domingo, 11 de setembro de 2022

A FILHA DO CAPITÃO – ALEXANDRE PÚCHKIN

 A FILHA DO CAPITÃO – ALEXANDRE PÚCHKIN

 

 


Iemelian Ivanovich Pugachev (Pugachyovskaya, 1742 — Moscovo, 21 de janeiro de 1775) foi o líder de uma grande rebelião cossaca e camponesa na Rússia (rebelião Pugachov, 1773 - 1775).

 

Na época em que Púchkin nasceu (1799), o czar que reinava sobre a Rússia anda era Paulo I, o filho insano de Catarina II, que viria a ser morto dois anos depois numa conspiração palaciana, da qual tornaria secretamente parte seu filho e sucessor, Alexandre I. Moscou havia se tornado o centro da vida intelectual e artística do país. A alta sociedade, que em São Petersburgo gravitava em volta da Corte, em Moscou, via de regra, entediava-se. Os jovens promissores liam os imitadores russos de Parny, Rousseau, Racine, Voltaire, enquanto as jovens (e velhas) suspiravam com romances sentimentais que apareciam aos montes, todos iguais e de qualidade duvidosa. A mesmice dominava também o cotidiano. De manhã, praticavam equitação e, à noite, em dias certos da semana, quando não havia baile ou carteados, frequentavam salões. Os chefes de família cuidavam da administração de suas propriedades rurais, onde a família passava temporadas anuais, justamente com numerosa criadagem, parentes, servos e agregados. O povo, como sempre, sofria”. (BRNARDI, Aurora. “Púchkin e o Começo da Literatura Rua”. Caderno de Literatura e Cultura Russa. USP).

 

 

Aleksandr Sergeevich Púchkin é aclamado como o maior poeta russo e fundador da moderna literatura daquele país. Transitou pela poesia lírica e épica, pelo teatro e pelo romance, sendo tradicionalmente relacionado ao movimento romântico, com aproximação do realismo, especialmente nas suas obras mais tardias.

 

 

 

Pode-se dizer que sua importância está para literatura Russa de maneira equivalente ao papel de Willian Shakespeare para o teatro Inglês. É tido como iniciador da literatura Russa: inaugurou um novo modelo literário, sem se basear em heranças ou escolas literárias anteriores, posto que inexistentes na Rússia. Ele se inspirava na cultura e na poesia popular medieval russa.

 

O escritor nasceu em 6 de Junho de 1799 em Moscou. Seu pai era um jovem oficial da guarda, mal administrador, colérico e atormentado por dívidas. Sua mãe era neta de Ibraim Hannibal, conhecido como primeiro grande intelectual negro da história do ocidente. Este bisavó de Puchkin, em 1703, foi capturado e vendido ao sultão de Constantinopla, que por sua vez o deu de presente ao czar Pedro, o Grande. O imperador russo adotou Hannibal e o colocou na corte para viver como seu afilhado, posteriormente o enviado para Paris, onde conclui seus estudos, se formando em engenharia militar.

 

Hannibal conheceu em Paris Voltaire, Montesquieu e Diderot, entre outros pensadores, que o chamavam de “estrela negra do iluminismo”.

 

De modo que não é incorreto dizer que o maior dos poetas russos tinha descendência africana!

 

Na biblioteca do pai, Púchkin leu Plutarco, Homero, La Fontaine, Moliére, Corneille, Rancine, Diderot e Voltaire. Seguindo um costume da época, aprendeu francês por meio de seus preceptores, sendo patente a influência da cultura francesa na Rússia, especialmente no período de Catarina II (1762/1796), imperatriz com reputação de mecenas das artes e correspondente dos iluministas Voltaire, Diderot e D’Alambert.

 

 A FILHA DO CAPITÃO

 




“Não me porei a descrever nossa Campanha e o fim da guerra. Direi, brevemente, que a catástrofe chegou ao extremo. Passamos pelos povoados arrasados pelos amotinados e, a contragosto, tirávamos dos pobres habitantes o que tinham conseguido salvar. O governo estava paralisado por toda a parte: os latifundiários escondiam-se nas florestas. As corjas de bandidos faziam o mal por toda a parte; os chefes de destacamentos isolados puniam e perdoavam despoticamente; o estado de toda a ampla região em que o incêndio grassava era horrível... Que Deus não permita ver a revolta russa, insensata e implacável.”.

 

O romance “A Filha do Capitão” se passa no reinado de Katarina II (1762/1796), imperatriz russa que revitalizou o seu país mediante vitórias militares e êxitos em política externa, como a anexação da Crimeia e vitórias nos campos de batalha contra o Império Turco Otomano. Além disso, como já dito, esta Imperatriz valorizou as artes, literatura e a educação. O Museu Hermitage, que ainda pode ser visitado nos dias de Hoje em São Petersburgo, começou com a coleção de arte particular de Katarina II.  

 

O livro retrata fatos históricos da Rússia, mais precisamente a rebelião do Líder cossaco Iemelian Pugachev.

 

A história é contada em primeira pessoa por Piotr Andreivitch, um filho de militar oriundo da região de Simbirsk, que desde o ventre da mãe foi alistado como sargento de regimento da czarina.

 

Aos dezesseis anos, o protagonista é enviado para o exército, quando é remetido para uma remota fortaleza Russa, onde conhece Mária Ivanova, a filha do capitão e chefe militar do local. A história descreve o amor entre Piotr e Mária, cuja relação encontrará todo tipo de percalços e aventuras decorrente das guerras levadas a cabo contra levantes cossacos.

 

Ainda que a literatura de Púschkin esteja situada nos marcos do romantismo, o seu texto prima pela objetividade e realismo, que possibilitam ao leitor conhecer em detalhes os levantes camponeses russos, levadas a cabos por povos tártaros e quirques.

 

“Nesse momento, detrás de uma colina que se encontrava a meia vesta da fortaleza, assomaram novos grupos a cavalo, e logo se alastrou na estepe uma quantidade de homens armados de lanças e arcos. Entre eles, em um cavalo branco, ia um homem de cafetã vermelho, com sabre desembanhado na mão: era Pugatchov.”

 

Ao invadirem as fortalezas militares, os cossacos saqueavam as casas, enforcavam os líderes militares e faziam farras regadas a álcool. A população simples do local acabava por aderir aos revoltosos, seja pela coação seja pela simpatia que nutriam por camponeses que subvertiam o regime social baseado em diferenciações entre nobreza e povo.

 

O historiador britânico Eric Hobsbawm cunhou o conceito de “banditismo social”, que é plenamente aplicável ao levante cossaco descrito por Púschkin.

 

 Não são exatamente delinquentes comuns que cometem crimes para seu próprio proveito. O banditismo social é um fenômeno relacionado às sociedades camponesas pré-capitalistas e que costumam se acentuar em momentos de desagregação, como guerras, rivalidades locais relacionadas a disputas familiares, a fome ocasionada por má colheita ou mesmo o próprio desenvolvimento do capitalismo com a consolidação de Estados Nacionais e a modificação forçada do modos de vida milenares, incluindo a desintegração familiar.

 

Diante de tais condições objetivas o fenômeno do banditismo social tem o condão de surgir e, o que é particularmente interessante, aparece ao longo da história em todos os cantos do mundos.

 

Os cossacos de Pugatchov não são muito diferentes dos bandoleiros dirigidos por Lampião no Brasil. Sem uma consciência política mais apurada, se revoltam contra a elite local, e praticam saques, roubos, incêndios e assassinatos.

 

No romance, ainda que Pugarschov apareça como um vilão, existe uma certa simpatia entre o algoz e o protagonista, que luta nos exércitos de Katarina II, mas de alguma forma reconhece a nobreza e coragem de camponeses que se levantavam, ainda que inconscientemente, contra o regime da servidão.

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