terça-feira, 30 de julho de 2013

“Maurício Tragtenberg: Uma Vida para as Ciências Humanas” – Vários Autores


Resenha Livro # 66 “Maurício Tragtenberg: uma vida para as Ciências Humanas”. (Org. Doris Accioly e Sônia Marrach). Ed. Unesp
 
 

 

Por ocasião da morte do professor universitário e militante Maurício Tragtenberg, foram realizados diversos seminários homenageando a vida e o legado teórico do autor. O professor deu aulas na PUC-SP, na Faculdade de Educação da Unicamp, na Faculdade de Filosofia da Unesp de Marília e na Fundação Getúlio Vargas. Ainda assim, é desconhecido por muitos, apesar de ter contribuído no âmbito das ciências humanas com uma particular e interessante crítica à burocracia, particularmente no que se refere às suas manifestações no âmbito das escolas e universidades.

 

Contrapôs a lógica das grades de disciplinas (e a expressão “grades” passa a ser sintomática ao remeter à ideia de prisão), ao conhecimento destinado à ao passivo respeitar das normas e de um saber burocrático voltado às exigências do mercado e das empresas modernas, pautando, em oposição, um novo tipo de relação não autoritário nas escolas e universidades, marcado pela horizontalidade, pelo encerramento da competitividade, pelo fim dos exames e provas que apenas legitimam o poder do professor e pela total abertura do espaço à comunidade. Pensou em síntese num novo modelo de educação auto-gestionário em que os estudantes são levados a discutir e aprender assuntos de seu interesse, instigando a curiosidade espontânea e a construção de saber coletivo, sem hierarquias.

 

Não foi só no âmbito das escolas que Tragtenberg dedicou-se ao estudo da burocracia. Analisou a lógica das práticas serializadas no âmbito das empresas por meio de uma crítica politizadora dos modelos de produção fordista, taylorista e toyotista. Conseguiu observar talvez antes do que a maior parte da sociologia do trabalho como particularmente os novos modelos de administração pautados pela criação de responsabilidades aos trabalhadores, por meio de um discurso de “pertencimento” do trabalhador à fábrica, implicava não em uma “democratização” das relações de mando nas empresas mas na garantia de que os trabalhadores passassem a cada vez mais enxergar seu trabalho como o fim de sua vida, influenciando-os a trabalharem no limite de maneira a atender suas novas responsabilidades e não desapontar o restante da equipe: encerram-se assim cada vez mais os limites entre o espaço do trabalho e o espaço doméstico, do lazer e do descanso, diminuindo em importância o segundo em detrimento do primeiro.

 

No que se refere aos pressupostos teórico-metodológicos, pode-se dizer que os autores que mais influenciam Tragtenberg são Karl Marx e Max Weber. Nas palavras de um dos articulistas dos ensaios, o autor analisou criticamente a estrutura e o modo de produção capitalista desde a orientação marxista e interpretou a super-estrutura, as entidades políticas, as instituições educacionais e as  empresas a partir da concepção de burocracia em Weber.

 

O livro corresponde a uma série de artigos de professores e militantes de movimentos sociais que conviveram, aprenderam e se apropriaram dos saberes produzidos por Tragtenberg. Há tanto elementos acerca de sua trajetória de vida pessoal até análises mais detalhadas de sua intervenção na academia e no debate no espaço público. Certamente, a alcunha de “intelectual heterodoxo” veio bem a calhar a este pensador proveniente do sul do país, de origem judaica e que passou a maior parte de sua vida trabalhando e militando no estado de São Paulo.

 

Quando jovem Maurício Tragtenberg já devorava os livros: diz-se que lia de 9 a 10 horas por dia na biblioteca Mário de Andrade em São Paulo. Aos domingos, costumava visitar os Abramos, participava de debates junto àquela família repleta de intelectuais, bem como tinha acesso à livros e orientações de leitura. Também na juventude conheceu Antônio Cândido que, impressionado com o repertório cultural daquele jovem que sequer tinha feito o secundário, descobriu uma forma de fazer com que Tragtenberg entrasse na universidade mesmo sem a escolaridade formal. Era possível, para entrar na universidade, apresentar uma tese a ser apresentada por banca examinadora. E assim Tragtenberg entrou na USP, primeiro no curso de Ciências Sociais, e depois se transferindo e formando-se em História.

 

Como militante, sua intervenção mais importante provavelmente se deu com a coluna “No Batente” escrita no jornal Notícias Populares. Tratava-se de um jornal popular, muito lido pelos operários e por meio dele Tragtenberg pautava seus textos a partir de recomendações dos próprios operários e seus respectivas denúncias de más condições de trabalho. Como crítico da burocracia também no âmbito sindical, procurava deixar claro que o espaço do “Batente” era destinado aos problemas do operário comum, sem pretensão de representar ou defender interesses particulares de partidos políticos e sindicatos.

 

A vivência político-partidária de Tragtenberg também foi curta. Foi durante pouco tempo membro do PCB e foi expulso deste partido. Revela-nos em uma de suas colunas do “Batente” que dentre os estatutos do partidão havia o “infame” parágrafo 13 que proibia os militantes da organização de ter contato com as obras de León Trótsky e outros “traidores do socialismo”. Chegou a militar junto do conhecido introdutor do trotskysmo no Brasil, o jornalista Hermínio Sacchetta e seu PSR (Partido Socialista Revolucionário). Posteriormente, acrescentaria às suas influências teóricas o anarquismo, rompendo com a concepção de partido e organização política de Lênin.

 

Neste aspecto, a falta de rigor teórico-metodológico combinado com uma interpretação injusta do Lênin  (confundindo talvez o autor e os leninismos) fizeram com que em 1986 Tragtenberg fizesse a seguinte intervenção:

 

“A concepção leninista do partido enquanto minoria organizada que deva dirigir uma maioria informe, o proletariado, leva o trabalhador a regredir em seu nível de consciência social e política. O trabalhador é deseducado pelo oportunismo do partido, pelo seu desprezo às ideias, e submetido a um processo que o torna capaz de uma ação autônoma e coletiva. A classe operária perde a confiança na sua própria capacidade de luta, organização e compreensão do processo social, transferindo-a ao partido”.

 

Apenas nesta parágrafo, encontramos diversos problemas de interpretação que, recordando-nos do vasto repertório cultural de Targtenberg, faz-nos crer ser esta uma crítica injusta. O autor confude leninismo com blanquismo, como se o primeiro fosse uma corrente substitucionista em que o partido atuasse como sujeito revolucionário em detrimento da classe. Ocorre que em Lênin reiteradamente há a advertência de que o partido ravolucionário deve sim ser a direção de um processo de mobilização de caráter revolucionário sem contudo abrir mão de uma ligação orgânica com os trabalhadores e as massas. Não é verdade que a concepção leninista de partido leve o operário à regredir seu nível de consciência. Até por que o que faz aumentar o nível de consciência dos trabalhadores é a luta e a formação política, dois elementos que não são incompatíveis mais essenciais na vida do partido político. Ademais, Tragtenberg parece esquecer de que o senso comum e as formas serializadas da consciência operária nos momentos de refluxo não raro encaminham os trabalhadores a reproduzir acriticamente as ideias, valores e interesses da classe dominante por meio dos esquemas de reprodução da ideologia: romper com o senso comum para avançar a consciência de classe também é uma tarefa do partido revolucionário e tal problema não será resolvido por métodos “espontâneos” e muito menos artesanais.

 

Finalmente, não é verdade que a existência do partido revolucionário faça com que a classe operária perca a confiança em si própria. Mais uma vez, vale o questionamente: o que leva a classe operária a ser confiante e lutar sem medo contra a classe exploradora? A convicção da possibilidade da vitória bem como as vitórias pontuais que provam na prática a validade da organização para arrancar direitos das classes dominantes. O partido é um instrumento da luta de classes e foi decisivo para a vitória de diversos movimentos revolucionários que verdadeiramente aumentaram a confiança dos trabalhadores, desde os bolcheviques até o movimento 26 de Julho em Cuba.

 

É óbvio que ao longo do séc. XX foi possível observar toda sorte de degeneração ou deformação de organizações que diziam ser porta-vozes dos interesses do trabalhadores. A tragédia ou farsa do Partido dos Trabalhadores no Brasil é o exemplo mais próximo de nós. Entretanto, Tragtenberg é incapaz de oferecer qualquer alternativa segura de organização que garante o maior acúmulo de forças para uma luta frontal contra a burguesia: para que como um punho unificado o proletariado consiga unificar toda a energia revolucionária para compear e derrotar a burguesia. Resvalando no webberianismo e seu conceito de “tipo-ideal”, Tragtenberg apenas aponta alguns elementos abstratos que em si nada garantem a não burocratização: “solidariedade”, “auto-gestão”, “horizontalidade” etc. No plano abastrato todos estes valores são não só legítimos como necessários, porém não são capazes de responder de forma eficaz o problema de como organizar a classe para derrotar o capital.

 

Portanto, ainda que se possa extrair elementos de sua crítica à burocracia para se pensar criticamente o partido e as formas de organização dos trabalhadores, ao afastar como princípio o método da organização partidária de Lênin, Tragtenberg desconstrói uma das tarefas mais preementes dos comunistas no mundo contemporâneo: a construção do partido revolucionário.         

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