quinta-feira, 26 de setembro de 2013

“O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann” – Karl Marx


Resenha Livro # 75 “O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann” – Karl Marx – Ed. Paz e Terra – 7ª Edição



A presente edição da editora Paz e Terra oferece-nos a tradução, coordenada pelo marxista carioca Leandro Konder, de dois conjunto de textos de fundamental importância. O 18 de Brumário trata do Golpe de Estado dado por Luís Bonarparte (sobrinho de Napoleão I) em 02.12.1852. O fato em si reveste-se de importância menos no que se refere às especificidades da história política francesa do séc. XIX e mais pelo sentido histórico que toda aquela movimentação política representou e que casualmente estabeleceu um regime político que verdadeiramente (e não apenas aparentemente) “pairasse” sobre as classes sociais. O que interessa acima de tudo é colocar em relevo o método científico de Marx em sua análise da história e nesta perspectiva o leitor se deparará com uma breve e poderosa síntese do desenvolvimento da luta de classes na França, desde a queda de Luís Felipe nas jornadas revolucionárias de 1848, passando pela eleição do sobrinho de Napoleão em 10.12.1848, a dissolução posterior da Assembleia Constituinte e o Golpe de Estado (18 de Brumário), fazendo com que a história se repetisse, primeiro como tragédia (Napoleão I) e depois como farsa (Napoleão III). À farsa, segue-se a narração de uma comédia e Marx verdadeiramente pinta Luís Bonaparte como uma caricatura do tio.

A segunda parte do livro traz ao público as cartas enviadas por Karl Marx ao seu amigo alemão Kugelmann entre 28 de Dezembro de 1862 e 10 de Agosto de 1874. Lênin foi um dos primeiros a chamar a atenção para a importância do estudo destas correspondências. Além de informações pessoais acerca das dificuldades financeiras e problemas de saúde que acompanharam Karl Marx durante boa parte de sua vida adulta, as cartas revelam alguns detalhes importantes acerca dos trabalhos dirigidos por Marx à frente da Associação Internacional dos Trabalhadores (I Internacional), a luta contra as manobras e divisionismo dos aliados de Bakunin dentro da associação, além de outras impressões breves da conjuntura política europeia da segunda metade do séc. XIX. Certamente, a carta que mais nos causa comoção foi escrita no calor dos acontecimentos da Comuna de Paris, quando Marx saúda a disposição revolucionária daquele movimento, censurando-o apenas no sentido de, por honestidade excessiva, não ter desferidos os golpes mortais e necessários a tempo contra a reação.

Muitas das cartas tratam das dificuldades na elaboração e posterior publicação e divulgação de sua obra magna, “O Capital”. Como se sabe, este grande projeto de análise da economia política sobre bases críticas não pôde ser efetivamente concluída por Marx. Dos quatro volumes da obra, apenas o 1º foi publicado quando Marx ainda estava vivo: as demais, incluído o chamado volume “inédito”, foram organizados e lançados após a morte do autor sob os auspícios de seu amigo Engels e da filha mais velha de Marx (Jenny Marx).

18 de Brumário

“Os homens fazem sua própria história, mas não fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”.

Marx escreveu sua história política da França ainda no calor dos acontecimentos. Nesse sentido, chega a ser assombroso como é capaz de colocar em justos termos o movimento histórico, os posicionamentos das classes sociais (burguesia, proletariado, grandes proprietários de terra e campesinato) e suas respectivas frações (burguesia industrial, burguesia financeira, lumpem-proletariado, etc.) sempre em movimento, pintando um quadro dinâmico em que os acontecimentos ou fatos históricos estão necessariamente dotados de sentido. O que isso significa? Trata-se de um relato do golpe de estado de Luís Bonaparte partindo-se das premissas do materialismo histórico, ou seja, neste ensaio importa, mais do que os eventos narrados em-si, os pressupostos teórico-metodológicos aplicados na interpretação da história que, ao ser dotada de sentidos, deixa de ser uma mera sistematização de datas, fatos e pessoas, sem o necessário esforço crítico de interpretar os sentidos históricos dos acontecimentos e mesmo para onde a história deve seguir o seu rumo.

Os homens fazem a história, mas não a fazem como querem. Desde este ponto, Marx afasta-se de certa perspectiva idealista (muito voga na filosofia alemã em decorrência de Hegel) segundo a qual as ideias conduzem as mudanças materiais. Os homens certamente não escolheram as condições históricas legadas pelo passado e pode-se dizer que têm portanto uma autonomia relativa frente aos rumos dos acontecimentos. Entretanto, a história persiste sendo feita pelos homens: se assim não fosse, Marx não seria marxista, ao não oferecer a possibilidade das classes surgirem como sujeitos históricos (avançando de classe-em-si à classe-para-si), bem como eliminando qualquer possibilidade da iniciativa histórica destes sujeitos, particularmente no que se refere aos eventos revolucionários.

Outro ponto do 18 de Brumário que remete à teoria ou filosofia da história e que costuma ser bastante observado pelo público é justamente a famosa frase com que abre seu trabalho.

“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira como tragédia e a segunda como farsa”.

Esta passagem sintetiza o próprio significado do golpe de estado no contexto tanto da Revolução Francesa de 1879 como do fracasso das jornadas revolucionárias após 1848. O sobrinho Napoleão foi certamente uma espécie de “desvio de rota” e pode ser tratado como uma farsa ou, talvez, como comédia. Não há em Luís Bonaparte a grandeza pessoal, bem como os feitos históricos de seu tio, que, até Waterloo, praticamente dominou toda a Europa continental. Entretanto, os traços de personalidade não subsidiários na análise marxista. A farsa aqui se dá em torno dos desdobramentos finais da luta de classes na França. Luís Bonaparte foi eleito após as jornadas revolucionárias de 1848 pela maioria camponesa da França – um setor político atrasado, ainda apegado às tradições, ao conservadorismo e que esperava ver na figura do sobrinho a mesma grandeza perdida da França na era de Napoleão I.

O resultado do golpe de estado pode ser explicado como uma situação muito atípica e particular em que, na luta de classes, todas as principais classes e frações saem de alguma forma derrotadas. Nem a burguesia industrial ou financeira e muito menos o proletariado urbano residual tinham condições de impor a sua política, o seu representante político. Assim, o bonapartismo em Marx surge como uma força política que paira por assim dizer sobre todas as classes. E na prática, Marx bem caracteriza a base política de Luís Bonaparte, basicamente comporta pela enorme burocracia estatal que vive às custas da corrupção e da arrecadação brutal de tributos, o lupem-proletariado e os setores mais atrasados do campesinato – e aqui é bom destacar que Marx, como posteriormente Lênin, não joga o camponês num único campo exclusivamente reacionário, lembrando que ao lado destes, havia também setores mais pauperizados com vocação para a luta social.

Aqui seria importante um parênteses. Já tivemos a oportunidade de lermos em alguns materiais da organização política trotskysta “Negação da Negação” uma caracterização inusitada dos governos Lula como regimes bonapartistas. Certamente tal “bonapartismo” só pode partir de critérios estranhos ao pensamento de Marx. Não há como comparar as situações extremamente particulares na França (o medo de uma nova onda revolucionária e uma burguesia completamente hesitante além de uma maioria de base social dentre os camponeses, a burocracia e o lumpesinato) com o que foi o Brasil durante os dois mandatos do governo do PT. É certo que é parte do próprio discurso ideológico de sustentação do estado a ideia de que o mesmo “pairasse” sobre as classes sociais.

Mas não é apenas isso o que caracteriza o bonapartismo. É bastante discutível, por outro lado, qualificar a base social beneficiada pelo bolsa família e pelas políticas de crédito como “lupemproletariado”. E mais importante de tudo, o Lulismo implicou em verdadeira capitulação do governo e do Partido dos Trabalhadores aos interesses do capitalismo financeiro e ao imperialismo (para quem Lula é ou era “o cara”). Ou seja, os trotskystas da “Negação e da Negação” estão inteiramente equivocados em qualificar o governo Lula ou o governo Dilma como “bonapartista”. Poderia-se argumentar que a expressão bonapartismo aqui decorreria de sua utilização por Leon Trótsky. Frente à flagrante pequenez deste autor e da qualidade duvidosa das obras teóricas de tal “marxista”, optamos aqui por manter a ortodoxia e ficarmos com o conceito de bonapartismo consagrado por Marx em 18 de Brumário. Em tempos de “ecletismos” cuja resultante, no marxismo, é a desfiguração da perspectiva revolucionária, torna-se ainda mais importante seguir o exemplo de Lênin que definitivamente demonstrou na prática a importância da ortodoxia no marxismo.   

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