Terras do Sem-Fim” – Jorge Amado
Resenha Livro – “Terras
do Sem-fim” – Jorge Amado – Ed. Companhia das Letras
É bastante extensa a produção
literária do escritor baiano Jorge Amado (1912/2001). Em vida publicou 49
livros, entre romances, novelas, peças de teatro e biografias. Seus trabalhos
foram traduzidos em cerca de 50 idiomas, além de adaptações das obras no
teatro, no cinema e na televisão.
Convencionou-se dividir a
literatura do romancista em dois grandes períodos.
Uma primeira fase de cunho
nitidamente político ideológico perpassa sua produção dos anos 1930/1940. É
deste período romances como “Cacau” (1932) que descreve a opressão dos
trabalhadores rurais nos latifúndios do sul da Bahia, região na qual o escritor
nasceu. É também nesta primeira fase que o escritor publica o seu famoso “Capitães
de Areia” (1937) relato da vida de menores abandonados que sobrevivem de
pequenos atos de bandidagem nas ruas de Salvador, convivem e descobrem o amor,
o sexo e a solidariedade dos oprimidos desde um trapiche onde se refugiam.
A segunda fase da produção
literária do escritor baiano se relaciona com uma reorientação política do
escritor. Teve como eixo a ruptura de muitos intelectuais com o movimento
comunista no contexto do XX Congresso do PCUS no ano de 1956, quando Nikita
Kruschev denunciou aquilo que caracterizava como os “crimes do stalinismo” – na
prática, tratava-se do marco inicial da restauração capitalista da União
Soviética. São desta segunda fase
romances não tão abertamente ideológicos como “Gabriela Cravo e Canela” (1958)
e “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1966).
Esses livros se situam num
movimento literário conhecido como segunda fase do modernismo brasileiro, de
cunho nitidamente regionalista e com um forte acento na denúncia das
iniquidades sociais.
Andam num sentido semelhante aos
romances de Graciliano Ramos, Rachel de Queirós e José Lins do Rego. Cada qual
contando as histórias de sua terra natal: Graciano Ramos falando dos retirantes
de Alagoas em “Vida Seca”; Rachel de Queiroz descrevendo a miséria dos
camponeses do Ceará em “O quinze”; José Lins do Rego com o seu “ciclo da cana
de açúcar” tratando dos engenhos de açúcar da Paraíba; e finalmente Jorge
Amado, dando o seu depoimento em torno do povo da Bahia, notadamente os
trabalhadores e latifundiários das terras ao sul baiano produtoras do cacau.
Esses escritores regionalistas se agruparam em torno do Congresso Regionalista
(1926) convocado pelo grande historiador Gilberto Freire, dentro de uma reação
aos modernistas paulistas da Semana de 1922.
Os nordestinos criticavam os
modernistas de São Paulo, pois o arranjo da “antropofagia” ainda implicava numa
certa assimilação das tendências artísticas europeias. A despeito da proposta
de rompimento com as formas tradicionais da arte copiadas das escolas
europeias, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e os demais ainda estavam
sujeitos à certa imitação das vanguardas estrangeiras – cubismo, dadaísmo,
futurismo, etc. Jorge Amado e os demais irão propor uma arte regionalista
“moderna, mas sem ser modernista”. Tinham, neste sentido, uma orientação menos
elitista que os seus pares de São Paulo, rejeitando o experimentalismo formal
da arte modernista e assimilando um certo realismo através do qual
desenvolveram uma literatura social que retrata com fidelidade as condições do
povo.
Não caíram, entretanto, numa literatura
engajada, que tem como consequência a previsibilidade e a superficialidade do
panfleto político. O maior mérito daqueles escritores regionalistas foi o de
dotar a alma do caboclo e do matuto das mesmas complexidades que singularizam o
homem universal; quando visto de perto esse homem do povo expõe as contradições
que não se limitam ao convencionalismo do bem e do mal, do herói e do vilão. O
homem simples capaz de deduzir as cogitações profundas em torno da finitude da
vida, do amor, da sua relação com a natureza e de todos os demais temas
universais. O sertão que se fez universal, dentro da fórmula elaborada por João
Guimarães Rosa, aquele que mais adiante levou essa proposta universalizante do
caboclo e do matuto do interior do Brasil.
TERRAS DO SEM-FIM
O romance “Terras do Sem-fim”
surge curiosamente num momento de transição entre a primeira fase e a segunda
fase dos livros de Jorge Amado.
Foi escrito em meados de 1942,
quando o escritor, ligado ao Partido Comunista Brasileiro, encontrava-se no
exílio no Uruguai, dentro do contexto do Estado Novo varguista.
A obra foi redigida durante a II
Guerra Mundial; mas os grandes eventos geopolíticos da época, ou mesmo a
conjuntura política nacional não aparecem no romance, toda ela circunscrito à
história do desbravamento das terras do sul da Bahia.
Dentro da primeira fase dos
livros do escritor, verificamos a ênfase nos tipos populares (campesinos,
jagunços, prostitutas, boêmios) e a denúncia social em torno da violência dos
latifundiários e da espoliação dos camponeses sujeitos ao trabalho assalariado
por meio de dívidas contraídas nos barracões dos proprietários, em situação análoga
à escravidão.
Entretanto, não aparece na
história aquilo que parecia ser a tendência dentro da época em que o livro foi
escrito: não se fala sobre a ditadura varguista nem sobre os desdobramentos da guerra
mundial, como se as terras do cacau ao sul da Bahia fossem parte de uma
realidade à parte, aproximando o livro das obras da segunda fase.
Na verdade, o escritor conta a
história de sua terra natal, da cidade de Itabuna, que começou com o arraial de
Tabocas, ligado ao município de Ilhéus.
Antes do arraial, nos primeiros
anos do século XX, migrantes da Bahia e outros estados do nordeste, parte deles
fugindo da seca, vinham desbravando aquelas terras para enriquecer rapidamente através
das fazendas do cacau. Havia a promessa do dinheiro rápido, diante da
fertilidade do terreno. Apenas alguns poucos mais decididos ascendiam
rapidamente, de forma parecida com o ciclo da mineração que também fez emergir
os aventureiros que se lançaram ao interior do país em busca da rápida ascensão
social. Abriam as picadas na mata e estavam sujeitos à morte fácil pelas
doenças ou ataques das cobras. Ou através do assassinato, porquanto a vida
naquelas paragens não valia muita coisa.
Logo se formaram os clãs, grupos
familiares que foram se apropriando da terra e estruturando os grandes
latifúndios do cacau, arregimentando gente para trabalhar na lavoura e os
jagunços para exercer o poder através da bala. Uma simples querela suscitada
por um camponês descontente com algum potentado rural era causa de morte: no
livro, um coronel não só matou um foreiro que lhe reclamou terras, como determinou
que lhe arrancassem os olhos, orelhas e testículos para dar exemplo aos demais.
A história remonta à luta pelas
terras desbravadas pelos primeiros sertanistas em torno de dois grandes clãs. O
grupo ligado aos Badarós e o clã dirigido pelo Coronel Horácio. A disputa pelo
território tem o seu ápice na guerra travada pela posse da terra do Sequeiro
Grande, a mais fértil de todas e que ficava justamente nas cercanias das
fazendas dos dois grupos familiares. Uma luta militar que tem os seus
desdobramentos políticos e institucionais. Um clã ligado ao partido oficial que
dirige o governo da Bahia e outro associado à oposição. Cada setor com os seus
representantes no judiciário e na imprensa: juízes, delegados, padres, advogados e jornalistas
todos eles dedicados a defender os interesses de seu respectivo clã.
É interessante notar como esse
romance expressa através da arte aquilo
que o Oliveira Vianna, o maior sociólogo brasileiro de todos os tempos, desenvolveu
em tese no livro “Populações Meridionais do Brasil” (1920). Trata-se justamente
da noção dos clãs familiares como elemento constitutivo mais importante na
história da formação social brasileira.
A grande dimensão territorial do
país, desde os tempos mais remotos da colonização portuguesa, colabora para o
isolacionismo das fazendas. Tudo isso cria as condições para o fortalecimento
de clãs familiares que conduzem a política e a jurisdição de todo povo agregado
aos Potentados Rurais. Do escravo ao agregado, passando pelos trabalhadores
livres e pobres, lavradores e pequenos funcionários estatais, todos estão
subordinados ao grande senhor de terras. É justamente a propriedade de terras e
escravos que dá prestígio no Brasil e não os títulos de nobreza, como na Europa.
Os primeiros dois séculos de
colonização, ou seja, de 1500 até 1700, para Oliveira Viana, marca o predomínio
absoluto desses clãs familiares, que conduzem do ponto de vista político e
institucional, a uma situação de “anarquia” (conceito empregado pelo próprio
autor). Os potentados servem-se de um exército de agregados, lavradores
destituídos de terras e escravos, que irão ser recrutados nas bandeiras e
servir de fonte de defesa militar, seja nas guerras entre os diferentes clãs,
seja na defesa da fazenda em face dos ataques de índios, quilombolas e ataques
de nações estrangeiras.
Tudo isso é evidenciado em prosa no romance Terras do Sem Fim.
O exército de agregados são os jagunços. Os potentados são os grandes latifundiários do cacau, os Bardarós e a gente ligada ao Coronel Horácio. Há os lavradores intermediários que vão se associada cada qual a um dos dois partidos políticos - são os tenentes de menor patente na guerra militar pelas terras. E a anarquia institucional, onde Estado cede passo à força militar dos coronéis. São os juízes e delegados de polícia corrompidos, os jornalistas dedicados à calúnia, os advogados que torturam a letra da lei para emprestar legitimidade institucional aos assassinatos dos coronéis.
Como se Jorge Amado, ao cantar
sobre a sua terra natal, estivesse na verdade fazendo em dimensão regional uma
grande História do Brasil.

Nenhum comentário:
Postar um comentário