A Literatura de Adonias Filho
Resenha
Livro - “Corpo Vivo” – Adonias Filho – Editora Civilização Brasileira – Coleção
Literatura Brasileira Contemporânea
São diversos
os exemplos de grandes escritores que só foram alçados à condição de cânone
literário muito depois da sua morte.
Um
exemplo bastante conhecido foi o de Lima Barreto (1881–1922), o grande cronista
do subúrbio carioca que foi marginalizado pelos meios intelectuais do seu
tempo; morreu em estado de penúria, num contexto de alcoolismo e internação manicomial.
Outro
exemplo foi Augusto dos Anjos (1884–1914), o grande poeta simbolista da Paraíba,
completamente ignorado pela crítica literária até a década de 1930. Ou Qorpo
Santos (1829–1883) que, em meados do século XIX, antecedeu em quase um século o
teatro do absurdo, mas foi tido como louco e só descoberto décadas após a sua
morte.
Adonias
Filho (1915/1990) seguiu o sentido oposto: foi alçado na década de 1960 à
condição de cânone da literatura brasileira para hoje ser completamente
ignorado. Esse jornalista, crítico literário e romancista foi em vida descrito como
o “Dostoievski brasileiro” e eleito em 1965 à Academia Brasileira de Letras,
principal instância de consagração da literatura no Brasil.
Hoje
poucos conhecem seus romances, que combinam de forma original um realismo visceral
com elementos místicos e simbólicos, alçando o meio rural brasileiro ao palco onde
personagens brutos indagam as questões universais do homem.
Esse
ostracismo do escritor baiano, injusto diante da qualidade literária de sua
obra, pode talvez ser explicado pelo posicionamento político do autor. Adonias
Filho foi um militante ativo do movimento Integralista, apoiou o golpe militar
de 1964 e ocupou cargos oficiais durante a Ditadura. A geração que cursou
Letras nas décadas de 1970 e seguintes certamente teria um enorme embaraço em
apreciar a sua literatura e o estigma da política deve ter apagado o brilho
desse escritor.
O
resgate da sua obra não deixa de ser relevante inclusive àqueles que prezam
pelo romance social e se ocupam do problema da luta de classes. Adonias Filho retoma
temas caros a outra escritor baiano, seu conterrâneo e amigo pessoal: Jorge
Amado. Ambos são do sul da Bahia e dedicam grande parte de sua obra aos
conflitos fundiários que marcaram a formação daquela parte do território
brasileiro.
Nos
primeiros anos do século XX, migrantes do norte da Bahia e outros estados do
nordeste, parte deles fugindo da seca, vinham desbravando aquelas terras para
enriquecer rapidamente através das fazendas do cacau. Havia a promessa do
dinheiro rápido, diante da fertilidade do terreno. Apenas alguns poucos mais
decididos ascendiam rapidamente, de forma parecida com o ciclo da mineração que
também fez emergir os aventureiros que se lançaram ao interior do país em busca
da rápida ascensão social. Abriam as picadas na mata e estavam sujeitos à morte
fácil pelas doenças ou ataques das cobras. Ou através do assassinato, porquanto
a vida naquelas paragens não vale absolutamente nada.
Logo
se formaram os clãs, grupos familiares que foram se apropriando da terra e
estruturando os grandes latifúndios do cacau, arregimentando gente para
trabalhar na lavoura e os jagunços para exercer o poder através da bala. Uma
simples querela suscitada por um camponês descontente com algum potentado rural
era causa de morte certa.
Esse
é o cenário do livro “Corpo Vazio” (1962) o último de uma trilogia que versa
sobre a história daquele mundo rural.
O
escritor, nascido em novembro de 1915, era ele próprio filho de um fazendeiro
do sul das Bahia e escutava quando criança as histórias dos trabalhadores do
cacau.
O
romance trata da trajetória de Cajango, um personagem movido por um sentido que
conduzirá todo o fio da narrativa: o
desejo de vingança para honrar através do sangue a morte de sua família.
Quando
criança, o protagonista presenciou um ataque de jagunços que cobiçavam as
melhores terras para o cultivo do cacau; a cobiça os leva a matar os pais e
irmãs de Cajango, não sem antes seviciá-las.
Cajango
consegue escapar do massacre e é conduzido por um padrinho clandestinamente até
o tio, um bugre selvagem chamado Inuri, que lhe irá implantar o sentimento de ódio
e prepará-lo para vingar o assassinato da família. Passam a atacar e matar
indiscriminadamente até obter a cabeça (literalmente decepá-la) dos jagunços
responsáveis pela morte da família.
Inuri
ensina o sobrinho a viver como um selvagem e o torna conhecedor dos meandros de
florestas cerradas, por onde nenhum outro homem já passou. A partir do momento
em que se revela capaz de endurecer o coração, ao ponto de sentir indiferença àquele
que mata, a criança se transforma em homem. Torna-se adulto com poucos anos de
idade. Seus olhos verdes refletem o ódio e os músculos endurecidos do rosto
denotam a inexistência de qualquer traço de compaixão.
Cajango
na condição de líder de um grupo de bandoleiros e assassinos vive internado na
floresta de onde saem para promover ataques e barbarizar as populações,
instaurando-se uma guerra civil entre eles e os jagunços. Os personagens dos
dois lados da guerra são conduzidos pelo sentimento animalesco, o ódio os torna
indiferentes em relação à morte e cria um certo heroísmo de natureza mística quando
revelam tranquilidade e altivez nos momentos em que enfrentam a morte certa. Vai
sendo evidenciado um conflito entre moralidade e instinto de sobrevivência, com
a prevalência inevitável do segundo em relação ao primeiro.
Esse
movimento de animalidade e vingança, que informa cada ato de Cajango, será
rompido pelo encontro amoroso com uma mulher por quem se apaixona e traz ao bando.
Essa primeira experiência de amor rompe esse fio original da vingança e gera o rompimento
de Cajango com o tio e demais membros do grupo, o que, como não poderia deixar
de ser, se dá através da violência mortal.
O assassinato
do tio por Cajango é curiosamente o momento do perdão em relação ao trauma da
infância, quando aquele sentido original de vingança que temperou toda a vida
de Cajango é transfigurado para o desejo sincero de romper com a violência e
constituir família com a mulher amada.
Cajango
e os poucos que mantém a fidelidade estão cercados pelos jagunços, mas o herói e
sua mulher conseguem ao romper o cerco e atingirem a serra, uma montanha
inacessível, onde passarão a viver à parte dos homens: “poderão viver entre
os bichos da selva, nus poderão andar, e paz existirá porque outro homem e
outra mulher não descobrirão o ninho”. Ao se tornar inacessível aos
jagunços que buscam a sua cabeça, o seu nome, temido na boca do povo, torna-se
uma lenda.
O
estilo de Adonias Filho é conciso e sentencioso. O autor explora a
transfiguração poética, processo pelo qual a realidade concreta é transformada pela imaginação e pela
linguagem a algo de natureza simbólico e estético. O realismo de Adonias Filho
não é, portanto, documental, o seu livro certamente não é uma mera fotografia
dos conflitos agrários do sul da Bahia. Diferentemente de Jorge Amado, há em
Adonias Filho uma maior força poética e lírica quando trata os personagens,
evidenciando suas cogitações íntimas e explorando mais a análise psicológica:
parece ser uma versão baiana do alagoano Graciliano Ramos, incluindo o mesmo
estilo árido e seco.
Adonias
Filho ainda tem originalidade ao adotar uma técnica cinematográfica, na qual os
quadros da história são dispostos cronologicamente de forma descontínua, sem
aderir ao modelo de narrativa tradicional de começo, meio e fim.
Curiosamente,
o livro começa do fim: o último capítulo é o que literalmente antecede os
primeiros parágrafos do livro, criando no leitor uma sensação de circularidade;
sugerindo dolorosamente que aquele ciclo de violência gratuita e brutalização
do homem seja algo interminável.

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