Albert Camus e a Filosofia do Absurdo
Albert Camus integra
um conjunto de filósofos e escritores que podem ser qualificados de maneira genérica
como existencialistas. De um ponto de vista mais amplo, integram esse conjunto de
pensadores Kierkegaard, Nietzche e, na literatura, Fiodor Dostoievsky.
Num sentido mais
restrito, o existencialismo emerge em meados do Século XX na França através do
pensamento de Jean Paul Sartre. Seria esse o filósofo que passaria a
reivindicar esse conceito de forma mais explícita, estabelecendo como premissa
filosófica a absolta primazia do “existir” em detrimento do “ser”; a rejeição
de uma essência humana pré determinada e a noção angustiante de que somos
lançados ao mundo sem uma finalidade preordenada, como artistas jogados contra
a sua vontade num palco sem um roteiro pré-estabelecido.
No contexto da
II Guerra Mundial, a destruição e morte de milhões de pessoas, consubstanciadas
particularmente nas duas bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki,
colocam em pauta o problema do sentido da vida e o questionamento de todas as
tradições filosóficas herdeiras do iluminismo que se pautam na teleologia, na
busca por uma finalidade e numa intenção de ordenar o mundo de forma racional.
A racionalidade
por detrás das grandes ideologias políticas que se confrontaram na II Guerra
(fascismo, liberalismo e comunismo) conduziu os homens ao estado de barbárie,
fazendo com que filósofos existencialistas como Sartre e Camus propusessem uma
espécie de filosofia do absurdo: o paradoxo entre a busca incessante de sentido
na vida pelos homens (através da fé ou da razão) e a completa indiferença da
realidade ou, se quisermos, de Deus, que lança a espada da morte de maneira
igual a cada um dos homens independentemente de sua religião ou ideologia
política.
Albert Camus,
apesar de compartilhar desse mesmo horizonte filosófico, rejeitou o termo “existencialismo”, qualificando suas
ideias como a “filosofia do absurdo”. A rejeição à nomenclatura existencialista
parece ter pouca importância prática, notadamente por decorrer mais provavelmente
de desavenças pessoais com Sartre, a maior expressão do movimento existencialista
naquele momento.
A divergência
deu-se em torno do problema político: a despeito de rejeitar o mecanicismo
inerente ao marxismo ortodoxo conduzido pelo Partido Comunista Francês e pelo stalinismo,
Sartre defende cerrar fileiras com os comunistas para salvaguardar o seu
projeto de “liberdade”, sem ser acompanhado pelo argelino Camus, de horizonte
mais cético.
Camus, o filósofo
do absurdo, foi acusado de capitulação e, diante da popularidade de Sartre, foi
colocado em certo ostracismo no meio acadêmico franceses dominado pela
esquerda. Em todo o caso, independentemente do rótulo filosófico, vemos em
Abert Camus a ideia do existencialismo levado até as últimas consequências,
gerando a noção do absurdo, conceito escolhido pelo escritor para caracterizar
a sua filosofia.
O absurdo não
está contido no homem, nem tão pouco na natureza ou em Deus. Ele reside na
relação entre todos esses elementos. Emerge quando o homem em busca de sentidos
se confronta com uma realidade que insistentemente se recusa a escutar os seus
apelos, enquadrar-se nos seus pressupostos, determinar-se pela sua vontade.
O existencialismo
que conduz ao absurdo decorre da percepção de que o homem é lançado ao mundo
sem um sentido original. Não há, nessa filosofia, espaço para a conhecida lei
da semeadura, cunhada dentro da tradição religiosa, segundo a qual aquele que atua
no bem gera o bem e o que atua no mal gera o mal. Ganha impulso a noção do
acaso (a falta de relação causal dentro do absurdo de existir): coisas boas
acontecem com pessoas más e coisas más acontecem com pessoas boas.
Esse em torno do
problema do absurdo será tratado por Albert Camus no romance “A Peste”.
Escrito em 1947,
o livro narra a história da cidade de uma cidade fictícia (Orã) abatida por um
surto de peste bubônica. O protagonista chama-se Rieux, um médico de passagem
por Orã que, no contexto da epidemia, participa da equipe médica do governo
para o trabalho de acolhimento dos doentes.
O surto se
inicia com o surgimento repentino de ratos, emergindo de esgotos e entrando nas
casas e prédios, causando num primeiro momento apenas o espanto e o
estranhamento. Num primeiro momento, a Prefeitura busca conduzir a narrativa,
evitando dar sinais de que se tratava da maldita peste, a mesma que ceifou populações
inteiras na Idade Média. Mas logo, a situação foge de controle e, sob o risco
de disseminação da doença, Omã é inteiramente fechada: os moradores não podem
sair e passam a viver numa espécie de exílio dentro da cidade.
O contágio é irremediavelmente
fatal; pilhas de corpos vão sendo amontoados em covas coletivas, por ausência
de espaço para enterrar os mortos. As mortes eram precedidas de sofrimentos
pavorosos: febres agudas e surgimento de gânglios na forma de tumores no
pescoço e virilha, o corpo se decompondo em vida e exalando cheiro de podridão.
Rieux não tem mais como horizonte a medicina para salvar vidas: sua tarefa, a
qual lamenta profundamente, é separar famílias e conduzir os doentes aos
hospitais de onde certamente sairão mortos.
Todo esse
cenário cria as condições para o filósofo Albert Camus desenvolver pela
literatura o existencialismo na sua dimensão do absurdo.
A peste rompe os
grilhões do individualismo e une os concidadãos de Omã dentro de um mesmo
destino trágico. Ela impõe uma história comum e sentimentos compartilhados
relacionados ao questionamento da existência, o abatimento diante do risco
iminente da morte, o medo e a revolta. Todos estão de um momento para outro na
mira da morte.
A Peste emerge
como um acidente, um lance do acaso, e, também, deixa a cena e vai atenuando seus
efeitos através de movimentos imprevisíveis. Aos poucos, sem qualquer explicação,
e sem qualquer relação direta com as medidas do governo, os números de mortos
vão diminuindo ao zero e a vida retornando ao normal.
No livro “Mito
de Sísifo”, Alberto Camus inicia o seu ensaio filosófico da seguinte maneira:
“Não há senão
um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida
vale ou não a pena ser vivida é responder à fundamental questão da filosofia.”.
O que se extrai do
romance “A Peste” é mais uma tentativa de responder ao grande questionamento
existencialista: se somos jogados ao mundo sem qualquer finalidade, qual o
sentido de prosseguir como Sísifo, condenado a eternamente a estar carregando
uma pedra até o topo de uma montanha, jogando-a para baixo, e recomeçando tudo
de novo?
Não há resposta para o sentido da vida, mas em Camus não retira dessa conclusão a pura e simples rejeição do mundo pelo niilismo.
A resposta ao
questionamento está na figura de um dos personagens do livro, um voluntário
chamado Tarrou, que escolhe o martírio desinteressado e se engaja de forma
gratuita nas brigadas de socorro aos doentes para ele próprio morrer depois da
morte cruel.
Trata-se de um
personagem tipicamente existencialista, refém de alguns arrependimentos do
passado, mas sem qualquer horizonte espiritual ou religioso na mente. Age pelo
bem sem querer nada em troca do que viver em paz com a sua consciência.
O que esse
personagem Tarrou usinaliza é que o absurdo cria as condições para que o homem
desenvolva o melhor que tem dentro de si. O ato de amor efetivamente
desinteressado é provavelmente aquele conduzido pelo ateu: executar boas obras
sem ter como horizonte a recompensa de Deus.

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