quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Jorge Amado e o Partido Comunista Brasileiro

 Jorge Amado e o Partido Comunista Brasileiro




 

Resenha Livro – “A Luz no Túnel” – Jorge Amado – Ed. Martins Editora.

 

Quando Jorge Amado escreveu e publicou “A Luz no Túnel” (1953/1954), o escritor amargurava alguns anos de exílio, desde a proscrição do Partido Comunista Brasileiro promovida pelo Governo Dutra (1946/1951)

O romancista baiano havia sido eleito deputado constituinte pelo partido comunista em 1946.

Fundado em 1922, o PCB até então esteve sob a maior parte do tempo de sua história sujeito ao trabalho clandestino e a uma dura repressão estatal – recrudescida especialmente após 1935 com o fracasso do levante comunista (“Intentona Comunista”) e com o golpe de estado que conduziu o país ao Estado Novo varguista (1937/1945).

Com o término da II Guerra Mundial, dada a vitória dos aliados sobre o eixo nazi-fascista,  numa aliança envolvendo o imperialismo norte americano e britânico e a União Soviética, Roosevelt, Churchill e Stálin, o PCB é alçado a um curto período de legalidade. Vargas, na condição de ditador desde o golpe estadonovista, é apeado do poder e um curto período de liberdades democráticas surge, como resultante política da vitória das “democracias” contra as “ditaduras” do nazi fascismo.

 O PCB, nesse curto período de liberdades democráticas, chegou a ser a quarta maior força política da Assembleia Constituinte de 1946, evidenciando a sua autoridade perante o povo, os trabalhadores e os camponeses, granjeada durante anos de atividade clandestina.

Os comunistas elegeram parlamentares em seis unidades da federação (Bahia, Pernambuco, Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul). O próprio Jorge Amado foi eleito por São Paulo. Carlos Marighella foi eleito pela Bahia. Gregório Bezerra foi eleito por Pernambuco. Luiz Carlos Prestes, a liderança inconteste dos comunistas brasileiros, foi eleito senador pelo Rio de Janeiro, então capital do país. Pelo mesmo Rio de Janeiro, foi eleito Maurício Grabois, amigo pessoal de Jorge Amado, que morreria sexagenário, de armas em punho, na Guerrilha do Araguaia.

A participação direta do escritor na vida do PCB tornou os livros que compõe “Os Subterrâneos da Liberdade” uma fonte histórica preciosa para aqueles que desejam conhecer a forma como os comunistas brasileiros se organizaram e travaram sua luta contra o fascismo, personificado no movimento integralista e seus representantes dentro do governo Vargas, e contra o imperialismo: o anglo-americano de um lado e o alemão de outro.

A história igualmente evidencia as ambiguidades da política internacional de Getúlio Vargas, que buscava, no contexto da II Guerra, acenar tanto para os norte americanos quanto para os alemães, barganhando seu apoio político na Guerra em troca de investimentos na indústria nacional, e só tomando um posicionamento mais claro em favor dos aliados já nos últimos instantes do conflito mundial.

“O Fim do Túnel” corresponde ao último livro da trilogia “Os Subterrâneos da Liberdade” e remonta ao período do Estado Novo, quando Getúlio Vargas, apoiando-se na campanha anticomunista desencadeada pelo fracasso do levante de 1935, fecha o congresso nacional, impõe interventores nos Estados, institui a censura da imprensa através da criação do Departamento de Imprensa e Propaganda e impõe a prisão política a todos os opositores do regime.  

Vargas serviu-se da campanha anticomunista que seguiu ao levante de 1935 para impor a ditadura estadonovista. Esse levante dirigido pela Ação Nacional Libertadora em Novembro de 1935 ficou conhecido na história como a “Intentona Comunista”. O ensaio de insurreição durou 6 dias, não teve adesão do proletariado brasileiro. Houve apenas um modesto apoio popular na cidade de Natal/RN.  

Na década de 1930 havia um cenário de agitação política no país, especialmente na cúpula do poder, com crises institucionais, mudanças de interventores, nomeações sucessivas de ministros, conflitos entre governadores eleitos e interventores. Contudo, o clima de agitação política foi confundido pelas lideranças revolucionárias – nitidamente Prestes – por uma situação revolucionária no Brasil, que não existia.

Naquele tempo, o PCB atuava na prática como uma sucursal brasileira da III Internacional conduzida por Stálin – aliás, esse foi o pretexto utilizado pelo presidente Dutra para colocar o partido na ilegalidade, o PCB não seria um partido “nacional”, mas uma célula do partido comunista da URSS. Consta, em todo o caso, que os dirigentes da Internacional Comunista, que naquele período adotava uma política que variava entre esquerdismo e constituição de frentes amplas antifascistas, manifestaram discordância com a política de levante armado no Brasil.

Contudo, prevaleceram as opiniões de Prestes e da direção do PCB.  O levante, como dito, foi um desastre. Prestes foi preso em 1936 e condenado a mais de uma década de prisão. Iniciou-se uma dura repressão contra os comunistas – logo no início do livro, são descritos em detalhes as torturas promovidas por policiais e investigadores do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).

O tratamento reservado aos presos envolvia espancamentos bárbaros, surras com chicote de arame, alfinetes embaixo da unha ou unhas arrancadas com alicate, queimaduras com pontas acessas de charuto e choques elétricos. Numa passagem, vemos uma militante sendo estuprada na frente de seu companheiro – em outra, no ato de tortura mais repugnante descrito na obra – o delegado de polícia agride uma criança de colo com chicote de arame na frente do pai e da mãe, como meio de constrangê-los a entregar os demais companheiros de partido.  Enquanto a criança de colo chora em cima de uma mesa após ser brutalizada pela surra do delegado de polícia, a mãe, que é obrigada a ver a cena, entra num colapso mental que a leva à loucura incurável e definitiva.

A resistência obstinada dos presos políticos dá um caráter heroico aos militantes comunistas. A história, dentro de uma orientação que remonta ao realismo soviético, exalta a moral do povo, dos trabalhadores e dos camponeses, em oposição direta à burguesia e à alta sociedade carioca e paulista.  No livro se vê também o culto à personalidade e ao partido que caracterizam o stalinismo. Stálin em determinada passagem é descrito por um operário como um “pai” a quem os trabalhadores do mundo devem gratidão. Há o culto do Partido, considerado como um ente a quem todos devem se submeter. E também há o culto à Luiz Carlos Prestes, o portador da esperança socialista no Brasil.

Apropriando-se do conceito de luta de classes, a história reproduz dois universos sociais distintos e que correm em paralelo: cada um desses mundos expressa uma moralidade diversa. Os comunistas e o povo são movidos pela pureza de sentimentos e pela capacidade de se sacrificar em torno de um propósito maior: o advento de uma sociedade livre da exploração econômica. Já os extratos de cima da pirâmide social, personificados por banqueiros, latifundiários, empresários e oportunistas que parasitam essa elite econômica e política, estão sujeitos ao medo da revolução, à covardia que conduz à perversidade, ao ódio dos comunistas e dos pobres em geral, à corrupção dos sentimentos, ao orgulho e ao egoísta levados até as últimas consequências.

Os personagens da história, ainda, são representativos de determinados setores sociais, aparecem como arquétipos que descrevem em detalhes a luta de classes dentro das suas dimensões mais sutis, ou seja, as frações das classes sociais que permeiam a luta entre burguesia e proletariado – camponeses, setores médios, intelectuais, juízes, policiais, etc.

O banqueiro Costa Vale representa a classe dominante brasileira, o setor mais poderoso da economia nacional, capaz de impor e derrubar governos, mas atuando acima de tudo como preposto do imperialismo norte americano. Shopel é um poeta, mulato por sinal, simpatizante do nazismo, que busca adular os ricos e poderosos através da campanha anti comunistas para enriquecer. Saquita é um jornalista que traiu o partido e aderiu ao trotskysmo, serve como propagandista dos interesses imperialistas no país. Cícero de Almeida representa o elemento pequeno burguês simpático aos comunistas, mas preso às vacilações políticas que são produto direto de sua origem de classe – são os comunistas oriundos da classe operária os mais decididos e obstinados, mesmo nos momentos de maior confusão no seio do movimento. Hermes Resende é um sociólogo social democrata que defende formalmente a democracia e o anti fascismo, mas é incapaz de levantar um dedo para defender os comunistas barbarizados nas delegacias do DOPS, diante do risco de comprometer a sua carreira acadêmica.

E ao que consta, cada um desses personagens arquétipos representava personagens reais da vida cultural brasileira. Shopel, o poeta corrompido simpatizante de Hitler seria   Augusto Frederico Schmidt. Saquita, o trotskysta linha auxiliar do imperialismo anticomunista, seria Hermínio Sacchetta. Cícero, o intelectual marxista de origem burguesa, seria o historiador Caio Prado Júnior. E Hermes Resende, o acadêmico social democrata e oportunista, seria Gilberto Freire.

Dois anos depois da publicação do terceiro volume dos Subterrâneos da Liberdade, um evento dilacerante daria ensejo a uma crise mundial do movimento comunista.  

Com a morte de Stálin, Nikita Kruschev, no XX Congresso do PC (1956), apresenta um relatório denunciando seu antecessor, o que levaria diversos grupos políticos a romperem com a orientação soviética. O desencanto de alguns, como Carlos Marighella, levou-os à ruptura pela esquerda, com a defesa da revolução armada urbana, sob o impacto e influência da Revolução Cubana. Outros aderiram ao maoismo, com a sua proposta de revolução camponesa. Já Jorge Amado se afastaria dos comunistas na década de 1950, a partir de quando abandonaria o horizonte do realismo soviético e do culto à personalidade de Stálin e de Luís Carlos Prestes. São dessa segunda fase romances não tão abertamente ideológicos como “Gabriela Cravo e Canela” (1958) e “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1966).

domingo, 21 de dezembro de 2025

“Populações Meridionais do Brasil” – Oliveira Viana

“Populações Meridionais do Brasil” – Oliveira Viana






Resenha Livro - “Populações Meridionais do Brasil” – Oliveira Viana – Edições do Senado Federal V. 27.

Oliveira Viana foi um dos principais formuladores do pensamento conservador brasileiro. Suas ideias serviram como substrato ideológico e referencial teórico do movimento político que conduziu Getúlio Vargas ao poder (1930/1945). Sua oposição frontal ao liberalismo, visto como fonte de desagregação social e anarquia, e sua proposta de constituição de um Estado Nacional, que dê as coordenadas de funcionamento da sociedade, foram reproduzidas na Era Vargas, em especial na sua fase mais autoritária, durante o período do Estado Novo (1937-1945). Da mesma forma como a República Velha encerra uma fase de descentralização política e predomínio das oligarquias regionais, a Revolução de 1930 irá almejar a superação dessas tendências de fragmentação e a imposição de uma ordem institucional unitária, centralizadora e autoritária. Oliveira Viana, neste sentido, defende no plano das ideias aquilo que o movimento getulista implantou na prática.

Foi um herdeiro do castilhismo, movimento de inspiração positivista que defende um Estado intervencionista e que exerça um papel moralizador da sociedade. Não foi entretanto um apóstolo do positivismo: de origem católica, os seus principais interlocutores são Alberto Torres, Silvio Romero e Tobias Barreto.

Em conjunto com esses pensadores, procurou desenvolver uma interpretação original do Brasil, do seu povo e das suas instituições políticas. A grande relevância aqui reside na crítica radical à tendência de se importar sistemas políticos e filosóficos oriundos da Europa, mas não aclimatáveis à sociedade brasileira.

O fracasso do liberalismo no Brasil decorre das particularidades da formação histórica da nacionalidade que o torna incompatível ao nosso meio social – enquanto na Europa o liberalismo surge como uma reação espontânea da burguesia e do Terceiro Estado contra abusos do Estado Absolutista, no Brasil a conformação de uma sociedade baseada na hegemonia dos latifundiários implica num tipo original de relação entre o povo e o Estado Nacional.  

Aqui temos uma sociedade rarefeita, esparsa dentro de um vasto território, dispersa em torno de grandes fazendas e engenhos de características “autárquicas”, que produzem quase tudo do que precisam, sendo presididos por clã familiares que exercem o poder de fato – ao contrário da Europa, o Estado no Brasil surge como um mero espectador das lutas travadas entre os clãs rurais, ou das guerras travadas por esses mesmos senhores de engenho com tribos indígenas furiosas e negros em assaltos,  oriundos do Quilombo.

Para Oliveira Viana, aqui jamais poderia ter germinado o sistema liberal clássico, a despeito das nossas elites políticas, especialmente após a Independência (1822), insistentemente intentarem importar os modelos e arranjos institucionais estrangeiros, seja o parlamentarismo inglês, seja o sistema representativo norte americano, seja o liberalismo político produto da Revolução Francesa.

“Populações Meridionais do Brasil” é o primeiro livro de Oliveira Viana. Foi escrito em 1918, mas só publicado dois anos depois, sob os auspícios de Monteiro Lobato que, ao que consta, foi amigo pessoal do Autor.

Aqui, Oliveira Viana traça uma proposta de trabalho pioneira e ambiciosa. Numa época em que a historiografia brasileira ainda se ressente de sua influência positivista, com sua ênfase nos grandes eventos, nas fontes históricas puramente documentais e oficiais, e na missão meramente descritiva do historiador, Oliveira Viana propõe a assimilação das ciência sociais e das ciências naturais à História.  

Foi tanto historiador, quanto sociólogo e antropólogo. É preciso, para Oliveira Viana, compreender as particularidades e especificidades da sociedade e da psicologia do brasileiro, previamente ao estudo das suas instituições políticas. O Estado Nacional para cumprir o seu papel deve exsurgir naturalmente e estar plenamente aclimatado à conformação da sociedade e ao espírito do povo. Não basta, portanto, a mera história dos grandes eventos, de tipo positivista, pautada na sucessão de governos e formas de regime político – descoberta do Brasil, Capitanias Hereditárias, Governo Geral, I Reinado, Regência, II Reinado, República, etc. O que o Autor procura são as mais remotas origens da personalidade, da psicologia e da moral do brasileiro para, a partir daí, perscrutar a forma como essa sociedade criou as suas instituições políticos, mesmo porque elas nada mais são do que uma necessidade, uma resposta aos problemas criados pela sociedade.  

Oliveira Viana não vê o brasileiro como um povo único, mas como um conjunto de três grandes civilizações: os sertanejos que aparecem com a interiorização da ocupação territorial no nordeste através da pecuária, com as suas figuras messiânicas e o banditismo social dos cangaceiros; os gaúchos nos pampas ao Sul, temperados nas guerras e na animosidade bélica entre os seus caudilhos, que se entrincheiram em suas fazendas, disputando terras na bala com os espanhóis; e finalmente as populações meridionais, situadas na região Centro Sul do país, também denominados de matutos.

As populações meridionais ganham maior prepondância em relação às outras duas civilizações, diante da maior importância econômica e política conferida a essa região do país, desde a abertura do ciclo da mineração, passando pela transferência da corte portuguesa ao Brasil (1808), à Independência (1888), à cultura do café e já no século XX à industrialização. Para Oliveira Viana, são essas populações meridionais de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro as mais representativas na conformação do povo brasileiro, ao passo que o gaúcho dos pampas e os sertanejos do nordeste ganham relevância mais regional.

Concordando ou não com esse ponto de vista, deve-se ao menos reconhecer que o grosso da população brasileira habita, trabalha e produz riqueza nesses três estados, até hoje considerados de conjunto o principal centro político e econômico do Brasil.  

Essas populações meridionais surgem através das bandeiras paulistas, que expandem as fronteiras geográficas do país, na atividade de captura dos índios para o trabalho escravo e depois nas expedições em busca do ouro e diamantes a partir do ciclo da mineração. Foram esses sertanistas paulistas que asseguraram a posse das terras onde hoje se situa o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, através da guerra às missões jesuíticas, levando as fronteiras da colônia portuguesa para além dos limites de Tordesilhas. Também são os grandes pioneiros de ocupação do grande centro oeste e norte do país, chegando mesmo a bandeira de Antônio Raposo Tavares espantosamente atingir a pé, partindo de São Paulo, o território do Peru, na sanha pelo eldorado.

Esses sertanistas, que são considerados por Oliveira Viana como a família mais remota das populações meridionais, também pavimentaram a criação de uma unidade cultural e linguística do Brasil.

As bandeiras eram conduzidas por alguns brancos de origem nobre, muitos mamelucos que falam a língua geral e multidões de índios flecheiros conhecedores do território. Inicialmente, fazem as expedições de reconhecimento de território.  Depois,  constituem um curral, depois uma fazenda, depois um engenho, depois um arraial, depois uma povoação e finalmente uma vila. Partindo de um tronco comum, desde São Paulo, as bandeiras levam um mesmo estilo de sociedade e cultura a todos os recantos do país, onde fundam os seus currais e vilas. A língua geral passa a ser falada na maior parte do território e em cada novo arraial se constitui a mesma sociedade de clãs baseados na propriedade agrícola. É como se os sertanista paulistas fosse um povo de origem comum que se lança a ocupar um grande território levando-lhe a sua própria civilização. E aqui se revela a proeminência dessa parcela da população brasileira sobre as outras duas manifestações de caráter mais regional.

As populações meridionais são conduzidas por aquilo que Oliveira Viana irá chamar de “Elite Agrária”, “Nobreza Campesina”, “Nobreza Territorial”, “Potentados Rurais” e “Aristocracia Rural”. O que dá especificidade na formação da sociedade e das instituições políticas no Brasil foi justamente o papel exercido pelos senhores dos engenhos, os latifundiários do café, os empresários da mineração e os estancieiros da pecuária, advindos especialmente de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Oliveira Viana evidencia uma natureza de clã envolvendo os latifundiários. No passado colonial, o grande proprietário de terra se orgulha em dizer que para suas fazendas apenas importa “ferro, sal, pólvora e chumbo”. Todos os demais produtos de subsistência, incluindo as fontes alimentares, o tecido da roupa e os utensílios domésticos, são produzidos no próprio engenho ou na própria fazenda, tornando-a independente dos centros comerciais das cidades portuárias, onde se situa as autoridades régias delegadas do Império Português. Tudo conspira para que esses clãs e essas fazendas surgem como um Estado dentro do Estado.

Além disso, a grande dimensão territorial do país colabora para o isolacionismo das fazendas. Tudo isso cria as condições para o fortalecimento de clãs familiares que conduzem a política e a jurisdição de todo povo agregado aos Potentados Rurais. Do escravo ao agregado, passando pelos trabalhadores livres e pobres, lavradores e pequenos funcionários estatais, estão subordinados ao grande senhor de terras. É justamente a propriedade de terras e escravos que dá prestígio e não os títulos de nobreza, como na Europa.

Os primeiros dois séculos de colonização, ou seja, de 1500 até 1700, para Oliveira Viana, marca o predomínio absoluto desses clãs familiares, que conduzem do ponto de vista político e institucional, a uma situação de “anarquia” (conceito empregado pelo próprio autor). Os potentados servem-se de um exército de agregados, lavradores destituídos de terras e escravos, que irão ser recrutados nas bandeiras e servir de fonte de defesa militar, seja nas guerras entre os diferentes clãs, seja na defesa da fazenda em face dos ataques de índios, quilombolas e ataques de nações estrangeiras.

Seria apenas com a descoberta das jazidas de ouro, quando do ciclo da mineração, que o Estado deixa o papel de mero espectador da liderança política dos clãs para impor a sua jurisdição – interessava-lhe o controle fiscal absoluto das minas, o que gerou revoltas, a mais conhecida delas a Guerra dos Emboabas (1707-1709).

E assim sucessivamente Oliveira Viana irá evidenciar momentos de centralização e descentralização do poder político no país – ora a predominância dos clãs, que levam à desagregação, ao separatismo e às revoltas, ora a força disciplinadora do Estado, como meio legítimo de impor alguma coesão social e racionalidade na organização da sociedade. É essa controvérsia que irá conduzir as principais discussões políticas do Brasil por todo o século XIX e ainda nos dias de hoje: a disputa parlamentar entre liberais e conservadores, as propostas de descentralização e centralização políticas, os movimentos separatistas e a correspondente reação nacionalista, a predominância dos poderes municipais controlados pelos clãs e a autoridade do Estado Nacional. 

sábado, 6 de dezembro de 2025

A História do Padre Cícero

 A História do Padre Cícero



 

Resenha Livro – “Juazeiro do Padre Cícero” – M. B. Lourenço Filho – Ed. Melhoramentos

 

Anualmente, no mês de março, ocorre a Romaria de Padre Cícero na cidade do Juazeiro do Norte, onde o líder messiânico desenvolveu sua atividade religiosa e política. A peregrinação envolve milhares de romeiros que lá se dirigem para agradecer e pagar as suas promessas atendidas. É um movimento popular espontâneo que fortalece a identidade cultural do país em torno de um catolicismo aclimatado à alma do povo sertanejo. Transcorridos quase cem anos desde a morte do líder carismático cearense, as romarias em sua homenagem chegam a reunir centenas de milhares de pessoas, denotando o potencial nacional revolucionário e engajador do movimento de romarias em torno de Cícero Romão Batista, o Padre Cícero.

Entretanto, se esse aspecto cultural e religioso se revelam como a face mais positiva do padre, o seu envolvimento político junto à oligarquia Acyoly e ao deputado/jagunço Floro Bartolomeu parecem revelar os traços mais negativos dessa figura carismática e profundamente contraditória.  

 Cícero Romão Batista nasceu em 1844 na cidade do Crato, no interior do Ceará. Quando tinha 16 anos de idade matriculou-se num seminário de padres dirigido por um duro clérigo chamado Inácio de Sousa Rolim. Consta que ao final dos estudos, a liderança da escola recomendou a não ordenação do futuro messias como padre, por ter demonstrado ser uma pessoa excessivamente obstinada. Foi necessária a intervenção de um coronel próximo da família de Cícero demandando junto à escola que ele fosse finalmente admitido como padre.

O líder religioso foi ordenado em 1870. Naquela época, mais de 80% da população do Ceará era analfabeta e havia em todo o estado cerca de 40 padres. A atividade desses jovens missionários não era propriamente constituir um terreno fixo de ação em torno de uma paróquia. Eles tinham que percorrer léguas a fio, através de uma atividade de andarilhos, para contemplar todo aquele vasto sertão nordestino, com suas cidades longínquas. Naquela época, o padre seguia de cidade em cidade, e em cada parada, além de ministrar as missas, abençoa os açudes e os animais, para que fossem atendidas as preces pelas chuvas. Atendem os pedidos dos beatos e quando os milagres acontecem, atribuem-nos à benção do padre. Em certo sentido, essa atividade tem como origem mais remota as missões jesuíticas por meio dos quais os religiosos se lançavam aos cantos mais longínquos do território, ao norte e ao sul, para catequizar índios bravios no meio do mato.  

Além de Padre Cícero, outro que desempenhou essa atividade de padre andarilho foi Antônio Conselheiro, que depois se tornou o grande líder da Guerra de Canudos. 

No ano de 1890 ocorreria o grande evento milagroso que consagraria a popularidade do Padre Cícero. Ao ministrar uma hóstia para a beata Maria de Araújo, constatou-se a transformação dessa hóstia em sangue. O fato foi testemunhado pelas diversas outras pessoas e a boato se disseminou como pólvora sertão a dentro. Logo, essa hóstia transformada em sangue foi descrita pelo povo como o sangue de cristo, e a terra onde ele foi derramado como uma terra sagrada. Essa terra é Juazeiro, a cidade onde ocorreu o milagre e onde se criou o mito político e religioso em torno de Padre Cícero.

Diante da popularização do padre pelo milagre de Maria de Araújo, sua autoridade perante o povo do Cariri iria despertar o interesse das oligarquias políticas que dirigiam o estado do Ceará. De todo o conhecido coronelismo familiar dos estados do nordeste, parece que o Ceará é aquele em que o tom familiar das oligarquias é dos mais evidentes. Na época de Padre Cícero, o estado era governado há tempos imemoriais pelo clã Acyoly

Naquele contexto ocorreu a "Política das Salvações" (1910-1914) do presidente Hermes da Fonseca por meio do qual o governo federal começou a intervir na política dos estados, nomeando governadores e destituindo as oligarquias locais, inclusive através do uso da força. Isso ocorreu o Ceará, quando apearam do poder a família Acyoly. Esse clã familiar se apoiou na popularidade do Padre Cícero para travar uma contraofensiva política naquilo que ficou conhecido com a sedição de Juazeiro (1913/1914).

Aqui entra na história a figura de Floro Bartolomeu, um médico e rábula que se internou no sertão de Cariri, onde travou relações pessoais com o Padre Cícero. Conquistou a confiança íntima do missionário ao ponto de se tornar uma espécie de “braço político” do movimento religioso do Padre Cícero. Floro Bartolomeu constituiu um exército de Jagunços de milhares de homens e ajudou a fazer de Juazeiro uma trincheira contra o governo ilegítimo de Fortaleza, imposto dentro da Política das Salvações. Enquanto o Padre Cícero mantinha sua autoridade moral e religiosa perante o povo do Cariri, Floro Bartolomeu se credenciou como a sua liderança política e militar.

A sedição de Juazeiro foi um movimento de revolta contra o Governo Estadual. Inicialmente, o povo em armas em muito se assemelha com a campanha de Canudos. Jagunços e fanáticos religiosos fizeram de Juazeiro uma trincheira militar e travaram uma guerra de guerrilha contra expedições mandadas desde Fortaleza. Nas duas primeiras campanhas, o exército popular do Padre Cícero sagrou-se vitorioso. Não contentes, os milicianos de Juazeiro levaram adiante uma marcha em direção à capital, passando por vilarejos e povoados, onde saqueavam e destruíam as casas e bens de todos aqueles que tinham ligação com o governo ilegítimo de Fortaleza. Os fanáticos apenas respeitavam as imagens e quadros sagrados nas casas, roubando e destruindo todo o resto. Alcançaram finalmente a capital e depuseram o governador Franco Rabelo em 15 de março de 1914.

Desde então, o movimento dirigido por Floro Bartolomeu e por Padre Cícero, cada qual representando a frente político-militar e espiritual, se tornam a principal força política do Ceará. Posteriormente, Bartolomeu seria eleito Deputado Federal e da Tribuna no Rio de Janeiro faria a defesa dos interesses das oligarquias regionais ligadas à figura do Santo Padre.

No testamento de Padre Cícero se nota um esforço do religioso em se dissociar dos eventos políticos que levaram ao movimento sedicioso de 1913/1914. No texto declara que “nunca desejou ser político” e que apenas autorizou que o nome dele fosse utilizado na campanha política de 1913/1914 “a pedido da população dessa terra”.

Neste sentido, há bastante controvérsia em torno do tipo exato de relacionamento existente entre Padre Cícero e Floro Bartolomeu, desde aqueles que defendem que o clérigo agia sob pressão da política local dos coroneis, emprestando a sua popularidade aos interesses do clã Acyoly, até outros que entendem ser Bartolomeu um mero testa de ferro de iniciativas de cunho político advindas do próprio padre.

Esse mesmo testamento revela a existência de um vasto acervo de bens, especialmente terras, no nome do Padre Cícero, o que não parece se coadunar com a figura de um santo ascético.   

Assim, a figura do Padre Cícero se revela aos olhos daqueles que estudam a sua história bastante contraditória.

A fama de santo milagreiro e a sua atividade puramente religiosa criaram condições para a existência de um movimento popular espontâneo e de massas, que traz à tona uma forma de catolicismo aclimatado à pobreza do sertão, voltado à devoção aos santos da Igreja Católica e aos apelos do imaginário do sertanejo e do povo simples. Do ponto de vista cultural, as romarias, que existem até hoje, são uma expressão de uma religiosidade profundamente emotiva e devocional, que devem ser saudada por todos aqueles que amam o Brasil, já que reforçam a existência de uma identidade cultural que fortalece o nacionalismo e o amor pelo país.

Já do ponto de vista puramente político, Padre Cícero talvez revele aqui a sua faceta mais negativa: mesmo nos dias de hoje, a sua fama e o seu nome são explorados pelas oligarquias regionais, que se servem dos mitos em torno do santo milagreiro para manutenção da ordem social baseada no latifúndio, no coronelismo, na desigualdade social e na violência contra qualquer tipo de movimento contestatório.