
O livro publicado pela editora Boitempo corresponde a uma série de ensaios do filósofo carioca, tendo como fio condutor as distintas noções de democracia, política (teoria política x ciência política) e a questão da revolução do modo de produção. Os temas são enfocados a partir das contribuições dos mais destacados autores de teoria política de um período que vai da consolidação da burguesia como classe dominante até o momento em que se destacam os críticos da sociedade capitalistas: de Rousseau e Hegel a Marx e Gramsci, contando com um capítulo final com alguns destaques do marxista húngaro Lukács.
Autor
Carlos Nelson Coutinho integra um grupo de intelectuais marxistas do Brasil com destacada importância no sentido de repercutir as ideias da filosofia da práxis no país fugindo sempre do dogmatismo e da ortodoxia que marcaram o marxismo oficial de verniz stalinista durante o séc. XX.
Enquanto Leandro Konder aprofunda a noção da dialética e Celso Frederico discute as ideias do Jovem Marx, Carlos Nelson tem contribuição decisiva na introdução e generalização das ideias do filósofo A. Gramsci no Brasil – no ensaio há, aliás, um capítulo bastante interessante dedicado a explicar a forma como os cadernos (um total de 29 cadernos, todos eles escritos na prisão) foram editados na Itália e no Brasil. Descreve algumas polêmicas quanto ao agrupamento dos textos e o fato de Brasil e Argentina terem sido um dos primeiros países a ter acesso aos textos do autor italiano.
Com relação à obra, sua atualidade refere-se em primeiro lugar a reivindicação do estudo da política para além daquilo que Gramsci chama da “pequena política” e o discurso do senso comum (reproduzido mesmo na universidade) que afirma a “ciência política” como um conhecimento “neutro”, baseado em “sistemas” passíveis de serem medidas por meio de análises estatísticas, etc.
Já em Rousseau e a partir deste autor, o autor identifica o esforço de se pensar a política enquanto uma totalidade, evolução que atravessa gradualmente os demais auores: pelo pensamento de Hegel até chegar a Marx, quando, na obra Questão Judaica, este último reivindica, para além da emancipação política, a emancipação humana geral, remetendo à exigência de se pensar os fenômenos sociais como parte de processos históricos globais, inter-relacionados e, mais importantes, com projeções sobre a totalidade das relações sociais. (Aquilo que Gramsci chamará de Grande Política).
Importante destacar: a divisão entre pequena política e grande política tem a ver com os interesses políticos da classe dominante: a pequena política de gabinete que acompanhamos nos jornais e na televisão despolitiza as grandes questões determinantes, sendo a grande política, a decisão acerca dos rumos da economia e da organização da produção e distribuição da riqueza na sociedade sempre discutidas prioritariamente e exclusivamente pelas classes dominantes. Isto, alerta Coutinho, não é uma regra fixa, podendo haver momentos em que há uma inversão de papeis quanto a pequena e grande política, sempre ao sabor dos interesses imediatos das classes dominantes. Às vezes a grande política pode ser discutida pelo conjunto da sociedade, principalmente em momentos de impasse histórico. (Pensar no momento de crise estrutural do capitalismo quando as saídas keynesianas não se mostram suficientes para dar conta das contradições e da própria natureza destrutiva do capitalismo).
Algumas críticas – o Reformismo em Coutinho
Na página 74 do livro, há uma passagem em que Coutinho aponta uma implicação da alteração da tendência do capitalismo de redução da exploração do trabalho por meio da mais valia absoluta e aumento da exploração do trabalho por meio da mais valia relativa (aumento da produtividade). A implicação é uma melhoria relativa da qualidade de vida das classes exploradas. Ainda que persista a exploração do trabalho, há a criação de um novo equilíbrio, havendo a possibilidade de aumento simultâneo tanto dos salários quanto dos lucros dos capitalistas (realidade que estaria mais presente no Estado Social do Séc. XX o qual, por suposto, Marx não presenciou).
Discordamos de Coutinho quando este diz que "[esta nova realidade] forçou o Estado capitalista a se abrir para novos interesses que não o da classe dominante”.
O estado, segundo Marx, é o comitê executivo dos interesses da burguesia, instrumento de dominação da mesma sobre o proletariado e sua natureza de classe não se exaure pelas concessões da burguesia (concessões que são sempre provisórias e aparentes, principalmente quando observamos neste momento os cortes sociais nos estados europeu em crise econômica). O horizonte estratégico dos socialistas é a abolição do aparato-repressivo-ideológico do estado burguês e a extinção do poder político por meio da generalização da socialização e a auto- gestão da produção e da política. Sem este horizonte, caímos na tragédia reformista da social- democracia.
Reforma ou Revolução, a obra de Rosa Luxemburgo continua aqui sendo central e atual.





