quarta-feira, 11 de abril de 2012

De Rousseau a Gramsci – Carlos Nelson Coutinho

Resenha livro #42 De Rousseau a Gramsci – Carlos Nelson Coutinho



O livro publicado pela editora Boitempo corresponde a uma série de ensaios do filósofo carioca, tendo como fio condutor as distintas noções de democracia, política (teoria política x ciência política) e a questão da revolução do modo de produção. Os temas são enfocados a partir das contribuições dos mais destacados autores de teoria política de um período que vai da consolidação da burguesia como classe dominante até o momento em que se destacam os críticos da sociedade capitalistas: de Rousseau e Hegel a Marx e Gramsci, contando com um capítulo final com alguns destaques do marxista húngaro Lukács.

Autor

Carlos Nelson Coutinho integra um grupo de intelectuais marxistas do Brasil com destacada importância no sentido de repercutir as ideias da filosofia da práxis no país fugindo sempre do dogmatismo e da ortodoxia que marcaram o marxismo oficial de verniz stalinista durante o séc. XX.

Enquanto Leandro Konder aprofunda a noção da dialética e Celso Frederico discute as ideias do Jovem Marx, Carlos Nelson tem contribuição decisiva na introdução e generalização das ideias do filósofo A. Gramsci no Brasil – no ensaio há, aliás, um capítulo bastante interessante dedicado a explicar a forma como os cadernos (um total de 29 cadernos, todos eles escritos na prisão) foram editados na Itália e no Brasil. Descreve algumas polêmicas quanto ao agrupamento dos textos e o fato de Brasil e Argentina terem sido um dos primeiros países a ter acesso aos textos do autor italiano.

Com relação à obra, sua atualidade refere-se em primeiro lugar a reivindicação do estudo da política para além daquilo que Gramsci chama da “pequena política” e o discurso do senso comum (reproduzido mesmo na universidade) que afirma a “ciência política” como um conhecimento “neutro”, baseado em “sistemas” passíveis de serem medidas por meio de análises estatísticas, etc.

Já em Rousseau e a partir deste autor, o autor identifica o esforço de se pensar a política enquanto uma totalidade, evolução que atravessa gradualmente os demais auores: pelo pensamento de Hegel até chegar a Marx, quando, na obra Questão Judaica, este último reivindica, para além da emancipação política, a emancipação humana geral, remetendo à exigência de se pensar os fenômenos sociais como parte de processos históricos globais, inter-relacionados e, mais importantes, com projeções sobre a totalidade das relações sociais. (Aquilo que Gramsci chamará de Grande Política).

Importante destacar: a divisão entre pequena política e grande política tem a ver com os interesses políticos da classe dominante: a pequena política de gabinete que acompanhamos nos jornais e na televisão despolitiza as grandes questões determinantes, sendo a grande política, a decisão acerca dos rumos da economia e da organização da produção e distribuição da riqueza na sociedade sempre discutidas prioritariamente e exclusivamente pelas classes dominantes. Isto, alerta Coutinho, não é uma regra fixa, podendo haver momentos em que há uma inversão de papeis quanto a pequena e grande política, sempre ao sabor dos interesses imediatos das classes dominantes. Às vezes a grande política pode ser discutida pelo conjunto da sociedade, principalmente em momentos de impasse histórico. (Pensar no momento de crise estrutural do capitalismo quando as saídas keynesianas não se mostram suficientes para dar conta das contradições e da própria natureza destrutiva do capitalismo).

Algumas críticas – o Reformismo em Coutinho

Na página 74 do livro, há uma passagem em que Coutinho aponta uma implicação da alteração da tendência do capitalismo de redução da exploração do trabalho por meio da mais valia absoluta e aumento da exploração do trabalho por meio da mais valia relativa (aumento da produtividade). A implicação é uma melhoria relativa da qualidade de vida das classes exploradas. Ainda que persista a exploração do trabalho, há a criação de um novo equilíbrio, havendo a possibilidade de aumento simultâneo tanto dos salários quanto dos lucros dos capitalistas (realidade que estaria mais presente no Estado Social do Séc. XX o qual, por suposto, Marx não presenciou).

Discordamos de Coutinho quando este diz que "[esta nova realidade] forçou o Estado capitalista a se abrir para novos interesses que não o da classe dominante”.

O estado, segundo Marx, é o comitê executivo dos interesses da burguesia, instrumento de dominação da mesma sobre o proletariado e sua natureza de classe não se exaure pelas concessões da burguesia (concessões que são sempre provisórias e aparentes, principalmente quando observamos neste momento os cortes sociais nos estados europeu em crise econômica). O horizonte estratégico dos socialistas é a abolição do aparato-repressivo-ideológico do estado burguês e a extinção do poder político por meio da generalização da socialização e a auto- gestão da produção e da política. Sem este horizonte, caímos na tragédia reformista da social- democracia.

Reforma ou Revolução, a obra de Rosa Luxemburgo continua aqui sendo central e atual.

Esperando Godot - Samuel Beckett

Resenha Livro #41 Esperando Godot – Samuel Beckett – Ed. Cosacnaify



Diálogos e Contranssensos

O cenário da peça é extremamente simples: há uma árvore retorcida no centro do palco, fumaça e neblina ao fundo. Poucos personagens em cena: uma dupla de miseráveis como atores principais (Estragon e Vladimir) que, enquanto aguardam Godot, deparam-se com personagens que estão apenas de passagem – o aristocrata Pozzo, o enigmático Lucky e o(s) menino(s) que dá os recados de Godot. (não se sabe rigorosamente se o menino do primeiro ato é o mesmo menino do segundo ato).

A espera de Godot torna-se o motivo central da peça do autor irlandês Samuel Beckett. A história é, nesse sentido, uma peça revolucionária por não se tratar de um relato com as temporalidades tradicionais de uma narrativa, por não se tratar daquelas histórias contadas em teatro eivadas de um ou vários confitos, turning points, clímax e um desenlace final com uma eventual “moral da história”. A sensação (intencional) é que o fim de “Esperando Godot” seja inconcluso. A peça não retrata uma história, mas um intervalo, ou seja, a narrativa de uma espera cujos marcos temporais podem se expandir ao infinito – a espera de um Godot que jamais surge ou retorna.

Sobre a história

Vladimir e Estragon são dois viventes miseráreis e aparentemente abandonados pelo restante do mundo – a sensação é a de que cada um depende do outro, remetendo os diálogos è existência de um amor não homossexual, havendo uma relação de aparente dependência entre ambos. (Estragon não consegue abandonar Vladimir e Vladimir não consegue abandonar Estragon, conquanto ambos persistem esperando Godot).
Os diálogos entre os protagonistas, outrossim, mereceriam um destaque especial: a comunicação parece estar eivada de falhas, como-se ambos não falassem coisa com coisa. Por outro lado, algumas passagens remetem relação de complementaridade entre as falas: isso faz com que ambos em certas passagens surjam como um “personagem comum”. Em outras palavras: o que cada um fala como diálogo poderia ser um monólogo de um “sujeito síntese” de Estragon e Vladimir, tamanho é o grau de intimidade e ligação entre ambos.

Seja como for, Vladimir e Estragon dialogam no sentido de expressar suas inquietações enquanto aguardam Godot. Não se sabe o que significa Godot e a que se refere a sua espera. O fato desta informação não estar presente na peça não é, por suposto, involuntário. Diversas teses foram então levantadas, apresentando Godot como um messisas a ser aguardado,como a morte, como a restauração de vida, como o totalitarismo em Alemanha e Itália: as possibilidades são infinitas, e é, mais uma vez, o caráter radicalmente polissêmico da história e das falas de “Esperando Godot” que fez da peça um marco no teatro mundial.

Passagem final

VLADIMIR

Não percamos tempo com palavras vazias. (Pausa. Com Veemência). Façamos alguma coisa, enquanto há chance!Não é todo dia que precisam de nós. Ainda que, a bem da verdade, não seja exatamente de nós. Outros dariam conta do recado, tão bem quanto, senão melhor. O apelo que ouvimos se dirige antes a toda a humanidade. Mas neste lugar, neste momento, a humanidade somos nós, queiramos ou não. Aproveitemos enquanto é tempo. Representar dignamente, uma única vez que seja, a espécie a que estamos desgraçadamente atadas pelo destino cruel. O que me diz? (Estragon não fala nada). Claro que, avaliando os prós e contras, de cabeça fria, não chegamos a desmerecer a espécie. Veja o Tigre que se precipita em socorro aos seus congêneres, sem a menor hesitação. Ou foge, salva sua pele, embrenhando-se no meio da mata. Mas não é esse o xis da questão. O que estamos fazendo aqui, essa é a questão. Foi-nos dada uma oportunidade de descobrir. Sim, dentro desta imensa confusão, apenas uma coisa está clara: estamos esperando que Godot venha.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Estudos Direito e Política #1

Estudos Direito e Política# 1 – MASCARO, Alysson Leandro. “Os Direitos Humanos e a Dignidade Humana”.




Fonte: http://revolucoes.org.br/v1/sites/default/files/direitos_humanos_e_dignidade_humana.pdf

Seguem alguns destaques do artigo do Profº Alysson Leandro Mascaro (Faculdade de Direito da USP).

- “Não há dignidade humana sem a afirmação dos Direitos Humanos, mas somente com Direitos Humanos não se alcança a dignidade humana”.

- Existe uma relação dialética entre direitos humanos e dignidade humana. (Neste sentido, poderíamos dizer que os direitos humanos determinam a dignidade humana ao mesmo tempo em que a dignidade humana determina os direitos humanos? Acho que pensar desta forma acaba excluindo de vista a necessidade de uma transformação total da sociedade. Em outras palavras, revolucionar o modo de produção. Não ficou claro para mim o significado da “relação dialética entre direitos humanos e defesa da dignidade humana”.).

- O direito estatal é fruto da nova dinâmica de exploração do trabalho viabilizada pelo capitalismo.

- Se nas relações pré-capitalistas, havia a hegemonia das relações de mando(rígidas hierarquias sociais),a partir do capitalismo, há uma certa margem de igualdade formal: todos são sujeitos de direito na medida em que todos são portadores de uma força de trabalho a ser vendida no mercado).

- “O capitalismo é uma forma de exploração indireta, cujo poder de dominação e exploração se verifica tanto no capital do burguês quanto no Estado. Os direitos humanos são a lógica menos torpe de tal exploração”.

- O autor coloca claramente que os direitos humanos se inserem dentro dos
limites máximos do capitalismo. A verdadeira afirmação da liberdade e da igualdade se dará pela superação do capitalismo.

- “Fomos bárbaros; hoje somos formalmente civilizados; amanhã, num mundo fraterno e socialista, seremos plenamente humanidade.”.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Estudos Economia Política #3

PINASSI, Maria Orlanda. “A ideologia da crise e o surto incontrolável da irrazão”. – Profª de Sociologia da UNESP – ARARAQUARA




Seguem alguns destaques do artigo de Maria Orlanda Pinasse e algumas reflexões pessoais

1- A burguesia vive uma crise ideológica desde a sua conformação como classe dominante, uma vez que ela é incapaz, por si só, de garantir de forma substantiva a liberdade e a igualdade – estas só existem formalmente ou estão apenas no plano teórico.

2- O ápice do desenvolvimento civilizatório do regime burguês data dos anos 1960: desde então, o capitalismo passa, segunda a teoria da qual a profª reivindica, por uma crise insolúvel: o capitalismo é “irreformável”.

3- Alguns desdobramentos práticos da crise civilizatória do capitalismo: desemprego, retirada de direitos trabalhistas. Dados da FAO (ONU): No Brasil, segunda a FAO, existem 14 milhões de famintos. (Precisa ver a data desta pesquisa!).

4- A tragédia ideológica dos apologistas do capital implica na disseminação da noção do “fim” da história, “fim” do trabalho, “fim” da luta de classes, etc. Ademais, a autora cita o discurso da “naturalização” da competição e de outras práticas associadas à sociedade capitalista, fazendo-nos crer, por exemplo, que a competitividade seria algo inato ao ser humano. (Aspecto negativo da ideologia dominante – mascarar as relações sociais históricas como relação essenciais ao ser humano)

5- Lukács defende a tese do irracionalismo generalizado como modelo a ser seguido. O irracionalismo é fruto de uma apropriação histórica da filosofia idealista alemã e pode ser verificado em termos práticos na política dos eua no pós-guerra. O imperialismo norte-americano do Pós-guerra, segundo Lukács, rejeita menos a imoralidade das mortes e assassinatos promovidos pelo nazi-fascismo e mais a forma como se conformou o imperialismo alemão naquele contexto histórico.

6- Existia nos anos 1920 nos EUA um alinhamento político entre a Ku Klux Klan e círculos de extrema direita nos EUA. Já nesse sentido, passa a ser um engodo a tese de que houvesse uma oposição entre a “democracia” norte-americana e a experiência nazi-fascista. “Portanto, para Losurdo, os termos liberdade e democracia, há muito tempo, carregam a insígnia da segregação sócio -racial e da dominação por meios explicitamente violentos, motivos pelos quais perderam, nos limites da perspectiva do capital, as prerrogativas de sua razão histórica”.

7- A autora traça um paralelo entre as práticas de extermínio dos Judeus na II Guerra (Progroms), e os extermínios do estado de israel, as “guerras cirúrgicas de combate ao narco-tráfico”, ou o extermínio de negros e pobres nas periferias do Brasil.

8- Há uma nota de rodapé em que a autora lembra que o aumento do efetivo policial nas periferias coincide com o aumento de ongs que realizam “serviço social” nas comunidades.

9- Dados do Brasil de mortes relacionadas à repressão policial: 1996 – 19 trabalhadores sem-terra mortos Eldorado dos Carajás (Pará); 111 assassinados no Carandiru em 1992; 446 mortos em ações policiais em represália aos ataques do PCC (que vitimaram por sua vez 47 pessoas).

10- Pogrom – massacres com o consentimento e apoio da população. Se consideramos todas as mortes legitimadas pelo discurso dominante (exterminar os terroristas; exterminar o tráfico de drogas; exterminar os “bárbaros” do MST), é fácil perceber como os pogroms do nazi-fascismo estão presente no âmbito do capitalismo e das democracias liberais.

11- Há o predomínio, inclusive no meio acadêmico, da “ilusão jurídica”, que atribui ao melhoramento do estado a possibilidade de restaurar a ordem.

12- O embate entre fascismo e democracia liberal tem como pano de fundo diferentes concepções políticas para se lidar com as crises cíclicas do capitalismo. As saídas keynesianas mostraram-se as mais eficazes.

13- Do ponto de vista da resistência do mundo e suas respectivas organizações políticas, a autora chama atenção para os movimentos sociais, organizações que estão propondo novas formas de se organizar – piqueteros na argentina, zapatistas no méximo, sem terras e sem tetos no Brasil.

Sínteses: É necessário demonstrar como a conformação histórica das instituições políticas, sob o capitalismo, não podem ser "naturalizadas". Por serem justamente o resultado de determinado processo histórico, as noções de igualdade e liberdade e as instituições parlamentares e do judiciário são muitas vezes apresentadas como a “única forma possível de se organizar a sociedade”, desconsiderando modos alternativos de se organizar a economia e a política.

Esta "naturalização" tem a ver com o próprio impasse ou “crise ideológica” da burguesia que, desde quando se conformou como classe dominante, não é mais capaz de levar até as últimas consequências as palavras-de-ordem correspondentes ao período em que a Burguesia fora uma classe revolucionária. Há um debate interessante proposto pela professora no sentido de entender o nazi-fascismo não como a manifestação isolada de um regime político particular de meados do séc. XX, mas como uma resposta dada em determinada conjuntura às crises cíclicas do capital: nesse sentido, o nazi-fascismo é também uma faceta do capitalismo, ou, mais precisamente, do capitalismo em tempos de crise. Entretanto, a alternativa keynesiana, associada ao modelo liberal-democrático, mostrou-se mais eficiente para lidar com as crises. Isso não significa que o nazi-fascismo ainda não seja uma forma possível que as distintas frações da burguesia possam optar como meio de sanar ou atenuar as contradições do capitalismo.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Estudos Economia política #2

“Capitalismo em Crise: a natureza e dinâmica da crise econômica mundial” Ed. Sunderman 2009.

Artigo de Ricardo Antunes – “A substância da crise e a erosão do trabalho”.




O artigo de Ricardo Antunes (professor da UNICAMP) aborda alguns apontamentos do pensador Istvan Mezáros, destacando como este autor aborda de forma original as origens, as consequências e o contexto histórico da crise do capitalismo – qualificada pelos economistas ligados ao status quo como uma “crise financeira”.

Seguem alguns destaques do texo:

- A Interpretação hegemônica da crise aponta-a como resultado de uma falha de confiança. O que há, na verdade, é uma “fenomenologia da crise” que oculta a intenção de manutenção do capitalismo, desta vez por meio do velho esquema keynesiano – em termos práticos, o estado paga pela crise criada pelos capitalistas.

- Mézaros é um dos autores da linha crítica que interpreta a crise como parte inerente do capitalismo. Na verdade o marxista húngaro já localiza a crise do capitalismo a partir das convulsões do maio de 1968, a crise do petróleo e a reestruturação produtiva do capitalismo a partir dos anos 1970.

- Numa nota de rodapé importante, Antunes lembra a diferenciação que Mézaros propõe entre capital e capitalismo. O capitalismo é uma das formas possíveis de realização do capital, mas o capital (uma relação social, a partir de Marx) existe antes do capitalismo (capital mercantil no contexto da baixa idade média/ início da modernidade), tendo havido mesmo sociedades “pós-capitalistas que não romperam com a lógica do capital”, como a URSS.

- Existe em Mézaros a noção de que a política acaba sendo colonizada pela economia. Existe uma crise estrutural e sistêmica do capitalismo, desde as últimas décadas do séc. XX, de maneira que os meios para “solucionar” a crise, apenas arrastam o problema para frente.

- A china é um caso ótimo para a análise, desde que parece ser igualmente um exemplo de país onde a proposta de diferenciação entre capital e capitalismo em Mézaros parece ser mais acentuada. O “sistema metabólico do Capital” em Mézaros abrange o tripé capital, trabalho assalariado e estado.

- O livro a Crise Estrutural do Capital – um grande compendio de textos em que o autor húngaro faz faz uma crítica radical às engrenagens do “sistema metabólico do Capital”.

- Características do sistema metabólico do Capital”: expansionista, destrutivo e incontrolável.

- Existe uma “tendência decrescente do valor de uso das mercadorias”. Pelo o que entendi deste conceito (ou seja, posso estar equivocado), com o desenvolvimento das forças produtivas (incluindo tecnologia ou incremento tecnológico dos meios de produção) , há a tendência de desvalorização da mercadoria (redução do tempo –trabalho para a criação da mercadoria). Por outro lado, as mercadorias tem um ciclo que envolve a produção e o consumo: com o aumento da produção, as mercadorias devem ter uma menor duração ou tempo útil de utilidade, para fazer com que o consumo também seja alinhado ao aumento da produção. Em termos práticos: ao fabricar um celular, o fabricante já o desenvolve diminuído a vida útil da mercadoria, dentro da perspectiva de fazer com que o ciclos de consumo/produção se equalizem. Mesmo intuitivamente, dá para perceber como existe um equilíbrio bastante frágil nesta relação entre consumo e produção, o que aparenta ter a ver com a “tendência decrescente do valor de uso das mercadorias”.

- Consequencias destrutivas da “tendência decrescente do valor de uso das mercadorias”: precarização do trabalho e destruição da natureza.

- “ O que será da humanidade quando menos de 5% da população mundial (EUA) consomem 25% do total de recursos energéticos disponíveis? E se os 95% restantes viessem a adotar o mesmo padrão de consumo? A tragédia chinesa atual, com sua destruição ambiental, é emblemática”.

- Outro problema central decorrente da crise estrutural do capitalismo é o problema do desemprego. O autor chama atenção para os conflitos sociais decorrentes do desemprego.

- Ocorre em países como Argentina, EUA, Inglaterra e Espanha um duplo movimento que envolve a redução dos direitos trabalhistas e aumento do desemprego, concomitantemente.

- Mézaros coloca claramente que não há uma crise financeira solúvel, mas uma crise estrutural e mesmo civilizatória, o que faz a gente pensar que o seu entendimento do atual momento histórico seja o de um período de transição. De proporções históricas. Analisar isto depois.

- É interessante notar que segundo Antunes, alguns prognósticos de Mézaros acerca da crise já datam de 1982, ou seja, numa época onde havia todo um otimismo sobre o capitalismo, corroborando, no início dos 1990, para a tese do Fim da História (o capitalismo seria o “estágio final da humanidade com o fim do socialismo).

-É necessário criar um novo modo de produção, segundo Mézaros. O capital, afinal, “criou um sistema voltado para a sua autovalorização, que independe das reais necessidades autorreprodutivas da humanidade”.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Estudos Economia Política

TEXTO#1 – HENRIQUE CANARY – Jornal Opinião Socialista – Data ?




O artigo de Henrique Canary tem como foco apresentar de forma didática como as crises financeiras são o resultado da própria lógica interna do capitalismo. Em outras palavras, as crises "financeiras" (reportadas particularmente pelos meios de comunicação, como uma espécie de “catástrofe natural”, equivalendo a "raios" e "furacões") são, na verdade, parte da própria irracionalidade do sistema capitalista.

Alguns destaques da leitura do artigo:

- PIB é o meio de medição de riqueza segundo os critérios da burguesia. O PIB mede não a quantidade de dinheiro em circulação mas a quantidade de bens e serviços produzidos: nesse sentido, é “revelador” que a burguesia utilize desta informação.

- Necessário desmistificar a ideia de que a tecnologia substitua o trabalho: “o robô produz a máquina, mas quem produz o robô é o trabalho humano”. O trabalho humano é o ponto de partida para a criação do valor.

- O que tem maior valor, uma Ferrari ou um fusca? Intuitivamente dizemos que é a Ferrari, por causa do custo/preço da mercadoria. Mas a Ferrari tem mais valor por contar com maior quantidade de trabalho humano para ser produzida. O tempo aqui é o critério para aferir qual mercadoria tem “dentro de si” maior quantidade de trabalho.

- Com o desenvolvimento da tecnologia (ex. uma máquina que produz celulares de forma mais rápida), os trabalhadores que tem jornada de 8 horas por dia passam a produzir mais celulares. Mas não há um aumento correspondente na taxa de lucros do Patrão-Burguês. (Afinal, com a máquina, valor-trabalho do celular diminui desde que os operários fazem mais celulares em menor parcela de tempo. Lembrando que o tempo é o critério que aufere a quantidade de trabalho necessário para produzir a mercadoria).

- A super-produção, nesse sentido, passa a ser uma tendência inata do capitalismo. Os marxistas explicam as crises econômicas justamente por meio desta percepção. Com o excesso de produção, os capitalistas passam a investir menos, além de reduzir custos (por meio de demissões ou aumento do ritmo de trabalho) gerando descontentamento social.

- Outro ponto a ser destacado para se entender as crises é o deslocamento de investimentos do capital, da produção para o setor financeiro.

- Bolhas especulativas – meio apenas de postergar a crise e não de se prevenir das mesma de forma eficiente.

- Mecanismos a partir dos quais os capitalistas visam “remediar” os efeitos das crises econômicas

1- Fechamento das plantas menos lucrativas
2- Diminuição dos custos de produção, incluindo diminuição de salários e benefícios, eventualmente com a conivência de “direções sindicais traidores”.
3- Invasões e Guerras – como meio de redinamizar a economia. Faltou aprofundar mais este tema no artigo.
4- Grandes falências – eventualmente orquestradas? Não ficou claro.

- Estes mecanismos são chamados de “queima de capital”, lembrando-se que o capitalismo opera sob a lógica da destruição-reconstrução – ranço irracionalista do capitalismo. Esta lógica implica na ideia das “crises cíclicas do capital”. “Um sistema que se afoga em riqueza enquanto muitos estão na miséria” – esta frase ilustra bem o aspecto irracionalista das crises. O autor coloca o socialismo como a alternativa para esta irracionalidade. Desde que o texto aparenta ser.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

"A Revolução de Outubro" - Leon Trotsky

Resenha #40 A Revolução de Outubro – Ed. Iskra e Ed. Boitempo



Leon Trotsky foi, junto com Lênin, dirigente político da Revolução Russa de 1917. Foi da direção do Soviet de Petrogrado e chefe do exército vermelho durante a guerra civil. Chefiou a comissão que negociaria a paz com a Alemanha em separado, conclamando, concomitantemente à sublevação do proletariado dos países da Europa Ocidental, particularmente os envolvidos na Guerra que expressava a disputa imperialista. Após a morte de Lênin e com a ascensão de Stálin e Zinoviev, é derrotado politicamente, perseguido e exilado no Caucásio. Conseguiu exílio do governo Mexicano – lembrado em memória de seu neto como um governo que verdadeiramente acolheu o revolucionário. Foi morto por agente de Stálin, já após uma tentativa não exitosa de assassinato.

A publicação das editoras Iskra e Boitempo referem-se ao livro, já lançado no Brasil pela Global Editora, chamado “Como fizemos a Revolução”. Trata-se de um relato dinâmico e bastante objetivo dos principais eventos políticos e suas implicações na composição das forças sociais durante o ano de 1917 na Rússia.

Trotsky lança uma leitura panorâmica dos eventos, relaciona os posicionamentos políticos dos partidos políticos (bolcheviques, socialistas revolucionários de esquerda, socialistas revolucionários de direita, cadetes) com suas respectivas composições de classe e orientações das classes sociais frente à crise e o desenvolvimento da revolução. Assim, os eventos de fevereiro (queda do Czar – fase “democrática” da revolução) a outubro (tomada do poder pelos bolcheviques – fase “socialista” da revolução) são narrados de forma a indicar a forma como – nos momentos revolucionários – a dinâmica dos acontecimentos faz com que cada fato (greves, tomada dos órgãos de poder, moral das tropas do exército, a posição vacilante da pequena burguesia/burocratas/funcionários públicos, eleições nos soviets, etc.) ganha repercussões maiores do que em tempos de paz – é como se na revolução houvesse uma aceleração da história.

“Como fizemos a Revolução” é uma obra acessível e ao mesmo tempo muito valiosa quanto às análises. Numa conjuntura de crise de civilização, “Como Fizemos a Revolução” desperta-nos para a incômoda noção de que a humanidade não caminha inexoravelmente ao socialismo, sendo fundamental a organização política e a capacidade do movimento dos trabalhadores colocarem-se como força hegemônica rumo à transformação socialista.


Citação Final

"Notava-se porém que os representantes da democracia ainda que orgulhosos dos seus ímpetos revolucionários, desconfiavam das aptidões e do valor das massas que os haviam escolhido. Titulando-se socialistas e acreditamdo-se como tais na realidade conservavam a sua atitude respeitadora ante a autoridade política dos liberais burgueses cuja sabedoria e método acatavam. Por isso tentaram obter, a toda a força, o concurso dos liberais para formar com eles uma aliança ou coligação".