quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Marechal Cândido Rondon (1865/1958)

 Marechal Cândido Rondon (1865/1958)




 

A grande contribuição do Marechal Cândido Rondon ao Brasil diz respeito à constituição de uma nova política indigenista oficial, materializada em 1910 com a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI).  Esse órgão foi o precursor da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e tinha como finalidade prestar assistência aos índios e integrá-los à sociedade brasileira.  

A constituição dessa nova política oficial indigenista se baseou em princípios traçados por Rondon durante os anos em que trabalhou liderando expedições militares nos territórios do Mato Grosso, Rondônia e Acre, entre os anos de 1890 e 1990, com a finalidade de integrar o território nacional através de construção de linhas telegráficas. Contrariando a forma secular com que o Estado, desde os tempos da colônia, tratava as populações indígenas, Cândido Rondon sempre apostou numa orientação pacifista.

Sob a sua liderança, as expedições adotavam como método não revidar pela força da bala os atos de violência dos índios, os seus ataques de arco e flecha, perpetrados sob a proteção das matas cerradas – ele os via até como legítimos, dada a conduta dos brancos de tomarem as terras dos índios e empregarem-nos em trabalhos análogos à escravidão. Quando eram atacados pelos nativos, as colunas militares lideradas pelo Marechal retrocediam e até entregavam presentes, deixando-os expostos nessa retirada ordeira, como meio de conciliação.  

Ainda nos anos de 1900, quando ocorriam essas expedições, o Brasil tinha uma vasta porção do seu território ao norte completamente despovoado e desconhecido, sem qualquer linha de comunicação terrestre com os centros urbanos do litoral. As entradas oficiais, conduzida pelos militares, visava integrar o território nacional e manter o controle de nossas fronteiras, criando os primeiros contatos de brancos com índios, alguns ferozes, que ainda praticavam a antropofagia – o marechal se notabilizou por ter conseguido pacificar uma dessas tribos, a dos Nhambiquaras.

No que toca à relação dos brancos com as populações indígenas, Cândido Rondon adotara como lema: “morrer se necessário, matar nunca”.

Cândido Mariano da Silva nasceu em 05 de maio de 1865 na sesmaria do Morro Redondo, no Mato Grosso. O seu semblante físico revela a origem indígena, de parte materna. Seu pai era de origem mameluca, miscigenação de português e índio. Perdeu os pais ainda muito jovem e foi criado por um tio que o auxiliou nos estudos. Concluído o curso primário, aos dezoito anos de idade, se lança ao Rio de Janeiro para disputar uma vaga na prestigiosa  Escola Militar da Praia Vermelha no Rio de Janeiro. Consegue a aprovação e se notabiliza pela disciplina nos estudos, obtendo aprovação com distinção e em pouco tempo se habilitando ao Ensino Superior.

Cândido Rondon foi aluno de Benjamin Constant na Escola Militar, onde sofreu a influência do pensamento republicano e positivista. Assumiu o republicanismo e o positivismo como doutrina política, inclusive no que concerne às suas políticas indigenistas.

Nunca carta em que expos os seus princípios em torno da causa índios, afirmou: “a catequização dos indígenas, compreendendo a sua incorporação à nossa sociedade pela assimilação de nossa indústria, nossas artes, bem como pela adoção de nossos hábitos – que resultam das nossas crenças religiosas, no sentido positivo desse termo – julgo-a ser um problema inabordável no presente, em que por tantas crenças se repartem as preferências das populações. Como positivista e membro da Igreja Positivista do Brasil, estou convencido de que os nossos indígenas deverão incorporar-se ao Ocidente sem que se tente força-los passar pelo teologismo” (teologismo - uso indiscriminado e abusivo da teologia para a solução de todos os problemas.).

O Marechal participou diretamente dos eventos que conduziram ao quinze de outubro de 1889 e à proclamação da República no Brasil.

Mas seria através das expedições na esteira da construção dos telégrafos que Rondon forjaria as suas ideias sobre o índio brasileiro, através do contato direto, travando amizade com as lideranças indígenas, participando das cerimônias e rituais das tribos, sempre dentro de um viés conciliatório. Foram expedições que remetem às bandeiras paulistas, se não no que se refere à forma como tratava os índios, sem o uso da violência como os bandeirantes, ao menos no que toca às grandes extensões territoriais percorridas.

Em 39 de abril de 1891, quando da inauguração das novas estações telegráficas, a comissão liderada por Rondon percorrera 1574 km, passando pelo Estado do Mato Grosso até as fronteiras com a Bolívia e Paraguai. Enfrentavam a fome, o risco dos ataques dos índios, a malária e beribéri. Como meio de superar o vasto território fechado pela floresta, travava relação com os índios, convocando-os a auxiliarem picando as matas e fornecendo alimentos. Em contrapartida, auxiliava os índios na demarcação das suas terras. Por onde passava, a comissão liderada por Rondon deixava avisos públicos, dizendo que aqueles que tomavam as terras dos nativos estariam sujeitos à autoridade e punição do Estado.

Já ao final da vida, em 1955, recebeu do Congresso Nacional a insígnia de marechal. Nesse mesmo ano, ao antigo território de Guaporé foi dado o nome de Rondônia, onde hoje se situa o Estado de Rondônia, um dos últimos estados criados no país.

Cândido Rondon morreu em 19 de janeiro de 1958, aos 93 anos de idade.

Bibliografia: “Marechal Rondon – 1865/1958” – Coleção Grandes Personagens da Nossa História – (Org. Sérgio Buarque de Holanda) – Ed. Abril

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