A Poesia de Cecília Meireles
Motivo
“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.”.
Parece evidente
que a vida e o contexto histórico em que viveu o artista muito terá a dizer em
relação à qualidade de sua obra. São através das circunstâncias da vida individual,
cotejada com as tendências culturais de determinado período na história, que
frequentemente irão constituir os temas escolhidos pelo artista e o seu estilo.
Em Cecília
Meireles (1901/1964), vemos a experiência de vida, especialmente a sua infância
solitária, como a fonte principal dos
temas que irão marcar toda a sua poesia.
A poetisa teve
contato com a morte desde muito cedo.
Veio ao mundo em
07 de Novembro de 1901 na cidade do Rio de Janeiro. Seu pai faleceu três meses
antes do seu nascimento. Já sua mãe morreu quando tinha três anos de idade. Foi
criada por uma avó de origem portuguesa que, ao que consta, não lhe permitia
sair de casa para brincar com outras crianças. No seu primeiro casamento,
passou pela tragédia de perder o marido pelo suicídio.
Essa solidão
naturalizada a leva ao silencio e à serenidade contemplativa; nos seus poemas
vemos o sentimento de transitoriedade da vida daquele que encara a morte com certa
naturalidade.
Numa entrevista, Cecília explica:
“Minha
infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram
sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área mágica da
minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos
geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as
bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde, foi nessa área que os livros se
abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa
que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses
dois tempos de vida unidos como os fios de um pano”.
A solidão e a
morte não resultam nem remotamente a uma poesia de tipo pessimista. Não se
evidencia qualquer tristeza nos poemas da escritora; em todas as etapas por que
passaram os seus livros, dos versos parnasianos de suas primeiras obras, ao simbolismo,
passando pela influência dos modernistas de 22, e alcançando o nacionalismo de “Romanceiro
da Inconfidência” (1953), o que vemos é antes a alegria contemplativa.
Mais uma vez é a
própria escritora que explica esse contentamento na solidão através da crônica “Da
Solidão”:
“Há muitas
pessoas que sofrem do mal da solidão. Basta que em redor delas se arme o
silêncio, que não se manifeste aos seus olhos nenhuma presença humana, para que
delas se apoderem imensa angústia: como se o peso do céu dessabesse sobre a sua
cabeça, como se dos horizontes se levantasse o anúncio do fim do mundo.
No entanto,
haverá na terra verdadeira solidão? Não estamos todos cercados por inúmeros
objetos, por infinitas formas da Natureza e o nosso mundo particular não está
cheio de lembranças, de sonhos, de raciocínios, de ideias, que impedem uma
total solidão?”.
Essa dimensão
contemplativa da vida, somada a uma tensão permanente entre aquilo que é efêmero
e aquilo que é eterno, conduzirá os seus poemas a constantes alusões à
natureza.
A poetisa não
centra os seus versos nos homens e suas interações sociais. Não há de fato maiores
preocupações sobre a questão social nos seus versos. Ela fala constantemente
sobre o vento, o sol, os mares, os rios, as nuvens, as estrelas e a terra, frequentemente
atribuindo a eles aspectos humanos: são os “rios que se queixam”, “as
nuvens que mantêm o seu silêncio” , “bosques que escondem caminhos”
, ou “noite entretida com os sons dos túmulos”.
O contato
precoce com a morte também deve ter relação com as constantes alusões ao tempo
nos seus poemas. Neste caso, o que se vê são constantes evocações do passado,
talvez aqui alguma tristeza por conta do sentimento de saudades, entendida como
a sensação que certas coisas não podem mais voltar. Essa volta ao passado vai também
levar a artista a frequentemente fazer o elogio da infância: são “os dons da
infância que o tempo vais nos roubando cruelmente e que todos os dias
precisamos energicamente recuperar”.
Sua trajetória profissional
também esteve sempre ligada ao ensino infantil.
Aos dezesseis
anos é diplomada pela Escola Normal, como antigamente se chamava o magistério e passa a dar aulas. Ela estudou num colégio
que tinha como inspetor ninguém menos do que Olavo Bilac e o grande poeta
parnasiano a premiou com uma medalha pelo seu desempenho. Foi nesse período que
lançou os seus primeiros poemas, ainda presos a certa rigidez formal dos
versos, dentro da orientação parnasiana.
Posteriormente,
escreveria livros para crianças, tendo uma obra de sua autoria sido escolhido
para leitura oficial nas escolas. Já alçada a certa notoriedade por conta dos
seus livros, ocupa em 1935 a cadeira de Literatura na Universidade do Rio de Janeiro.
Alguns anos depois, irá ministrar um curso sobre Literatura Brasileira na
Universidade do Texas. Na década de 1940, faz viagens por diversos países,
incluindo a Índia – fato relevante, já que todos os que estudam a sua obra
ressaltam a influência das filosofias do oriente, que interessaram Meireles
desde os tempos de juventude. A aspiração daquilo que é transcendental,
presente nos seus versos simbolistas, teria relação com essas tendências de
pensamento.
A poetisa
faleceu no ano de 1962 vítima de um câncer de estômago, diagnosticado alguns
anos antes. Consta que nesse último período de vida, Cecília Meireles sabia que
a morte estava próxima e apenas lamentava não ter tempo para escrever novos
livros. Mas, a considerar toda a sua poesia, cotejada com a sua trajetória de
vida, deve ter encarado a morte com a mesma naturalidade com que lidou com a
finitude da vida, desde a sua mais tenra infância.
Bibliografia.
MEIRELES, Cecília. “Cecília Meireles
– Poesia” – Coleção Nossos Clássicos – Livraria Agir
MEIRELES, Cecília. “Escolha o Seu
Sonho – Crônicas” – Cecília Meireles – Ed. Record
DUTRA, Viviane
da Silva. “Os quatro elementos e a imagem poética em Cecília Meireles.”.
Dissertação de Mestrado. Unisc

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