quarta-feira, 17 de junho de 2026

A Poesia de Vinícius de Moraes

 A Poesia de Vinícius de Moraes




 

Vinícius de Moraes teve como maior mérito traduzir e aclimatar a poesia clássica ao gosto popular. Ao reunir em torno de si as qualidades de poeta, músico e sambista, teve a capacidade de criar versos conhecidos por todos os brasileiros, dos mais humildes aos mais afortunados.

Que outro poeta em toda história da literatura portuguesa granjeou tamanha popularidade a tal ponto que os seus versos sejam imediatamente cantados por qualquer um do povo?

Qual de nós nunca teve contato com alguns desses versos?

“Tristeza não tem fim,

Felicidade sim...”

Ou

“Era uma casa, muito engraçada,

Não tinha teto, não tinha nada”.

Isso para não falar da canção “Garota de Ipanema” em parceria com Tom Jobim; trata-se literalmente da música brasileira mais conhecida do mundo de todos os tempos, ao lado de “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso.

Vinícius de Moraes remete, neste sentido, ao velho trovadorismo português, primeiro movimento literário em língua portuguesa que emerge na idade média, unindo a música e a poesia, para com isso introduzir a arte às massas camponesas, notadamente numa época em que o analfabetismo reinava de forma absoluta.

Mas essa popularização da poesia em Vinícius de Moraes deu-se de forma gradual, como consequência de uma evolução em longa duração dos seus escritos: começou como um poeta neosimbolista e daí transitou para os sonetos e temas do cotidiano, aproximando-se da música por meio da bossa nova e depois do samba, sem prejuízo dos seus versos infantis.

Pode-se dividir a poesia do escritor carioca em duas grandes fases. Que poderíamos resumir num trânsito entre o “sublime” (a busca pela transcendência) e a “apologia do cotidiano”.  

Uma primeira fase perdura entre os anos de 1933 até 1943, compreendendo os livros “O Caminho Para a Distância”; “Forma e Exegese”, “Ariana, A Mulher”; “Novos Poemas” e “Cinco Elegias”. São os trabalhos de juventude do escritor e têm um estilo bastante diferente dos versos populares do período subsequente.  Estão dentro da estética neosimbolista, de orientação mística e tendência declamatória. Há uma certa uniformidade no tema dos poemas circunscritos à figura da mulher, da natureza e da morte. Vão traduzir uma vontade de transcendência e de fuga da realidade: em um dos poemas, o amor é descrito como o “infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo”.

Os versos são mais extensos, há longas orações que tornam a leitura pouco acessível; essa forma será posteriormente abandonada em detrimento da linguagem concisa e coloquial que marca os poemas da fase subsequente.

Na juventude, Vinícius de Moraes estudou num colégio de jesuítas e essa referência religiosa se combina com o misticismo, um certo formalismo na linguagem e escapismo. Mas desde sempre, o tema da mulher se fará presente. Nessa primeira fase, muito relacionada com a experiência de fruir a beleza da natureza, com o sensualismo e com a  experiência da morte – em “Vida Vivida” por exemplo, o homem caminha para os braços da mulher como se caminhasse em direção à morte:

“O que é a mulher em mim senão o Túmulo

O branco marco da minha rota peregrina

Aquela em cujos braços vou caminhando para a morte

Mas em cujos braços somente tenho vida?”

A partir da década de 1940, podemos situar uma segunda grande fase da poesia de Vinícius de Morais.

São dessa época os livros “Poemas, Sonetos e Baladas”, “Antologia Poética” e “Orfeu da Conceição”. Há aqui o abandono do “sublime” (busca pela transcendência) em direção ao “elogio do cotidiano”. O tom declamatório é substituído pela concisão e pelo coloquialismo. As orações extensas são trocadas por sonetos e versos curtos, explorando mais as rimas e a musicalidade da poesia. Os temas se diversificam: além do amor e da mulher, aparece os acontecimentos das ruas como o carnaval (“Soneto do Carnaval” e “Soneto de Quarta Feira de Cinzas”), a reflexão filosófica em torno da vida (“Dia da Criação” e “O Testamento”) e até mesmo a crítica política e social (“Operário em Construção” e “Pátria Minha”).

Esse maior apelo ao cotidiano a partir da segunda fase vai transformando um poeta clássico no artista popular conhecido dos dias de hoje. O salto qualitativo na popularização da alta poesia deu-se através da introdução da música, por meio das parcerias musicais. Foram inúmeras essas parcerias, podendo-se citar as mais conhecidas delas : Tom Jobim, Baden Powel e Toquinho. O apoio da melodia e da música conferem à poesia a popularidade.  

Vinícius de Moraes, além de poeta, foi diplomata, jornalista, crítico de cinema e cantor.

Alçou a música popular brasileira à notoriedade mundial. Suas apresentações musicais pelo mundo afora foram sempre um grande sucesso de público.

Mas sempre foi negligente no exercício dos cargos burocráticos. Notoriamente boêmio, fumava, apreciada o uísque, apreciava a sesta depois do almoço e curtia “as tardes em  Itapuã”, cidade baiana onde morou e que inspirou a famosa canção em parceria com Toquinho. (https://www.youtube.com/watch?v=lWh6py31Dmc)

Também dedicou muito do seu tempo às mulheres: foi casado nove vezes. Ficou conhecido o seu poema “Receita de Mulher” que começa assim: “As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental.”.

Vinícius de Moraes afastado do Ministério das Relações Exteriores em 1968 no contexto do AI-5 enquanto fazia uma apresentação musical na Europa. Suspeitou-se na época que esse desligamento compulsório era produto de repressão política dos militares.

Entretanto, foi posteriormente esclarecido que a demissão teve origem no pouco interesse do poeta pelo trabalho no consulado – quando prestava serviços em Montevidéu, passava meses sem bater o ponto na Embaixada.

Isso hoje pouco importa. Vinícius de Moraes por meio da sua contribuição à poesia e à música popular brasileira foi o maior embaixador cultural do Brasil de todos os tempos.

Bibliografia

“Vinícius de Moraes” – Literatura Comentada – Ed. Abril (org. Carlos Felipe Moisés). 

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