A História da Primeira República
Regime federativo, abolição da
escravatura, separação da Igreja e do Estado, instituição do casamento civil,
regulamentação do trabalho industrial, reforma educacional: essas eram as
principais bandeiras defendidas pelos partidários do regime republicano no
Brasil, alçados ao poder através do golpe militar de 15 de Novembro de 1889.
A proclamação da república foi
conduzida pelos militares, tendo à frente Deodoro da Fonseca, o que se deu
através de um golpe palaciano, que quase não encontrou resistência por parte da monarquia. Os conspiradores tomaram de assalto o quartel general do Rio de
Janeiro e o Ministério de Guerra durante a madrugada do dia 15.11. Prenderam o
Visconde de Ouro Preto e alguns outros ministros.
Consta que o único ferido na
quartelada foi o Barão de Ladário, Ministro da Marinha, que desacatou a ordem
de prisão e foi baleado. Um incidente mais grave ocorreu no Maranhão com o
massacre de 17 de Novembro, quando tropas republicanas abriram fogo contra
cerca de 2.000 manifestantes; eram ex-escravos que compartilhavam a ideia de
que a queda da monarquia acarretaria a restauração da escravidão.
É de se lembrar que muitos
abolicionistas, a começar por José do Patrocínio, passaram a reivindicar a monarquia,
associado o fim a escravidão e a lei Áurea à Princesa Isabel. Antes do golpe do
dia 15 de novembro, foi desencadeada uma campanha procurando convencer o povo
de que a instauração da república iria acarretar a volta da escravidão. As
manifestações republicanas eram assaltadas pelos chamadas Guardas Negras, capoeiras
e alforriados recrutados com a finalidade de dissolver os comícios republicanos,
armados de navalhas e cacetes
Entretanto, pode-se dizer em linhas
gerais que o povo assistiu “bestializado” à Proclamação da República, para
utilizar a famosa frase do jornalista republicano Aristides Lobo. Ou seja, a
queda da monarquia produziu na população, ao menos num primeiro momento, um
misto de espanto e apatia.
Essa transição de regime
relativamente pacífica concretizava o plano do Partido Republicano criado em
1870 – a sua ala majoritária acreditava numa transição não violenta do regime
monárquico para a República, ou seja, a evolução natural dos acontecimentos
levaria o país a superar o II Império, seguindo leis históricas inflexíveis,
dentro do horizonte positivista. Os partidários de August Comte, especialmente
os militares brasileiros, acreditavam na ideia de uma evolução natural da
sociedade, regida por leis científicas, em direção ao progresso. Daí vem o lema
inscrito na bandeia nacional desde o advento da República: Ordem e Progresso.
Entretanto, os dois primeiros
governos militares da Primeira República, o de Deodoro da Fonseca (1889/1891) e
especialmente o de Floriano Peixoto (1891/1894), iriam se confrontar com a
reação violenta (e tardia) ao novo regime. Essa primeira fase da 1ª República
pode ser justamente caracterizada como o momento da consolidação do regime
republicano e o esmagamento/eliminação dos resíduos monárquicos.
Dentro das forças armadas brasileiras,
era a marinha a que tinha maiores vinculações com o regime monárquico. A sua
própria composição social a tornaria uma força mais elitista que o exército,
onde predominava a orientação republicana e positivista. Neste contexto ocorre
a Revolta da Armada, quando unidades da marinha se insurgem contra o fechamento
do congresso por Deodoro da Fonseca - na
segunda fase da revolta, já no governo de Floriano Peixoto, os rebeldes exigiam
não só a tomada do poder mas sugeriam a restauração da monarquia, ameaçando
inclusive bombardear a cidade do Rio de Janeiro.
Outro movimento que buscava desafiar
o novo regime republicano foi a Revolta de Canudos, conduzida por um líder
messiânico chamado Antônio Conselheiro. Isso ocorreu já no primeiro governo
civil da República de Prudente de Morais (1894/1898). O arraial surgiu em pleno
sertão nordestino, chegando a reunir 10 mil habitantes. O primeiro ato de
rebeldia se deu quando o Conselheiro, conduzindo o seu séquito de seguidores,
se insurgiu contra a obrigatoriedade de pagamento de impostos, após o advento
de uma lei de 1893, concedendo autonomia aos municípios. Mandou queimar em
praça pública a tábua de cobrança dos tributos e afirmava para quem quisesse
ouvir que a implantação do regime
republicano era uma invenção do demônio. Foram necessárias quatro expedições
militares para a destruição de Canudos, até o extermínio literal de toda a sua
população.
Os primeiros dez anos da República
Velha corresponderam, portanto, à fase de consolidação do novo regime e ao
desmantelamento da reação monárquica tardia. Uma segunda fase se iniciaria a
partir do governo de Campos Salles (1898–1902) com a instituição da política do
café com leite e a política dos governadores.
Ao contrário dos dias de hoje, a 1ª
Constituição Republicana (1891) previa um regime acentuadamente federalista. Se
hoje as lideranças dos estados são chamadas de “governadores”, na República
Velha eram “presidentes”. O grau de autonomia conferido aos estados era muito
maior, envolvendo até mesmo disputas territoriais entre distintos entes da
federação – da mesma forma que ocorrem as disputas de territórios entre
diferentes nações. Uma delas, envolvendo disputa de território entre os estados
do Paraná e Santa Catarina, foi a causa inicial de guerra civil, a chamada
Revolta do Contestado, que levou à morte mais de 10 mil pessoas.
O acentuado federalismo da República
Velha era alicerçado nas elites agrário-exportadoras que passaram a dirigir o
governo, após a fase inicial de implantação da República conduzida pelos
militares do exército. Num país ainda sem indústrias e com baixo
desenvolvimento urbano, a política era conduzida pelos fazendeiros do café,
pelos estancieiros do Rio Grande do Sul, pelos latifundiários de Minas Gerais e
pelos senhores de engenho do nordeste, esses últimos já em fase de franca
decadência.
O coronelismo que marca a política
local na República Velha revela o espírito de clã, muito bem evidenciado por
Oliveira Viana no seu estudo sobre as chamadas “populações meridionais do Brasil”.
A grande dimensão territorial do Brasil colabora para o isolacionismo das
fazendas. Tudo isso cria as condições para o fortalecimento de clãs familiares
que conduzem a política e a jurisdição de todo povo agregado aos Potentados
Rurais. Do escravo ao agregado, passando pelos trabalhadores livres e pobres,
lavradores e pequenos funcionários estatais, estão subordinados ao grande
senhor de terras. Aliás, é justamente a propriedade de terras e escravos que dá
prestígio social e não os títulos de nobreza, como na Europa.
É nesse contexto de afirmação do
poder civil, alicerçado na aristocracia rural, em detrimento dos precursores da
república no exército que se instituiu a política dos governadores, por meio do
qual o governo federal emprestava o seu apoio aos presidentes dos estados, que,
via coronelismo, garantiam eleições de parlamentares da base governista,
eliminando a oposição.
Essa circunstância fazia com que em
absolutamente todas as eleições da República Velha fossem alçados à vitória os
candidatos “oficiais” – a constituição daquela época não permitia a reeleição,
fazendo com que cada presidente buscasse afirmar o seu sucessor, dentro da
lógica do café com leite, ou seja, com o predomínio de São Paulo e Minas Gerais,
onde estão os setores mais fortes da elite agrária do país.
Uma terceira e última etapa da
Primeira República se evidencia em 1922, com a eleição de Arthur Bernardes. Estamos
diante da fase de decadência do regime. Aquele seria o ano do advento do
modernismo nas artes através da Semana da Arte Moderna de 1922. Naquele ano foi
fundado também o Partido Comunista Brasileiro. E já na posse do novo governo,
marcada pela grotesca fraude eleitoral que caracteriza a República Velha, haveria o martírio heroico de militares e um
civil na Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Iniciava-se, naquele momento, o
movimento tenentista, conduzido por militares de baixa patente, que almejavam
reformas que combatessem a fraude eleitoral, incluindo o voto secreto, e o fim
do predomínio absoluto das oligarquias agrárias na direção do governo.
No governo de Arthur Bernardes, o estado
de sítio, ao invés de ser a exceção, virou a regra. A ampla insatisfação contra
a República Velha já não se reduzia à oposição parlamentar, mas alcançava o
povo; partia do incipiente sindicalismo, conduzido por anarquistas e depois
pelos comunistas, mas principalmente pelos tenentes, os militares de baixa
patente. O fim da I Guerra Mundial colocava a necessidade do país se modernizar
e desenvolver a sua indústria; os centros urbanos cresciam, uma nova classe média
se fortalecia e a base social do regime político, alicerçada no coronelismo e nas
oligarquias agrárias, ia desmilinguindo. Mesmo nas artes, aparecia a necessidade de
renovação, com a assimilação, através dos modernistas, de novas tendências artísticas
europeias de vanguarda, e o rechaço ao academicismo e a rigidez formal que
marcavam a literatura e arte do século XIX.
Já no último governo da República
Velha, sob a direção de Washington Luiz, estavam criadas as condições para o
fim da ordem instituída no dia 15 de novembro de 1889. A fraude eleitoral que
conduziu Júlio Prestes à presidência seria apenas o estopim de uma crise que se
iniciara ainda em 1922. É neste contexto que muitos daqueles velhos tenentes
seriam alçados ao poder através da Revolução de 1930 encabeçada por Getúlio
Vargas.
Era o fim da República Velha.
BIBLIOGRAFIA
“Populações Meridionais do Brasil” –
Oliveira Viana – Edições do Senado Federal V. 27.
“História do Povo Brasileiro” - Org. Jânio Quadros e Afonso Arinos – J. Quadros
Editores Culturais S/A
Quadro: Juramento da primeira
Constituição republicana: Deodoro, Floriano, Prudente de Moraes (quadro de
Aurélio de Figueiredo, óleo sobre tela, Museu da República)

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