sábado, 2 de maio de 2026

“Memórias de Martha” – Júlia Lopes de Almeida

 “Memórias de Martha” – Júlia Lopes de Almeida





Resenha Livro - “Memórias de Martha” – Júlia Lopes de Almeida – Ed. Principis

Pouco conhecida nos dias de hoje, a escritora carioca Júlia Lopes de Almeida foi a mulher mais lida do Brasil da Primeira República. Contemporânea de Machado de Assis e Aluízio de Azevedo, foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras, principal instância de consagração literária do Brasil.

Por outro lado, assim como Lima Barreto, a escritora teve de lidar com as terríveis vicissitudes relacionadas aos preconceitos da época. Barreto por ser negro, lidou e descreveu em seus livros o desprezo e a discriminação seculares relacionados a um país recém egresso da escravidão. E Júlia Lopes, por ser mulher, teve que arcar com dificuldades relacionadas ao momento histórico, quando a literatura era uma atividade exclusivamente masculina.

Numa entrevista concedida a João do Rio em 1905, Júlia Lopes conta que na adolescência fazia versos escondida: fechava-se num quarto, abria a secretária, escrevia seus poemas e silenciosamente os guardava na gaveta fechada à chave.

Esta experiência irá posteriormente se expressar nos seus livros, marcados por um estilo intimista. Sua literatura tem sempre uma atmosfera de interiorização, como se ela escrevesse voltada para dentro. Tal qual a adolescente trancada num quarto, fazendo algo que àquela época era inadmissível a uma mulher.

“Memórias de Martha” (1899) é um romance representativa dessa orientação introspectiva. Além de narrar a história de uma jovem que reside num cortiço do subúrbio carioca, os eventos se combinam com a sondagem dos sentimentos e emoções mais profundos da protagonista.  Martha por meio das suas memórias, narrando em primeira pessoa, irá contar o que viu, o que viveu e, mais importante, o que sentiu.

Suas primeiras memórias da infância despontam um evento trágico. O pai de Martha era um caixeiro viajante e numa de suas viagens de trabalho, perde acidentalmente um dinheiro que não lhe pertence. Humilhado pelas insinuações de que fosse um ladrão, decide se enforcar dentro de casa. A morte do chefe de família conduz Martha e sua mãe à situação de extrema penúria: são despejadas da casa onde moravam por falta de alugueis e obrigadas a morar num cortiço, onde grasse a pobreza e a contaminação pelo sarampo e difteria.

A lembrança do corpo do pai estendido no chão da sala lhe causa indiferença na vida adulta; por outro lado, a conexão da protagonista com sua mãe é profunda, o amor pela genitora é fruto do desvelo com que é cuidada, do sacrifício com que a viúva servia a filha, trabalhando arduamente para manter Martha na escola, lavando roupas para fora, adoecendo e envelhecendo pela filha.

Era o amor sincero de uma alma angelical: essa mãe, mesmo desfalecida pelo trabalho árduo, chegava aos mais extremos sacrifícios pela filha. Quando Martha, ainda criança,  caiu gravemente doente, sua mãe “enlouquecida, não me desamparava....velava assídua noite e dia, por sua pobre doentinha, evitando o menor golpe de ar, proporcionando todo o possível conforto”.  

Além dos eventos da vida doméstica, da realidade do cortiço, das aulas na escola, das brincadeiras de criança no cortiço, do trabalho como professora e do casamento por conveniência, Martha também narra os seus sentimentos, revela sua percepção sobre si própria, dentro daquela orientação introspectiva que remonta à literatura feminina: de Clarice Lispector a Adalgisa Nery, são muitos os exemplos de romances e contos em que os eventos ganham menos importância do que a forma com que eles são percebidos e interpretados pela alma feminina. Trata-se de espíritos dotados de uma sensibilidade extremamente sutil, às vezes dilacerante, que produz a emotividade e traduz alguns sentimentos íntimos ignorados pelos homens.

Martha tem uma visão autodepreciativa do seu corpo: em diversas passagens da história revela se sentir envergonhada de si própria, do seu jeito retraído e das suas roupas. Sente uma revolta contra a sua aparência banal e desinteressante por ela não traduzir a beleza e complexidade de sua alma.

Martha é extremamente escrupulosa consigo e com o seu passado. Não hesita em revelar seus erros e até mesmo algumas pequenas imoralidades: por exemplo quando exigiu da mãe num contexto de pobreza extrema a compra de uma boneca cara, igual a de uma vizinha rica. Ou quando abandona sua melhor amiga da escola, após a descoberta de um furto que leva essa colega ao isolamento e expulsão do colégio.

No amor, Martha também não deixa de expressá-lo sem se preocupar em omitir o seu fracasso. Nunca fora cotejada, chegou-se a apaixonar por um homem após uma breve troca de olhares, para depois descobrir não ter sido correspondida. Apenas aos 24 anos de idade, recebe uma proposta de casamento: mas vinda de um homem muito mais velho, que faz o pedido diretamente à mãe, sem nunca ter travado qualquer relação com a protagonista. O típico casamento convencional daquela época (1900).

Martha aceita o casamento sem um pingo de entusiasmo. Afirma que aceitou o matrimônio como uma forma de se vingar de si mesma: todo o ultraje que sentiu na sua imaginação de moça quando confrontada com a rejeição e sua inaptidão em atrair o interesse dos homens poderia ser agora “vingado” por um casamento convencional, e isso pouco tempo depois de ter um diagnóstico de histeria, o resultado mais típico da mulher que não recebe o amor do homem.

O fim das memórias coincide com a morte da mãe de Martha, qualificada por ela em diversas passagens do romance como uma “amiga”, muito mais do que propriamente uma ascendente. A relação de ternura entre ambas sugere antes um vínculo de irmãs do que de mãe e filha.

A morte dessa mãe e “amiga” é fruto da exaustão com que trabalhou lavando roupas no cortiço para dar um futuro à Martha. A morte ocorre logo após o casamento da protagonista e sugere, ao final da história, que a mãe/“amiga” apenas sobreviveu o suficiente para ver sua filha em situação de cuidado no matrimônio. Depois expirou aliviada por ter cumprido a sua missão.

O livro, a despeito da sua orientação intimista, ainda segue dentro dos quadrantes do realismo literário.

Não há idealizações, a linguagem é simples e o estilo é objetivo; a temática envolve a descrição da realidade do subúrbio carioca, há incidentalmente a crítica social da literatura realista, menos em torno da “questão feminina” e mais em torno das desigualdades sociais e da pobreza do cortiço. Não há nenhum indício de “idealização” do passado, dada a forma extremamente escrupulosa com que a narradora conta o seu passado, quase de forma impessoal. Essa combinação entre objetividade e introspecção, fatos e sentimentos, revela o que há de melhor no romance.

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