“A Retirada de Laguna”
Resenha
Livro - “A Retirada de Laguna” – Alfredo d'Escragnolle Taunay - Iba Mendes
Editor Digital - 2019
“Os cadáveres
paraguaios, objeto dos primeiros esbulhos, ficaram assim nus, estendidos ao
sol. Notamos um, o de um rapaz de formas atléticas, cuja cabeça, de uma têmpora
à outra, perfurara uma bala. Tinha os olhos tumefatos (inchados) nas órbitas e,
apesar de todo o sangue que em abundância correra ainda, de sob a fronte, lhe
gotejavam grossas bagas, que pareciam lágrimas. Pungente emblema da passagem
exterminadora da guerra sobre sua valorosa nação, aniquilada pelo chefe
implacável que a regia” (Alfredo d'Escragnolle Taunay).
A retirada de Laguna
foi o mais conhecido evento militar da história das forças armadas brasileiras.
Curiosamente, essa grande epopeia foi resultado de uma derrota tática: a
própria noção de “retirada” evidencia a necessidade de um “recuo forçado”
diante de uma correlação de forças desfavorável no terreno de batalha. Em todo
caso, esse grande evento trágico, retratado através de um diário escrito em
campana por Visconde de Taunay, não só serviu de fonte àqueles que desejam
conhecer a história da guerra como meio de inspiração àqueles que amam o nosso
país.
A Guerra do
Paraguai (1864/1870) foi um reflexo tardio do movimento de independência das
colônias de Espanha e Portugal na América, o que deu ensejo à formação dos
Estados Nacionais que hoje conformam a região, a começar pela Independência do
Brasil em 1822.
A conjuntura
histórica envolvia o colapso do Vice-reino do Prata que deu origem aos estados
da Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai. Como é mesmo intuitivo, essa
dinâmica histórica implicava disputas territoriais em torno de fronteiras recém-inauguradas.
O conflito
decorre das pretensões expansionistas de Francisco Solano López, o ditador
Paraguaio que desejava fazer de sua nação a maior potência da América do Sul.
Estava dentro das suas cogitações possibilitar, através desse expansionismo, a
conquista de territórios que conduzissem à uma saída para o oceano atlântico,
interferindo na política interna dos seus países vizinhos.
O ditador
atreveu-se a interceptar um navio brasileiro que transitava o Rio Paraguai,
marcando o primeiro ato oficial de guerra, isso em 12/11/1864. Um mês depois, Lopez
declarou guerra ao Império do Brasil, quando tropas paraguaias invadiram o
território da então província do Mato Grosso, atual estado do Mato Grosso do
Sul.
Era o início do
conflito para o nosso país, podendo-se dizer desde já se tratar de uma guerra
justa e defensiva: os paraguaios nos atacaram, nós reagimos e ao final vencemos
a Guerra!
Também arcamos com
as maiores perdas humanas no campo dos vencedores. Estima-se em 50 mil mortos no Brasil durante
os cinco anos de guerra. Os mortos do lado uruguaio e argentino somados não
chegam nem à metade das baixas brasileiras.
A estratégia
militar traçada pelo Império envolvia atacar o Paraguai em duas frentes, uma ao
norte e outra ao sul. A retirada de laguna retrata a expedição que foi
direcionada pelo norte, onde as condições de luta foram as mais adversas. O
mapa que segue abaixo evidencia o traçado onde se deu a retirada:
O cenário de
guerra deu-se na fronteira com o Paraguai, na província do Mato Grosso, ao
passo que as forças armadas brasileiras estavam todas elas concentradas no
atlântico, criando uma primeira e grande dificuldade. Partiram do Rio de
Janeiro 3000 homens em direção à fronteira do inimigo. Demoraram quase dois
anos, percorrendo 320 léguas ou 1544 km. Só nesse trajeto morreram 1.300,
assolados pela varíola, pelo beribéri, pelas enchentes e deserções.
Ou seja, quando
as tropas brasileiras alcançaram o campo de batalha na divisa com o Paraguai, o
seu efetivo baixara de 3000 para 1700 homens. E desse total, apenas 700 sairiam
sobreviventes da retirada da Laguna.
Cumpre ainda
salientar que as forças armadas eram praticamente inexistentes no país ao tempo
da guerra: foi necessário que o Império desenvolvesse uma campanha de
voluntários, grande parte deles escravos que foram recrutados com a promessa de
lhe ser garantida a alforria ao término da guerra. Sabe-se que o amplo apoio
das forças armadas ao movimento abolicionista tem a sua origem na Guerra do
Paraguai.
Visconde de
Taunay no seu livro não de furta a comentar erros cometidos pelas lideranças
militares. Nossas tropas eram comandadas pelo Coronel Carlos de Moraes
Camisão. Taunay, que fazia parte da
equipe de engenheiros, afirma que o dirigente apresentava grande receio de
demonstrar algum ato de covardia na condução da guerra que o levasse à
desmoralização no Brasil. Isso talvez o tenha levado à decisão de invadir o
território paraguaio sem dimensionar riscos de abastecimento e o problema da logística.
Decidiram atingir o território de Laguna onde se situava uma fazenda do
presidente Lopez. Entretanto, os paraguaios se encarregaram de esvaziar o local
de qualquer fonte de subsistência, recolhendo o gado e dificultando o
transporte.
Gerou-se uma
situação dramática de falta de recursos à tropa, obrigando o exército a recuar.
Aqui começa a retirada: 35 dias percorrendo 39 léguas, o que equivale a 188 km.
Em todo esse trajeto, os brasileiros estiveram no encalço dos paraguaios,
ocorrendo escaramuças e diversos conflitos.
Os brasileiros
contavam com boa artilharia e dispunham de fuzis, revólveres, granadas e até
espadas para combates corporais. Também se serviam de índios terenas e
guaicurus como seus auxiliares e mascates que auxiliavam no abastecimento de
alimentos. Mas os paraguaios dispunham de maior mobilidade por conta da
cavalaria: os brasileiros perderam os seus cavalos por uma epidemia ainda no
trajeto até o Mato Grosso.
Um personagem
notável daquele evento, retratado no livro de Taunay e em toda a mitologia do
evento, foi a do guia José Francisco Lopes.
Trata-se de um
sertanista cuja fazenda ficava na região da fronteira, ao passo que sua mulher
e filhos haviam sido raptados pelos paraguaios no início da guerra. Lopes se
engaja na campanha como guia das tropas diante do seu conhecimento absoluto do
terreno de batalha, além do seu desejo de resgatar a família tomados pelo
inimigo.
Chegava a gozar
dos engenheiros militares, dizendo que todo aquele conhecimento científicos e
as bússolas estavam longe de traduzir o conhecimento do terreno pelo sertanejo.
Essa noção do território fez com que o guia Lopes fosse obrigatoriamente
consultado em todas as decisões táticas da guerra, assumindo papel de destaque
nos eventos; o guia morreu e ficou na história nacional como símbolo da
abnegação e destemor do caboclo brasileiro. Lopes nada mais é do que um primo
não muito distante dos velhos bandeirantes paulistas, desbravadores intrépidos
dos sertões brasileiros.
A maior causa de
mortes na retirada não se deu por conta dos combates, mas pela fome e doenças.
O caso mais grave se deu por uma epidemia de cólera, que vitimou além de Lopes,
o próprio comandante Camisão. O surto deve ter tido como causa a contaminação
da água. Fez com que em alguns dias morressem mais de cem pessoas. A cólera faz
com que o doente vomite e dejete até 15 litros de água, além de causar câimbras
tenebrosas e tão doloridas, que se identificou soldados que se suicidaram para
se liberar do sofrimento físico. A situação de fome era pavorosa: em certos
momentos, os soldados se lançam em restos mortais de gado morto, cuja carne
podre deve ter contribuído para a propagação das doenças. Os paraguaios
exploravam táticas de guerrilha, com emboscadas e incêndios, fazendo com que
alguns morressem carbonizados.
Finalmente,
cerca de 700 homens conseguiram atingir o Rio Aquidauana em 11.06.1867, pondo
fim à expedição. A retirada simbolicamente termina consagrando os brasileiros
que lutaram pela sobrevivência sonhando com retorno ao país em segurança,
enfrentando a fome, a doença e as balas do inimigo; em certos momentos, quando
cercados pelo inimigos, flagelados pelas mortes de cólera e pela fome de dias,
essa retirada parecia um sonho implausível – a retirada de Laguna remonta à
volta a Pindorama, a terra prometida na
lenda dos Tupis.
Quadro: "Batalha do Avaí - Guerra do Paraguai" - Pedro Américo


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