quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Albert Camus e a Filosofia do Absurdo

 Albert Camus e a Filosofia do Absurdo




 Resenha Livro – “A Peste” – Albert Camus – Ed. Record

 

Albert Camus integra um conjunto de filósofos e escritores que podem ser qualificados de maneira genérica como existencialistas. De um ponto de vista mais amplo, integram esse conjunto de pensadores Kierkegaard, Nietzche e, na literatura, Fiodor Dostoievsky.

Num sentido mais restrito, o existencialismo emerge em meados do Século XX na França através do pensamento de Jean Paul Sartre. Seria esse o filósofo que passaria a reivindicar esse conceito de forma mais explícita, estabelecendo como premissa filosófica a absolta primazia do “existir” em detrimento do “ser”; a rejeição de uma essência humana pré determinada e a noção angustiante de que somos lançados ao mundo sem uma finalidade preordenada, como artistas jogados contra a sua vontade num palco sem um roteiro pré-estabelecido.

No contexto da II Guerra Mundial, a destruição e morte de milhões de pessoas, consubstanciadas particularmente nas duas bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki, colocam em pauta o problema do sentido da vida e o questionamento de todas as tradições filosóficas herdeiras do iluminismo que se pautam na teleologia, na busca por uma finalidade e numa intenção de ordenar o mundo de forma racional.

A racionalidade por detrás das grandes ideologias políticas que se confrontaram na II Guerra (fascismo, liberalismo e comunismo) conduziu os homens ao estado de barbárie, fazendo com que filósofos existencialistas como Sartre e Camus propusessem uma espécie de filosofia do absurdo: o paradoxo entre a busca incessante de sentido na vida pelos homens (através da fé ou da razão) e a completa indiferença da realidade ou, se quisermos, de Deus, que lança a espada da morte de maneira igual a cada um dos homens independentemente de sua religião ou ideologia política.

Albert Camus, apesar de compartilhar desse mesmo horizonte filosófico, rejeitou  o termo “existencialismo”, qualificando suas ideias como a “filosofia do absurdo”. A rejeição à nomenclatura existencialista parece ter pouca importância prática, notadamente por decorrer mais provavelmente de desavenças pessoais com Sartre, a maior expressão do movimento existencialista naquele momento.

A divergência deu-se em torno do problema político: a despeito de rejeitar o mecanicismo inerente ao marxismo ortodoxo conduzido pelo Partido Comunista Francês e pelo stalinismo, Sartre defende cerrar fileiras com os comunistas para salvaguardar o seu projeto de “liberdade”, sem ser acompanhado pelo argelino Camus, de horizonte mais cético.  

Camus, o filósofo do absurdo, foi acusado de capitulação e, diante da popularidade de Sartre, foi colocado em certo ostracismo no meio acadêmico franceses dominado pela esquerda. Em todo o caso, independentemente do rótulo filosófico, vemos em Abert Camus a ideia do existencialismo levado até as últimas consequências, gerando a noção do absurdo, conceito escolhido pelo escritor para caracterizar a sua filosofia.

O absurdo não está contido no homem, nem tão pouco na natureza ou em Deus. Ele reside na relação entre todos esses elementos. Emerge quando o homem em busca de sentidos se confronta com uma realidade que insistentemente se recusa a escutar os seus apelos, enquadrar-se nos seus pressupostos, determinar-se pela sua vontade.

O existencialismo que conduz ao absurdo decorre da percepção de que o homem é lançado ao mundo sem um sentido original. Não há, nessa filosofia, espaço para a conhecida lei da semeadura, cunhada dentro da tradição religiosa, segundo a qual aquele que atua no bem gera o bem e o que atua no mal gera o mal. Ganha impulso a noção do acaso (a falta de relação causal dentro do absurdo de existir): coisas boas acontecem com pessoas más e coisas más acontecem com pessoas boas.

Esse em torno do problema do absurdo será tratado por Albert Camus no romance “A Peste”.

Escrito em 1947, o livro narra a história da cidade de uma cidade fictícia (Orã) abatida por um surto de peste bubônica. O protagonista chama-se Rieux, um médico de passagem por Orã que, no contexto da epidemia, participa da equipe médica do governo para o trabalho de acolhimento dos doentes.

O surto se inicia com o surgimento repentino de ratos, emergindo de esgotos e entrando nas casas e prédios, causando num primeiro momento apenas o espanto e o estranhamento. Num primeiro momento, a Prefeitura busca conduzir a narrativa, evitando dar sinais de que se tratava da maldita peste, a mesma que ceifou populações inteiras na Idade Média. Mas logo, a situação foge de controle e, sob o risco de disseminação da doença, Omã é inteiramente fechada: os moradores não podem sair e passam a viver numa espécie de exílio dentro da cidade.

O contágio é irremediavelmente fatal; pilhas de corpos vão sendo amontoados em covas coletivas, por ausência de espaço para enterrar os mortos. As mortes eram precedidas de sofrimentos pavorosos: febres agudas e surgimento de gânglios na forma de tumores no pescoço e virilha, o corpo se decompondo em vida e exalando cheiro de podridão. Rieux não tem mais como horizonte a medicina para salvar vidas: sua tarefa, a qual lamenta profundamente, é separar famílias e conduzir os doentes aos hospitais de onde certamente sairão mortos.  

Todo esse cenário cria as condições para o filósofo Albert Camus desenvolver pela literatura o existencialismo na sua dimensão do absurdo.  

A peste rompe os grilhões do individualismo e une os concidadãos de Omã dentro de um mesmo destino trágico. Ela impõe uma história comum e sentimentos compartilhados relacionados ao questionamento da existência, o abatimento diante do risco iminente da morte, o medo e a revolta. Todos estão de um momento para outro na mira da morte.

A Peste emerge como um acidente, um lance do acaso, e, também, deixa a cena e vai atenuando seus efeitos através de movimentos imprevisíveis. Aos poucos, sem qualquer explicação, e sem qualquer relação direta com as medidas do governo, os números de mortos vão diminuindo ao zero e a vida retornando ao normal.   

No livro “Mito de Sísifo”, Alberto Camus inicia o seu ensaio filosófico da seguinte maneira:

“Não há senão um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à fundamental questão da filosofia.”.

O que se extrai do romance “A Peste” é mais uma tentativa de responder ao grande questionamento existencialista: se somos jogados ao mundo sem qualquer finalidade, qual o sentido de prosseguir como Sísifo, condenado a eternamente a estar carregando uma pedra até o topo de uma montanha, jogando-a para baixo, e recomeçando tudo de novo?

Não há resposta para o sentido da vida, mas em Camus não retira dessa conclusão a pura e simples rejeição do mundo pelo niilismo. 

A resposta ao questionamento está na figura de um dos personagens do livro, um voluntário chamado Tarrou, que escolhe o martírio desinteressado e se engaja de forma gratuita nas brigadas de socorro aos doentes para ele próprio morrer depois da morte cruel.

Trata-se de um personagem tipicamente existencialista, refém de alguns arrependimentos do passado, mas sem qualquer horizonte espiritual ou religioso na mente. Age pelo bem sem querer nada em troca do que viver em paz com a sua consciência.

O que esse personagem Tarrou usinaliza é que o absurdo cria as condições para que o homem desenvolva o melhor que tem dentro de si. O ato de amor efetivamente desinteressado é provavelmente aquele conduzido pelo ateu: executar boas obras sem ter como horizonte a recompensa de Deus.

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