domingo, 14 de junho de 2026

“Terras do Sem-Fim” – Jorge Amado

 Terras do Sem-Fim” – Jorge Amado



 

Resenha Livro – “Terras do Sem-fim” – Jorge Amado – Ed. Companhia das Letras

 

É bastante extensa a produção literária do escritor baiano Jorge Amado (1912/2001). Em vida publicou 49 livros, entre romances, novelas, peças de teatro e biografias. Seus trabalhos foram traduzidos em cerca de 50 idiomas, além de adaptações das obras no teatro, no cinema e na televisão.

Convencionou-se dividir a literatura do romancista em dois grandes períodos.

Uma primeira fase de cunho nitidamente político ideológico perpassa sua produção dos anos 1930/1940. É deste período romances como “Cacau” (1932) que descreve a opressão dos trabalhadores rurais nos latifúndios do sul da Bahia, região na qual o escritor nasceu. É também nesta primeira fase que o escritor publica o seu famoso “Capitães de Areia” (1937) relato da vida de menores abandonados que sobrevivem de pequenos atos de bandidagem nas ruas de Salvador, convivem e descobrem o amor, o sexo e a solidariedade dos oprimidos desde um trapiche onde se refugiam.

A segunda fase da produção literária do escritor baiano se relaciona com uma reorientação política do escritor. Teve como eixo a ruptura de muitos intelectuais com o movimento comunista no contexto do XX Congresso do PCUS no ano de 1956, quando Nikita Kruschev denunciou aquilo que caracterizava como os “crimes do stalinismo” – na prática, tratava-se do marco inicial da restauração capitalista da União Soviética.  São desta segunda fase romances não tão abertamente ideológicos como “Gabriela Cravo e Canela” (1958) e “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1966).

Esses livros se situam num movimento literário conhecido como segunda fase do modernismo brasileiro, de cunho nitidamente regionalista e com um forte acento na denúncia das iniquidades sociais.

Andam num sentido semelhante aos romances de Graciliano Ramos, Rachel de Queirós e José Lins do Rego. Cada qual contando as histórias de sua terra natal: Graciano Ramos falando dos retirantes de Alagoas em “Vida Seca”; Rachel de Queiroz descrevendo a miséria dos camponeses do Ceará em “O quinze”; José Lins do Rego com o seu “ciclo da cana de açúcar” tratando dos engenhos de açúcar da Paraíba; e finalmente Jorge Amado, dando o seu depoimento em torno do povo da Bahia, notadamente os trabalhadores e latifundiários das terras ao sul baiano produtoras do cacau. Esses escritores regionalistas se agruparam em torno do Congresso Regionalista (1926) convocado pelo grande historiador Gilberto Freire, dentro de uma reação aos modernistas paulistas da Semana de 1922.

Os nordestinos criticavam os modernistas de São Paulo, pois o arranjo da “antropofagia” ainda implicava numa certa assimilação das tendências artísticas europeias. A despeito da proposta de rompimento com as formas tradicionais da arte copiadas das escolas europeias, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e os demais ainda estavam sujeitos à certa imitação das vanguardas estrangeiras – cubismo, dadaísmo, futurismo, etc. Jorge Amado e os demais irão propor uma arte regionalista “moderna, mas sem ser modernista”. Tinham, neste sentido, uma orientação menos elitista que os seus pares de São Paulo, rejeitando o experimentalismo formal da arte modernista e assimilando um certo realismo através do qual desenvolveram uma literatura social que retrata com fidelidade as condições do povo.

Não caíram, entretanto, numa literatura engajada, que tem como consequência a previsibilidade e a superficialidade do panfleto político. O maior mérito daqueles escritores regionalistas foi o de dotar a alma do caboclo e do matuto das mesmas complexidades que singularizam o homem universal; quando visto de perto esse homem do povo expõe as contradições que não se limitam ao convencionalismo do bem e do mal, do herói e do vilão. O homem simples capaz de deduzir as cogitações profundas em torno da finitude da vida, do amor, da sua relação com a natureza e de todos os demais temas universais. O sertão que se fez universal, dentro da fórmula elaborada por João Guimarães Rosa, aquele que mais adiante levou essa proposta universalizante do caboclo e do matuto do interior do Brasil.

TERRAS DO SEM-FIM

O romance “Terras do Sem-fim” surge curiosamente num momento de transição entre a primeira fase e a segunda fase dos livros de Jorge Amado.

Foi escrito em meados de 1942, quando o escritor, ligado ao Partido Comunista Brasileiro, encontrava-se no exílio no Uruguai, dentro do contexto do Estado Novo varguista.

A obra foi redigida durante a II Guerra Mundial; mas os grandes eventos geopolíticos da época, ou mesmo a conjuntura política nacional não aparecem no romance, toda ela circunscrito à história do desbravamento das terras do sul da Bahia.

Dentro da primeira fase dos livros do escritor, verificamos a ênfase nos tipos populares (campesinos, jagunços, prostitutas, boêmios) e a denúncia social em torno da violência dos latifundiários e da espoliação dos camponeses sujeitos ao trabalho assalariado por meio de dívidas contraídas nos barracões dos proprietários, em situação análoga à escravidão.

Entretanto, não aparece na história aquilo que parecia ser a tendência dentro da época em que o livro foi escrito: não se fala sobre a ditadura varguista nem sobre os desdobramentos da guerra mundial, como se as terras do cacau ao sul da Bahia fossem parte de uma realidade à parte, aproximando o livro das obras da segunda fase.

Na verdade, o escritor conta a história de sua terra natal, da cidade de Itabuna, que começou com o arraial de Tabocas, ligado ao município de Ilhéus.

Antes do arraial, nos primeiros anos do século XX, migrantes da Bahia e outros estados do nordeste, parte deles fugindo da seca, vinham desbravando aquelas terras para enriquecer rapidamente através das fazendas do cacau. Havia a promessa do dinheiro rápido, diante da fertilidade do terreno. Apenas alguns poucos mais decididos ascendiam rapidamente, de forma parecida com o ciclo da mineração que também fez emergir os aventureiros que se lançaram ao interior do país em busca da rápida ascensão social. Abriam as picadas na mata e estavam sujeitos à morte fácil pelas doenças ou ataques das cobras. Ou através do assassinato, porquanto a vida naquelas paragens não valia muita coisa.

Logo se formaram os clãs, grupos familiares que foram se apropriando da terra e estruturando os grandes latifúndios do cacau, arregimentando gente para trabalhar na lavoura e os jagunços para exercer o poder através da bala. Uma simples querela suscitada por um camponês descontente com algum potentado rural era causa de morte: no livro, um coronel não só matou um foreiro que lhe reclamou terras, como determinou que lhe arrancassem os olhos, orelhas e testículos para dar exemplo aos demais.

A história remonta à luta pelas terras desbravadas pelos primeiros sertanistas em torno de dois grandes clãs. O grupo ligado aos Badarós e o clã dirigido pelo Coronel Horácio. A disputa pelo território tem o seu ápice na guerra travada pela posse da terra do Sequeiro Grande, a mais fértil de todas e que ficava justamente nas cercanias das fazendas dos dois grupos familiares. Uma luta militar que tem os seus desdobramentos políticos e institucionais. Um clã ligado ao partido oficial que dirige o governo da Bahia e outro associado à oposição. Cada setor com os seus representantes no judiciário e na imprensa: juízes, delegados, padres, advogados e jornalistas todos eles dedicados a defender os interesses de seu respectivo clã.  

É interessante notar como esse romance  expressa através da arte aquilo que o Oliveira Vianna, o maior sociólogo brasileiro de todos os tempos, desenvolveu em tese no livro “Populações Meridionais do Brasil” (1920). Trata-se justamente da noção dos clãs familiares como elemento constitutivo mais importante na história da formação social brasileira.

A grande dimensão territorial do país, desde os tempos mais remotos da colonização portuguesa, colabora para o isolacionismo das fazendas. Tudo isso cria as condições para o fortalecimento de clãs familiares que conduzem a política e a jurisdição de todo povo agregado aos Potentados Rurais. Do escravo ao agregado, passando pelos trabalhadores livres e pobres, lavradores e pequenos funcionários estatais, todos estão subordinados ao grande senhor de terras. É justamente a propriedade de terras e escravos que dá prestígio no Brasil e não os títulos de nobreza, como na Europa.

Os primeiros dois séculos de colonização, ou seja, de 1500 até 1700, para Oliveira Viana, marca o predomínio absoluto desses clãs familiares, que conduzem do ponto de vista político e institucional, a uma situação de “anarquia” (conceito empregado pelo próprio autor). Os potentados servem-se de um exército de agregados, lavradores destituídos de terras e escravos, que irão ser recrutados nas bandeiras e servir de fonte de defesa militar, seja nas guerras entre os diferentes clãs, seja na defesa da fazenda em face dos ataques de índios, quilombolas e ataques de nações estrangeiras.

Tudo isso é evidenciado em prosa no romance Terras do Sem Fim. 

O exército de agregados são os jagunços. Os potentados são os grandes latifundiários do cacau, os Bardarós e a gente ligada ao Coronel Horácio. Há os lavradores intermediários que vão se associada cada qual a um dos dois partidos políticos - são os tenentes de menor patente na guerra militar pelas terras. E a anarquia institucional, onde Estado cede passo à força militar dos coronéis. São os juízes e delegados de polícia corrompidos, os jornalistas dedicados à calúnia, os advogados que torturam a letra da lei para emprestar legitimidade institucional aos assassinatos dos coronéis.

Como se Jorge Amado, ao cantar sobre a sua terra natal, estivesse na verdade fazendo em dimensão regional uma grande História do Brasil.

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