Palestra #3 – Alex Callinicos
Esta palestra foi proferida durante a edição de 2009 do “Marxism Festival”. Este evento reúne intelectuais e ativistas de todo o mundo para dialogar e debater as pautas mais importantes da agenda da esquerda anticapitalista, socialista e revolucionária. Esta palestra teve como tema “O Que Significa Ser Um Revolucionário Hoje”. A mesa é composta por Callinicos e o famoso filósofo esloveno Slavoj Zizec.
Alex Callinicos é dirigente do Socialist Workers Party (SWP), principal partido anticapitalista da Inglaterra.
Seguem alguns destaques da intervenção de Callinicos. O objetivo desta resenha é contribuir com aqueles que não dominam a língua inglesa e desejem conhecer as teses de Callinicos. Outrossim, não se trata de uma tradução do debete, mas de alguns destaques pessoais que podem eventualmente ser objeto de debates e controvérsias quanto à tradução e/ou interpretação do que é dito.
O link do debate é: http://www.youtube.com/watch?v=qDJEwfTOGcI
1- Pensar sobre o que significa ser um revolucionário hoje deve partir da análise do capitalismo hoje, destacando em particular o fato de o capitalismo passar por sua maior crise desde 1929. (O vídeo data de dois de Julho de 2009. A crise em questão é aquela iniciada no ano de 2008).
2- A natureza desta crise é uma combinação da super- acumulação e financeirização da economia. É uma crise que tem a ver com a própria natureza do capitalismo. O que a torna particularmente perigosa é o fato de que aqueles que lidam com a crise diretamente (economistas, jornalistas econômicos e políticos burgueses) não apresentarem saídas fora do espectro do capitalismo, estimulando a criação de novas bolhas especulativas e retro- alimentando a própria crise. Por ser uma crise do tipo de super- acumulação, o incremento da financeirização da economia não resolve, mas agrava o problema.
3- Enquanto isso, os economistas marxistas já vinham destacando as contradições da lógica da super acumulação e os riscos de uma crise de grandes proporções no capitalismo a partir de sua própria lógica interna de funcionamento. Estes pensadores marxistas podem ser reivindicados, pois suas previsões se mostraram empiricamente corretas.
4- Esta “satisfação” dos marxistas por terem acertado o prognóstico da crise com anos de antecedência não pode ser superdimensionada. O paradoxo da situação é que, apesar da crise ser hoje uma realidade, os movimentos anti- capitalistas em todo o mundo encontram-se fracos e desorganizados. Existe um enorme vácuo entre as análises marxistas da economia e nossa capacidade de operar em termos práticos, apresentar alternativas políticas e organizativas à crise capitalista.
5- Slavoj Zizec é uma importante fonte para aqueles que estão em busca de saídas políticas. Em particular, Callinicos destaca sua contribuição acerca de Lênin, organizando uma conferência sobre o revolucionário russo, além da publicação de um livro acerca de Lênin. (Publicado no Brasil pela Boitempo - "Lênin - Às Portas da Revolução").
6- Marx na obra "Ideologia Alemã" diz ser o comunismo não uma mera ideia, mas o movimento real em direção à abolição do sistema vigente. Esta ideia é hoje bastante atual: é necessário pensar menos o comunismo teoricamente e mais como um movimento político real.
7- Gramsci vivencia um período histórico parecido com o nosso e pode ser uma importante fonte para os marxistas de hoje. Ele analisa a partir da prisão o capitalismo passando por sua 1ª Grande Crise (Crise que se inicia em 1929). Assim, seus cadernos do cárcere apontam temas como a economia global e as bases para uma intervenção política dos marxistas frente à uma situação de crise.
8- Uma análise marxista sobre a crise econômica passa por observar as oportunidades criadas, os espaços criados pela crise para agitar e intervir politicamente, tirando proveito das "brechas" abertas pelos momentos de crise. Esta lição de Gramsci pode ser aproveitada para o momento presente.
9- O marxismo é uma teoria que aborda as contradições, os conflitos são parte essencial da filosofia da práxis (forma como Gramsci chama o marxismo), tornando atual o projeto revolucionário, que não é a simples e pacífica tomada de poder pelas classes subalternas, mas a expressão de um movimento ele-próprio eivado de contradições.
10- O marxismo não é apenas um meio de apontar as contradições da ideologia dominante, mas um meio de criticar as próprias ilusões criadas por dentro dos movimentos populares e dos trabalhadores. É por meio do marxismo, por exemplo, que se pode estabelecer a crítica radical que interprete, por exemplo, a adesão de parcelas importantes do proletariado e do povo alemão e italiano ao nazi-fascismo.
11- A esquerda pode iludir-se e isso costuma ocorrer com maior frequência nos momentos de refluxo. A criação de ilusões não só pelas classes dominante mas pelas classes populares devem ser objeto da crítica marxista.
12- A filosofia da práxis em Gramsci igualmente diz ser o momento em que as classes populares aprendam a arte e governar.Não no sentido da "pequena política" parlamentar, mas no sentido da "grande política" (Gramsci), considerando o poder político para além da mera lógica parlamentar. Neste ponto, Callinicos busca se diferenciar de autores (como Tony Negri) que afirmam “mudar o mundo sem a tomada do poder”. Até por ser dirigente de um partido político, Callinicos não poderia concordar com esta tese.
13- Ainda que o centro determinante do capitalismo seja as relações de produção (portanto, o centro do capitalismo é sua esfera econômica), as contradições econômicas encontram-se condensadas nos aparelhos políticos, no Estado. Assim, os socialistas devem direcionar suas forças contra o estado e não simplesmente ignorar a questão do poder político.
14- A necessidade da luta a longo prazo pelo poder é parte do que "é ser um revolucionário hoje". A organização política também se torna importante, apesar da atual desconfiança com relação aos partidos políticos. Um dos desafios dos revolucionários de hoje é reivindicar a organização partidária, levando-se em consideração a tarefa de organizar para contra-atacar as forças dominantes, organizar para desenvolver consciência política dos trabalhadores e do povo, organizar para a tomada do poder político e educar politicamente as classes dominadas, etc.
15- A experiência do NPA (Novo Partido Anti-capitalista) na França revela a tentativa tanto de manter a ideia da necessidade de se construir partidos revolucionários, quanto da tentativa de fazê-lo sob uma “nova forma” (daí a expressão “novo partido"). Esta nova forma a ser criada é um dos desafios dos revolucionários de hoje.
16- Lukács diz que o intermediário necessário entre teoria e prática políticas é promovida pela organização política. E a organização política dá-se por meio do partido político em Callinicos.
domingo, 22 de abril de 2012
terça-feira, 17 de abril de 2012
Gilmar Mauro - Vídeo Palestra - Poder Popular e Organização dos Trabalhadores
Vídeo Palestra #2 - O poder popular e a organização dos trabalhadores - Gilmar Mauro.
http://www.youtube.com/watch?v=0TDwsfhPuiY

Gilmar Mauro é dirigente do MST-SP e, neste vídeo, tem como interlocutor Valério Arcary (Dirigente do PSTU). O tema da palestra é poder popular e instrumentos de luta no Brasil e no mundo. Seguem alguns destaques da intervenção de Gilmar Mauro.
- Não se deve separar luta econômica da luta política sob o risco de se separar o sujeito da luta econômica do sujeito da luta política. Esta separação se traduz na ideia do movimento social fazer exclusivamente luta social e o partido político fazer luta política. Sujeito aqui pode ser entendido não só como indivíduo, mas como sujeitos coletivos.
- A luta pela reforma agrária inicia-se como uma luta econômica pontual que se traduzirá em uma luta política. Daí a vedação desta oposição entre o econômico e o político.
- Entretanto, o movimento social é incapaz de universalizar as lutas pela sua própria natureza reivindicatória pontual. (O MST - tal qual o partido bolchevique - seria capaz de ser a vanguarda de uma revolução socialista no Brasil? Parece-me que não).
- Mas Gilmar chama atenção se não seria o caso de fazer a mesma problematização com os sindicatos. Também não estão os mesmos presos numa lógica economicisita?
- Distanciamento das direções e suas bases e lógica economicista levaram a burocratização de sindicatos e partidos políticos.
- Para Gilmar, tal contradição não é apenas um problema de direção. Caso o fosse, apenas o Brasil estaria em crise. Toda a esquerda mundial encontra-se num impasse histórico. Lembrar as passagens de Mészaros em que ele aponta as ilusões parlamentares e a tática de luta por meio do estado (desconsiderando a penetração do capital nos aparelhos de estado) como parte do impasse histórico mundial da esquerda, para além de "traições pessoais" da social-democracia no poder.
- PT cumpriu um papel de articulação de diversas lutas. Hoje não é mais um partido relacionado à revolução. Em parte o erro da esquerda foi criar ilusão em torno do PT e do PT no poder. Ainda assim, foi uma experiência histórica importante no país.
- Estamos numa conjuntura em que é possível fazer atividades massivas. Por isso é necessária uma nova cultura política que agregue mais pessoas, evitando sectarismo. Isto é necessário pois é possível que venha uma conjuntura em que reuniões massivas sejam inviáveis – como na época da ditadura militar, quando pequenos grupos de vanguarda se mobilizavam no sentido de solicitar a adesão popular, sem sucesso. Esta política não é possível desde que nenhuma revolução se sustenta sem apoio do movimento de massas.
- Regatar todas as experiências históricas das lutas socialistas, mas sem deixar de pensar na construção de novos instrumentos. Instrumentos são meios, não fins. Como a enxada hoje é obsoleta, hoje pode ser necessários novos instrumentos como o trator. Para isso, é necessário um balanço histórico e novas experiências políticas afim de construir novas ferramentas de luta.
http://www.youtube.com/watch?v=0TDwsfhPuiY

Gilmar Mauro é dirigente do MST-SP e, neste vídeo, tem como interlocutor Valério Arcary (Dirigente do PSTU). O tema da palestra é poder popular e instrumentos de luta no Brasil e no mundo. Seguem alguns destaques da intervenção de Gilmar Mauro.
- Não se deve separar luta econômica da luta política sob o risco de se separar o sujeito da luta econômica do sujeito da luta política. Esta separação se traduz na ideia do movimento social fazer exclusivamente luta social e o partido político fazer luta política. Sujeito aqui pode ser entendido não só como indivíduo, mas como sujeitos coletivos.
- A luta pela reforma agrária inicia-se como uma luta econômica pontual que se traduzirá em uma luta política. Daí a vedação desta oposição entre o econômico e o político.
- Entretanto, o movimento social é incapaz de universalizar as lutas pela sua própria natureza reivindicatória pontual. (O MST - tal qual o partido bolchevique - seria capaz de ser a vanguarda de uma revolução socialista no Brasil? Parece-me que não).
- Mas Gilmar chama atenção se não seria o caso de fazer a mesma problematização com os sindicatos. Também não estão os mesmos presos numa lógica economicisita?
- Distanciamento das direções e suas bases e lógica economicista levaram a burocratização de sindicatos e partidos políticos.
- Para Gilmar, tal contradição não é apenas um problema de direção. Caso o fosse, apenas o Brasil estaria em crise. Toda a esquerda mundial encontra-se num impasse histórico. Lembrar as passagens de Mészaros em que ele aponta as ilusões parlamentares e a tática de luta por meio do estado (desconsiderando a penetração do capital nos aparelhos de estado) como parte do impasse histórico mundial da esquerda, para além de "traições pessoais" da social-democracia no poder.
- PT cumpriu um papel de articulação de diversas lutas. Hoje não é mais um partido relacionado à revolução. Em parte o erro da esquerda foi criar ilusão em torno do PT e do PT no poder. Ainda assim, foi uma experiência histórica importante no país.
- Estamos numa conjuntura em que é possível fazer atividades massivas. Por isso é necessária uma nova cultura política que agregue mais pessoas, evitando sectarismo. Isto é necessário pois é possível que venha uma conjuntura em que reuniões massivas sejam inviáveis – como na época da ditadura militar, quando pequenos grupos de vanguarda se mobilizavam no sentido de solicitar a adesão popular, sem sucesso. Esta política não é possível desde que nenhuma revolução se sustenta sem apoio do movimento de massas.
- Regatar todas as experiências históricas das lutas socialistas, mas sem deixar de pensar na construção de novos instrumentos. Instrumentos são meios, não fins. Como a enxada hoje é obsoleta, hoje pode ser necessários novos instrumentos como o trator. Para isso, é necessário um balanço histórico e novas experiências políticas afim de construir novas ferramentas de luta.
domingo, 15 de abril de 2012
Marxismo e Direito - Márcio B. Neves
Resenha livro #43 – “Marxismo e Direito” – Márcio B. Neves

O livro de Márcio Neves tem como objetivo resgatar as ideias forças do pensador soviético Pachukanis, centralmente a partir da obra “Teoria Geral do Direito e Marxismo”. A contribuição do autor russo é relativizada desde que, ao longo de sua vida, Pachukanis fez retificações de suas teses conforme os desdobramentos históricos da União Soviética – reavaliou o papel do estado e do direito conforme as exigências da conjuntura.
Assim, na principal obra do autor russo (que data dos anos 1920), verifica-se maior radicalidade política a partir da constatação da impossibilidade de um “direito socialista”, mas da perspectiva da abolição do direito conjugada com a abolição das classes sociais. O direito é equiparado à noção de mercadoria de Marx, devendo, junto com o estado, serem abolidos.
Já a partir do stalinismo verifica-se um movimento inverso. Há a autocrítica das teses levantadas em “Teoria Geral do Direito de Marxismo” e o reconhecimento do estado e do direito como fontes de um “direito socialista” ou “direito operário”, além de maior destaque ao normativismo em suas teses. (Normativismo signfica maior centralidade da forma jurídica, das leis e normas, em detrimento de aspectos sociológicos e a crítica ideológica do direito de uma forma geral).
Interessante pensar como e porquê concide o resgate do "positivismo" jurídico de coloração socialista e a edificação de uma burocracia que centralizava o poder do estado, corroborando para a conformação, na URSS, de um novo e particular capitalismo de estado. Mais uma vez, o direito pareceu ser rendido pelas exigências do poder político, no caso, a consolidação do stalinismo, da burocracia que perpetua a exploração capitalista, mudando as relações de propriedade sem as respectivas mudanças nas relações de produção. O resgate do "positivismo jurídico" e do direito com coloração "socialista" - perdendo de vista a perspectiva da extinção do direito - cumpre papeis políticos bastante perceptíveis para quem acompanha a evolução do socialismo na URSS ao longo do séc. XX.
Transição
“O direito burguês puro só pode ser destruído pela revolução proletária, em virtude da existência do estado burguês. O direito soviético seria um direito correspondente a um estágio ainda inferior ao direito burguês sem burguesia, mas igualmente seria dele distinto. É justamente esse direito burguês não genuíno, o direito que se extingue no período de transição”.
Há aqui uma boa síntese de como o autor russo via, em sua fase jovem e mais radical, o papel e a conformação do direito no momento de transição. Ele parte aqui de referência à Marx que na Crítica ao Programa de Gotha também fala de reminiscências do direito burguês na fase de transição a serem, por suposto, eliminadas no socialismo. O abolicionismo jurídico em Pachukanis é explícito, particularmente na passagem que serve de prefácio da obra:
“O Problema da extinção do direito é a pedra de toque pela qual nós medimos o grau de proximidade de um jurista do marxismo e do leninismo”.
É importante destacar que a passagem de orientação do autor, do abolicionismo e da crítica radical às teses próximas do stalinismo foi interpretada de várias formas pelos leitores de Pachukanis. Marcelo Neves parece ser mais condescendente com Pachukanis: entende haver na auto-crítica do autor russo elementos de coerção frente aos desdobramentos políticos da URRS e do Stalinismo, para além de uma real revisão das posições políticas.
Seja como for, o livro, como introdução a obra de um dos mais destacados autores do marxismo jurídico mundial, é fundamental para aqueles preocupados em pensar o que será do direito numa sociedade pós-capitalista e socialista. Sua leitura não é fácil, mesmo para estudantes de direito, porém, necessária e atual.

O livro de Márcio Neves tem como objetivo resgatar as ideias forças do pensador soviético Pachukanis, centralmente a partir da obra “Teoria Geral do Direito e Marxismo”. A contribuição do autor russo é relativizada desde que, ao longo de sua vida, Pachukanis fez retificações de suas teses conforme os desdobramentos históricos da União Soviética – reavaliou o papel do estado e do direito conforme as exigências da conjuntura.
Assim, na principal obra do autor russo (que data dos anos 1920), verifica-se maior radicalidade política a partir da constatação da impossibilidade de um “direito socialista”, mas da perspectiva da abolição do direito conjugada com a abolição das classes sociais. O direito é equiparado à noção de mercadoria de Marx, devendo, junto com o estado, serem abolidos.
Já a partir do stalinismo verifica-se um movimento inverso. Há a autocrítica das teses levantadas em “Teoria Geral do Direito de Marxismo” e o reconhecimento do estado e do direito como fontes de um “direito socialista” ou “direito operário”, além de maior destaque ao normativismo em suas teses. (Normativismo signfica maior centralidade da forma jurídica, das leis e normas, em detrimento de aspectos sociológicos e a crítica ideológica do direito de uma forma geral).
Interessante pensar como e porquê concide o resgate do "positivismo" jurídico de coloração socialista e a edificação de uma burocracia que centralizava o poder do estado, corroborando para a conformação, na URSS, de um novo e particular capitalismo de estado. Mais uma vez, o direito pareceu ser rendido pelas exigências do poder político, no caso, a consolidação do stalinismo, da burocracia que perpetua a exploração capitalista, mudando as relações de propriedade sem as respectivas mudanças nas relações de produção. O resgate do "positivismo jurídico" e do direito com coloração "socialista" - perdendo de vista a perspectiva da extinção do direito - cumpre papeis políticos bastante perceptíveis para quem acompanha a evolução do socialismo na URSS ao longo do séc. XX.
Transição
“O direito burguês puro só pode ser destruído pela revolução proletária, em virtude da existência do estado burguês. O direito soviético seria um direito correspondente a um estágio ainda inferior ao direito burguês sem burguesia, mas igualmente seria dele distinto. É justamente esse direito burguês não genuíno, o direito que se extingue no período de transição”.
Há aqui uma boa síntese de como o autor russo via, em sua fase jovem e mais radical, o papel e a conformação do direito no momento de transição. Ele parte aqui de referência à Marx que na Crítica ao Programa de Gotha também fala de reminiscências do direito burguês na fase de transição a serem, por suposto, eliminadas no socialismo. O abolicionismo jurídico em Pachukanis é explícito, particularmente na passagem que serve de prefácio da obra:
“O Problema da extinção do direito é a pedra de toque pela qual nós medimos o grau de proximidade de um jurista do marxismo e do leninismo”.
É importante destacar que a passagem de orientação do autor, do abolicionismo e da crítica radical às teses próximas do stalinismo foi interpretada de várias formas pelos leitores de Pachukanis. Marcelo Neves parece ser mais condescendente com Pachukanis: entende haver na auto-crítica do autor russo elementos de coerção frente aos desdobramentos políticos da URRS e do Stalinismo, para além de uma real revisão das posições políticas.
Seja como for, o livro, como introdução a obra de um dos mais destacados autores do marxismo jurídico mundial, é fundamental para aqueles preocupados em pensar o que será do direito numa sociedade pós-capitalista e socialista. Sua leitura não é fácil, mesmo para estudantes de direito, porém, necessária e atual.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Slavoj Zizec - Vídeo Palestra - Destaques
Resenha Palestra #1 - http://www.youtube.com/watch?v=_GD69Cc20rw
Trata-se de debate realizado no encontro “Marxism 2009” organizado pelo SWP (Socialist Workers Party) da Inglaterra. A mesa da qual Zizec participou teve como tema “O que significa ser um revolucionário hoje”. Seu interlocutor é Alex Callinicus, dirigente do SWP e do IST – International Socialist Tendency.
O objetivo deste texto é resgatar e destacar alguns tópicos da intervenção de Zizec. É bastante válido (para aqueles que falam Inglês) assistir ao vídeo antes de ler e discutir os destaques. Para quem não consegue entender inglês, estes destaques podem contribuir traduzindo algumas ideias do pensador esloveno.
12 destaques de ideias de Slavoj Zizec

1- A partir de Adorno, Zizec lembra que, quando estamos abordando filósofos verdadeiramente significativos, a pergunta que devemos fazer não é: o que o “grande filósofo” tem a contribuir para a análise dos dias presentes, mas o contrário: como o tempo presente apareceria aos olhos deste “grande filósofo”? E é a partir deste ponto de partida que Zizec propõe pensarmos o comunismo no século XXI: como a situação atual pode ser percebida a partir das ideias e das noções estabelecidas pelo comunismo?
2- A dialética do velho e do novo torna necessária a atualização da ideia do comunismo, fazendo contraponto àqueles que, a cada momento, inventam novos termos: sociedades de risco, sociedades pós- industriais, etc. Segundo Zizec, são estes autores, que estão a cada momento inventando novos conceitos para explicar a realidade, incapazes de perceber aquela dialética entre o velho e o novo, e consequentemente enxergar o que há de novo na época contemporânea.
3- O comunismo é uma ideia eterna não no sentido de ser aplicável mecanicamente a cada momento histórico, mas pelo fato do comunismo poder ser “reinventado” em cada situação da história – a noção de ideia universal e eterna do comunismo remete a Hegel e sua noção de universalidade. A universalidade do comunismo estaria em sua adaptabilidade a cada momento.
4- As lutas que surgem desde Esparta, passando pela idade média e modernidade remeteriam à capacidade do comunismo reinventar-se a cada conjuntura. Para mantermos o comunismo como uma ideia eterna, hoje, ele necessita manter suas ideias forças e, ao mesmo tempo, ser reinventando – dentre outras coisas Zizec chamará atenção para uma nova noção do conceito de proletariado ou “proletarização”.
5- Deve-se criticar algumas noções do socialismo do séc. XX – socialismo estatal, ilusões parlamentares da social democracia e mesmo a noção de conselhos e democracia direta. Tais noções devem ser reavaliadas criticamente, segundo Zizec, sempre considerando a exigência de “reinventar” o comunismo.
6- Ser um revolucionário hoje tem como marco inegociável entender as contradições sociais do mundo a partir do capitalismo – ou seja, a natureza das opressões de gênero, o racismo, a devastação do meio ambiente, etc., não podem ser entendidas como desvios reparáveis do capitalismo, problemas tecnológicos, políticas autoritárias ou não eficazes, mas como sintomas diretos do capitalismo em sua totalidade. Nesse sentido, ser um revolucionário para Zizec é ser um anti-capitalista.
7- Não é possível reformar o capitalismo de forma a garantir saúde e educação universais, tratamento humanitário aos imigrantes, pleno emprego, etc. As contradições do capitalismo não são desvios, erros a serem acertados por meio de reformas, mas realidades estruturalmente necessárias para a própria existência e perpetuação do capitalismo. Daí ser um marco central, para os revolucionários de hoje, lutar contra o capitalismo em sua totalidade. Não é possível atingir o sonho da universalidade capitalista sem os seus sintomas (Zizec aqui faz crítica direta a tese do pensador “relativamente progressista” norte-americano John D. Caputo).
8- É utópico o pensamento de John Caputo igualmente por estarmos nos aproximando de uma conjuntura revolucionária. Zizec chama atenção para um fato interessante: nas conjunturas revolucionárias, o pensamento pragmático (“step by step”) acaba se tornando o pensamento utópico. É utópico, numa conjuntura revolucionária, analisar e “resolver” de forma isolada e particular cada uma das diversas contradições que emergem nestas conjunturas. É a percepção totalizante e revolucionária a verdadeira percepção pragmática nos momentos de crise.
9- Os revolucionários devem participar das lutas pontuais contra o racismo, o machismo e a destruição do meio ambiente, contanto que não alimentem a ilusão de ser possível resolver tais problemas sem um confronto direto contra o capitalismo, sem uma mediação entre as lutas pontuais e uma luta geral de emancipação humana. Devemos inclusive denunciar a cumplicidade daqueles que lutam isoladamente contra as opressões, pelo meio ambiente, etc. – o capitalismo, mais uma vez, é uma totalidade, de maneira que as lutas dos “liberais” (no sentido de “progressistas”) pode significar um esforço de atenuar os sintomas da doença capitalista, contribuindo, outrossim, para a sua própria perpetuação.
10- Há o exemplo do Afeganistão. Houve um incremento do “fundamentalismo cultural” naquele país, não em função da religião ou cultura “naturalmente” opressiva dos muçulmanos. O aumento do fundamentalismo foi determinado centralmente pela inclusão deste país no sistema capitalista global. Zizec lembra de um passado em no Afeganistão havia uma esquerda secular e mais direitos civis. O colapso das organizações de esquerda contribuiu para a “fundamentalização” do Afeganistão. Fenômeno parecido ocorre no Kansas nos EUA: onde há derrotas da esquerda e esta perde espaço, ganha projeção o fundamentalismo ou mesmo o fascismo. (A tese é de Walter Benjamin: o fascismo é o resultado de uma revolução derrotada).
11- Hoje há condições de se radicalizar a noção marxista de proletariado ou de “proletarização”: trabalhadores e seres humanos terem reduzidas a sua substância de vida, sobrevivendo apenas e na medida da possibilidade de reproduzir sua própria prole. A proletarização da vida corresponde a noção hegeliana de “redução da subjetividade sem substância”. (Trata-se de uma tradução da passagem 13:00 do vídeo. Necessário verificar uma tradução melhor para o que Zizec entende por proletarização e sua definição hegeliana).
12- É necessário radicalizar a noção de proletarização a um nível existencial, para além do que Marx imaginou quando falou em proletariado. A crise ecológica nesse sentido significa fazer como que o homem seja impedido de ter acesso aos bens naturais mais elementares, ou a noção de propriedade intelectual que também retira do homem sua “substância simbólica”. Zizec fala portanto a radicalizar a noção de proletarização a um nível “apocalíptico”, desde que Marx não poderia ter sido capaz de prever tais eventos (propriedade intelectual, catástrofes ambientais, mapeamento e controle genético dos homens, etc.). Para Zizec, o reinventar do comunismo pode ter como ponto de partida esta nova dimensão do proletariado.
Trata-se de debate realizado no encontro “Marxism 2009” organizado pelo SWP (Socialist Workers Party) da Inglaterra. A mesa da qual Zizec participou teve como tema “O que significa ser um revolucionário hoje”. Seu interlocutor é Alex Callinicus, dirigente do SWP e do IST – International Socialist Tendency.
O objetivo deste texto é resgatar e destacar alguns tópicos da intervenção de Zizec. É bastante válido (para aqueles que falam Inglês) assistir ao vídeo antes de ler e discutir os destaques. Para quem não consegue entender inglês, estes destaques podem contribuir traduzindo algumas ideias do pensador esloveno.
12 destaques de ideias de Slavoj Zizec

1- A partir de Adorno, Zizec lembra que, quando estamos abordando filósofos verdadeiramente significativos, a pergunta que devemos fazer não é: o que o “grande filósofo” tem a contribuir para a análise dos dias presentes, mas o contrário: como o tempo presente apareceria aos olhos deste “grande filósofo”? E é a partir deste ponto de partida que Zizec propõe pensarmos o comunismo no século XXI: como a situação atual pode ser percebida a partir das ideias e das noções estabelecidas pelo comunismo?
2- A dialética do velho e do novo torna necessária a atualização da ideia do comunismo, fazendo contraponto àqueles que, a cada momento, inventam novos termos: sociedades de risco, sociedades pós- industriais, etc. Segundo Zizec, são estes autores, que estão a cada momento inventando novos conceitos para explicar a realidade, incapazes de perceber aquela dialética entre o velho e o novo, e consequentemente enxergar o que há de novo na época contemporânea.
3- O comunismo é uma ideia eterna não no sentido de ser aplicável mecanicamente a cada momento histórico, mas pelo fato do comunismo poder ser “reinventado” em cada situação da história – a noção de ideia universal e eterna do comunismo remete a Hegel e sua noção de universalidade. A universalidade do comunismo estaria em sua adaptabilidade a cada momento.
4- As lutas que surgem desde Esparta, passando pela idade média e modernidade remeteriam à capacidade do comunismo reinventar-se a cada conjuntura. Para mantermos o comunismo como uma ideia eterna, hoje, ele necessita manter suas ideias forças e, ao mesmo tempo, ser reinventando – dentre outras coisas Zizec chamará atenção para uma nova noção do conceito de proletariado ou “proletarização”.
5- Deve-se criticar algumas noções do socialismo do séc. XX – socialismo estatal, ilusões parlamentares da social democracia e mesmo a noção de conselhos e democracia direta. Tais noções devem ser reavaliadas criticamente, segundo Zizec, sempre considerando a exigência de “reinventar” o comunismo.
6- Ser um revolucionário hoje tem como marco inegociável entender as contradições sociais do mundo a partir do capitalismo – ou seja, a natureza das opressões de gênero, o racismo, a devastação do meio ambiente, etc., não podem ser entendidas como desvios reparáveis do capitalismo, problemas tecnológicos, políticas autoritárias ou não eficazes, mas como sintomas diretos do capitalismo em sua totalidade. Nesse sentido, ser um revolucionário para Zizec é ser um anti-capitalista.
7- Não é possível reformar o capitalismo de forma a garantir saúde e educação universais, tratamento humanitário aos imigrantes, pleno emprego, etc. As contradições do capitalismo não são desvios, erros a serem acertados por meio de reformas, mas realidades estruturalmente necessárias para a própria existência e perpetuação do capitalismo. Daí ser um marco central, para os revolucionários de hoje, lutar contra o capitalismo em sua totalidade. Não é possível atingir o sonho da universalidade capitalista sem os seus sintomas (Zizec aqui faz crítica direta a tese do pensador “relativamente progressista” norte-americano John D. Caputo).
8- É utópico o pensamento de John Caputo igualmente por estarmos nos aproximando de uma conjuntura revolucionária. Zizec chama atenção para um fato interessante: nas conjunturas revolucionárias, o pensamento pragmático (“step by step”) acaba se tornando o pensamento utópico. É utópico, numa conjuntura revolucionária, analisar e “resolver” de forma isolada e particular cada uma das diversas contradições que emergem nestas conjunturas. É a percepção totalizante e revolucionária a verdadeira percepção pragmática nos momentos de crise.
9- Os revolucionários devem participar das lutas pontuais contra o racismo, o machismo e a destruição do meio ambiente, contanto que não alimentem a ilusão de ser possível resolver tais problemas sem um confronto direto contra o capitalismo, sem uma mediação entre as lutas pontuais e uma luta geral de emancipação humana. Devemos inclusive denunciar a cumplicidade daqueles que lutam isoladamente contra as opressões, pelo meio ambiente, etc. – o capitalismo, mais uma vez, é uma totalidade, de maneira que as lutas dos “liberais” (no sentido de “progressistas”) pode significar um esforço de atenuar os sintomas da doença capitalista, contribuindo, outrossim, para a sua própria perpetuação.
10- Há o exemplo do Afeganistão. Houve um incremento do “fundamentalismo cultural” naquele país, não em função da religião ou cultura “naturalmente” opressiva dos muçulmanos. O aumento do fundamentalismo foi determinado centralmente pela inclusão deste país no sistema capitalista global. Zizec lembra de um passado em no Afeganistão havia uma esquerda secular e mais direitos civis. O colapso das organizações de esquerda contribuiu para a “fundamentalização” do Afeganistão. Fenômeno parecido ocorre no Kansas nos EUA: onde há derrotas da esquerda e esta perde espaço, ganha projeção o fundamentalismo ou mesmo o fascismo. (A tese é de Walter Benjamin: o fascismo é o resultado de uma revolução derrotada).
11- Hoje há condições de se radicalizar a noção marxista de proletariado ou de “proletarização”: trabalhadores e seres humanos terem reduzidas a sua substância de vida, sobrevivendo apenas e na medida da possibilidade de reproduzir sua própria prole. A proletarização da vida corresponde a noção hegeliana de “redução da subjetividade sem substância”. (Trata-se de uma tradução da passagem 13:00 do vídeo. Necessário verificar uma tradução melhor para o que Zizec entende por proletarização e sua definição hegeliana).
12- É necessário radicalizar a noção de proletarização a um nível existencial, para além do que Marx imaginou quando falou em proletariado. A crise ecológica nesse sentido significa fazer como que o homem seja impedido de ter acesso aos bens naturais mais elementares, ou a noção de propriedade intelectual que também retira do homem sua “substância simbólica”. Zizec fala portanto a radicalizar a noção de proletarização a um nível “apocalíptico”, desde que Marx não poderia ter sido capaz de prever tais eventos (propriedade intelectual, catástrofes ambientais, mapeamento e controle genético dos homens, etc.). Para Zizec, o reinventar do comunismo pode ter como ponto de partida esta nova dimensão do proletariado.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
De Rousseau a Gramsci – Carlos Nelson Coutinho
Resenha livro #42 De Rousseau a Gramsci – Carlos Nelson Coutinho

O livro publicado pela editora Boitempo corresponde a uma série de ensaios do filósofo carioca, tendo como fio condutor as distintas noções de democracia, política (teoria política x ciência política) e a questão da revolução do modo de produção. Os temas são enfocados a partir das contribuições dos mais destacados autores de teoria política de um período que vai da consolidação da burguesia como classe dominante até o momento em que se destacam os críticos da sociedade capitalistas: de Rousseau e Hegel a Marx e Gramsci, contando com um capítulo final com alguns destaques do marxista húngaro Lukács.
Autor
Carlos Nelson Coutinho integra um grupo de intelectuais marxistas do Brasil com destacada importância no sentido de repercutir as ideias da filosofia da práxis no país fugindo sempre do dogmatismo e da ortodoxia que marcaram o marxismo oficial de verniz stalinista durante o séc. XX.
Enquanto Leandro Konder aprofunda a noção da dialética e Celso Frederico discute as ideias do Jovem Marx, Carlos Nelson tem contribuição decisiva na introdução e generalização das ideias do filósofo A. Gramsci no Brasil – no ensaio há, aliás, um capítulo bastante interessante dedicado a explicar a forma como os cadernos (um total de 29 cadernos, todos eles escritos na prisão) foram editados na Itália e no Brasil. Descreve algumas polêmicas quanto ao agrupamento dos textos e o fato de Brasil e Argentina terem sido um dos primeiros países a ter acesso aos textos do autor italiano.
Com relação à obra, sua atualidade refere-se em primeiro lugar a reivindicação do estudo da política para além daquilo que Gramsci chama da “pequena política” e o discurso do senso comum (reproduzido mesmo na universidade) que afirma a “ciência política” como um conhecimento “neutro”, baseado em “sistemas” passíveis de serem medidas por meio de análises estatísticas, etc.
Já em Rousseau e a partir deste autor, o autor identifica o esforço de se pensar a política enquanto uma totalidade, evolução que atravessa gradualmente os demais auores: pelo pensamento de Hegel até chegar a Marx, quando, na obra Questão Judaica, este último reivindica, para além da emancipação política, a emancipação humana geral, remetendo à exigência de se pensar os fenômenos sociais como parte de processos históricos globais, inter-relacionados e, mais importantes, com projeções sobre a totalidade das relações sociais. (Aquilo que Gramsci chamará de Grande Política).
Importante destacar: a divisão entre pequena política e grande política tem a ver com os interesses políticos da classe dominante: a pequena política de gabinete que acompanhamos nos jornais e na televisão despolitiza as grandes questões determinantes, sendo a grande política, a decisão acerca dos rumos da economia e da organização da produção e distribuição da riqueza na sociedade sempre discutidas prioritariamente e exclusivamente pelas classes dominantes. Isto, alerta Coutinho, não é uma regra fixa, podendo haver momentos em que há uma inversão de papeis quanto a pequena e grande política, sempre ao sabor dos interesses imediatos das classes dominantes. Às vezes a grande política pode ser discutida pelo conjunto da sociedade, principalmente em momentos de impasse histórico. (Pensar no momento de crise estrutural do capitalismo quando as saídas keynesianas não se mostram suficientes para dar conta das contradições e da própria natureza destrutiva do capitalismo).
Algumas críticas – o Reformismo em Coutinho
Na página 74 do livro, há uma passagem em que Coutinho aponta uma implicação da alteração da tendência do capitalismo de redução da exploração do trabalho por meio da mais valia absoluta e aumento da exploração do trabalho por meio da mais valia relativa (aumento da produtividade). A implicação é uma melhoria relativa da qualidade de vida das classes exploradas. Ainda que persista a exploração do trabalho, há a criação de um novo equilíbrio, havendo a possibilidade de aumento simultâneo tanto dos salários quanto dos lucros dos capitalistas (realidade que estaria mais presente no Estado Social do Séc. XX o qual, por suposto, Marx não presenciou).
Discordamos de Coutinho quando este diz que "[esta nova realidade] forçou o Estado capitalista a se abrir para novos interesses que não o da classe dominante”.
O estado, segundo Marx, é o comitê executivo dos interesses da burguesia, instrumento de dominação da mesma sobre o proletariado e sua natureza de classe não se exaure pelas concessões da burguesia (concessões que são sempre provisórias e aparentes, principalmente quando observamos neste momento os cortes sociais nos estados europeu em crise econômica). O horizonte estratégico dos socialistas é a abolição do aparato-repressivo-ideológico do estado burguês e a extinção do poder político por meio da generalização da socialização e a auto- gestão da produção e da política. Sem este horizonte, caímos na tragédia reformista da social- democracia.
Reforma ou Revolução, a obra de Rosa Luxemburgo continua aqui sendo central e atual.

O livro publicado pela editora Boitempo corresponde a uma série de ensaios do filósofo carioca, tendo como fio condutor as distintas noções de democracia, política (teoria política x ciência política) e a questão da revolução do modo de produção. Os temas são enfocados a partir das contribuições dos mais destacados autores de teoria política de um período que vai da consolidação da burguesia como classe dominante até o momento em que se destacam os críticos da sociedade capitalistas: de Rousseau e Hegel a Marx e Gramsci, contando com um capítulo final com alguns destaques do marxista húngaro Lukács.
Autor
Carlos Nelson Coutinho integra um grupo de intelectuais marxistas do Brasil com destacada importância no sentido de repercutir as ideias da filosofia da práxis no país fugindo sempre do dogmatismo e da ortodoxia que marcaram o marxismo oficial de verniz stalinista durante o séc. XX.
Enquanto Leandro Konder aprofunda a noção da dialética e Celso Frederico discute as ideias do Jovem Marx, Carlos Nelson tem contribuição decisiva na introdução e generalização das ideias do filósofo A. Gramsci no Brasil – no ensaio há, aliás, um capítulo bastante interessante dedicado a explicar a forma como os cadernos (um total de 29 cadernos, todos eles escritos na prisão) foram editados na Itália e no Brasil. Descreve algumas polêmicas quanto ao agrupamento dos textos e o fato de Brasil e Argentina terem sido um dos primeiros países a ter acesso aos textos do autor italiano.
Com relação à obra, sua atualidade refere-se em primeiro lugar a reivindicação do estudo da política para além daquilo que Gramsci chama da “pequena política” e o discurso do senso comum (reproduzido mesmo na universidade) que afirma a “ciência política” como um conhecimento “neutro”, baseado em “sistemas” passíveis de serem medidas por meio de análises estatísticas, etc.
Já em Rousseau e a partir deste autor, o autor identifica o esforço de se pensar a política enquanto uma totalidade, evolução que atravessa gradualmente os demais auores: pelo pensamento de Hegel até chegar a Marx, quando, na obra Questão Judaica, este último reivindica, para além da emancipação política, a emancipação humana geral, remetendo à exigência de se pensar os fenômenos sociais como parte de processos históricos globais, inter-relacionados e, mais importantes, com projeções sobre a totalidade das relações sociais. (Aquilo que Gramsci chamará de Grande Política).
Importante destacar: a divisão entre pequena política e grande política tem a ver com os interesses políticos da classe dominante: a pequena política de gabinete que acompanhamos nos jornais e na televisão despolitiza as grandes questões determinantes, sendo a grande política, a decisão acerca dos rumos da economia e da organização da produção e distribuição da riqueza na sociedade sempre discutidas prioritariamente e exclusivamente pelas classes dominantes. Isto, alerta Coutinho, não é uma regra fixa, podendo haver momentos em que há uma inversão de papeis quanto a pequena e grande política, sempre ao sabor dos interesses imediatos das classes dominantes. Às vezes a grande política pode ser discutida pelo conjunto da sociedade, principalmente em momentos de impasse histórico. (Pensar no momento de crise estrutural do capitalismo quando as saídas keynesianas não se mostram suficientes para dar conta das contradições e da própria natureza destrutiva do capitalismo).
Algumas críticas – o Reformismo em Coutinho
Na página 74 do livro, há uma passagem em que Coutinho aponta uma implicação da alteração da tendência do capitalismo de redução da exploração do trabalho por meio da mais valia absoluta e aumento da exploração do trabalho por meio da mais valia relativa (aumento da produtividade). A implicação é uma melhoria relativa da qualidade de vida das classes exploradas. Ainda que persista a exploração do trabalho, há a criação de um novo equilíbrio, havendo a possibilidade de aumento simultâneo tanto dos salários quanto dos lucros dos capitalistas (realidade que estaria mais presente no Estado Social do Séc. XX o qual, por suposto, Marx não presenciou).
Discordamos de Coutinho quando este diz que "[esta nova realidade] forçou o Estado capitalista a se abrir para novos interesses que não o da classe dominante”.
O estado, segundo Marx, é o comitê executivo dos interesses da burguesia, instrumento de dominação da mesma sobre o proletariado e sua natureza de classe não se exaure pelas concessões da burguesia (concessões que são sempre provisórias e aparentes, principalmente quando observamos neste momento os cortes sociais nos estados europeu em crise econômica). O horizonte estratégico dos socialistas é a abolição do aparato-repressivo-ideológico do estado burguês e a extinção do poder político por meio da generalização da socialização e a auto- gestão da produção e da política. Sem este horizonte, caímos na tragédia reformista da social- democracia.
Reforma ou Revolução, a obra de Rosa Luxemburgo continua aqui sendo central e atual.
Esperando Godot - Samuel Beckett
Resenha Livro #41 Esperando Godot – Samuel Beckett – Ed. Cosacnaify

Diálogos e Contranssensos
O cenário da peça é extremamente simples: há uma árvore retorcida no centro do palco, fumaça e neblina ao fundo. Poucos personagens em cena: uma dupla de miseráveis como atores principais (Estragon e Vladimir) que, enquanto aguardam Godot, deparam-se com personagens que estão apenas de passagem – o aristocrata Pozzo, o enigmático Lucky e o(s) menino(s) que dá os recados de Godot. (não se sabe rigorosamente se o menino do primeiro ato é o mesmo menino do segundo ato).
A espera de Godot torna-se o motivo central da peça do autor irlandês Samuel Beckett. A história é, nesse sentido, uma peça revolucionária por não se tratar de um relato com as temporalidades tradicionais de uma narrativa, por não se tratar daquelas histórias contadas em teatro eivadas de um ou vários confitos, turning points, clímax e um desenlace final com uma eventual “moral da história”. A sensação (intencional) é que o fim de “Esperando Godot” seja inconcluso. A peça não retrata uma história, mas um intervalo, ou seja, a narrativa de uma espera cujos marcos temporais podem se expandir ao infinito – a espera de um Godot que jamais surge ou retorna.
Sobre a história
Vladimir e Estragon são dois viventes miseráreis e aparentemente abandonados pelo restante do mundo – a sensação é a de que cada um depende do outro, remetendo os diálogos è existência de um amor não homossexual, havendo uma relação de aparente dependência entre ambos. (Estragon não consegue abandonar Vladimir e Vladimir não consegue abandonar Estragon, conquanto ambos persistem esperando Godot).
Os diálogos entre os protagonistas, outrossim, mereceriam um destaque especial: a comunicação parece estar eivada de falhas, como-se ambos não falassem coisa com coisa. Por outro lado, algumas passagens remetem relação de complementaridade entre as falas: isso faz com que ambos em certas passagens surjam como um “personagem comum”. Em outras palavras: o que cada um fala como diálogo poderia ser um monólogo de um “sujeito síntese” de Estragon e Vladimir, tamanho é o grau de intimidade e ligação entre ambos.
Seja como for, Vladimir e Estragon dialogam no sentido de expressar suas inquietações enquanto aguardam Godot. Não se sabe o que significa Godot e a que se refere a sua espera. O fato desta informação não estar presente na peça não é, por suposto, involuntário. Diversas teses foram então levantadas, apresentando Godot como um messisas a ser aguardado,como a morte, como a restauração de vida, como o totalitarismo em Alemanha e Itália: as possibilidades são infinitas, e é, mais uma vez, o caráter radicalmente polissêmico da história e das falas de “Esperando Godot” que fez da peça um marco no teatro mundial.
Passagem final
VLADIMIR
Não percamos tempo com palavras vazias. (Pausa. Com Veemência). Façamos alguma coisa, enquanto há chance!Não é todo dia que precisam de nós. Ainda que, a bem da verdade, não seja exatamente de nós. Outros dariam conta do recado, tão bem quanto, senão melhor. O apelo que ouvimos se dirige antes a toda a humanidade. Mas neste lugar, neste momento, a humanidade somos nós, queiramos ou não. Aproveitemos enquanto é tempo. Representar dignamente, uma única vez que seja, a espécie a que estamos desgraçadamente atadas pelo destino cruel. O que me diz? (Estragon não fala nada). Claro que, avaliando os prós e contras, de cabeça fria, não chegamos a desmerecer a espécie. Veja o Tigre que se precipita em socorro aos seus congêneres, sem a menor hesitação. Ou foge, salva sua pele, embrenhando-se no meio da mata. Mas não é esse o xis da questão. O que estamos fazendo aqui, essa é a questão. Foi-nos dada uma oportunidade de descobrir. Sim, dentro desta imensa confusão, apenas uma coisa está clara: estamos esperando que Godot venha.

Diálogos e Contranssensos
O cenário da peça é extremamente simples: há uma árvore retorcida no centro do palco, fumaça e neblina ao fundo. Poucos personagens em cena: uma dupla de miseráveis como atores principais (Estragon e Vladimir) que, enquanto aguardam Godot, deparam-se com personagens que estão apenas de passagem – o aristocrata Pozzo, o enigmático Lucky e o(s) menino(s) que dá os recados de Godot. (não se sabe rigorosamente se o menino do primeiro ato é o mesmo menino do segundo ato).
A espera de Godot torna-se o motivo central da peça do autor irlandês Samuel Beckett. A história é, nesse sentido, uma peça revolucionária por não se tratar de um relato com as temporalidades tradicionais de uma narrativa, por não se tratar daquelas histórias contadas em teatro eivadas de um ou vários confitos, turning points, clímax e um desenlace final com uma eventual “moral da história”. A sensação (intencional) é que o fim de “Esperando Godot” seja inconcluso. A peça não retrata uma história, mas um intervalo, ou seja, a narrativa de uma espera cujos marcos temporais podem se expandir ao infinito – a espera de um Godot que jamais surge ou retorna.
Sobre a história
Vladimir e Estragon são dois viventes miseráreis e aparentemente abandonados pelo restante do mundo – a sensação é a de que cada um depende do outro, remetendo os diálogos è existência de um amor não homossexual, havendo uma relação de aparente dependência entre ambos. (Estragon não consegue abandonar Vladimir e Vladimir não consegue abandonar Estragon, conquanto ambos persistem esperando Godot).
Os diálogos entre os protagonistas, outrossim, mereceriam um destaque especial: a comunicação parece estar eivada de falhas, como-se ambos não falassem coisa com coisa. Por outro lado, algumas passagens remetem relação de complementaridade entre as falas: isso faz com que ambos em certas passagens surjam como um “personagem comum”. Em outras palavras: o que cada um fala como diálogo poderia ser um monólogo de um “sujeito síntese” de Estragon e Vladimir, tamanho é o grau de intimidade e ligação entre ambos.
Seja como for, Vladimir e Estragon dialogam no sentido de expressar suas inquietações enquanto aguardam Godot. Não se sabe o que significa Godot e a que se refere a sua espera. O fato desta informação não estar presente na peça não é, por suposto, involuntário. Diversas teses foram então levantadas, apresentando Godot como um messisas a ser aguardado,como a morte, como a restauração de vida, como o totalitarismo em Alemanha e Itália: as possibilidades são infinitas, e é, mais uma vez, o caráter radicalmente polissêmico da história e das falas de “Esperando Godot” que fez da peça um marco no teatro mundial.
Passagem final
VLADIMIR
Não percamos tempo com palavras vazias. (Pausa. Com Veemência). Façamos alguma coisa, enquanto há chance!Não é todo dia que precisam de nós. Ainda que, a bem da verdade, não seja exatamente de nós. Outros dariam conta do recado, tão bem quanto, senão melhor. O apelo que ouvimos se dirige antes a toda a humanidade. Mas neste lugar, neste momento, a humanidade somos nós, queiramos ou não. Aproveitemos enquanto é tempo. Representar dignamente, uma única vez que seja, a espécie a que estamos desgraçadamente atadas pelo destino cruel. O que me diz? (Estragon não fala nada). Claro que, avaliando os prós e contras, de cabeça fria, não chegamos a desmerecer a espécie. Veja o Tigre que se precipita em socorro aos seus congêneres, sem a menor hesitação. Ou foge, salva sua pele, embrenhando-se no meio da mata. Mas não é esse o xis da questão. O que estamos fazendo aqui, essa é a questão. Foi-nos dada uma oportunidade de descobrir. Sim, dentro desta imensa confusão, apenas uma coisa está clara: estamos esperando que Godot venha.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Estudos Direito e Política #1
Estudos Direito e Política# 1 – MASCARO, Alysson Leandro. “Os Direitos Humanos e a Dignidade Humana”.

Fonte: http://revolucoes.org.br/v1/sites/default/files/direitos_humanos_e_dignidade_humana.pdf
Seguem alguns destaques do artigo do Profº Alysson Leandro Mascaro (Faculdade de Direito da USP).
- “Não há dignidade humana sem a afirmação dos Direitos Humanos, mas somente com Direitos Humanos não se alcança a dignidade humana”.
- Existe uma relação dialética entre direitos humanos e dignidade humana. (Neste sentido, poderíamos dizer que os direitos humanos determinam a dignidade humana ao mesmo tempo em que a dignidade humana determina os direitos humanos? Acho que pensar desta forma acaba excluindo de vista a necessidade de uma transformação total da sociedade. Em outras palavras, revolucionar o modo de produção. Não ficou claro para mim o significado da “relação dialética entre direitos humanos e defesa da dignidade humana”.).
- O direito estatal é fruto da nova dinâmica de exploração do trabalho viabilizada pelo capitalismo.
- Se nas relações pré-capitalistas, havia a hegemonia das relações de mando(rígidas hierarquias sociais),a partir do capitalismo, há uma certa margem de igualdade formal: todos são sujeitos de direito na medida em que todos são portadores de uma força de trabalho a ser vendida no mercado).
- “O capitalismo é uma forma de exploração indireta, cujo poder de dominação e exploração se verifica tanto no capital do burguês quanto no Estado. Os direitos humanos são a lógica menos torpe de tal exploração”.
- O autor coloca claramente que os direitos humanos se inserem dentro dos
limites máximos do capitalismo. A verdadeira afirmação da liberdade e da igualdade se dará pela superação do capitalismo.
- “Fomos bárbaros; hoje somos formalmente civilizados; amanhã, num mundo fraterno e socialista, seremos plenamente humanidade.”.

Fonte: http://revolucoes.org.br/v1/sites/default/files/direitos_humanos_e_dignidade_humana.pdf
Seguem alguns destaques do artigo do Profº Alysson Leandro Mascaro (Faculdade de Direito da USP).
- “Não há dignidade humana sem a afirmação dos Direitos Humanos, mas somente com Direitos Humanos não se alcança a dignidade humana”.
- Existe uma relação dialética entre direitos humanos e dignidade humana. (Neste sentido, poderíamos dizer que os direitos humanos determinam a dignidade humana ao mesmo tempo em que a dignidade humana determina os direitos humanos? Acho que pensar desta forma acaba excluindo de vista a necessidade de uma transformação total da sociedade. Em outras palavras, revolucionar o modo de produção. Não ficou claro para mim o significado da “relação dialética entre direitos humanos e defesa da dignidade humana”.).
- O direito estatal é fruto da nova dinâmica de exploração do trabalho viabilizada pelo capitalismo.
- Se nas relações pré-capitalistas, havia a hegemonia das relações de mando(rígidas hierarquias sociais),a partir do capitalismo, há uma certa margem de igualdade formal: todos são sujeitos de direito na medida em que todos são portadores de uma força de trabalho a ser vendida no mercado).
- “O capitalismo é uma forma de exploração indireta, cujo poder de dominação e exploração se verifica tanto no capital do burguês quanto no Estado. Os direitos humanos são a lógica menos torpe de tal exploração”.
- O autor coloca claramente que os direitos humanos se inserem dentro dos
limites máximos do capitalismo. A verdadeira afirmação da liberdade e da igualdade se dará pela superação do capitalismo.
- “Fomos bárbaros; hoje somos formalmente civilizados; amanhã, num mundo fraterno e socialista, seremos plenamente humanidade.”.
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