A HISTÓRIA DOS BANDEIRANTES
PRECEDENTES HISTÓRICOS
“Parte a bandeira.
Ela é o Brasil por
antecipação.
Leva o ímpeto que lhe
fixará as fronteiras, o sangue com que lhe fará o povoamento, a mobilidade com
que tornará presente a si mesmo, a ideia de pátria com que o defende dos
espanhóis, a confraternização étnica que é a imagem de sua futura democracia
social, os lineamentos com que lhe há de marcar a estruturação política, o
germe do self-government que há de florir na Independência”. (RICARDO,
Cassiano. “Marcha Para Oeste”.).
O fenômeno do
bandeirantismo surge na história do Brasil a partir dos últimos anos do século
XVI até fins do Século XVIII. O seu ponto de partida é o planalto paulista,
instantes após José de Anchieta e outros doze missionário fundarem o Colégio de
São Paulo, o que redundou no marco fundador da cidade de São Paulo em 1554.
Pode-se mesmo dizer que o primeiro bandeirante foi João Ramalho, um degredado
português que já vivia amancebado com tribos indígenas antes mesmo da fundação
da cidade pelos jesuítas, o que nos permite dizer que o sertanismo remonta aos
instantes mais remotos da história do Brasil.
Não por acaso, as
entradas podem ser entendidas como uma prolongação da atividade desempenhada
pelo espírito aventureiro que lançou os portugueses à sua expansão ultramarina
e que acarretou a descoberta da nova terra por Pedro Álvares Cabral em 1500.
Enquanto as grandes navegações redimensionaram as fronteiras do mundo, as
entradas e bandeiras paulistas criariam as condições para a interiorização da
colonização e dariam a fisionomia territorial do que hoje se conhece como
Brasil.
As bandeiras eram
conduzidas por uma minoria ínfima de brancos de origem nobre, muitos mamelucos
que falam a língua geral e multidões de índios flecheiros conhecedores do
território. Delas participaram negros, notadamente na etapa mais tardia do
bandeirantismo, voltada ao ciclo da mineração.
Inicialmente, fazem as
expedições de reconhecimento de território.
Depois, constituem um curral,
depois uma fazenda, depois um engenho, depois um arraial, depois uma povoação e
finalmente uma vila. Partindo de um tronco comum, desde São Paulo, as bandeiras
levam um mesmo estilo de sociedade e cultura a todos os recantos do país, onde
fundam os seus currais e vilas que, no futuro, serão as nossas cidades do
interior.
A língua geral passa a
ser falada na maior parte do território e em cada novo arraial se constitui a
mesma sociedade de clãs baseados na propriedade agrícola. É como se os
sertanistas paulistas fosse um povo de origem comum que se lança a ocupar um
grande território levando-lhe a sua própria civilização. Segundo Cassiano
Ricardo, as bandeiras não são um mero movimento migratório, mas uma “sociedade
em movimento”, portadora de uma nova civilização mestiça.
É certo que o resultado
prático do bandeirantismo não foi desagregador mas, pelo contrário,
constituiu-se como um dos mais importantes passos na formação do estado
nacional e do povo brasileiro.
Foram, afinal, as
bandeiras, seja quando engajadas na captura dos índios seja na atividade de
mineração, a principal fonte de expansão do território e de criação de nossa
atual fisionomia geográfica, cultural e linguística.
Pode-se aqui diferenciar
didaticamente os “fins” e os “resultados” do bandeirantismo.
Num primeiro momento, as
bandeiras foram organizadas para a caça dos bugres e, num segundo momento, a
partir de 1710, se lançam à epopeia da busca pelo ouro e diamante. Esses são os
fins imediatos do bandeirantismo. Mas o “resultado” inconsciente daquele
movimento, pouco lembrado, mas o mais importante, foi o povoamento do país, a
conquista do território, a definição de nossas fronteiras atuais dentro de sua
dimensão continental e a conformação de um novo povo.
Através da atividade de
aprear índios destruíram as missões jesuíticas espanholas e, consequentemente,
conquistaram o território que vai do Paraná ao Rio Grande do Sul. Na fase
mineradora, conduzidos pelo mito do eldorado, conquistaram o centro oeste,
trazendo-nos Goiás e Mato Grosso; um bandeirante mais afoito, chamado Antônio
Raposo Tavares, conquistou-nos a
Amazônia, não sem antes ter colaborado na luta pela expulsão dos holandeses no
ano de 1639, garantindo-nos a posse de Pernambuco e da Bahia.
MARCHA PARA OESTE
“Chame-se, pois,
“bandeira” a cada grupo social que se deslocou de São Paulo, em várias
direções, mas principalmente rumo a Oeste, conduzida por um único chefe,
organizado militarmente, e com governo próprio, em função econômica e de
povoamento, dando em resultado a atual silhueta geográfica do Brasil. Mas a
bandeira não é apenas algo que está contido em tal tentativa de definição. É
algo de mais complexo, com influência nítida no sistema da vida brasileira, nas
suas instituições sociais e políticas e com reflexos – mais importantes do que
se pensa – na vida do mundo moderno”. (RICARDO, Cassiano. “Marcha Para Oeste”.).
Mais do que um fato
histórico, o bandeirantismo é um fenômeno social. É através desse critério que
Cassiano Ricardo analise o fenômeno no livro “Marcha Para Oeste”.
Mais do que um mero
movimento de deslocamento ou migração, o bandeirantismo se constitui como uma “cidade
em movimento”.
Desde o planalto
paulista, ela se estrutura como “uma pequena nação nômade, organizada
solidamente sobre base autocrática e guerreira”; trata-se de um “estado em
miniatura”, portador de valores culturais, presidido por uma liderança
guerreira (o mameluco, o cabo de tropa) que impõe uma disciplina incondicional,
mas necessária, para o desafio de enveredar pelo sertão.
Muito frequentemente, as
bandeiras desafiam a autoridade da coroa portuguesa: os paulistas na era colonial
se notabilizam pela insubmissão reiterada da lei portuguesa quando ela busca
cercear a abertura dos caminhos do sertão, proibir o descimento dos índios,
determinar que se respeite os limites de fronteira com os espanhóis – ordens
sempre solenemente ignorarem pelos paulistas, ao ponto de declararem
independência e aclamarem um governo independente (Aclamação de Amador Bueno –
1641).
Ficou famoso um documento
histórico (uma ata) dizendo que as atividades da câmara de vereadores da Vila
de São Paulo estavam suspensa porque todos os seus membros (a elite política) estevam
todos metidos no sertão envolvido nas bandeiras.
Essa “sociedade em
movimento” reúne em torno de si três eixos fundamentais, baseados nos elementos
étnicos da bandeira. Além do branco e do mameluco na condição de cabo de tropa,
há figura central do índio que confere mobilidade às entradas. Seu passado milenar
de andarilho, somado ao conhecimento do território, fazem do índio o eixo motor
da bandeira: sendo ela uma “cidade em movimento”, a sua mobilidade depende do
bugre, abrindo veredas pelo sertão, carregando os mantimentos nas costas,
navegando os rios através de suas embarcações, colaborando com o arco e flecha
nas escaramuças com as tribos inimigas. O Rio Tietê também colabora nessa
mobilidade: diferentemente do que acontece na maioria dos casos, é um rio que
parte do mar em direção ao sertão, como se convidasse aqueles mamelucos e
bugres à marcha ao oeste.
Cassiano Ricardo, como que
prevendo décadas antes o revisionismo identitário, combate o revisionismo que trata
o bandeirante como um genocida de índio. O paulista é mais amigo do bugre que o
jesuíta e o espanhol. Isso justamente por preservar o nomadismo ancestral
indígena, somado ao forte componente miscigenado do movimento. Mais do que
branco matando índio, o que se viu foi o branco regredindo à condição de índio,
assumindo a postura de andarilho do mato, amancebando-se estrategicamente com
as filhas dos caciques, falando a língua Tupi.
Nos documentos da época,
ser bandeirante era falar a língua geral. O primeiro deles, o degredado
português João Ramalho, constitui a primeira família paulista casando-se com a
índia Bartira, filha do cacique Tibiriçá, chefe dos tupiniquins de Piratininga.
E o que dizer de Borba Gato que literalmente assumiu a condição de índio, indo
viver como os bugres, assumindo a autoridade de cacique? Ou sertanista Jorge
Velho, a quem o bispo de Pernambuco, que o conheceu pessoalmente, chama de “um
dos maiores selvagens com quem tenho topado. Quando se avistou comigo trouxe
consigo língua, porque nem falar sabe, nem se diferencia do mais bárbaro tapuia
mais que em dizer que é cristão”. (RICARDO, Cassiano. Obra cit. Pg. 272).
No mais, dentro do
próprio imaginário do índio é mesmo difícil enquadrar a forma como ele
compreendia a sua própria condição de escravo. O bugre não podia ter a noção
moderna que temos hoje de propriedade, liberdade e igualdade. Não teria sua “liberdade”
sido muito mais tolhidas quando sujeito ao sedentarismo forçado nas missões dos
jesuítas, submetido compulsoriamente ao preceito cristã; do que nas suas
andanças pelo sertão, plenamente aclimatado ao nomadismo, colaborando o tupi e
o mameluco na caça de índios de tribos inimigas como o carijó? E o que dizer
dos colonizadores espanhóis que destruíram as civilizações Astecas, Incas e
Maias?
O último e mais esquecido
elemento constitutivo da bandeira é o negro trazido da África.
Em número reduzido em São
Paulo, se cotejado com o tráfego africano destinado às lavouras de cana de
açúcar do nordeste, ainda sim se fazem presentes como evidenciam os inventários
da época. Se o mameluco é o chefe de tropa, e se o índio é o elemento dinâmico
que agrega movimento à bandeira, o preto exerce o papel de fixação na terra.
Enquanto o índio abre
caminho, o negro faz o abastecimento da tropa, abrindo pequenas lavouras de
subsistência e impondo disciplina ao trabalho. O bugre, vocacionado ao
movimento e à independência, não resiste ao trabalho sedentário, notadamente o
da mineração. Um negro da Angola e Guiné na lavoura vale mais do que 50 índios
indisciplinados. Daí a centralidade do negro na etapa mais tardia das
bandeiras, quando se voltam à caça do ouro e dos diamantes.
Em resumo, os elementos
constitutivos da bandeira, o branco, o índio e o preto, representam a cidade (a
autoridade política presidida pelo mameluco) o sertão (o índio andarilho) e o
campo (o negro sedentário disciplinado ao trabalho). “Enquanto comando e
organização, a bandeira é mameluca; enquanto constância e ímpeto nas caçadas, é
índia; quando para, na lavoura dos poucos e na mineração, é africana.”.
(RICARDO, Cassiano. Pg. 322).
A brasilidade surge daí.
A marcha para oeste (para
o poente, em contraposição ao litoral) é antes de tudo um grande movimento
nativista que irá criar as bases do povo brasileiro e pavimentar a
independência. Marchar para o oeste (contra o litoral) foi o primeiro ponto de
oposição entre brasileiros e portugueses: o que irá redundar em 1822 na nossa
Independência.
Não por acaso, são
corriqueiramente caluniadas através de uma campanha de divisão do país
conduzida por interesses imperialistas (europeus e norte americanos) que buscam
tolher a nossa soberania.
O brasileiro bandeirante
teve sede de povoamento ao passo que o europeu e norte americano na sua
atividade imperialista teve sede de território; a ampla disponibilidade do
espaço, a grandeza do sertão, marca a psicologia alegre e cordial do brasileiro
que deseja povoar e não conquistar a terra. Muito diferente dos imperialistas
europeus e norte americanos, nas suas disputas de pequenas porções de terra que
lhe conferem o conhecido ranço de antipatia e racismo.
Bibliografia:
RICARDO, Cassiano.
“Marcha Para Oeste”. Ed. Livraria José Olympo. 4ª Ed.
VIANA, Oliveira.
“Populações Meridionais”. Ed. Senado Federal. V. 27.
SETUBAL, Paulo. “Os
Irmãos Leme”. Ed. Iba Mendes
DAVIDOFF, Carlos.
“Bandeirantismo: Verso e Reverso”. Ed. Brasiliense
TAUNAY, Afonso de E.
“Índios! Ouro! Pedras”. Ed. Melhoramentos.

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