sábado, 30 de maio de 2026

A Poesia de Cecília Meireles

 A Poesia de Cecília Meireles



Motivo

“Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

- não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada.”.

 

Parece evidente que a vida e o contexto histórico em que viveu o artista muito terá a dizer em relação à qualidade de sua obra. São através das circunstâncias da vida individual, cotejada com as tendências culturais de determinado período na história, que frequentemente irão constituir os temas escolhidos pelo artista e o seu estilo.

Em Cecília Meireles (1901/1964), vemos a experiência de vida, especialmente a sua infância solitária,  como a fonte principal dos temas que irão marcar toda a sua poesia.

A poetisa teve contato com a morte desde muito cedo.

Veio ao mundo em 07 de Novembro de 1901 na cidade do Rio de Janeiro. Seu pai faleceu três meses antes do seu nascimento. Já sua mãe morreu quando tinha três anos de idade. Foi criada por uma avó de origem portuguesa que, ao que consta, não lhe permitia sair de casa para brincar com outras crianças. No seu primeiro casamento, passou pela tragédia de perder o marido pelo suicídio.

Essa solidão naturalizada a leva ao silencio e à serenidade contemplativa; nos seus poemas vemos o sentimento de transitoriedade da vida daquele que encara a morte com certa naturalidade.

 Numa entrevista, Cecília explica:

“Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área mágica da minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde, foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida unidos como os fios de um pano”.

A solidão e a morte não resultam nem remotamente a uma poesia de tipo pessimista. Não se evidencia qualquer tristeza nos poemas da escritora; em todas as etapas por que passaram os seus livros, dos versos parnasianos de suas primeiras obras, ao simbolismo, passando pela influência dos modernistas de 22, e alcançando o nacionalismo de “Romanceiro da Inconfidência” (1953), o que vemos é antes a alegria contemplativa.

Mais uma vez é a própria escritora que explica esse contentamento na solidão através da crônica “Da Solidão”:

“Há muitas pessoas que sofrem do mal da solidão. Basta que em redor delas se arme o silêncio, que não se manifeste aos seus olhos nenhuma presença humana, para que delas se apoderem imensa angústia: como se o peso do céu dessabesse sobre a sua cabeça, como se dos horizontes se levantasse o anúncio do fim do mundo.

No entanto, haverá na terra verdadeira solidão? Não estamos todos cercados por inúmeros objetos, por infinitas formas da Natureza e o nosso mundo particular não está cheio de lembranças, de sonhos, de raciocínios, de ideias, que impedem uma total solidão?”.

Essa dimensão contemplativa da vida, somada a uma tensão permanente entre aquilo que é efêmero e aquilo que é eterno, conduzirá os seus poemas a constantes alusões à natureza.

A poetisa não centra os seus versos nos homens e suas interações sociais. Não há de fato maiores preocupações sobre a questão social nos seus versos. Ela fala constantemente sobre o vento, o sol, os mares, os rios, as nuvens, as estrelas e a terra, frequentemente atribuindo a eles aspectos humanos: são os “rios que se queixam”, “as nuvens que mantêm o seu silêncio” , “bosques que escondem caminhos” , ou “noite entretida com os sons dos túmulos”.

O contato precoce com a morte também deve ter relação com as constantes alusões ao tempo nos seus poemas. Neste caso, o que se vê são constantes evocações do passado, talvez aqui alguma tristeza por conta do sentimento de saudades, entendida como a sensação que certas coisas não podem mais voltar. Essa volta ao passado vai também levar a artista a frequentemente fazer o elogio da infância: são “os dons da infância que o tempo vais nos roubando cruelmente e que todos os dias precisamos energicamente recuperar”.

Sua trajetória profissional também esteve sempre ligada ao ensino infantil.

Aos dezesseis anos é diplomada pela Escola Normal, como antigamente se chamava o magistério  e passa a dar aulas. Ela estudou num colégio que tinha como inspetor ninguém menos do que Olavo Bilac e o grande poeta parnasiano a premiou com uma medalha pelo seu desempenho. Foi nesse período que lançou os seus primeiros poemas, ainda presos a certa rigidez formal dos versos, dentro da orientação parnasiana.  

Posteriormente, escreveria livros para crianças, tendo uma obra de sua autoria sido escolhido para leitura oficial nas escolas. Já alçada a certa notoriedade por conta dos seus livros, ocupa em 1935 a cadeira de Literatura na Universidade do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, irá ministrar um curso sobre Literatura Brasileira na Universidade do Texas. Na década de 1940, faz viagens por diversos países, incluindo a Índia – fato relevante, já que todos os que estudam a sua obra ressaltam a influência das filosofias do oriente, que interessaram Meireles desde os tempos de juventude. A aspiração daquilo que é transcendental, presente nos seus versos simbolistas, teria relação com essas tendências de pensamento.

A poetisa faleceu no ano de 1962 vítima de um câncer de estômago, diagnosticado alguns anos antes. Consta que nesse último período de vida, Cecília Meireles sabia que a morte estava próxima e apenas lamentava não ter tempo para escrever novos livros. Mas, a considerar toda a sua poesia, cotejada com a sua trajetória de vida, deve ter encarado a morte com a mesma naturalidade com que lidou com a finitude da vida, desde a sua mais tenra infância.  

Bibliografia.

MEIRELES, Cecília. “Cecília Meireles – Poesia” – Coleção Nossos Clássicos – Livraria Agir

MEIRELES, Cecília. “Escolha o Seu Sonho – Crônicas” – Cecília Meireles – Ed. Record

DUTRA, Viviane da Silva. “Os quatro elementos e a imagem poética em Cecília Meireles.”. Dissertação de Mestrado. Unisc

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