domingo, 27 de outubro de 2013

“As Ironias da História” – Isaac Deutscher

Resenha livro #80 “As Ironias da História – Ensaios sobre o Comunismo Contemporâneo” – Isaac Deutscher – Ed. Civilização Brasileira



O leitor brasileiro pode ter tido notícia da existência deste importante historiador polonês através de sua notória biografia de L. Trótsky, publicada em três volumes: o Profeta Armado, o Profeta Desarmado e o Profeta Banido. Escreveu também uma biografia de Stálin e, como jornalista, publicou diversos ensaios, sobre história, política internacional e também crítica literária.

“Ironias da História” reúne diversos ensaios publicados pelo autor entre os anos de 1950 a 1960. Como não poderia deixar de ser, sendo um grande especialista em Revolução Russa, boa parte dos ensaios de Deutscher versa sobre os dilemas e impasses da revolução, especificamente nos anos que vão do stalinismo até o processo contraditório e ambíguo da desestalinização. Este fato não teve repercussão apenas na Rússia, mas em todo o mundo.

Lança mão, nesse sentido, de uma reflexão acerca dos sentidos da destalinização na Rússia e na China: na primeira, o fenômeno expressa um certo esgotamento do regime fortemente centralizado que desenvolveu intensamente a industrialização, além da instrução de grandes contingentes de cidadãos, que, cada vez mais, olhavam com desconfiança para a burocracia partidária no poder. A desestalinização na China assume outras características, especialmente pelo fato dos chineses ainda se encontrarem num estágio eminentemente pré-capitalista em sua economia. Assim, certamente houve maior resistência dentre os chineses em recepcionar as denúncias de Nikita Kruschev dos expurgos e mortes, além do culto à personalidade de Stálin. Ainda precisavam da mística do líder para efetuar a sua respectiva modernização. Tanto o é que, inicialmente, os chineses ainda se apegam à figura de Stálin, mesmo após o XX Congresso. Os comunistas russos passam a ser observada pelos chineses como revisionistas, especialmente em função de outros desdobramentos do fim da era stalinista, como a teoria da co-existência pacífica – teoria encarada pela ortodoxia de Pequim como uma traição ao internacionalismo.

Uma pequena ironia da história, aqui, é que Stálin, ele próprio, conspirou intensamente contra a revolução socialista na China, exigindo que seus partidários chineses se centralizassem por Chiang Kai-shek, líder nacionalista burguês do Kuomitang. Mao Tsé Tung já observara e provou na prática o erro da concepção “etapista” de Stálin segundo o qual um país essencialmente agrária e atrasado como a China deveria primeiro passar pela etapa da revolução burguesa-democrática, com os comunistas apoiando e se submetendo à direção da burguesia. Em 1949, Mao Tsé Tung e seus companheiros provaram a força da tática da revolução permanente, levando a China ao socialismo, muito provavelmente a contra-gosto de Stálin.

Afinal, alerta Deutscher, tanto a teoria da “co-existência pacífica” quanto a teoria do “socialismo num só país” reflete a mudança da perspectiva internacionalista da fase leninista da revolução para a posterior política chamada pelo historiador de “grão-nacionalismo” e que buscava muito mais atuar por meio do pragmatismo e da realpolitik no campo das relações exteriores, do que exercer movimentos mais ousados, especialmente no contexto da Guerra Fria e da possibilidade iminente de um confronto entre as duas potências.

Algumas palavras merecem ser mencionadas sobre a era Nikita Kruschev, observada como momento de conjuntura para Deutscher e personagem a quem mais faz referência no conjunto de seus ensaios. Isto não se dá certamente pelas qualidades intelectuais e militantes de Kruschev. Este estava longe de ser o comunista independente e autônomo que voluntariamente partiu para o projeto da desestalinização, conforme certa propaganda feita no ocidente. Na verdade, acabar com o stalinismo foi algo feito a  contra-gosto por Kruschev e seus companheiros, já que todos eles, até por estarem nos cargos em que estavam, estiveram durante todos os anos stalinistas servindo Stálin subservientemente.

Stálin foi particularmente feroz com os seus adversários ou mesmo com lideranças que despertavam a desconfiança do georgiano. Os anos de 1936-38 foram os mais expressivos quanto aos expurgos, sendo certo que Stálin tinha como meta (e o alcançou) fazer do partido um monólito, sob sua direção suprema. Para isso, o marxismo transformou-se em dogma, qualquer oposição de pensamento a linha oficial era caçada e foi feito o culto ao líder. A desestalinização foi um fenômeno feito de cima para baixo antes que pudesse ser feito de baixo para cima, e certamente as movimentações na Hungria viriam a sinalizar o potencial explosivo que estava por baixo do fim do stalinismo.

Há um ensaio específico destinado a retratar a figura de Kruschev. Era um homem de origem muito simples e que certamente não perdera em seus modos e trejeitos os aspectos de um camponês típico. Não tinha maiores qualidades intelectuais e o seu discurso do XX Congresso que o colocou num lugar de destaque pode enganosamente engrandecer o seu significado. É preciso enfatizar, diz Deutscher, que a desestalinização é feita de forma, como diríamos,  “lenta, gradual e segura”, especialmente por ser levada a cabo por ex-stalinistas que certamente tinham também responsabilidades pelos crimes de Stálin. Especialmente por isso, seria necessário dirigir o processo sob sua direção. Entretanto, dizer que o movimento dos dirigentes era expediente oportunista é negligenciar justamente a importância histórica e o impacto da desestalinização.

Para concluir, destacamos a quarta parte do livro, “Ensaios Históricos e Literários”, correspondente a alguns textos de crítica de arte feitos pelo historiador. A leitura destes ensaios, bem como de todo o livro, aliás, revelam um historiador com um vasto repertório cultural e de informações, principalmente sobre a história, sociedade e cultura da Rússia. Os dados nos são oferecidas dentro de quadros de interpretação que têm como ponto de apoio o marxismo, ainda que os textos deste livro em particular, por se tratar de análises de conjuntura, ter maior relevo o tom jornalístico, com mais exposição e menos teorização dos fatos. Mas é certo que Deutscher teve responsabilidades como intelectual e as assume ainda mais quando reivindica em claras letras o marxismo, restando saber em que medida eventuais preferências políticas do autor, por exemplo, não subestime a importância de um Stálin e não sobretime a importância de um Trótsky.

 

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