sexta-feira, 17 de abril de 2026

Os Caifazes e o Quilombo do Jabaquara

 Os Caifazes e o Quilombo do Jabaquara


 

Resenha Livro – “A Marcha” – Afonso Schmidt – Instituto Afonso Schmidt – Cubatão 2023

Ainda é pouco conhecida a história os Caifazes paulistas e do Quilombo do Jabaquara, situado na cidade de Santos.

Eles surgiram nos instantes imediatamente anteriores à abolição da escravatura no Brasil e sua existência evidencia outro fato pouco comentado da história nacional: existia uma situação pré-revolucionária no país no momento que antecedeu o 13 de Maio de 1888.

A opinião pública favorável à abolição se generalizara por todo o país.

Desde a Guerra do Paraguai (1864/1870) foram muitos os escravos alforriados para lutar no exército, fazendo com que as forças armadas desde meados do século XIX se posicionassem pela abolição: inclusive se negando a emprestar apoio na captura dos cativos que fugiam das fazendas.

Sob o impacto da opinião pública, algumas províncias ao norte, menos dependentes do trabalho escravo, já tomaram a iniciativa de abolir a escravidão, a começar pelo Estado do Ceará em 1884. Naquela província ficou conhecida a atividade heroica dos jangadeiros que emprestavam os seus barcos de pesca para acolher e auxiliar negros fugidos do cativeiro oriundos de embarcações vindas de Santos.

Além disso, a maior concentração de população livre nos meios urbanos fez com que as cidades se tornassem núcleos do abolicionismo.

Nas cidades multiplicam-se instituições culturais, jornais, editoras e livrarias. Há aumento de pessoas que trabalham como profissionais liberais: médicos, engenheiros, advogados, funcionários públicos e professores, constituindo uma opinião pública refratária à escravidão predominante no meio rural.

É na cidade de São Paulo atuando como advogado (“rábula”) que Luiz Gama defendeu nos Tribunais a liberdade dos escravos com base na lei de proibição do tráfego de 1831.

Ficou conhecida as palavras proferidas pelo principal líder abolicionista de SP num Tribunal do Juri em Araraquara: “para o coração não há códigos; e, se a piedade humana e a caridade cristã se devem enclausurar no peito de cada um, sem se manifestarem por atos, em verdade vos digo aqui, afrontando a lei, que todo o escravo que assassina o seu senhor pratica um ato de legítima defesa.”.

Com a morte de Luiz Gama, o movimento abolicionista paulista passa por um processo de radicalização ainda maior, agora sob a liderança de Antônio Bento, um ex-juiz municipal que passou a conduzir a mobilização através do grupo Caifazes a partir de 1883.

Tratava-se de um movimento clandestino de luta contra a escravidão com traços que remetem à guerrilha urbana dos comunistas na época da ditadura militar. Através daquilo que hoje poderíamos chamar de “ação direta” eles organizavam fugas de escravos nas fazendas e mobilizavam alforriados para fazer propaganda abolicionista dentro das senzalas. Com a diferença que, diferentemente dos comunistas, os Caifazes contavam com um amplo apoio popular que os auxiliava na atividade clandestina.

Em Santos, principal foco do abolicionismo em São Paulo, os Caifazes chegaram a levar a diante um levante popular contra a escravidão, fazendo com que o trabalho escravo fosse extinto naquela cidade ainda no ano de 1886.

Há relatos de linchamentos promovidos pelos Caifazes dos capitães do mato, num momento em que ampla camada da população repudiava a tortura e assassinatos executados pelos caçadores de quilombolas.

Além de ex escravos, o grupo dos Caifazes era composto por setores médios e trabalhadores livres e pobres, que emprestavam o seu apoio à atividade guerrilheira de acordo com suas ocupações.

Caixeiros viajantes nas suas viagens distribuíam material abolicionista. Ferroviários ajudavam a embarcar nas viagens de trens escravos fugitivos de forma clandestina. Comerciantes se voluntariavam para esconder fugitivos em suas lojas. Jornalistas, intelectuais e estudantes davam apoio à propaganda política, através da Imprensa e em reuniões secretas.

Dentro dos Caifazes havia forte presença dos estudantes, especialmente acadêmicos da Faculdade de Direito de São Paulo.

 Em Santos, a juventude organizou a chamada “Boemia Abolicionista de Santos”, um grupo clandestino, sem sede fixa, do qual participavam intelectuais que se encontram nas praças e parques da cidade para fazer pequenos comícios abolicionistas. Chegaram a fazer peças de teatro ao ar livre, como meio de arrecadar dinheiro para pagamento de alforrias.

Naquele contexto surgiu em 1882 na cidade de Santos o Quilombo do Jabaquara, onde se agruparam entre 10 e 20 mil escravos fugidos das fazendas de café do interior paulista.

Contando com a rede de apoio dos Caifazes, os cativos faziam uma marcha a pé, descendo a serra até o litoral. Contavam com a conivência do exército: quando mobilizados pelo governo a reprimir a marcha, os militares deliberadamente buscavam se desencontrar do grupo de fugitivos. A tarefa inglória de caçar os fugitivos ficava na mão do reduzido (e odiado) grupo dos capitães do mato e pequenas forças policiais leais às ordens do governo.

Ao chegar em Santos, abrigados no Quilombo do Jabaquara, muitos ex escravos eram encaminhados de forma clandestina até o Ceará onde a abolição da escravatura já era uma realidade.

Em termos numéricos, o Jabaquara foi o segundo maior agrupamento de negros fugidos do Brasil, só atrás do Quilombo dos Palmares. Com uma diferença fundamental: o Quilombo paulista contou com o apoio dos abolicionistas pardos e brancos ligados ao movimento dos Caifazes, diferentemente do seu irmão situado em Alagoas que foi um movimento essencialmente negro. Inclusive, consta que o terreno onde estava localizado o Quilombo do Jabaquara foi cedido por um italiano abolicionista... Talvez por isso, hoje, em tempos de hegemonia da demagogia identitária, se fale muito do Quilombo de Palmares e pouco do Quilombo de Jabaquara.

Como se sabe, o Brasil foi um dos últimos países do ocidente a abolir a escravidão e esse é um dos traços que dão especificidade ao escravismo brasileiro: a manutenção do regime escravista no país perdurou por décadas convivendo com vedações legais, pelo menos desde 1831, quando, sob pressão da Inglaterra, o Império formalmente abolia o tráfico de escravos.

É neste contexto de progressiva e permanente desagregação do regime escravagista que a Lei Áurea foi aprovada em 1888.

A lei foi votada em regime de urgência:  83 deputados votam a favor e 9 contra (todos do partido conservador, provenientes de regiões rurais menos preparadas para transição ao regime livre).

Não se tratou o 13 de maio de uma concessão benevolente da princesa Isabel mas uma resposta tardia do Império a uma forma social em decomposição, dentro de um contexto de crise que poderia colocar a própria existência do regime político em cheque.  Os Caifazes paulistas e o Quilombo do Jabaquara são a mais importante expressão da situação pré revolucionária que antecedeu a Lei Áurea.

Na imagem: Quintino de Lacerda – Líder do Quilombo do Jabaquara e considerado o primeiro vereador negro do Brasil, eleito em Santos em 1895.

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