sábado, 26 de outubro de 2024

“A Hora dos Ruminantes” – José J. Veiga

 “A Hora dos Ruminantes” – José J. Veiga


 

Resenha Livro - “A Hora dos Ruminantes” – José J. Veiga – Editora Três

 

O realismo fantástico ou mágico foi uma forma com que se qualificou uma série de obras literárias latino-americanas produzidas entre as décadas de 1960 e 1970.

 

Diante do impacto dos golpes militares que instituíram regimes de exceção em praticamente todos os países da América Latina, criou-se um estilo de narrativa em que o absurdo emerge da realidade cotidiana e banaliza-se na percepção dos personagens.

 

Os elementos mágicos e fantásticos são concebidos como parte de uma nova “normalidade”, e assim também são percebidas pelos personagens. Há uma convergência entre aquilo que é comum e banal com aquilo que é sobrenatural. A conjuntura política daquele período, marcado por regimes de exceção que se eternizaram por anos a fio, se comunica com essa proposta de criação de uma expressão literária na qual a fantasia e o sobrenatural exsurgem da realidade, para elas próprias tornarem-se um novo estado de normalidade, apenas contestada por alguns espíritos isolados, dotados de alguma rebeldia.  

 

As ditaduras militares que apareceram como um regime de exceção provisório para contornar o risco da revolução impõem um novo estado de normalidade, em que o que era absurdo deixa de ser percebido como tal.

 

O romance “A Hora dos Ruminantes” (1966) do escritor goiano  José J. Veiga é talvez a versão mais bem acabada do realismo fantástico na literatura brasileira.

 

Escrito dois anos após o golpe de 1964, o romance trata de um pequeno vilarejo fictício chamado Manarairema, onde uma população de simples camponeses e artesãos é surpreendida pelo aparecimento de um povo estrangeiro, que desde o horizonte, num certo dia, surge e constitui um acampamento. Aqueles estranhos despertam num primeiro momento a curiosidade do povo de Manarairema, isolados que sempre estiveram de qualquer novidade vida de fora:

“No dia seguinte a cidade amanheceu ainda sem toucinho, mas com uma novidade: um grande acampamento fumegando e pulsando do outro lado do rio, coisa repentina, de se esfregar os olhos. As pessoas acordavam, chegavam à janela para olhar o tempo antes de lavar o rosto e davam com a cena nova. Uns chamavam outros, mostravam, indagavam, ninguém sabia. Em todas as casas era gente se vestindo às pressas, embaraçando a mão em mangas de paletó, saindo sem tomar café, pisando em cachorros lerdos, cachorros ganindo, gente dando peitada em gente, derrubando chapéu, a algazarra, a correria. Todos deviam ter visto ao mesmo tempo a parte alta do largo, as janelas dos sobrados, os barrancos estavam tomados de gente olhando, apontando, discutindo”.

 

Os forasteiros não têm nome e não têm rosto. Um ou outro cruza com os habitantes de Manarairema pelas estradas e não cumprimentam, passam-se por ofensivos e grosseiros. Contudo, aquelas pessoas tão estranhas, chamados pelo povo de “homens da tapera”, vão misteriosamente se impondo e ganhando uma preponderância moral sobre o povo do vilarejo.

 

Num primeiro momento, os homens da tapera contratam os serviços de Germiniano, um preto que aluga carroça de burro para o transporte de mercadorias. Não foi bem uma contratação, mas uma intimação para obrigá-lo a transportar areia, sem que o leitor saiba com clareza quais os mecanismos com que constrangem, compelem e ameaçam o trabalhador a prestar os serviços.

 

Germiniano num primeiro momento recusa o trabalho com indignação, pela forma com que é abordado e por desconhecer a natureza daqueles homens. Depois de ser convocado a ir pessoalmente ao acampamento, transforma-se completamente, assume estar vivendo um novo estado de coisas, executa as ordens dos homens como se fosse uma sentença inapelável de um juiz, e o seu medo vai se disseminando aos demais cidadãos de Manarairema. Faz um eterno transporte de areias, sem coragem de explicar aos demais o porquê de sua capitulação. Segue um eterno ir e vir, transportando a areia, tal qual o mito de Sisifo da mitologia grega, que conta a história de um homem que foi condenado a empurrar uma pedra até o topo de uma montanha para sempre, repetindo o processo quando a pedra caísse.   

 

E assim, sucessivamente, os homens da tapera vão convocando, sem possibilidade de recursos, um ou outro habitante para lhe prestar serviços.

 

Constituem um novo regime de medo e terror: aqueles que se recusam a comparecer aos chamados são alertados às graves consequências da sua rebeldia. As ameaças não são ditas de forma expressa por aqueles estrangeiros (eles quase não se manifestam na história), mas são repercutidas pelos cidadãos que voltam transtornados do acampamento vizinho. A coação é velada e não se sabe bem quais seriam as consequências da transgressão da nova ordem; há, por outro lado, uma convicção crescente no coração do povo do dever de respeitar e atender todos os chamados dos homens da tapera. Os forasteiros se projetam quase como uma força divina, capaz de aplicar os mais cruéis castigos às ovelhas que se desviassem da trilha por eles traçadas ao rebanho.

 

A invasão dos homens da tapera é seguida de outros eventos fantásticos.

 

Há uma segunda invasão de cachorros, que tomam as ruas e casas de Manarairema sem que os habitantes tenham força moral e iniciativa para rechaçá-los. Aceitam-nos entrando nas suas casas e fazendo sujeira, como se fosse uma mera fatalidade da natureza. Segue-se depois uma segunda invasão de bois, esta ainda mais catastrófica, com os animais tomando todo o espaço da cidade, entupindo as ruas de esterco, tornando o ar podre e obrigando os moradores a queimar fumo e casca de laranja para aturar o odor.

 

O elemento fantástico, na história, emerge gradualmente da realidade banal e comezinha de Manarairema. Ao longo da história, a fantasia mais se avolumando, até resvalar o absurdo. De uma invasão de forasteiros, à invasão de cachorros e por fim à invasão de bois.

 

Por fim,  num certo dia, os bois, os cachorros e os homens da tapera regressam de onde vieram e a pacata cidade retorna à normalidade. O livro termina com a imagem do tempo, que se interrompeu durante o período da fantasia, quando se impôs a ditadura dos homens da tapera, para retornar ao seu trabalho de cronometrar a vida. E assim termina o livro:  

 

“O relógio da igreja rangeu as engrenagens, bateu horas, lerdo desregulado. Já estavam erguendo o peso, acertando os ponteiros. As horas voltavam, todas elas, as boas, as más, como deve ser”.

 

Sobre o Autor

 

José Jacinto Veiga nasceu em 02 de fevereiro de 1915 numa cidade do interior de Goiás chamada “Corumbá de Goiás”. A sua infância, naquele vilarejo, provavelmente serviu de referência para construir Manarairema, que é um lugar fictício onde se passa não só “A Hora dos Ruminantes” (1966) mas também é o cenário do livro “Os Cavalinhos de Platiplanto” (1959).

 

Iniciou-se na literatura relativamente tarde, aos 45 anos de idade. Formado em Direito pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro, acabou abraçando o jornalismo, tendo colaborado na imprensa carioca e na BBC Londres. Faleceu em 1999, alguns anos depois de receber o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, como forma de reconhecimento final do conjunto de sua obra literária.

sábado, 19 de outubro de 2024

A Poesia de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

 A Poesia de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)




 

Navio que partes para longe,

Por que é que, ao contrário dos outros,

Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?

Porque quanto te não vejo, deixaste de existir.

E se tem saudades do que não existe,

Sente-se em relação a cousa nenhuma;

Não é do navio, é de nós, que sentimos saudades.

 

Não seria exagero dizer que Fernando Pessoa foi o maior poeta em língua portuguesa do século XX. O seu trabalho pode ser alçado ao mesmo patamar daquele que foi a mais importante figura da literatura lusófona de todos os tempos: Luís Vaz de Camões.

 

No caso de Pessoa, trata-se de um caso único da história da literatura universal; dele originou-se a criação de uma nova forma de expressão poética através da Heteronímia (héteros = diferente; + ónoma = nome). Foi através dos heterônimos – Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos – que deu vazão à sua imaginação e à versatilidade de sua personalidade, para criar o grosso de sua produção literária.

 

Heterônimos não se confundem com os pseudônimos.

 

Não há em Fernando Pessoa a pretensão de esconder o seu nome verdadeiro e dar autoria dos seus textos a um pseudônimo, como ocorre com certa frequência, pelas mais diversas razões, a maior parte delas sem uma implicação direta com a obra produzida.

 

O heterônimo, ao contrário do pseudônimo, é um personagem, criado pelo poeta, que cria uma obra própria. Cada heterônimo tem um nome próprio, uma biografia própria e, sobretudo, um estilo próprio.  Não é apenas um nome fictício para esconder a face do poeta. Trata-se da expressão multifacetada de um artista que almeja exprimir suas ideias em diferentes formas de acordo com a percepção de mundo de cada personagem por ele criado.

Ricardo Reis é um médico erudito que vive no Brasil. Latinista por educação própria, seus versos têm um estilo neoclássico, formal e erudito.

 

Álvaro de Campos, ao seu passo, é, nas palavras de Pessoa, a sua versão mais histérica. Foi um engenheiro naval, cuja educação formal se deu de forma precária num Liceu. O seu estilo é mais experimental, com algumas variações de acordo com a trajetória de vida do personagem. No começo, influenciado pelo modernismo e futurismo. E ao final, recaindo no pessimismo.

 

Alberto Caeiro, ao que consta, foi considerado o mestre e mais importante poeta criado por Fernando Pessoa. Foi, também, a principal inspiração do heterônimo Ricardo Reis que, no seu prefácio do livro de Caeiro, assim descreve o poeta camponês:

 

“A obra de Caeiro representa a reconstrução integral de paganismo, na sua essência absoluta, tal como nem os  gregos nem os romanos, que viveram nele e por isso o não pensaram, o puderam fazer. A obra, porém, e o seu paganismo, não foram nem pensados nem até sentidos: foram vividos com o que quer que seja que é em nós mais profundo que o sentimento ou a razão. (...) Ignorante de vida e quase ignorante das letras, quase sem convívio nem cultura, fez Caeiro a sua obra por um progresso imperceptível e profundo, como aquele que dirige, através das consciências inconscientes dos homens, o desenvolvimento lógico das civilizações.”.

 

O estilo do poeta, ao contrário de Reis e Campos, é simples, sem a erudição de um e o experimentalismo modernista de outro.

 

Não teve nenhuma educação, exceto a instrução primária. Viveu a sua curta vida de 20 e poucos anos toda ela no campo.

 

E é da relação imediata do homem com a natureza que emerge a poesia de Caeiro. Quando se fala imediata, quer-se dizer que a proposta de Caeiro é a do rompimento com qualquer tipo de mediação, através da linguagem, de conceitos filosóficos e de pressupostos ideológicos, entre o poeta e aquilo que descreve.  

O horizonte do poeta é aquilo que ele vê. Há sempre, em absolutamente todos os poemas, a primazia do sentir sobre o pensar:

 

“Todas as opiniões que há sobre a Natureza

Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.

Toda a sabedoria a respeito das cousas

Nunca foi cousa em que pudesse pegar, como nas cousas.

Se a ciência quer ser verdadeira,

Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?

Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito

Tem uma realidade tão real que até as minhas costas sentem.

Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas”.

 

Para Caeiro, não há um sentido oculto por detrás das coisas. Ridiculariza os poetas e filósofos que através do pensamento procuram uma significação subjacente a todas as coisas.

 

Pensar é estar doente dos olhos, pensar é não compreender. O poeta contenta-se a sentir, até porque, “há metafísica bastante em não pensar em nada”, nome de um dos poemas de “O Guardador de Rebanhos”:

 

O que penso eu do Mundo?

Sei lá o que penso do Mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o Sol

E a pensar muitas coisas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o Sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

 

 

Dentro desta proposta, é possível ler os poemas de Caeiro imaginado que as palavras enunciadas pelo poeta tenham saído da boca da própria Natureza. É como se as árvores, as águas dos rios e as pedras estivessem revelando ao mundo a impertinência e despropósito da busca pela atribuição de sentidos às coisas. Se há algum sentido, ele não decorre do pensamento mas da percepção objetiva e direta das coisas, em torno do que se vê, do que se toca e do que se escuta.

 

Ao ponto do poeta, em mais de uma ocasião, dizer que aquilo que deixa de ver, para ele, deixa de existir.

 

Em certas passagens Caeiro reconhece-se incidentalmente como materialista e ateu. Ricardo Dias, no seu prefácio, qualifica seu mestre como pagão. Mas sempre há a ressalva, na poesia de Caeiro, que toda forma de nomenclatura para atribuir sentido às coisas é algo despropositado, quando a missão do poeta é a de descobrir o mundo “sem pensar nele”.

 

No seu conceito de universo não há cabimento de interpretações. “O único sentido íntimo das cousas é elas não terem sentido íntimo nenhum.”,  afirma em um dos seus poemas.  Num determinado momento diz não acreditar em Deus pelo fato de não  poder vê-lo. Para, na sequência, no verso subsequente, assumir a possibilidade de Deus ser uma forma diferente de dizer o que é aquilo que vê e que foi por ele criado, fazendo-o neste caso, o mais fervoroso crente. Com a ressalva de que, se Deus são as árvores, o sol e as pedras, melhor chamá-los de árvores, sol e pedras e não de Deus.

 

Ao ler a poesia de Alberto Caeiro, há a sensação de estarmos em contato com um homem do campo plenamente aclimatado à natureza ao ponto de sugerir ao leitor se tratar de um de alguém já no limiar da vida, se preparando para a morte – o problema de Deus e da finitude da vida são reiteradamente sugeridos, o que não poderia ser diferente, de acordo com a filosofia do poeta.

 

Curiosamente, Caeiro morreu jovem. Faleceu aos 26 anos de idade, solteiro, vivendo na casa de uma tia velha, com poucos recursos financeiros.

 

Tornou-se hoje o maior poeta da Natureza. Não por cantá-la vendo nela belezas e ideias ocultas. Mas por ser o seu porta-voz, podendo-se dizer que nessa poesia, quem fala é o sol, as águas dos rios e dos mares, os ventos, as pedras e as árvores.

 

Bibliografia:

 

“Sobre Fernando Pessoa” – Jane Tutikian

 

“Caiero Triunfal” – Richard Zenich

 

“Guardador de Rebanhos” | “O Pastor Amoroso” | “Poemas Inconjuntos” – Fernando Pessoa (Org. Fernando Cabral Martins e Richard Zenith).

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

OS BANDEIRANTES NA OBRA DE PAULO SETÚBAL

 OS BANDEIRANTES NA OBRA DE PAULO SETÚBAL



Resenha Livro – “Os Irmãos Leme”- Paulo Setúbal – Ed. Iba Mendes

Paulo de Oliveira Leite Setúbal (1893/1937) foi advogado, escritor e jornalista. A despeito de ser pouco conhecido hoje em dia, ao seu tempo, nas primeiras décadas do século passado, chegou a ser o escritor mais lido do Brasil.

O sucesso de público dos seus livros diz respeito aos seus “romances históricos” pelos quais o Autor contou a história de nosso país romanceando o passado, tornando a História, uma disciplina das ciências humana, numa expressão da cultura popular. Tornou, neste sentido, muito mais acessível ao povo o conhecimento de nossa história.  

Dentre os seus livros populares, pode-se citar “Marquesa de Santos” (1925) e “O Príncipe Nassau” (1926). Dedicou especial atenção em seu trabalho à história de São Paulo da época colonial. Seus romances sobre o ciclo das bandeiras como o “Ouro de Cuiabá” (1933) e “O Sonho das Esmeraldas” (1935) podem ser relacionados com um esforço geral de valorização da atividade dos paulistas travada no bojo da (derrotada) Revolução Constitucionalista de 1932.

Em “Os Irmãos Leme” (1932) vemos, por outro lado, uma pintura muito pouco lisonjeira do bandeirantismo.

Trata-se de um romance histórico que conta a história dos irmãos Pedro e Lourenço Leme, sertanistas e bandoleiros oriundos do interior paulista, cuja atuação se deu em torno da busca pelos diamantes, do assassinato e da corrupção das autoridades régias, durante as primeiras décadas do século XVII.

O livro é uma adaptação em romance da História de São Paulo certificada através de fontes primárias (cartas, correspondências das autoridades régias, atas e regulamentos da capitania) e dos trabalhos historiográficos de Washington Luís (mau ex-presidente do Brasil e excelente historiador) e principalmente Pedro Taques.

Os irmãos Leme são oriundos de Itu e filhos de Pedro Leme, um valente sertanista que ao seu tempo travou lutas de conquista e manutenção do território da Corte portuguesa; expulsou espanhóis das terras onde hoje se constituiu o Brasil.

“Ora, João Leme e Lourenço Leme haviam herdado, com sangue, a valentia chucra do pai. Eram dois caboclos desabusados. Desabusados e selvagens. Duas onças. Mas a bravura deles não era a nobre, a refulgente bravura dos heróis. Não. "Degenerou o merecimento destes Lemes em extorsões e violências", diz com amargura o linhagista e parente. Sim, que insolentes sertanejos eram aqueles dois irmãos! Que horrendas coisas viviam eles a praticar pelas redondezas de Itú! Desde mocinhos ganharam fama de gente perigosa. Ficaram homens. A fama deles não mudou. Um dia, aventureiros e destemerosos, partiram ambos para as Gerais à cata de ouro. Voltaram com a fama ainda mais negra. Contavam-se, com os cabelos em pé, as proezas que haviam cometido nas Gerais. É verdade que lá tiveram a boa sorte de catar bastante ouro. Enriqueceram. Ricos, já poderosos, com grande séqüito de apaniguados, tornaram eles de novo a Itú. Aí viviam, ao tempo da festa do Penteado, aturdindo a vila com os desregramentos das suas vidas soltas. As gentes da terra fugiam deles como ia peste. Eles eram o terror do povoado.”.

Após assassinaram um potentado local de Itu, além de desonrarem suas filhas, os Lemes são perseguidos pelas autoridades régias, levando-os a se dirigir às minas de Cuiabá em busca do ouro. No trajeto, no meio do mato cerrado, aderem ao bando escravos fugidos, ladrões, homicidas, mulheres desonradas. E índias, que eram as prediletas fontes de perversão sexual dos irmãos Leme.

Em Cuiabá, iniciam um levante que destrona o tenente mor Pascoal Moreira e proclama Fernão Dias (cunhado dos Lemes) como novo regente (1719). Tornam-se ricos através dos métodos da violência, da extorsão, do suborno e da corrupção das autoridades régias. Apesar de serem brutos, não menos selvagens que os bugres que os acompanham nas bandeiras, alçam-se aos mais altos cargos de poder do Brasil colonial. Retornam a São Paulo e são recepcionados pessoalmente pelo governador da província, que lhe concedem cargos de confiança do Rei de Portugal.

O ouro, ao fim e ao cabo, é elemento de corrupção e de luxúria. Aventureiros lançam-se pelos sertões em busca do enriquecimento rápido, em contraponto ao trabalho produtivo baseado na exploração da terra e na indústria, o que terá repercussão na fisionomia social e cultural do Brasil. Os irmãos Leme usam o ouro para corromper as autoridades, granjear postos de poder e ascender socialmente, até haver uma traição palaciana que os levaria à prisão e à morte.

O PAPEL DOS BANDEIRANTES

Uma discussão frequente entre os historiadores é o do papel do indivíduo na História.

Até que ponto a evolução histórica está condicionada à vontade individual de determinadas lideranças e até onde esse desenvolvimento diz respeito a determinadas condições materiais de natureza objetiva? Até que ponto a vontade dos indivíduos alçados ao poder e a sua visão social de mundo efetivamente impactam nas sucessivas etapas da história de um determinado povo?

Obviamente, a resposta em torno dos questionamentos vai depender dos pressupostos teóricos e metodológicos utilizados por cada historiador.

No âmbito do materialismo histórico, ficou conhecida uma passagem do livro “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte” de Karl Marx onde se propõe uma resposta à polêmica. Ao tratar do papel do sobrinho de Napoleão e do movimento político geral em torno do golpe de estado de 1851 e a instituição do II Império,  Marx afirma:

“Os homens fazem sua própria história mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.”.

A história exige da ação humana consciente uma força para a sua transformação. Contudo, o balanço em torno do papel de determinada liderança política diz menos respeito ao conjunto de valores e ideologia dos indivíduos e mais ao resultado prático de sua intervenção à luz de uma dinâmica de natureza objetiva, envolvendo a luta de classes, o nível de desenvolvimento das forças produtivas e o modo de produção correspondente.

Esta longa introdução serve-nos de ponto de partida para se pensar o problema do bandeirantismo paulista de acordo com o romance histórico “Os irmãos Leme” (1932) de Paulo Setúbal (1893/1937).

Ao se julgar a trajetória dos sertanistas João e Lourenço Leme à luz do romance de Paulo Setúbal, a conclusão inevitável é a de que a atividade dos bandeirantes se limitou à violência indiscriminada contra a população, ao assassinato de potentados, à corrupção das autoridades, ao contrabando e falsificação do ouro.  Numa percepção puramente subjetivista da história, teria sido um elemento de desagregação social.

Por outro lado, inobstante o elemento ideológico expresso na vontade dos indivíduos, é certo que o resultado prático do bandeirantismo não foi desagregador mas, pelo contrário, constituiu-se como um dos mais importantes passos na formação do estado nacional brasileiro. Foram, afinal, as bandeiras, seja quando engajadas na captura e escravização dos índios seja na atividade de mineração, foram a principal fonte de expansão do território e de criação de nossa atual fisionomia geográfica, cultural e linguística.

As entradas expandiram as fronteiras da colônia, desafiando os espanhóis, ao ampliar em muito os limites territoriais traçados pelo Tratado de Tordesilhas. Basta ver que já no século XVIII, pelo Tratado de Madrid, houve um exponencial aumento do território onde hoje se situa o Brasil com base no princípio do uti possessis, pelo qual o território pertence àqueles que o ocupam, no caso, justamente os sertanista oriundos de São Paulo.   

Essas entradas podem ser entendidas como uma prolongação da atividade desempenhada pelo espírito aventureiro que lançou os portugueses à sua expansão ultramarina e que acarretou a descoberta da América. Enquanto as grandes navegações redimensionaram as fronteiras do mundo, as entradas e bandeiras criariam as condições para a interiorização da colonização e dariam a fisionomia territorial do que hoje se conhece como Brasil.

Num romance histórico, os bandeirantes surgem-nos como elementos desagregadores e retrógrados. Numa análise histórica de longa duração, cumpriram um papel decisivo e heroico na história do Brasil.

terça-feira, 1 de outubro de 2024

A Literatura de Bruno Seabra

                                                     A Literatura de Bruno Seabra




Resenha Livro – “Paulo” – Bruno Seabra – Ed. Iba Mendes

São poucas as informações disponíveis na internet acerca do escritor, jornalista e poeta paraense Bruno Henrique de Almeida Seabra (1837/1876). 

Apelidado por um crítico como o João do Rio do Pará[1], consta que a última (e possivelmente única) publicação mais ampla do escritor foi a novela “Paulo” (1861), lançada pela Editora Três dentro da  “Coleção: Obras Imortais da Nossa Literatura” no remoto ano de 1972.

Nosso escritor nasceu em 06 de outubro de 1837 a bordo de um barco, em águas paraenses (Tatuoca). Estudou as primeiras letras e o curso preparatório em Belém. Depois, matriculou-se na escola militar no Rio de Janeiro, então capital do Império. Lá publicou textos literários no Jornal Marmota Fluminense, dirigido pelo editor Paula Brito. Publicou folhetins, crônicas e poesias que aguardam há mais de um século a sua devida publicação.   

Todo esse desconhecimento pode dizer respeito à ignorância que grassa o público leitor em torno de obras dos nossos escritores do norte, cujos trabalhos estão fora do eixo tradicional da produção artística do país: sul, sudeste e alguns estados do Nordeste. Para pegarmos um exemplo de outro paraense, poderíamos citar Inglês de Sousa (1853/1918), o verdadeiro pioneiro do naturalismo literário em terras brasileiras.

(Costuma-se identificar o início do naturalismo no Brasil com os romances de Aluísio de Azevedo. Ocorre que que sua primeira obra naturalista que foi “O Mulato” data de 1881, enquanto a produção literária de Inglês de Souza data de 1875! E certamente os “Contos Amazônicos” de Souza superam em qualidade literária outros autores bem mais conhecidos do nosso naturalismo, como é o caso do pífio “A Carne” de Júlio Ribeiro).

Voltando à Bruno Seabra, sua obra consiste basicamente nos livros “As cinzas de um livro” (1859), “Flores e frutas” (1862), “O alforje da boa razão” (1870), e “Paulo” (1861).

Parece ter sido antes um poeta do que um romancista: na sua novela “Paulo”, há um estilo não afetado, natural, mas bastante poético. Passagens da história são literalmente intercaladas de cogitações do narrador que poderiam ser tidas como estrofes de um poema.

Trata-se, em todo o caso, de uma novela trágica, que remete de certa forma ao romantismo já em sua fase intermediária, byronista, que teve como principal expoente outro poeta, o paulista Álvares de Azevedo.

Há no livro de Bruno Seabra os elementos principais daquilo que didaticamente se chama de “segunda fase do romantismo” (1853/1869): o pessimismo, a tendência da fuga da realidade, em particular através do suicídio e da loucura, o saudosismo, a idealização do amor e da morte.

Há, porém, um traço da novela que antecipa as próximas etapas do desenvolvimento da literatura nacional: da história, constam exclusivamente personagens dos extratos mais baixos da sociedade, ao passo que o foco em torno das classes populares seria efetivamente uma conquista que se iniciaria bem depois, a partir de alguns romances naturalistas e que se consagraria, de fato, no modernismo em sua fase regionalista, nos conhecidos livros de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, etc.

Paulo é filho de uma roceira rústica e de um pintor empobrecido. Aprende o ofício  das artes com o pai, mas ao invés de artista, é inicialmente encaminhado à Recife para se formar em Direito. Por falta de recursos financeiros, é obrigado à retornar à sua terra natal.

De vota ao lar, apaixona-se por Emília, a filha de um médico e comendador empobrecido por conta de uma frustrada carreira política. Por não dispor de recursos financeiros, resolve fazer uma viagem até o Rio de Janeiro, onde poderia granjear recursos para o casamento através da venda dos seus quadros. Logo vê o seu objetivo frustrado pelo desinteresse e indiferença do mecenato. Para viver do seu trabalho, o artista teve ser apaniguado por alguém ou, alternativamente, corromper a sua arte e produzir aquilo que público quer ouvir. É o se escuta de um editor para quem o poeta pede proteção:  

“Ainda mais, o povo, o senhor sabe que nós, os negociantes, só com o povo nos havemos; o povo quer rir-se, dar gargalhadas em horas de descanso, distrair-se, enfim, alegremente, e portanto nunca compra livros tristes quando quer ler. O meu amigo parece ter o seu jeito para a coisa, é só mudar de rumo, isto é, em vez de escrever queixas amorosas, escreva aventuras jocosas que façam rir até doer o umbigo, sirva-lhe de modelo este soneto de Bocage”.

Frustrado em seu intento, Paulo decide retornar ao norte. Pouco antes da sua partida, recebe uma carta do Comendador, desculpando-se e desfazendo o trato do casamento. Apareceu um pretendente de Emília com melhores condições financeiras, obrigando o zeloso pai a romper com o trato.

Posteriormente, Paulo descobre que o rompimento do pacto foi feito à revelia e contragosto de Emília que, no dia do casamento, vem a falecer pelo forte abalo sentimental de se ver definitivamente privada do seu verdadeiro amor. A desilusão amorosa se desdobra nos demais personagens da trama na loucura, no suicídio e na morte, ao estilo ultrarromântico da geração byoronista.

E por último, um último traço característico do livro é uma forte correlação entre a prosa e o verso.  Em certas passagens da novela, o romance é literalmente intercalado com a poesia.

O sentimento da saudade de Paulo quando parte de barco para a capital em busca do dinheiro para o casamento é literalmente descrita através de um poema com a forma de prosa:

“Virgem pálida, de olhos elanguescidos, que reclinas as faces sobre a mão tão alva como as penas das garças, e te deixas, à tardinha, ir adormecendo à janela, enquanto os zéfiros vão sorvendo o perfume das tranças de teus cabelos: virgem pálida, que doer é esse que te alenta o coração?

Saudade!

Ancião, que paras à beira do caminho, e arrimando-te ao bastão levantas os olhos ao velho cedro que te fica em frente, e como que o saudando murmuras — bem me lembro! bem me lembro! Que mágico doer é esse e te traspassa até o fundo do coração?

Saudade!

Marinheiro, que ao suspender do ferro, vais soltando esses pesados gemidos, que são como os estribilhos de cantigas tristes as desoras da noite ouvidos; marinheiro, que ao rigor das tempestades e calmarias embruteceste a voz como o semblante, que tristeza é essa que te alinda a fronte? Que voz é essa de entristecer os corações?

Saudade!

Saudade, página de reminiscências íntimas, que a seu tempo se inscreve no coração humano, fadou-te Deus esse mágico doer... Saudade e só saudade era o que restava e o do que se ia alentar o coração do jovem artista.”

A profunda emotividade do livro, sem um exagero romântico que torne a história pouco convincente, revela um artista muito acima da média. Trata-se de uma novela lírica, que se reveste da musicalidade e até metrificação, ao ponto de se poder dizer que é tanto prosa como poesia.



[1] J. Eustáquio de Azevedo. “Antologia Amazônica: poetas paraenses”. 1904. Pesquisa e adaptações ortográficas: Iba Mendes (2019)