domingo, 26 de abril de 2026

“Juca Mulato” – Menotti Del Picchia

 “Juca Mulato” – Menotti Del Picchia




 Resenha Livro – “Juca Mulato” – Menotti Del Picchia – Edições de Ouro – Clássicos Brasileiros.

“Juca Mulato” (1917) pode ser considerada a grande estreia literária do escritor modernista Menotti Del Picchia (1892/1988).

Antes dela, o poeta paulista havia escrito apenas duas outras obras, sem a repercussão daquele que ainda hoje é o mais conhecido dos seus textos.

O poema foi escrito em 1917, cinco anos antes da Semana de Arte Moderna de 1922, o grande evento que lançou as bases do movimento modernista no Brasil.

Menotti Del Picchia foi um dos idealizadores do evento, tendo discursado na segunda noite de conferências no Theatro Municipal de São Paulo, numa palestra sobre o Futurismo.

É certo que a Semana de Arte Moderna de 1922 tinha como norte a oposição ao academicismo e à arte puramente decorativa. As maiores vítimas dos ataques da nova geração modernista eram o parnasianismo e o estrangeirismo que tinha até então informado todas as tendências literárias importadas da Europa, desde o Romantismo, até o Realismo, do Naturalismo ao Simbolismo.

Os modernistas (Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, e outros)  irão buscar redefinir a relação da nossa arte com escolas estrangeiras  através da fórmula da antropofagia. Não se tratava puramente de rejeitar as fórmulas europeias, nem mesmo meramente aclimatá-las às condições nacionais: assim como os índios ao tempo da chegada dos portugueses, os artistas devem “deglutir” o estrangeiro e reelaborar a arte com autonomia, criando algo novo e original.

O modernismo refletia também as incertezas sociais do contexto da I Guerra Mundial, da Revolução Russa de 1917 e da ascensão do fascismo na Europa ( a Marcha sobre Roma de Mussolini efetivamente ocorreu 9 meses após a Semana de 22). Além disso, o novo grupo de artistas expressava as novas realizações tecnológicas de fins do século XIX e início do XX: os automóveis velozes circulando nas cidades, o advento do cinema, a fotografia, o telefone, o gramofone, os bondes elétricos, a revolução causada pelo desenvolvimento da aviação, implicaram num conceito dinâmico da arte associada à velocidade e à simultaneidade, em oposição ao conceito estático tradicional, baseado no equilíbrio e na ordem.

Sobre o Poema Juca Mulato

Em quarenta páginas, Menotti Del Picchia conta em versos a história de um caboclo rude, mas dotado de sensibilidade poética. Juca Mulato é forte e duro como peroba, mas seu espírito é livre e independente como o vento; os seus braços foram feitos para trabalhar, mas sua alma foi feita para cantar a felicidade e a tristeza. A sua ternura lhe conduz à comoção poética quando confrontado com a beleza exuberante da natureza, dos rios, dos pássaros e das matas do interior paulista: tudo enquanto pita um cigarro de palha.  

O lirismo de Juca Mulato o faz plenamente aclimatado à natureza que o circunda.

Está sempre a cismar enquanto contempla as nuvens, os rios e as florestas, sempre ensimesmado, com o olhar vago e o pensamento nas estrelas:

“Nuvens voam pelo ar como bandos de garças,

Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira

pinceladas esparsas

de ouro fosco.  Num  mastro, apruma-se a bandeira

de São João, desfraldando o seu alvo losango.

Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o

Vem, na tarde que expira e na voz de um curiango,

o narcótico do ar parado, esse veneno

que há no ventre da treva e na alma do silêncio.

Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.”.

Mas a sua candura  também produz o sofrimento do amor não correspondido, quando se apaixona “pela filha da patroa” e descobre que nem a feitiçaria de um negro do candomblé lhe cura a doença do coração não correspondido:  

– Juca Mulato! Esquece o olhar inatingível!

Não há cura, aí de ti! para o amor impossível,

Arranco a lepra ao corpo; extirpo da alma o tédio;

só para o mal de amor nunca encontrei remédio…

Como queres possuir o límpido olhar dela?

Tu és qual um sapo a querer uma estrela…

A peçonha da cobra eu curo… Quem souber

cure o veneno que há no olhar de uma mulher!

Juca Mulato, se ainda não expressa as formas poéticas mais experimentais dos modernistas na forma de um Oswald de Andrade, de certa maneira remete a outra figura conhecida desse modernismo brasileiro, o “Macunaíma” (1922) de Mário de Andrade.

Ambos foram escritos na mesma época. E os dois personagens, o “Macunaíma” de Mário de Andrade e o “Juca Mulato” de Menotti Del Picchia buscam ser representativos de um povo. Macunaíma, nas sucessivas variações de sua fisionomia, índio, branco e preto, e na sua epopeia das matas até a cidade grande, é a síntese do Brasil, ao passo que Juca Mulato é a síntese do caboclo, a figura representativa do caipira paulista, deitado sob uma árvore a contemplar com o olhar vago a vida a passar: está sempre a cismar.  

Também por seu um personagem representativo de um povo, no caso uma síntese do caipira paulista, pode-se dizer ser o Juca Mulato um primo distante do Jeca Tatu de Monteiro Lobato.

A grande diferença é que o Jeca Tatu é, antes, uma caricatura da qual se serviu o autor do “Sítio do Pica Pau Amarelo” para criticar na imprensa a realidade social dos caboclos paulistas em situação de abandono e doença, especialmente o amarelão, que o torna em estado de letargia e inabilitado ao trabalho duro.  

A caricatura é via de regra superficial e busca, através do humor, realçar traços específicos e mais grotescos da personalidade: a preguiça e desleixo com que o caboclo cuida da roça, desde que enfermo cronicamente pelo amarelão, é a forma caricatural com que Lobato criou o Jeca Tatu.

O Juca Mulato é muito mais do que uma caricatura.

No poema, o escritor buscou traduzir a alma do caboclo paulista e isso dentro de uma linguagem clássica. Não há nos poemas até mesmo as variações linguísticas regionalistas e os termos populares comuns dos escritores modernistas, especialmente em sua fase regionalista subsequente, da qual fizeram parte Jorge Amado, João Guimarães Rosa e José Lins do Rego.

Menotti buscou através do personagem síntese “Juca Mulato” sondar a alma e o mais profundo íntimo do homem simples do campo e dela extrair o que é universal: a beleza da natureza e os sofrimentos da alma à luz da imaginação do caboclo.

Talvez aqui resida o “modernismo” mais decisivo de Juca Mulato: ele antecipa João Guimarães Rosa que também através do regionalismo, com os seus sertanejos a tocar boiadas nos sertões, afirmou através do local aquilo que é universal.

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