“Juca Mulato” – Menotti Del Picchia
“Juca Mulato”
(1917) pode ser considerada a grande estreia literária do escritor modernista Menotti
Del Picchia (1892/1988).
Antes dela, o
poeta paulista havia escrito apenas duas outras obras, sem a repercussão
daquele que ainda hoje é o mais conhecido dos seus textos.
O poema foi
escrito em 1917, cinco anos antes da Semana de Arte Moderna de 1922, o grande
evento que lançou as bases do movimento modernista no Brasil.
Menotti Del
Picchia foi um dos idealizadores do evento, tendo discursado na segunda noite
de conferências no Theatro Municipal de São Paulo, numa palestra sobre o
Futurismo.
É certo que a
Semana de Arte Moderna de 1922 tinha como norte a oposição ao academicismo e à
arte puramente decorativa. As maiores vítimas dos ataques da nova geração
modernista eram o parnasianismo e o estrangeirismo que tinha até então
informado todas as tendências literárias importadas da Europa, desde o
Romantismo, até o Realismo, do Naturalismo ao Simbolismo.
Os modernistas (Mário
de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, e outros) irão buscar redefinir a relação da nossa arte
com escolas estrangeiras através da
fórmula da antropofagia. Não se tratava puramente de rejeitar as fórmulas
europeias, nem mesmo meramente aclimatá-las às condições nacionais: assim como
os índios ao tempo da chegada dos portugueses, os artistas devem “deglutir” o
estrangeiro e reelaborar a arte com autonomia, criando algo novo e original.
O modernismo
refletia também as incertezas sociais do contexto da I Guerra Mundial, da
Revolução Russa de 1917 e da ascensão do fascismo na Europa ( a Marcha sobre
Roma de Mussolini efetivamente ocorreu 9 meses após a Semana de 22). Além
disso, o novo grupo de artistas expressava as novas realizações tecnológicas de
fins do século XIX e início do XX: os automóveis velozes circulando nas
cidades, o advento do cinema, a fotografia, o telefone, o gramofone, os bondes
elétricos, a revolução causada pelo desenvolvimento da aviação, implicaram num
conceito dinâmico da arte associada à velocidade e à simultaneidade, em oposição
ao conceito estático tradicional, baseado no equilíbrio e na ordem.
Sobre o Poema
Juca Mulato
Em quarenta
páginas, Menotti Del Picchia conta em versos a história de um caboclo rude, mas
dotado de sensibilidade poética. Juca Mulato é forte e duro como peroba, mas
seu espírito é livre e independente como o vento; os seus braços foram feitos
para trabalhar, mas sua alma foi feita para cantar a felicidade e a tristeza. A
sua ternura lhe conduz à comoção poética quando confrontado com a beleza exuberante
da natureza, dos rios, dos pássaros e das matas do interior paulista: tudo
enquanto pita um cigarro de palha.
O lirismo de
Juca Mulato o faz plenamente aclimatado à natureza que o circunda.
Está sempre a
cismar enquanto contempla as nuvens, os rios e as florestas, sempre
ensimesmado, com o olhar vago e o pensamento nas estrelas:
“Nuvens voam
pelo ar como bandos de garças,
Artista
boêmio, o sol, mescla na cordilheira
pinceladas
esparsas
de ouro
fosco. Num mastro, apruma-se a bandeira
de São João,
desfraldando o seu alvo losango.
Juca Mulato
cisma. A sonolência vence-o
Vem, na tarde
que expira e na voz de um curiango,
o narcótico
do ar parado, esse veneno
que há no
ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso
ilumina o seu rosto moreno.”.
Mas a sua candura
também produz o sofrimento do amor não
correspondido, quando se apaixona “pela filha da patroa” e descobre que nem a
feitiçaria de um negro do candomblé lhe cura a doença do coração não
correspondido:
– Juca
Mulato! Esquece o olhar inatingível!
Não há cura,
aí de ti! para o amor impossível,
Arranco a
lepra ao corpo; extirpo da alma o tédio;
só para o mal
de amor nunca encontrei remédio…
Como queres
possuir o límpido olhar dela?
Tu és qual um
sapo a querer uma estrela…
A peçonha da
cobra eu curo… Quem souber
cure o veneno
que há no olhar de uma mulher!
Juca Mulato, se
ainda não expressa as formas poéticas mais experimentais dos modernistas na
forma de um Oswald de Andrade, de certa maneira remete a outra figura conhecida
desse modernismo brasileiro, o “Macunaíma” (1922) de Mário de Andrade.
Ambos foram
escritos na mesma época. E os dois personagens, o “Macunaíma” de Mário de
Andrade e o “Juca Mulato” de Menotti Del Picchia buscam ser representativos de
um povo. Macunaíma, nas sucessivas variações de sua fisionomia, índio, branco e
preto, e na sua epopeia das matas até a cidade grande, é a síntese do Brasil,
ao passo que Juca Mulato é a síntese do caboclo, a figura representativa do
caipira paulista, deitado sob uma árvore a contemplar com o olhar vago a vida a
passar: está sempre a cismar.
Também por seu
um personagem representativo de um povo, no caso uma síntese do caipira paulista,
pode-se dizer ser o Juca Mulato um primo distante do Jeca Tatu de Monteiro
Lobato.
A grande
diferença é que o Jeca Tatu é, antes, uma caricatura da qual se serviu o autor
do “Sítio do Pica Pau Amarelo” para criticar na imprensa a realidade social dos
caboclos paulistas em situação de abandono e doença, especialmente o amarelão,
que o torna em estado de letargia e inabilitado ao trabalho duro.
A caricatura é
via de regra superficial e busca, através do humor, realçar traços específicos e
mais grotescos da personalidade: a preguiça e desleixo com que o caboclo cuida
da roça, desde que enfermo cronicamente pelo amarelão, é a forma caricatural
com que Lobato criou o Jeca Tatu.
O Juca Mulato é muito
mais do que uma caricatura.
No poema, o
escritor buscou traduzir a alma do caboclo paulista e isso dentro de uma linguagem
clássica. Não há nos poemas até mesmo as variações linguísticas regionalistas e
os termos populares comuns dos escritores modernistas, especialmente em sua
fase regionalista subsequente, da qual fizeram parte Jorge Amado, João
Guimarães Rosa e José Lins do Rego.
Menotti buscou
através do personagem síntese “Juca Mulato” sondar a alma e o mais profundo
íntimo do homem simples do campo e dela extrair o que é universal: a beleza da
natureza e os sofrimentos da alma à luz da imaginação do caboclo.
Talvez aqui
resida o “modernismo” mais decisivo de Juca Mulato: ele antecipa João Guimarães
Rosa que também através do regionalismo, com os seus sertanejos a tocar boiadas
nos sertões, afirmou através do local aquilo que é universal.

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