Deus e o Diabo na Terra do Sol
Resenha Filme # 2 - “Deus e o
Diabo na Terra do Sol” – Glauber Rocha
Quando Glauber
Rocha gravou o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, tinha apenas 24 anos de
idade. Dois anos antes, havia produzido a sua primeira película, chamada “Barravento”,
isso no ano de 1962.
Mas seria a
partir desse segundo trabalho que o cineasta baiano iria se sagrar como o
principal expoente do movimento que ficou conhecido como “Cinema Novo”
(1960/1970).
Tratava-se de um
grupo de jovens cineastas que estava em oposição direta ao cinema convencional
praticado até então no país: as chanchadas, comédias musicais fortemente
influenciadas pela cultura hollywoodiana, por meio das quais se buscava
retratar o Brasil como um “paraíso tropical” habitado por belos atores com
perfis de modelos.
Em oposição a
essa arte de conteúdo puramente comercial, aqueles jovens cineastas buscavam
incluir pessoas reais, literalmente recrutadas de populares da rua, como
personagens dos filmes. Voltavam sua atenção à situação dos camponeses, dos
operários e dos moradores das favelas. Tinham a pretensão de produzir uma arte
politicamente engajada, mas também enraizada na cultura popular brasileira. E
levavam como palavra de ordem: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”!
Essa orientação
mais independente e o estilo experimental em detrimento do cinema comercial implicavam
na falta de recursos financeiros para elaboração dos filmes. O que tinha como
contrapartida positiva a mais completa liberdade criativa dos diretores.
“Deus e o Diabo
na Terra do Sol” (1964) contém todos os ingredientes daquele movimento.
Foi gravado no
município de Monte Santo, no sertão baiano. Os figurantes do filme foram
recrutados da população local. Sua relação com a cultura popular se evidencia
desde a forma como o filme é narrado: explora-se a figura de um cantador
nordestino que ocupa a figura do narrador, por meio da palavra cantada e do
violão o espectador vai sendo introduzido aos nomes dos personagens e as suas
intenções.
Há uma nítida
influência da literatura de cordel na obra e dos cantadores de feira. No pano
de fundo, o retrato da exploração dos latifundiários sobre o povo, o
messianismo religioso, a articulação entre o Estado e a Igreja para repressão
do sebastianismo, o recrutamento de matadores a serviço dos detentores da
riqueza e do poder; ou seja, o filme também se qualifica como uma obra de forte
densidade política, num viés mais próximo da esquerda, dentro do horizonte do
Cinema Novo.
O enredo gira em
torno da peregrinação de um sertanejo chamado Manoel e sua companheira Rosa,
que irão transitar na sua jornada entre o sublime e o profano, entre o céu e o
inferno, perto de Deus e do diabo, participando inicialmente de um movimento
messiânico religioso ao estilo daquele liderado por Antônio Conselheiro em
Canudos; e depois se engajando em ações de banditismo junto ao cangaceiro
Corisco, parceiro de Lampião, para perpetrar crimes de latrocínio com torturas
de natureza diabólica.
O ponto de
partida daquela jornada deu-se quando Manoel manifesta a pretensão de vender
algum gado ao coronel que mandava naquelas terras. Visava cumprir um
compromisso anterior, quando lhe foi prometido em troca dos bois uma pequena
propriedade para subsistência. O latifundiário serve-se de pretexto de que
parte do gado havia morrido por negligência de Manoel e rompe o acordo, tomando
para si os bois e ficando com a terra. Esse ato de injustiça seria o estopim da
revolta do camponês secularmente oprimido pelo proprietário: Manoel mata o
coronel e foge da caçada dos seus jagunços, que atingem a sua roça e lhe
assassinam a sogra, mas o deixam escapar.
Junto com Rosa,
o protagonista inicia sua peregrinação, num primeiro momento se ligando a um
grupo de populares que segue um líder religioso chamado Sebastião. Trata-se de um
personagem representativo do messianismo religioso nordestino; houve alguns na
história, desde um líder que desafiava a política local como Antônio Conselheiro,
até outro que se associara à política do coronelismo, como Padre Cícero.
A fama de santo
milagreiro e a sua atividade puramente religiosa criaram condições para a
existência de um movimento popular espontâneo e de massas no Brasil, que traz à
tona uma forma de catolicismo aclimatado à pobreza do sertão, voltado à devoção
aos santos da Igreja Católica e aos apelos do imaginário do sertanejo e do povo
simples. Do ponto de vista cultural, as romarias, que existem até hoje, são uma
expressão de uma religiosidade profundamente emotiva e devocional.
Entretanto, esse
movimento messiânico não é idealizado no filme. Nele há alusão ao “Massacre da
Terra” Bonita que foi objeto de um belo romance de José Lins do Rego, também
chamado “Terra Bonita” (1938). Na lenda (e no filme), o líder religioso
convence seus seguidores que a salvação exige o sacrifício pelo sangue de
inocentes. Isso levou ao assassinato real de dezenas de pessoas, incluindo
crianças e bebês, cujos sangues foram derramados sobre as pedras, para
purificação do povo.
No filme de Glauber
Rocha, tal qual no arraial de Canudos, o término do movimento messiânico se dá
de forma trágica: o Estado e a Igreja se articulam na figura representativa de
um padre e um coronel para contratar os serviços de Antônio das Mortes, jagunço
caçador de cangaceiros, recrutado para colocar fim ao movimento sebastianista.
Antônio das
Mortes aceita o preço oferecido pela Igreja e pelo Estado – o jagunço nutre a
mesma crença mística em torno da santidade de Sebastião, mas é corrompido pelo
dinheiro, mesmo acreditando que isso lhe custaria a condenação eterna perante
os olhos de Deus.
Apenas Manoel e
Rosa escapam vivos do massacre executado por Antônio das Mortes.
Sintomaticamente,
no meio de sua fuga, perdidos no sertão nordestinos, são conduzidos por um cego
que o levam até Corisco, o cangaceiro. A mesma disposição militante com que
Manoel serviu aos desígnios do líder religioso, o fará agora a serviço do
cangaceiro. O mesmo destemor da morte e lhaneza na condução da luta orientada
pela religião, será agora levada adiante pelo lado do roubo, do saque e do
assassinato.
O protagonista
Manoel é um militante radical quando atua na causa de Deus, e quando serve ao
diabo, respectivamente Sebastião e Corisco. A beleza do filme, todavia, é
romper esse maniqueísmo, atribuindo aspectos divinos ao elemento diabólico e
aspectos diabólicos ao elemento divino. Há algo de divino em Corisco e algo de
diabólico em Sebastião.
Da mesma forma
que o movimento religioso expôs algo de diabólico ao permitir o assassinato de
um bebê dentro de um ritual macabro para que “o sertão vire mar”, o banditismo
conduzido por Corisco terá os seus lances de nobreza, honra e altivez que o
aproximam da dimensão divina. Mesmo cercado de forma irremediável pelo inimigo,
Corisco decide sucumbir na luta do que se render, não sem antes entregar toda a
riqueza doada a dois seguidores. Já o
padre, quando é assassinato a facada por Rosa, logo após o ritual satânico, revelou
covardia, tentando covardemente se esquivar do ataque da mulher.
Trata-se daquele trânsito acima referido entre o céu e o inferno, que marca a peregrinação do protagonista Manoel – a transição de um a outro mundo sendo conduzida por um cego.
Como se a nossa caminhada em direção ao bem ou ao mal fosse um mero lance
do acaso...
