A Literatura de Bruno Seabra
Resenha Livro – “Paulo” – Bruno Seabra
– Ed. Iba Mendes
São poucas as informações disponíveis
na internet acerca do escritor, jornalista e poeta paraense Bruno Henrique de
Almeida Seabra (1837/1876).
Apelidado por um crítico como o João
do Rio do Pará[1], consta
que a última (e possivelmente única) publicação mais ampla do escritor foi a
novela “Paulo” (1861), lançada pela Editora Três dentro da “Coleção: Obras Imortais da Nossa Literatura”
no remoto ano de 1972.
Nosso escritor nasceu em 06 de
outubro de 1837 a bordo de um barco, em águas paraenses (Tatuoca). Estudou as
primeiras letras e o curso preparatório em Belém. Depois, matriculou-se na
escola militar no Rio de Janeiro, então capital do Império. Lá publicou textos
literários no Jornal Marmota Fluminense, dirigido pelo editor Paula Brito.
Publicou folhetins, crônicas e poesias que aguardam há mais de um século a sua
devida publicação.
Todo esse desconhecimento pode dizer
respeito à ignorância que grassa o público leitor em torno de obras dos nossos
escritores do norte, cujos trabalhos estão fora do eixo tradicional da produção
artística do país: sul, sudeste e alguns estados do Nordeste. Para pegarmos um
exemplo de outro paraense, poderíamos citar Inglês de Sousa (1853/1918), o
verdadeiro pioneiro do naturalismo literário em terras brasileiras.
(Costuma-se identificar o início do
naturalismo no Brasil com os romances de Aluísio de Azevedo. Ocorre que que sua
primeira obra naturalista que foi “O Mulato” data de 1881, enquanto a produção
literária de Inglês de Souza data de 1875! E certamente os “Contos Amazônicos”
de Souza superam em qualidade literária outros autores bem mais conhecidos do
nosso naturalismo, como é o caso do pífio “A Carne” de Júlio Ribeiro).
Voltando à Bruno Seabra, sua obra consiste
basicamente nos livros “As cinzas de um livro” (1859), “Flores e frutas”
(1862), “O alforje da boa razão” (1870), e “Paulo” (1861).
Parece ter sido antes um poeta do que
um romancista: na sua novela “Paulo”, há um estilo não afetado, natural, mas
bastante poético. Passagens da história são literalmente intercaladas de cogitações
do narrador que poderiam ser tidas como estrofes de um poema.
Trata-se, em todo o caso, de uma
novela trágica, que remete de certa forma ao romantismo já em sua fase
intermediária, byronista, que teve como principal expoente outro poeta, o
paulista Álvares de Azevedo.
Há no livro de Bruno Seabra os
elementos principais daquilo que didaticamente se chama de “segunda fase do
romantismo” (1853/1869): o pessimismo, a tendência da fuga da realidade, em
particular através do suicídio e da loucura, o saudosismo, a idealização do
amor e da morte.
Há, porém, um traço da novela que antecipa
as próximas etapas do desenvolvimento da literatura nacional: da história,
constam exclusivamente personagens dos extratos mais baixos da sociedade, ao
passo que o foco em torno das classes populares seria efetivamente uma
conquista que se iniciaria bem depois, a partir de alguns romances naturalistas
e que se consagraria, de fato, no modernismo em sua fase regionalista, nos
conhecidos livros de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, etc.
Paulo é filho de uma roceira rústica
e de um pintor empobrecido. Aprende o ofício das artes com o pai, mas ao invés de artista,
é inicialmente encaminhado à Recife para se formar em Direito. Por falta de
recursos financeiros, é obrigado à retornar à sua terra natal.
De vota ao lar, apaixona-se por
Emília, a filha de um médico e comendador empobrecido por conta de uma
frustrada carreira política. Por não dispor de recursos financeiros, resolve
fazer uma viagem até o Rio de Janeiro, onde poderia granjear recursos para o
casamento através da venda dos seus quadros. Logo vê o seu objetivo frustrado
pelo desinteresse e indiferença do mecenato. Para viver do seu trabalho, o artista
teve ser apaniguado por alguém ou, alternativamente, corromper a sua arte e
produzir aquilo que público quer ouvir. É o se escuta de um editor para quem o
poeta pede proteção:
“Ainda mais, o povo, o senhor sabe que nós, os negociantes, só com o povo
nos havemos; o povo quer rir-se, dar gargalhadas em horas de descanso,
distrair-se, enfim, alegremente, e portanto nunca compra livros tristes quando
quer ler. O meu amigo parece ter o seu jeito para a coisa, é só mudar de rumo,
isto é, em vez de escrever queixas amorosas, escreva aventuras jocosas que
façam rir até doer o umbigo, sirva-lhe de modelo este soneto de Bocage”.
Frustrado em seu intento, Paulo decide
retornar ao norte. Pouco antes da sua partida, recebe uma carta do Comendador,
desculpando-se e desfazendo o trato do casamento. Apareceu um pretendente de
Emília com melhores condições financeiras, obrigando o zeloso pai a romper com
o trato.
Posteriormente, Paulo descobre que o
rompimento do pacto foi feito à revelia e contragosto de Emília que, no dia do
casamento, vem a falecer pelo forte abalo sentimental de se ver definitivamente
privada do seu verdadeiro amor. A desilusão amorosa se desdobra nos demais
personagens da trama na loucura, no suicídio e na morte, ao estilo
ultrarromântico da geração byoronista.
E por último, um último traço
característico do livro é uma forte correlação entre a prosa e o verso. Em certas passagens da novela, o romance é
literalmente intercalado com a poesia.
O sentimento da saudade de Paulo
quando parte de barco para a capital em busca do dinheiro para o casamento é literalmente
descrita através de um poema com a forma de prosa:
“Virgem pálida, de olhos elanguescidos, que reclinas as faces sobre a mão
tão alva como as penas das garças, e te deixas, à tardinha, ir adormecendo à
janela, enquanto os zéfiros vão sorvendo o perfume das tranças de teus cabelos:
virgem pálida, que doer é esse que te alenta o coração?
Saudade!
Ancião, que paras à beira do caminho, e arrimando-te ao bastão levantas
os olhos ao velho cedro que te fica em frente, e como que o saudando murmuras —
bem me lembro! bem me lembro! Que mágico doer é esse e te traspassa até o fundo
do coração?
Saudade!
Marinheiro, que ao suspender do ferro, vais soltando esses pesados gemidos,
que são como os estribilhos de cantigas tristes as desoras da noite ouvidos;
marinheiro, que ao rigor das tempestades e calmarias embruteceste a voz como o
semblante, que tristeza é essa que te alinda a fronte? Que voz é essa de
entristecer os corações?
Saudade!
Saudade, página de reminiscências íntimas, que a seu tempo se inscreve no
coração humano, fadou-te Deus esse mágico doer... Saudade e só saudade era o
que restava e o do que se ia alentar o coração do jovem artista.”
A profunda emotividade do livro, sem
um exagero romântico que torne a história pouco convincente, revela um artista
muito acima da média. Trata-se de uma novela lírica, que se reveste da musicalidade
e até metrificação, ao ponto de se poder dizer que é tanto prosa como poesia.
[1] J.
Eustáquio de Azevedo. “Antologia Amazônica: poetas paraenses”. 1904. Pesquisa e
adaptações ortográficas: Iba Mendes (2019)
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