domingo, 18 de setembro de 2022

“MACUNAÍMA” – MÁRIO DE ANDRADE

 “MACUNAÍMA” – MÁRIO DE ANDRADE






 

 

Resenha Livro - “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter” – Mário de Andrade – Ed. Nova Fronteira

 

Macunaíma foi escrito por Mário de Andrade durante 6 dias ininterruptos, durante as férias de Dezembro de 1926, numa chácara em Araraquara/SP. Nas palavras do escritor, uma semana de rede, cigarros e cigarras na Chácara Pio Lourenço, no meio de mangas e abacaxis.

 

Ainda nas palavras do autor, o livro nasceu como um brinquedo, sem qualquer pretensão de estudo do folclore do país:

 

“Entre alusões sem malvadeza ou sequência desfatiguei o espírito nesse capoeirão da fantasia onde a gente não escuta as proibições, os temores, os sustos da ciência ou da realidade – apitos dos polícias, breques por engraxar. Porém, imagino que como todos os outros o meu brinquedo foi útil. Me diverti mostrando talvez tesouros em que ninguém não pensa mais.”.

 

A inspiração da obra partiu da leitura do livro do etnólogo alemão Koch-Gruenberg chamado “Vom Roraima zum Orinoco”, de onde, inclusive, saiu o nome do protagonista do nosso romance.  

 

Certamente, a riqueza de detalhes com que a história menciona aspectos da cultura brasileira, da fauna, da flora, dos mitos, do folclore, dos rituais religiosos, do palavreado indígena e popular, igualmente decorreram das viagens que o escritor fez pelo Brasil.

 

A história de Macunaíma é representativa de aspectos da psicologia brasileira e da trajetória do país. As aventuras do herói/protagonista envolvem cenas representativas da formação histórica do Brasil, da fisionomia e da moral (ou falta dela) do brasileiro.

 

No segundo prefácio do livro, escrito em 27/03/1928, Mário de Andrade nega que sua intenção fosse o de contar, ainda que de forma simbólica, a história do Brasil e os caracteres de sua civilização. Diz expressamente que não imaginou pretender expressar a cultura nacional, mas, depois do livro feito, foi que pareceu descobrir nele um sintoma deste brasilianismo.

 

Em todo o caso, a representação do Brasil se dá não apenas por meio da linguagem, com a existência de expressões indígenas e neologismos típicos da palavra falada no Brasil: “fala mansa”, “ólio”, sabiágongá”, “palavras-feias”, “brincar” (como expressão do ato sexual), “bolo-e-aimpim”, “tem mais não”, entre muitos.

 

A brasilidade está presente através de fatos representativos presentes na trajetória de Macunaíma,  que encontram paralelo evidente com a formação brasileira.

 

A começar pelo fato da vida de Macunaíma consistir num deixar viver. O que impera nas ações do herói não é um plano definido a ser executado, com algum método, mas numa existência aberta a tudo o que contingente e caótico. Ainda que o propósito do herói seja a busca do muiraquitã, mesmo os planos para a recuperação do tesouro não são executados, diante da prevalência da improvisação. Ou da preguiça.

 

Esta falta de rumo não seria uma marca política do Brasil? País que, a despeito de duzentos anos de sua independência política, ainda se caracteriza pelo improviso e falta de um fio condutor que o conduza à situação de plena soberania, aqui entendida também como domínio de seu destino, promotor de alguma previsibilidade.

 

O subtítulo do livro diz que Macunaíma é o “herói sem nenhum caráter”.

 

A ausência de caráter aqui remete a dois sentidos.

 

Em primeiro lugar, a falta de uma fisionomia física (falta de caracteres físicos): Macunaíma nasce preto retinto e filho do medo da noite. Ao longo da história, após contato com uma poça de água mágica, torna-se branco. Por meio de encantos, muda sua fisionomia em diversas passagens da história, sendo em parte índio, em parte preto, em parte branco, denotando a especificidade brasileira da mestiçagem. E a indefinição do fenótipo brasileiro, especialmente se comparado a povos orientais.

 

A passagem de Macunaíma da infância para a vida adulta ocorre após a Currupira jogar uma gamela de caldo envenenado no herói:

 

“Então pegou na gamela cheia de caldo envenenado de aipim e jogou a lavagem no piá. Macunaíma fastou sarpatando mas só conseguiu livrar a cabeça, todo o resto do corpo se molhou. O herói deu um espirro e botou corpo. Foi desempenando crescendo fortificando e ficou do tamanho dum homem taludo. Porém a cabeça não molhada ficou pra sempre rombuda e com carinha enjoativa de piá.”.

 

Um corpo taludo com uma cabeça de criança. Mais uma vez, não estaríamos aqui diante de uma figuração do Brasil, país da primeira infância, se comparado às civilizações europeias e asiáticas, cujo vasto território remetem ao corpo de um adulto?

 

O segundo sentido atribuído ao caráter mencionado no sub-título é o moral. Não exatamente numa acepção pejorativa, mas ainda relacionada à infância do Brasil.

 

Mas uma vez, válido mencionar a explicação do autor dita no prefácio da obra:

 

“O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional. Os franceses têm caráter e assim os jorubas e os mexicanos. Seja porque civilização própria, perigo iminente ou consciência de séculos tenha auxiliado, o   certo é que esses uns têm caráter. Brasileiro (não). Está que nem o rapaz de vinte anos: a gente mais ou menos pode perceber tendências gerais, mas ainda não é tempo de afirmar coisa nenhuma.”.

 

Macunaíma foi dedicado ao historiador paulista Paulo Prado, autor do livro “Retrato de Brasil   (1928).

 

Neste livro, mal compreendido na sua época, o escritor chega à conclusão de que o brasileiro é um povo triste. E justifica a sua tese diante de três aspectos constitutivos da psicologia brasileira: a cobiça, a luxúria e o sensualismo.

 

O regime de colonização de exploração, sem povoamento de famílias europeia, criou as condições para mestiçagem e uma vida desregrada, se comparadas ao regime colonial de povoamento com forte presença puritana, que preponderou na américa do norte.

 

Pode-se dizer que Macunaíma, escrito e publicado na mesma época que o Retrato do Brasil, é uma expressão literária daqueles três pontos constitutivos da tristeza brasileira – da busca pelo tesouro Muiraquitã até as “brincadeiras” de Macunaíma, extrai-se três os alicerces da psicologia brasileira: a luxúria, a cobiça e o sensualismo.   

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