terça-feira, 30 de junho de 2026

A Lenda do Jurupari

 A Lenda do Jurupari





Resenha Livro – “Jurupari” – Francisco Brasileiro – Livraria Martins Fontes – 1948

O folclore é expressão da cultura popular que, se via de regra, se transmite através de tradição oral – pode até ser reunido e compilado através da literatura (como a literatura de cordel) ou estudos históricos, mas a sua fonte deriva de histórias contadas, de geração a geração. No que toca às lendas indígenas, suas origens remetem ao período pré-colombiano: figuras como Tupã e Jurupari existiam no imaginário dos índios Tupi muito antes da chegada dos Portugueses ao território onde hoje se situa o Brasil.

Essa circunstância cria um primeiro problema: a dificuldade enorme de dimensionar o que foram aqueles mitos e como eles foram aclimatados a partir da chegada dos portugueses, notadamente através das missões dos jesuítas, que dialogavam com as entidades espirituais indígenas para levar adiante o seu plano missionário.

É o caso do mito do Jurupari, entidade espiritual amplamente disseminada entre os povos indígenas ao tempo da instalação dos portugueses. Dentro do dualismo envolvendo céu e o inferno, bem e o mal, os missionários utilizaram do mito de Jurupari traduzindo-o como a figura do Diabo ou de Satã, em oposição à Tupã, figurando como o Deus cristão.

A tentativa de aclimatar o cristianismo ao imaginário do índio significou, portanto, a ressignificação das lendas, tornando hoje difícil situar com precisão como essas figuras mitológicas foram originalmente concebidas. O risco de anacronismo é enorme: entender como correto um determinado conceito de passado longínquo desconsiderando a forma como ele foi se ressignificando ao logo dos séculos e a nova roupagem que adquiriu a partir da intervenção dos padres.

O que se sabe é que Jurupari não era para os povos indígenas propriamente uma figura do mal, ainda que sempre temida. Consta que foi concebido como uma espécie de legislador, uma liderança que granjeou autoridade moral perante a pajelança para instituir um novo código de conduta estruturada no regime do patriarcado.

É através da figura do Jurupari que se evidencia a centralidade da pajelança: talvez por conta disso, foi um alvo fácil dos jesuítas, já que a atividade de conversão ao cristianismo envolvia o confronto direto com as tradições religiosas milenares dos pajés.

A mãe de Jurupari, remetendo à figura de Eva (e novamente vemos aqui a influência dos jesuítas) concebeu o herói após comer um fruto proibido. Foi expulsa da tribo pelo ato ilícito e concebeu Jurupari, conhecido como filho do sol.

A lenda também está associada a fenômenos de premonições e terror noturno. Fala-se que Jurupari atacava no período da noite e, até hoje, se encontra numa rápida busca pelo tema no Youtube depoimento de indígenas que se referem a Jurupari como algo parecido como um demônio da floresta que traz maus presságios[1].

Uma forma de conhecer a história do mito se dá através da leitura do romance injustamente pouco conhecido de Francisco Brasileiro, chamado “Jurupari”. Há pouquíssimas informações sobre a obra e seu autor na internet. Sabe-se que ela se sagrou vitoriosa classificada em 1º Lugar do Prêmio Monteiro Lobato do Departamento de Cultura de São Paulo no ano de 1948.

A história, contada em primeira pessoa, retrata a epopeia de um sertanista que se lança à floresta amazônica em busca do ouro, remetendo à milenar epopeia que conduziu através da cobiça a atividade bandeirante em busca de uma terra misteriosa onde há a abundância dos diamantes.  

Esse narrador reúne em si as qualidades de poeta e sertanista. A narrativa tem forte conteúdo poético e lírico e, como é feita em primeira pessoa, temos a impressão de estar diante de um matuto sertanejo dotado da mais alta sensibilidade em perceber a natureza e os índios.

Isso cria um impacto no leitor e até gera uma certa inverossimilhança quando se constata no narrador um caboclo capaz de viver como os índios, sobrevivendo na floresta, caçando, pescando, construindo barcos e guerreando, e ao mesmo tempo extremamente imaginativo ao ponto de escrever um livro cercado de lirismo e poesia.

Vejamos uma cena em que esse narrador narra os seus contatos com um grupo de índios:

“A tudo eu assisti, sentado com as pernas cruzadas fitando o fogo à minha frente. Uma estranha capacidade de sentir me havia tocado de tal forma, que aquelas cenas me atingiam profundamente. Era um novo mundo a se abrir ante os meus olhos cheios de pasmo, eram novas emoções a ferirem minha sensibilidade. Um acendrado respeito fazia-me reverenciar aquelas práticas como se eu me tivesse remontado aos primórdios do gênero humano e me fosse dado assistir à conduta de meus semelhantes na aurora da raça. Ali, diante de mim, estava o remoto passado. Entre eu e aqueles índios havia talvez um espaço de cem mil anos”.

Na peregrinação pelos sertões, o narrador se depara com uma reunião de pajés que lhe confiam um manuscrito contendo uma lenda até então indecifrável. Ainda que fosse capaz de ler, o narrador demora algum tempo até conseguir traduzir o texto, escrito num português antigo, redigido por um sertanista português que se perdera por aquelas terras no ano de 1600 e foi rebatizado como Abá.

Orgulhoso e arrogante, esse lusitano serve-se de sua arma de fogo para se impor perante os índios. Até que certo dia é confrontado com um feiticeiro chamado Abarê que será posteriormente o seu mentor espiritual. Num primeiro momento, esse pajé num passe de mágica transforma as armas de Abá em pó e lhe provoca um sentimento de pânico que o desmoraliza perante a tribo – para o índio, nada mais desmoralizante do que a covardia.

O branco é imediatamente cercado e atacado pelos homens da tribo que lhe desferem golpes nos pés impossibilitando-o de andar. É obrigado a passar certo tempo se rastejando, implorando água e comida, na mais completa situação de humilhação.

Quando consegue depois de algum tempo ficar de pé, Abá é feito escravo da tribo por vinte anos. Executa os trabalhos mais humilhantes e é alvo de desdém das mulheres, crianças, idosos e até dos bichos.

Depois de duas décadas humilhado como escravo, Abá aprendeu através da prática o valor da humildade e adquiriu forças físicas pelo trabalho forçado. Desenvolveu a capacidade de conter o orgulho e a exaltação de si próprio, ao mesmo tempo que aprimorou o rigor físico.

Novamente inspirado por Abarê, rompe com as amarras da escravidão esmagando o crânio de um índio com os próprios punhos. É novamente alçado à condição de liderança moral da tribo, mas agora um rei justo, que inclusive determinava que cada um era obrigado a passar certo tempo como escravo só para aprender dessa forma a desenvolver a humildade. Depois disso é convidado a uma longa peregrinação com o seu mentor para aprendizado.

Acredito que Abá, no romance de Francisco Brasileiro, na condição de reformador dos costumes do índio, é nada menos do que o próprio Jurupari!  

A inadequação do mito à noção do bem e do mal dos missionários cristãos se revela no livro pela forma peculiar com que os índios encaram a vida e a morte. Para eles, diferentemente de nós, nossa jornada não consiste num começo, meio e fim, que nos conduzirá ao céu, ao inferno ou ao purgatório.

Para o índio, a existência é uma só, consistindo em ciclos eternos de começo, meio e fim.

Em outras palavras:  a vida é uma somatória de ciclos, parecida com cada dia com o seu alvorecer, o entardecer e o anoitecer; ao passo que a morte encerra o último e derradeiro ciclo. Nada mais do que isso.

Por isso a morte é encarada com extrema naturalidade pelos índios, que detestam profundamente manifestações de covardia nas guerras: nas suas batalhas, os índios não transmitem em sua face nem ódio, nem medo, nem piedade e nem tristeza. O índio é ensimesmado, soturno e fatalista.



[1] https://www.youtube.com/watch?v=HvtQ22T61zQ  

“Pegadas de “Mapinguari” ou “Jurupari” assustam moradores da Vila Amazônia, interior de Parintins.

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