segunda-feira, 19 de agosto de 2019

“O Menino Grapiúna” – Jorge Amado


“O Menino Grapiúna” – Jorge Amado



Resenha Livro - “O Menino Grapiúna” – Jorge Amado – Ed. Companhia das Letras

O Menino Grapiúna foi livro publicado em 1981 quando Jorge Amado já era um escritor consagrado no país e no estrangeiro. Vinte anos antes o escritor baiano assumira a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras (1961).

Jorge Amado é provavelmente o escritor brasileiro mais conhecido e lido fora do país – no ano de 1971, por exemplo, o autor é convidado para acompanhar um curso sobre sua obra na Universidade de Pensilvânia nos EUA. O que é notável, neste caso, é a forma como o autor consegue suscitar obras tanto reconhecidas pela crítica especializada quanto pelo público: em que pese as nuanças que marcam a evolução de sua obra, há sempre uma abordagem de pessoas e ambientes que realçam aspectos da cultura popular.

No caso uma narrativa não só sobre o povo, mas para o povo: “Gabriela, Cravo e Canela” de 1958 e “Tieta do Agreste” de 1977 foram retratadas na forma de novela televisiva, possibilitando um vínculo raro entre arte popular amplamente acessível, sem, com isso, redundar em narrativas improváveis, em personagens superficiais antes parecidos com caricaturas. Aliás, se há algo a ser reiterado nos livros de Jorge Amado é um certo realismo regionalista que o escritor tivera como referência a partir da geração modernista nordestina… No caso, geração crítica dos modernistas paulistas de 1922 – tendo como expoente Gylberto Freire[1] na sociologia, além de Rachel de Queiróz, Graciliano Ramos e José Américo de Almeida. Aliás, consta que o “A Bagaceira” de José Américo marcaria profundamente Jorge Amado.

É comum situar a evolução da produção literária de Jorge Amado em duas etapas. A primeira fase dialoga explicitamente com o envolvimento pessoal do escritor com o Partido Comunista Brasileiro.  Ainda muito jovem o escritor se aproxima do partido e, em 1936, é preso sob a acusação de ter participado da chamada “intentona comunista” um ano antes. Com o advento do Estado Novo em 1937 é detido mais uma vez e consta que seus livros teriam sido queimados em praça pública em Salvador.

Nos anos de 1940, Jorge Amado viaja à Argentina e Uruguai, dedicando-se à pesquisa sobre a vida de Luís Carlos Prestes, pesquisa que resultará no livro “A vida de Luís Carlos Prestes”, posteriormente rebatizado como “O cavaleiro da esperança”. Em 1946 é eleito deputado pelo Partido Comunista – em 1947 seu mandato é cassado pouco após o PCB ser colocado na ilegalidade no Governo Dutra.

Como relataria posteriormente, Jorge Amado assumiria as tarefas político-partidárias antes como uma imposição da situação do que por uma vocação pessoal. Consta que o escritor afastou-se definitivamente da militância político-partidária em 1954, dois anos antes do fatídico XX Congresso do PC soviético quando Kruschev levou adiante a política liquidacionista de “denúncia contra os crimes de Stálin”. A verdade é que o escritor baiano abandonou a militância para poder dedicar-se com exclusividade à literatura – mas o certo é que a tonalidade política das obras mudam. É o caso de cotejar Gabriela, Cravo Canela de 1956 com obras que tinham entre seus aspectos decisivos a denúncia das iniquidades sociais, como a dura vida das crianças de rua em “Capitães de Areia” (1937) e a situação dos trabalhadores das fazendas de cacau em “Cacau” (1933).

“Menino Grapiúna” corresponde a lembranças de infância do escritor. Nascido em 1912 em Itabuna na Bahia, uma das primeiras imagens que lhe exsurge foi uma tentativa de emboscada de jagunços quase perpetrando o assassinato do pai. A vida no sul da Bahia valia pouco, muito menos do que um torrão de terra ou uma aposta no baralho.  

O relato tem a forma de momentos e não uma narrativa com começo, meio e fim. Os momentos são descritos sob a forma de imagens, luzes sobre o passado que vão sugerindo a formação do homem dentro daquelas condições sociais desde o sul interiorano da Bahia. 

A infância de Jorge Amado dá-se em meio aos matutos, coronéis, padres do seminário e prostitutas que acolhiam a criança nos seus seios como se suas mães fossem.

“Entre jagunços, aventureiros, jogadores, o menino crescia e aprendia. Aprendeu a ler antes de ir à escola, nas páginas do jornal A Tarde"

O livro remete aos aspectos culturais do Brasil colonial retratado por Gyberto Freire e que ficariam conhecidos como o sistema da democracia racial: a religião tendo forma doméstica, os santos nos interiores das casas, o catolicismo misturado com crendices, a miscigenação racial, o poder patriarcal vinculado ao domínio da terra, a aparente lhaneza no trato e cordialidade convivendo com a violência arbitrária dos coronéis. Um retrato comovente, mas parcial, na medida em que omite, mais ou menos intencionalmente, as lutas sociais, sob pena de se incorrer num relato ideológico:

“Não serão as ideologias por acaso a desgraça do nosso tempo? O pensamento criador submergido, afogado pelas teorias, pelos conceitos dogmáticos, o avanço do homem travado por regras imutáveis?

Sonho com uma revolução sem ideologia, onde o destino do ser humano, seu direito a comer, a trabalhar, a amar, a viver a vida plenamente não esteja condicionado ao conceito expresso e imposto por uma ideologia, seja ela qual for. Um sonho absurdo? Não possuímos direito maior e mais inalienável do que o direito ao sonho. O único que nenhum ditador pode reduzir ou exterminar”.  

A violência relacionada à luta pela terra surge na memória da criança como uma fatalidade: a ausência de uma teoria implica com frequência na naturalização da arbitrariedade.


[1] Em 1926, o Congresso Regionalista, encabeçado por Gilberto Freyre, condena o modernismo paulista por “imitar inovações estrangeiras”

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

“Caminho de Pedras” – Rachel de Queiroz


“Caminho de Pedras” – Rachel de Queiroz



Resenha Livro - “Caminho de Pedras” – Rachel de Queiroz – Ed. Siciliano – 12ª Edição

“Repetiam toda hora os “camaradas”, afetavam uma simplicidade excessiva, que chocava os outros, os “de tamancos”, cheios de preconceitos e convenções. Pois a simplicidade, longe de ser um atributo dos humildes, é um artifício de requintados que a plebe desconhece. Depressa essa diferença cavou divergências. Os “tamancos” entraram a hostilizar os “gravatas”, a “desmascará-los”, a exigir que se proletarizassem. O preto Vinte-e-Um chefiava a “esquerda”, e os “gravatas” se fechavam num círculo aristocrático, que chegava a incluir o próprio Filipe, expulso do meio dos obreiros por “intelectual” e por “burguês”. Dos da rodinha, só Paulino, o ferroviário, tinha entrada entre os “tamancos”. Samuel também cortejava os operários e exagerava a sua proletarização. Deu até para andar de fundilhos rotos, de camisa de mescla”.

“Caminho de pedras” é o terceiro romance da escritora modernista Rachel de Queiroz. O livro foi publicado em 1937, tendo como antecessores “O Quinze” (1930) e “João Miguel” (1932).

Toda classificação tem algo de arbitrário e o enquadramento das obras literárias em determinadas escolas pode inviabilizar um exame completo e específico de cada publicação. Por outro lado, é certo que a leitura deste e de outros romances de Rachel de Queiroz remete aos trabalhos de outros autores situados mais ou menos no mesmo tempo e espaço. É o caso de Graciliano Ramos e sua narrativa acerca das coisas e gentes do nordeste brasileiro, num contexto de fragmentação do velho mundo de tipo colonial, com o advento das cidades, dos bondes e dos jornais, das profissões liberais e de um novo arranjo político-institucional em substituição às formas pessoais de poder[1]. As Alagoas de “Angústia”  tem paralelo com a fortaleza de “Caminho de Pedras”. Os personagens deixam de serem os tipos burgueses tão característicos da literatura do século XIX já a partir dos romances de Joaquim Manuel de Macedo e Machado de Assis.

Exsurgem agora tipos populares que se associam a setores empobrecidos do que chamaríamos hoje de “classe média”. Neste “Caminho de Pedras” é o caso de Roberto, um jornalista filiado a organização de esquerda que, a título de organizar uma célula revolucionária, muda-se para Fortaleza e encontra a desconfiança dos poucos operários que compõem o núcleo. Outros tipos populares e pequeno burgueses se envolvem em torno da mesma organização política: um tipógrafo, um ferroviário, um revisor de jornal e operários. Ocorre que mesmo havendo a divisão social do trabalho entre os trabalhos manuais e intelectuais, afere-se que mesmo os pequeno-burgueses trabalham de forma maquinal, seja como tipógrafo seja como revisora de fotografias.  

Contudo, a divisão interna da organização política expressa questões bastante discutidas no âmbito da tradição marxista, o que faz deste romance uma fonte de reflexão em torno de questões como as relações entre o partido político e a classe social proletária, as relações entre sujeito político e sujeito social. O enredo sugere que os operários têm o instinto revolucionário mas carecem da teoria revolucionária. São obreiristas, com destaque para o personagem Vinte-e-Um, que demonstra o mais alto grau de desconfiança contra os  “intelectuais” pequeno burgueses.

Lukács em seu “História e Consciência de Classe” sugere que a própria posição social ocupada pelo trabalhador nos quadros da sociedade capitalista engendra ao menos potencialmente a  consciência revolucionária. Já Lênin é partidário de uma organização política de vanguarda, que seja formada pelos quadros mais decididos, mais valentes e mais preparados, numa orientação de fazer avançar a consciência da classe – em Lênin, política não se confunde com pedagogia não havendo muito espaço para uma renúncia do horizonte estratégico diante de uma adequação ao nível de consciência dos elementos mais atrasados da classe. 

Em Lênin o sujeito social não se confunde necessariamente com o sujeito político.

O romance começa com o tema da política para posteriormente suscitar o tema do amor, este também policlassista. Roberto, de origem pequeno-burguesa, conquista o coração de Naomi, mulher identificada com o Bloco, de perfil proletário e casada com Jean Jaques. O amor extraconjugal revela uma experiência de culpa, de medo e de hesitação:

“Esquisito, o amor. Parece uma luta, a gente parece inimigos. Vontade de possuir, de mandar, de dominar. Desconfiança. Fiscalizando, esmiuçando nuanças de voz, entonações, olhares. Tudo fica intoxicado, doentio. Entre Roberto e ela já não havia mais hiatos de paz, de amizade, de camaradagem serena. Foi-se embora isso tudo, assim que se disseram as primeiras palavras de amor. Hoje era só aquela tensão, aquela necessidade recíproca e angustiosa de se verem, aquela força bruta que a atirava para os braços dele com os lábios trêmulos e o coração quase parando”.        

Aspectos não menos secundário e de interesse da obra é o realismo com que retrata as dificuldades da organização num contexto de repressão que o leitor supõe estar relacionada com o contexto da Era Vargas e do Estado Novo. As aulas de política são feitas de forma clandestina e as tentativas de realização de discursos em praça pública terminam em prisões. O baixo nível político-ideológico dos militantes, indistintamente quanto aos obreiros e os intelectuais, também é marca do propósito realista da obra: não poderia ser diferente, considerando as condições históricas do Brasil recém egresso da república velha, o baixo nível de organização das esquerdas naquele contexto e a repressão estatal.

O ser humano é eivado de contradições de modo que o exercício de apreensão das complexidades da alma decorreu de conquistas mais recentes da literatura. O realismo literário de Machado de Assis e mesmo as obras naturalistas demonstraram dificuldade em descrever os tipos mais simples do povo com a marca de sua complexidade humana. Será com os trabalhos de Graciliano Ramos, Rachel de Queiróz, José Lins do Rego e Guimarães Rosa que se possibilitará conhecer os meandros da vida e da alma dos tipos populares desde um viés regionalista.    

Resenha Literatura #1


[1] A melhor metáfora deste novo arranjo institucional é a figura do soldado amarelo de “Vidas Secas” (1938).

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Che Guevara: Política – Eder Sader (org.)


Che Guevara: Política – Eder Sader (org.)



Resenha Livro – “Che Guevara: Política” – Eder Sader (org.)- Editora Expressão Popular

O mais provável é que Che Guevara seja mais conhecido por sua trajetória pessoal e sua intervenção nos acontecimentos da revolução cubana de 1959 do que por suas formulações políticas desde artigos, cartas e palestras. Na verdade, aquela trajetória prática explica bastante o tipo de política defendida pelo Che – a iniciativa pessoal e o voluntarismo revolucionário estão presentes por exemplo nas formulações que o Che estabelece para o problema da economia, especialmente quando foi ministro da indústria na Cuba pós revolução. É necessário situar o passado e a experiência acumulada pelas viagens e pelo exercício de uma medicina popular como momentos de formação política do revolucionário.

Desde jovem o Che fora um aficionado por viagens. Com 19 anos percorreu 4.700 Km do interior da Argentina de bicicleta em férias escolares. Aos 23 anos comprou uma motocicleta com o amigo Alberto Granados, médico recém formado, com quem viajou pela américa latina. Subiram o continente pelo Peru, atravessaram o Amazonas a barco em direção à Colômbia e, depois, Venezuela. Em março de 1953 Che, já estabelecido na Argentina, conclui a faculdade de medicina. Em agosto do mesmo ano Che enfrenta uma viagem de 6000 km em direção à Bolívia onde tem seu primeiro contato mais decisivo com a mobilização popular. Em 1952 uma insurreição popular levou o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) ao poder naquele país, com um governo popular em La Paz e milícias operárias no âmbito das minas que foram nacionalizadas. Por outro lado, na Bolívia o Che constata certos problemas quanto ao MNR: observa-se a burocratização que seria anos depois discutida de forma tão consequente no “Contra el burocratismo”. As causas da burocratização suscitados por Che em Cuba serão a ausência de consciência revolucionária, a falta de interesse dos indivíduos em superarem as situações dadas e acomodarem-se à papelada e às faltas de terceiros. Outra causa suscitada é o problema da organização. Por fim, a falta de conhecimentos técnicos suficientemente desenvolvidos para que se possa tomar decisões justas e em pouco tempo.

Retomando à trajetória pessoal do Che, um segundo momento decisivo em sua formação política anterior à revolução dá-se em 1953 quando chega na Guatemala. Já tinha então lido diversos textos políticos mas o fundamental sempre lhe surgia a partir da experiência. Desde 1944 a Guatemala vivia uma experiência reformista dirigida por Juan José Arévalo após a derrubada de uma longa ditadura militar. O governo democrático leva adiante um programa de aumento salarial, plano de assistência às populações indígenas e uma reforma agrária. O tema da reforma agrária seria central no desenvolvimento da guerrilha cubana e o mais provável é que o Che posteriormente viria a superestimar esta bandeira democrática na luta revolucionária quando de suas reflexões sobre as possibilidades de generalização da experiência cubana aos demais países latino americanos. De qualquer forma, o problema do latifúndio assumia uma vinculação direta não só com a herança colonial americana mas com o imperialismo.

Em 1952 o sucessor Jocobo Arbenz decreta uma lei de reforma agrária ameaçando 2% de proprietários que detinham 70% das terras. A United Fruit era só ela dona de 225 mil hectares de terra das quais 164 mil seriam expropriadas pelo governo.

A reação do imperialismo não poderia tardar: em 18.6.1954 um “exército de libertação” com base em Honduras e contando com 200 mercenários invade o país. Quando as tropas invasoras penetram a capital e começam as execuções, o nome de Che já figurava na lista de morte. Teve de se refugiar na embaixada da Argentina. Ainda era antes um médico do que um revolucionário mas já presenciava na pele a violência militar do imperialismo.

Após o fracassado ataque ao Quartel de Moncada em 26.7.1953 os exilados cubanos encontram-se no México onde preparam uma nova ofensiva. No México Che primeiro teve contatos pessoais com Raul Castro e depois com Fidel. Consta que Che e Fidel ficaram uma noite inteira conversando sobre política e ao final ficou decidido que Che Guevara seria o médico da expedição partindo do Granma.

Um artigo interessante para se conhecer os primeiros momentos da luta revolucionária em Cuba é o capítulo “Alegría de Pío” em “Pasajens de lá guerra revolucionaria”. Alegra de Pío fica na província do Oriente onde os guerrilheiros tiveram o primeiro enfrentamento com as tropas da ditadura. O desembarque do Granma deu-se em 2.12.1956 contando com 82 combatentes que viajaram em precárias condições pelo Caribe: destes, cerca de 20 combatentes sobreviveram. Sem alimentos, com equipamentos perdidos, incluindo os remédios, não poderiam haver piores condições para o começo da luta. Mas o que impressiona é a certeza da vitória que emana e se projeta a partir da liderança de Fidel. Consta que depois dos ataques aéreos, quando o pequeno grupo sobrevivente se rearticula, Fidel exclama que eles venceram a revolução. Aqui há um momento simbólico que Che relata em seu artigo. No meio da saraivada de balas os revolucionários se viram obrigados a uma retirada e Che havia sido baleado. Tinha ao seu lado uma mochila cheia de balas deixada por um camarada abatido e sua bolsa de médico. Não podia carregar as duas. Escolheu as balas e desde então deixou de ser médico para ser exclusivamente um revolucionário.

*

As obras completas de Che Guevara foram reunidas em “Ernesto Che Guevara – obras: 1957-1967”, editada pela Casa de las Américas. Na verdade sua produção deu-se em torno de artigos e intervenções públicas, além de cartas e diários. Poderíamos propor uma divisão em três grandes eixos de sua intervenção.

Primeiro, a reflexão sobre o problema da guerrilha revolucionária e a polêmica sobre se a revolução cubana seria ou não uma excepcionalidade histórica. Che entende que não é: em que pese a particularidade de cada nação latino-americana, poderia-se suscitar o problema do latifúndio, a luta dos camponeses pela terra, o papel das oligarquias locais e do imperialismo (sobretudo o norte americano) como os fatores comuns e mais determinantes para o desenvolvimento da luta. Che não ignora que a luta armada deve obedecer às condições objetivas e subjetivas colocadas – em Cuba uma ditadura feroz e a alta espoliação dos trabalhadores do campo criaram as condições para a afinidade entre guerrilheiros e camponeses sem a qual a revolução não poderia ter triunfado. Se Che é claro ao estabelecer que a Guerrilha por exemplo pode não ser possível onde há uma democracia burguesa – e ilusões disseminadas no povo quanto às instituições – não parece estar muito fora de dúvida que, para ele e Fidel, a via revolucionária é a única possível para os povos submetidos ao jugo da exploração. E Cuba aqui apenas seria a vanguarda de um desenvolvimento que tenderia a se generalizar.

O segundo eixo temático dos seus textos como já dissemos é o problema da economia. No caso da economia de Cuba pós revolução há o projeto de fazer com que a renda das empresas sejam revertidas para o orçamento da nação – no caso o sentido de empresa muda por suposto, tratando-se de unidades produtivas com planificação centralizada. O dinheiro não deve expressar valor reificado mas se referir a uma relação de troca, a sua mera expressão algébrica. A planificação envolve a busca pela diversificação da economia – o passado monocultor colonial deve ser substituído pelo desenvolvimento da indústria e pela substituição das exportações. A indústria de bens deve atender às necessidades do povo que se expandem. Che entende serem necessários os estímulos materiais individuais para o aumento da produção mas condena o uso indiscriminado do método por se contrapor ao projeto societário almejado.

O terceiro eixo temático também diz respeito ao problema da construção do socialismo mas agora na sua faceta mais humana. Talvez aqui o Che que viajou por toda América e conheceu como ninguém o seu povo esteja mais presente. Quando fala contra o burocratismo e o sectarismo, reconhece antes de tudo os erros cometidos pelo próprio movimento revolucionário e seus dirigentes. Tem uma atitude franca e transparente sobre os problemas da organização e exige uma vigilância estrita sobre o partido e seus quadros. Os abusos cometidos, diz, faz com que o povo perca a fé na revolução, que é o que de pior poderia acontecer para o movimento. Contra-revolução não vem apenas do imperialismo e seus prepostos, mas do oportunismo e do burocratismo.

Se a história do revolucionário é mais conhecida do que as suas formulações, conhecer suas teses é entrar em contato com sua experiência. Che, suscitando Lênin, diz que o marxismo é um guia para ação.

Em 1965 Che Guevara desaparece da vida pública. Planeja abrir uma frente revolucionária em Bolívia que se expandiria por toda a América Latina. Quando é detido e morto, tinha 16 companheiros ao seu lado.