sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

José de Anchieta (1534/1597)

 José de Anchieta (1534/1597)



Os primeiros jesuítas que chegaram ao Brasil vieram na esquadra que trazia o 1º Governo Geral à recém descoberta colônia portuguesa. Isso se deu no ano de 1548. A nomeação de Thomé de Souza ao Governo Geral respondia à necessidade da Coroa Portuguesa superar a fragmentação das capitanias hereditárias, restabelecer e reforçar o poder político dos portugueses no território recém descoberto da América, onde o abandono do período que marcou as primeiras décadas da colonização possibilitou o assalto do território pelos franceses e ingleses.

Daquele primeiro grupo de jovens padres oriundos do Colégio dos Jesuítas de Coimbra que aportou no Brasil se notabilizaram Manuel da Nóbrega e José de Anchieta.

Através das primeiras missões jesuíticas na região de São Vicente, buscaram levar a fé católica aos índios através do teatro, da poesia e da música. Anchieta foi o primeiro estudioso e autor de uma gramática tupi, utilizada por todas as demais missões pelo Brasil. Foi também fundador da cidade de São Paulo. Participou ativamente da defesa da Capitania de São Vicente e do Rio de Janeiro contra os franceses e os índios tamoios – e serviu em uma missão de paz em que se entregou voluntariamente como refém dos índios da tribo inimiga por sete meses.

José de Anchieta nasceu em 1534 na ilha das Canárias, àquela época pertencente à Espanha. Ainda criança, muda-se à Portugal, onde se candidata ao Colégio da Companhia de Jesus. A partir de 1550, esse colégio começa a mobilizar seus alunos para atuar como missionários na Colônia. Mesmo com graves problemas de saúde, Anchieta se engaja na missão que aqui aporta em 1553. Era então um jovem de dezenove anos de idade, cujas qualidades morais já o notabilizavam perante seus companheiros.

Em 1554, José de Anchieta e outros doze missionário fundam o Colégio de São Paulo, o que redundou no marco fundador da cidade de São Paulo. Nos primeiros dias daquele ano, um grupo de religiosos, dentre eles, Anchieta, sobe a Serra do Mar a pé e atinge o planalto, onde vão se instalar e constituir as primeiras missões.

No dia 24 de janeiro, os missionários prepararam um barracão no planalto paulista, ao lado de uma tribo indígena. A missa foi rezada no dia 25, dia do Apóstolo São Paulo, e por conta da data a cidade passou a ter o nome do santo. José de Anchieta em carta relata como tudo se deu:

- A 25 de janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos a paupérrima e estreitíssima casinha a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos a nossa casa.

A grande metrópole do Brasil começou, portanto, como um aldeamento indígena. E até hoje diversos cantos da cidade ecoam nomes que remontam à língua falada pelos índios: Itaquera, Mboi-mirim, Tucuruvi, Anhangabaú e Jabaquara são todos nomes que vêm do Tupi.

Imediatamente após a instalação do barracão e do colégio, os missionários passaram ao trabalho de catequese, batizando crianças e buscando levar instrução aos índios, por meio das aulas no Colégio de São Paulo, onde também se formavam novos jesuítas. A atividade missionária abrangia não só a conversão dos índios mas a evangelização dos colonos portugueses – em minoria, os brancos que se aventuravam à exploração da colônia assimilavam a cultura pagã dos nativos, o intercurso sexual irrestrito e até atos bárbaros de assassinato e guerra, demandando a intervenção moralizadora dos jesuítas.

No ano de 1557 os franceses instalam-se no Rio de Janeiro, por onde ficam durante dez anos. Só serão expulsos por Mem de Sá em 1567 quando é fundada a cidade do Rio de Janeiro. Naquele contexto de guerra de expulsão dos franceses, os índios tamoios foram recrutados pelos invasores para atacarem os portugueses, valendo-se de inimizades prévias. Os tamoios, instigados pelos franceses, pretendem atacar São Paulo. Os ataques acontecem em julho de 1562 e a defesa fica a cargo de João Ramalho ajudado por Tibiriçá, seu sogro e cacique tupiniquim.

Os jesuítas, inimigos da escravização dos índios, decidem intervir através de missão de paz junto aos índios Tamoios. São encaminhados dois pacificadores: Manuel da Nóbrega e o Padre Anchieta. É feito um acordo: duas lideranças dos Tamoios ficariam reféns dos portugueses e os dois padres da Companhia ficariam reféns dos Tamoios, tudo para a garantia de paz durante a trégua da Guerra. Por ser o maior conhecedor da língua Tupi, Anchieta era a pessoa certa para cumprir a missão.

Durante os sete meses que ficou com os Tamoios, Anchieta continuou seu trabalho de evangelizar. Esteve sujeito ao assédio e zombaria dos índios – o seu voto de castidade desafiava a imaginação das índias que se ofereciam voluntariamente ao sexo e eram pudicamente rejeitadas. Em determinado momento, um cacique o ameaça de morte, culpando-o pela ausência de caça nas armadilhas.  Anchieta fez uma promessa rogando por sua salvação dos índios: escreveu na areia da praia um longo poema dedicado à “Virgem Maria Mãe de Deus”. O jesuíta memorizou o poema para depois passa-lo no papel: ao todo 4172 versos em latim.

Após a expedição de paz junto aos Tapuias, Anchieta viaja à Bahia onde é ordenado padre aos trinta anos de idade. No ano de 1570 com a morte de Manuel da Nóbrega, Anchieta assume do Colégio dos Jesuítas do Rio de Janeiro. Entretanto, já em 1574 o jesuíta retorno à São Vicente para retomar o trabalho de evangelização dos tapuias . Continuaria sua vida de missionário, viajando por todo o país, até o ano da sua morte em 1597. Faleceu quando tinha 63 anos de idade e 44 anos prestando os seus serviços ao Brasil. Conta a história que milhares de índios acompanharam o enterro do padre caminhando por 90 km. 

Hoje José de Anchieta é conhecido como apóstolo do Brasil.