemplos de grandes escritores que só foram alçados à condição de cânone literário muito depois da sua morte.

Um exemplo bastante conhecido foi o de Lima Barreto (1881–1922), o grande cronista do subúrbio carioca que foi marginalizado pelos meios intelectuais do seu tempo; morreu em estado de penúria, num contexto de alcoolismo e internação manicomial.

Outro exemplo foi Augusto dos Anjos (1884–1914), o grande poeta simbolista da Paraíba, completamente ignorado pela crítica literária até a década de 1930. Ou Qorpo Santos (1829–1883) que, em meados do século XIX, antecedeu em quase um século o teatro do absurdo, mas foi tido como louco e só descoberto décadas após a sua morte.

Adonias Filho (1915/1990) seguiu o sentido oposto: foi alçado na década de 1960 à condição de cânone da literatura brasileira para hoje ser completamente ignorado. Esse jornalista, crítico literário e romancista foi em vida descrito como o “Dostoievski brasileiro” e eleito em 1965 à Academia Brasileira de Letras, principal instância de consagração da literatura no Brasil.  

Hoje poucos conhecem seus romances, que combinam de forma original um realismo visceral com elementos místicos e simbólicos, alçando o meio rural brasileiro ao palco onde personagens brutos indagam as questões universais do homem.

Esse ostracismo do escritor baiano, injusto diante da qualidade literária de sua obra, pode talvez ser explicado pelo posicionamento político do autor. Adonias Filho foi um militante ativo do movimento Integralista, apoiou o golpe militar de 1964 e ocupou cargos oficiais durante a Ditadura. A geração que cursou Letras nas décadas de 1970 e seguintes certamente teria um enorme embaraço em apreciar a sua literatura e o estigma da política deve ter apagado o brilho desse escritor.  

O resgate da sua obra não deixa de ser relevante inclusive àqueles que prezam pelo romance social e se ocupam do problema da luta de classes. Adonias Filho retoma temas caros a outra escritor baiano, seu conterrâneo e amigo pessoal: Jorge Amado. Ambos são do sul da Bahia e dedicam grande parte de sua obra aos conflitos fundiários que marcaram a formação daquela parte do território brasileiro.

Nos primeiros anos do século XX, migrantes do norte da Bahia e outros estados do nordeste, parte deles fugindo da seca, vinham desbravando aquelas terras para enriquecer rapidamente através das fazendas do cacau. Havia a promessa do dinheiro rápido, diante da fertilidade do terreno. Apenas alguns poucos mais decididos ascendiam rapidamente, de forma parecida com o ciclo da mineração que também fez emergir os aventureiros que se lançaram ao interior do país em busca da rápida ascensão social. Abriam as picadas na mata e estavam sujeitos à morte fácil pelas doenças ou ataques das cobras. Ou através do assassinato, porquanto a vida naquelas paragens não vale absolutamente nada.

Logo se formaram os clãs, grupos familiares que foram se apropriando da terra e estruturando os grandes latifúndios do cacau, arregimentando gente para trabalhar na lavoura e os jagunços para exercer o poder através da bala. Uma simples querela suscitada por um camponês descontente com algum potentado rural era causa de morte certa.

Esse é o cenário do livro “Corpo Vazio” (1962) o último de uma trilogia que versa sobre a história daquele mundo rural.  

O escritor, nascido em novembro de 1915, era ele próprio filho de um fazendeiro do sul das Bahia e escutava quando criança as histórias dos trabalhadores do cacau.

O romance trata da trajetória de Cajango, um personagem movido por um sentido que conduzirá todo o fio da narrativa:  o desejo de vingança para honrar através do sangue a morte de sua família.

Quando criança, o protagonista presenciou um ataque de jagunços que cobiçavam as melhores terras para o cultivo do cacau; a cobiça os leva a matar os pais e irmãs de Cajango, não sem antes seviciá-las.

Cajango consegue escapar do massacre e é conduzido por um padrinho clandestinamente até o tio, um bugre selvagem chamado Inuri, que lhe irá implantar o sentimento de ódio e prepará-lo para vingar o assassinato da família. Passam a atacar e matar indiscriminadamente até obter a cabeça (literalmente decepá-la) dos jagunços responsáveis pela morte da família.  

Inuri ensina o sobrinho a viver como um selvagem e o torna conhecedor dos meandros de florestas cerradas, por onde nenhum outro homem já passou. A partir do momento em que se revela capaz de endurecer o coração, ao ponto de sentir indiferença àquele que mata, a criança se transforma em homem. Torna-se adulto com poucos anos de idade. Seus olhos verdes refletem o ódio e os músculos endurecidos do rosto denotam a inexistência de qualquer traço de compaixão.

Cajango na condição de líder de um grupo de bandoleiros e assassinos vive internado na floresta de onde saem para promover ataques e barbarizar as populações, instaurando-se uma guerra civil entre eles e os jagunços. Os personagens dos dois lados da guerra são conduzidos pelo sentimento animalesco, o ódio os torna indiferentes em relação à morte e cria um certo heroísmo de natureza mística quando revelam tranquilidade e altivez nos momentos em que enfrentam a morte certa. Vai sendo evidenciado um conflito entre moralidade e instinto de sobrevivência, com a prevalência inevitável do segundo em relação ao primeiro.  

Esse movimento de animalidade e vingança, que informa cada ato de Cajango, será rompido pelo encontro amoroso com uma mulher por quem se apaixona e traz ao bando. Essa primeira experiência de amor rompe esse fio original da vingança e gera o rompimento de Cajango com o tio e demais membros do grupo, o que, como não poderia deixar de ser, se dá através da violência mortal.

O assassinato do tio por Cajango é curiosamente o momento do perdão em relação ao trauma da infância, quando aquele sentido original de vingança que temperou toda a vida de Cajango é transfigurado para o desejo sincero de romper com a violência e constituir família com a mulher amada.

Cajango e os poucos que mantém a fidelidade estão cercados pelos jagunços, mas o herói e sua mulher conseguem ao romper o cerco e atingirem a serra, uma montanha inacessível, onde passarão a viver à parte dos homens: “poderão viver entre os bichos da selva, nus poderão andar, e paz existirá porque outro homem e outra mulher não descobrirão o ninho”. Ao se tornar inacessível aos jagunços que buscam a sua cabeça, o seu nome, temido na boca do povo, torna-se uma lenda.

O estilo de Adonias Filho é conciso e sentencioso. O autor explora a transfiguração poética, processo pelo qual a realidade concreta  é transformada pela imaginação e pela linguagem a algo de natureza simbólico e estético. O realismo de Adonias Filho não é, portanto, documental, o seu livro certamente não é uma mera fotografia dos conflitos agrários do sul da Bahia. Diferentemente de Jorge Amado, há em Adonias Filho uma maior força poética e lírica quando trata os personagens, evidenciando suas cogitações íntimas e explorando mais a análise psicológica: parece ser uma versão baiana do alagoano Graciliano Ramos, incluindo o mesmo estilo árido e seco.

Adonias Filho ainda tem originalidade ao adotar uma técnica cinematográfica, na qual os quadros da história são dispostos cronologicamente de forma descontínua, sem aderir ao modelo de narrativa tradicional de começo, meio e fim.

Curiosamente, o livro começa do fim: o último capítulo é o que literalmente antecede os primeiros parágrafos do livro, criando no leitor uma sensação de circularidade; sugerindo dolorosamente que aquele ciclo de violência gratuita e brutalização do homem seja algo interminável.   

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