quarta-feira, 4 de novembro de 2026

A HISTÓRIA DOS BANDEIRANTES

 A HISTÓRIA DOS BANDEIRANTES




  

PRECEDENTES HISTÓRICOS

 

“Parte a bandeira.

Ela é o Brasil por antecipação.

Leva o ímpeto que lhe fixará as fronteiras, o sangue com que lhe fará o povoamento, a mobilidade com que tornará presente a si mesmo, a ideia de pátria com que o defende dos espanhóis, a confraternização étnica que é a imagem de sua futura democracia social, os lineamentos com que lhe há de marcar a estruturação política, o germe do self-government que há de florir na Independência”. (RICARDO, Cassiano. “Marcha Para Oeste”.).

 

O fenômeno do bandeirantismo surge na história do Brasil a partir dos últimos anos do século XVI até fins do Século XVIII. O seu ponto de partida é o planalto paulista, instantes após José de Anchieta e outros doze missionário fundarem o Colégio de São Paulo, o que redundou no marco fundador da cidade de São Paulo em 1554. Pode-se mesmo dizer que o primeiro bandeirante foi João Ramalho, um degredado português que já vivia amancebado com tribos indígenas antes mesmo da fundação da cidade pelos jesuítas, o que nos permite dizer que o sertanismo remonta aos instantes mais remotos da história do Brasil.

 

Não por acaso, as entradas podem ser entendidas como uma prolongação da atividade desempenhada pelo espírito aventureiro que lançou os portugueses à sua expansão ultramarina e que acarretou a descoberta da nova terra por Pedro Álvares Cabral em 1500. Enquanto as grandes navegações redimensionaram as fronteiras do mundo, as entradas e bandeiras paulistas criariam as condições para a interiorização da colonização e dariam a fisionomia territorial do que hoje se conhece como Brasil.

 

As bandeiras eram conduzidas por uma minoria ínfima de brancos de origem nobre, muitos mamelucos que falam a língua geral e multidões de índios flecheiros conhecedores do território. Delas participaram negros, notadamente na etapa mais tardia do bandeirantismo, voltada ao ciclo da mineração.

 

Inicialmente, fazem as expedições de reconhecimento de território.  Depois,  constituem um curral, depois uma fazenda, depois um engenho, depois um arraial, depois uma povoação e finalmente uma vila. Partindo de um tronco comum, desde São Paulo, as bandeiras levam um mesmo estilo de sociedade e cultura a todos os recantos do país, onde fundam os seus currais e vilas que, no futuro, serão as nossas cidades do interior.  

 

A língua geral passa a ser falada na maior parte do território e em cada novo arraial se constitui a mesma sociedade de clãs baseados na propriedade agrícola. É como se os sertanistas paulistas fosse um povo de origem comum que se lança a ocupar um grande território levando-lhe a sua própria civilização. Segundo Cassiano Ricardo, as bandeiras não são um mero movimento migratório, mas uma “sociedade em movimento”, portadora de uma nova civilização mestiça.

 

É certo que o resultado prático do bandeirantismo não foi desagregador mas, pelo contrário, constituiu-se como um dos mais importantes passos na formação do estado nacional e do povo brasileiro.

 

Foram, afinal, as bandeiras, seja quando engajadas na captura dos índios seja na atividade de mineração, a principal fonte de expansão do território e de criação de nossa atual fisionomia geográfica, cultural e linguística.

 

Pode-se aqui diferenciar didaticamente os “fins” e os “resultados” do bandeirantismo.

 

Num primeiro momento, as bandeiras foram organizadas para a caça dos bugres e, num segundo momento, a partir de 1710, se lançam à epopeia da busca pelo ouro e diamante. Esses são os fins imediatos do bandeirantismo. Mas o “resultado” inconsciente daquele movimento, pouco lembrado, mas o mais importante, foi o povoamento do país, a conquista do território, a definição de nossas fronteiras atuais dentro de sua dimensão continental e a conformação de um novo povo.  

 

Através da atividade de aprear índios destruíram as missões jesuíticas espanholas e, consequentemente, conquistaram o território que vai do Paraná ao Rio Grande do Sul. Na fase mineradora, conduzidos pelo mito do eldorado, conquistaram o centro oeste, trazendo-nos Goiás e Mato Grosso; um bandeirante mais afoito, chamado Antônio Raposo Tavares,  conquistou-nos a Amazônia, não sem antes ter colaborado na luta pela expulsão dos holandeses no ano de 1639, garantindo-nos a posse de Pernambuco e da Bahia.

 

MARCHA PARA OESTE

 

“Chame-se, pois, “bandeira” a cada grupo social que se deslocou de São Paulo, em várias direções, mas principalmente rumo a Oeste, conduzida por um único chefe, organizado militarmente, e com governo próprio, em função econômica e de povoamento, dando em resultado a atual silhueta geográfica do Brasil. Mas a bandeira não é apenas algo que está contido em tal tentativa de definição. É algo de mais complexo, com influência nítida no sistema da vida brasileira, nas suas instituições sociais e políticas e com reflexos – mais importantes do que se pensa – na vida do mundo moderno”. (RICARDO, Cassiano. “Marcha Para Oeste”.).

 

Mais do que um fato histórico, o bandeirantismo é um fenômeno social. É através desse critério que Cassiano Ricardo analise o fenômeno no livro “Marcha Para Oeste”.

 

Mais do que um mero movimento de deslocamento ou migração, o bandeirantismo se constitui como uma “cidade em movimento”.

 

Desde o planalto paulista, ela se estrutura como “uma pequena nação nômade, organizada solidamente sobre base autocrática e guerreira”; trata-se de um “estado em miniatura”, portador de valores culturais, presidido por uma liderança guerreira (o mameluco, o cabo de tropa) que impõe uma disciplina incondicional, mas necessária, para o desafio de enveredar pelo sertão. 

 

Muito frequentemente, as bandeiras desafiam a autoridade da coroa portuguesa: os paulistas na era colonial se notabilizam pela insubmissão reiterada da lei portuguesa quando ela busca cercear a abertura dos caminhos do sertão, proibir o descimento dos índios, determinar que se respeite os limites de fronteira com os espanhóis – ordens sempre solenemente ignorarem pelos paulistas, ao ponto de declararem independência e aclamarem um governo independente (Aclamação de Amador Bueno – 1641).

 

Ficou famoso um documento histórico (uma ata) dizendo que as atividades da câmara de vereadores da Vila de São Paulo estavam suspensa porque todos os seus membros (a elite política) estevam todos metidos no sertão envolvido nas bandeiras.

 

Essa “sociedade em movimento” reúne em torno de si três eixos fundamentais, baseados nos elementos étnicos da bandeira. Além do branco e do mameluco na condição de cabo de tropa, há figura central do índio que confere mobilidade às entradas. Seu passado milenar de andarilho, somado ao conhecimento do território, fazem do índio o eixo motor da bandeira: sendo ela uma “cidade em movimento”, a sua mobilidade depende do bugre, abrindo veredas pelo sertão, carregando os mantimentos nas costas, navegando os rios através de suas embarcações, colaborando com o arco e flecha nas escaramuças com as tribos inimigas. O Rio Tietê também colabora nessa mobilidade: diferentemente do que acontece na maioria dos casos, é um rio que parte do mar em direção ao sertão, como se convidasse aqueles mamelucos e bugres à marcha ao oeste.

 

Cassiano Ricardo, como que prevendo décadas antes o revisionismo identitário, combate o revisionismo que trata o bandeirante como um genocida de índio. O paulista é mais amigo do bugre que o jesuíta e o espanhol. Isso justamente por preservar o nomadismo ancestral indígena, somado ao forte componente miscigenado do movimento. Mais do que branco matando índio, o que se viu foi o branco regredindo à condição de índio, assumindo a postura de andarilho do mato, amancebando-se estrategicamente com as filhas dos caciques, falando a língua Tupi.

 

Nos documentos da época, ser bandeirante era falar a língua geral. O primeiro deles, o degredado português João Ramalho, constitui a primeira família paulista casando-se com a índia Bartira, filha do cacique Tibiriçá, chefe dos tupiniquins de Piratininga. E o que dizer de Borba Gato que literalmente assumiu a condição de índio, indo viver como os bugres, assumindo a autoridade de cacique? Ou sertanista Jorge Velho, a quem o bispo de Pernambuco, que o conheceu pessoalmente, chama de “um dos maiores selvagens com quem tenho topado. Quando se avistou comigo trouxe consigo língua, porque nem falar sabe, nem se diferencia do mais bárbaro tapuia mais que em dizer que é cristão”. (RICARDO, Cassiano. Obra cit. Pg. 272).

 

No mais, dentro do próprio imaginário do índio é mesmo difícil enquadrar a forma como ele compreendia a sua própria condição de escravo. O bugre não podia ter a noção moderna que temos hoje de propriedade, liberdade e igualdade. Não teria sua “liberdade” sido muito mais tolhidas quando sujeito ao sedentarismo forçado nas missões dos jesuítas, submetido compulsoriamente ao preceito cristã; do que nas suas andanças pelo sertão, plenamente aclimatado ao nomadismo, colaborando o tupi e o mameluco na caça de índios de tribos inimigas como o carijó? E o que dizer dos colonizadores espanhóis que destruíram as civilizações Astecas, Incas e Maias?

 

O último e mais esquecido elemento constitutivo da bandeira é o negro trazido da África.

 

Em número reduzido em São Paulo, se cotejado com o tráfego africano destinado às lavouras de cana de açúcar do nordeste, ainda sim se fazem presentes como evidenciam os inventários da época. Se o mameluco é o chefe de tropa, e se o índio é o elemento dinâmico que agrega movimento à bandeira, o preto exerce o papel de fixação na terra.

 

Enquanto o índio abre caminho, o negro faz o abastecimento da tropa, abrindo pequenas lavouras de subsistência e impondo disciplina ao trabalho. O bugre, vocacionado ao movimento e à independência, não resiste ao trabalho sedentário, notadamente o da mineração. Um negro da Angola e Guiné na lavoura vale mais do que 50 índios indisciplinados. Daí a centralidade do negro na etapa mais tardia das bandeiras, quando se voltam à caça do ouro e dos diamantes.     

 

Em resumo, os elementos constitutivos da bandeira, o branco, o índio e o preto, representam a cidade (a autoridade política presidida pelo mameluco) o sertão (o índio andarilho) e o campo (o negro sedentário disciplinado ao trabalho). “Enquanto comando e organização, a bandeira é mameluca; enquanto constância e ímpeto nas caçadas, é índia; quando para, na lavoura dos poucos e na mineração, é africana.”. (RICARDO, Cassiano. Pg. 322).

 

A brasilidade surge daí.

 

A marcha para oeste (para o poente, em contraposição ao litoral) é antes de tudo um grande movimento nativista que irá criar as bases do povo brasileiro e pavimentar a independência. Marchar para o oeste (contra o litoral) foi o primeiro ponto de oposição entre brasileiros e portugueses: o que irá redundar em 1822 na nossa Independência.

 

Não por acaso, são corriqueiramente caluniadas através de uma campanha de divisão do país conduzida por interesses imperialistas (europeus e norte americanos) que buscam tolher a nossa soberania.  

 

O brasileiro bandeirante teve sede de povoamento ao passo que o europeu e norte americano na sua atividade imperialista teve sede de território; a ampla disponibilidade do espaço, a grandeza do sertão, marca a psicologia alegre e cordial do brasileiro que deseja povoar e não conquistar a terra. Muito diferente dos imperialistas europeus e norte americanos, nas suas disputas de pequenas porções de terra que lhe conferem o conhecido ranço de antipatia e racismo.

 

Bibliografia:

 

RICARDO, Cassiano. “Marcha Para Oeste”. Ed. Livraria José Olympo. 4ª Ed.

VIANA, Oliveira. “Populações Meridionais”. Ed. Senado Federal. V. 27.

SETUBAL, Paulo. “Os Irmãos Leme”.  Ed. Iba Mendes

DAVIDOFF, Carlos. “Bandeirantismo: Verso e Reverso”. Ed. Brasiliense

TAUNAY, Afonso de E. “Índios! Ouro! Pedras”. Ed. Melhoramentos.

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