segunda-feira, 8 de junho de 2026

“Terra em Transe”

 “Terra em Transe”





Resenha Filme #1 – “Terra em Transe” – Glauber Rocha

 

“Onde houver um cineasta disposto a filmar a verdade, e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos da censura intelectual, aí haverá um germe vivo do Cinema Novo. Onde houver um cineasta disposto a enfrentar o comercialismo, a exploração, a pornografia, o tecnicismo, aí haverá um germe do Cinema Novo. Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua profissão a serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do Cinema Novo.” (Glauber Rocha – “Estética da Fome”).

Glauber Rocha foi o maior expoente do movimento artístico conhecido como “Cinema Novo” (1960/1970).

Tratava-se de um grupo de jovens cineastas que estava em oposição direta ao cinema convencional praticado até então no país: as chanchadas, comédias musicais fortemente influenciadas pela cultura hollywoodiana, por meio das quais se buscava retratar o Brasil como um paraíso tropical habitado por belos atores com perfil de modelos.

Em oposição a essa arte de conteúdo puramente comercial, aqueles jovens cineastas buscavam incluir pessoas reais, literalmente recrutadas de populares da rua, como personagens dos filmes. Voltavam sua atenção à situação dos camponeses, dos operários e dos moradores das favelas. Tinham a pretensão de produzir uma arte politicamente engajada, mas também enraizada na cultura popular brasileira. E levavam como palavra de ordem: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”!

Essa orientação mais independente implicava a falta de recursos financeiros para elaboração dos filmes. O que tinha como contrapartida positiva a mais completa liberdade criativa dos diretores.

“Terra em Transe” (1967) foi o terceiro filme dirigido por Glauber Rocha e revela todos aquelas características basilares do “Cinema Novo”. Fortemente influenciado pelo neorrealismo italiano do pós II Guerra Mundial, o cineasta se serve de atores amadores, realiza filmagens em espaços públicos contemplando os transeuntes, atenta-se às classes populares, realiza a crítica política e serve-se de uma estética de documentário, com uso de luz natural e sem exploração de recursos tecnológicos nas imagens; aquilo que o seu autor chamou acima de “tecnicismos”.

O enredo trata das lutas políticas em torno da presidência de Eldorado, uma ilha fictícia que remete a um cenário tropical, evidenciando a conhecida paródia da “República das Bananas”. O termo foi cunhado de forma pejorativa para retratar países da América Latina sujeitos à corrupção política de elites subordinadas à  exploração econômica das nações imperialistas.

O início do filme se dá através de um golpe de estado e a capitulação do governo “esquerdista” de Felipe Vieira; Paulo Martins, poeta, jornalista e protagonista do filme, decide sacrificar a si mesmo e morre resistindo a uma batida policial, mesmo após a traição do presidente que até então apoiava.

Na sequência o filme conta em retrospectiva a sua história; Paulo ao reunir em si as qualidades de poeta e político de origem pequeno-burguesa, será o meio com que o cineasta irá parodiar a política institucional, inclusive a brasileira, já no contexto da Ditadura Militar.

A origem de classe de Paulo Martins denota suas vacilações políticas. Trata-se do típico pequeno-burguês que está sempre vacilando politicamente, frequentemente traindo os seus compromissos partidários, passando inicialmente do lado da direita, representada por Porfírio Dias, para o lado da esquerda, representada por Vieira. Além de jornalista e militante político, também é poeta. O que faz com que as suas vacilações de classe o conduzam a todo momento ao remorso e à culpa do artista dotado de sensibilidade aguda.

Confrontado em certo momento por trabalhadores com consciência política, Paulo Martins é qualificado de forma desdenhosa como um anarquista. Sua personalidade confusa decorre dessa tensão entre a política e a poesia: em determinado momento Paulo Martins diz literalmente que “a política e a poesia são demais para um só homem”. Difícil não imaginar que essa tensão entre arte e política passava pelas cogitações do próprio Glauber Rocha.

O filme também revela a conhecida farsa da política institucional, através do embate entre uma “direita” (Porfírio Dias) e uma “esquerda” (Vieira) ambas igualmente sujeitas ao poder econômico dominante que controla Eldorado. A diferença aqui, também bastante conhecida, é que a chamada “esquerda” nada mais é do que o lenitivo eficiente para controlar a revolta das massas: após um camponês questionar Vieira por trair seu compromisso de garantir a terra ao povo, acabará posteriormente sendo encontrado morto de forma misteriosa.

Num diálogo simbólico entre Dias e Vieira, o representante da “direta” intima o representante da “esquerda”:  a luta de classes existe, de que lado você está? E ambos parecem chegar a uma composição.

O povo, também, não é retratado com qualquer idealismo no filme, como se a origem social automaticamente o credenciasse à lucidez política – se assim o fosse, estaríamos diante de um filme militante convencional e previsível.

A parte mais comovente do filme – aludida na imagem que ilustra esta resenha – é justamente quando Dias, Paulo Martins e os demais representantes burgueses do povo finalmente dão a palavra a um popular.

Um silêncio eloquente se faz.

Todos esperam o que o povo tem a dizer.

Um sindicalista pede a palavra.

E sua intervenção política é pífia:

- “Acho que está tudo errado, não sei o que fazer a não ser aguardar as ordens do presidente”. Paulo, o pequeno burguês, tapa a boca do representante do povo, o chama de analfabeto e despolitizado.  (https://www.youtube.com/watch?v=1VhLNu1KaCY).

O movimento do Cinema Novo existiu basicamente entre 1960 e 1970. O seu fim se deve entre outros à criação da Embrafilme em 1969 pelo Regime Militar, o que implicou na institucionalização do cinema nacional, por meio do financiamento estatal. O que não se relacionava com a arte independente proposta pelo grupo de Glauber Rocha.

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