segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Breves Notas Sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas

                       Breves Notas Sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas 


Resenha Livro – “Memórias Póstumas de Brás Cubas” – Ed. Iba Mendes.

“Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, a força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.”.

Existe uma forma tradicional de se dividir a obra de Machado de Assis em duas grandes fases.

Num primeiro momento, de acordo com essa teoria, seus romances estiveram circunscritos ao romantismo literário. E, com a publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), teria havido o grande salto qualitativo do escritor, quando foram estabelecidas as bases do realismo-naturalismo literário em terras brasileiras.

Essa forma tradicional de caracterizar a obra do escritor deve ser vista com alguma ressalva.

Vistos todos os livros, de conjunto, é possível perceber todas as tendências intelectuais e artísticas do seu próprio tempo. Tanto na condição de escritor, como em seu trabalho como crítico literário, deu contribuições para o romantismo, realismo, naturalismo, impressionismo, parnasianismo e simbolismo, sem se filiar a nenhuma destas escolas em particular, delas, por outro lado, extraindo elementos para a criação de um estilo próprio.

O próprio temperamento do escritor, expresso no seu trabalho como crítico de literatura, denota uma forte aversão a rótulos e roupagens literárias.

A sua crítica ao “Primo Basílio” (1878) de Eça de Queiroz, por exemplo, denota uma oposição à filiação indisfarçável do escritor português às tendências artística da época. Qualificou o livro como um “realismo exacerbado”, cuja protagonista Luísa parece pouco convincente, sem uma correspondência entre a sua inatividade perante a sua tragédia, a sua psicologia e a sua formação cultural.

Válido ainda mencionar que a forma tradicional de delimitar uma fase romântica e outra realista em Machado de Assis acaba desconsiderando que o escritor transitou por outros gêneros literários que não só o romance. Publicou poemas, peças de teatro, crítica literária e crônicas jornalísticas.

Aliás, iniciou sua carreira literária na imprensa como crítico de literatura a convite do poeta Francisco Otaviano no Correio Mercantil. Aos 21 anos, já conhecido nas rodas intelectuais cariocas, ingressou no “Diário do Rio de Janeiro” a convite de Quintino Bocaiúva onde deu prosseguimento ao trabalho de crítica. Seus dois primeiros livros, Crisálidas (1864) e Falenas (1870) são livros de poesia. Vale dizer que apenas chegou aos romances e aos contos, formas de expressão em que elevou ao mais alto grau os seus dons de escritor, de maneira relativamente tardia, ao publicar “Ressurreição” no ano de 1973, quando já era diretor assistente do Diário Oficial a convite de D. Pedro II.

Ou seja, a divisão entre “escritos de juventude” e “escritos de maturidade” não retrata bem o itinerário da produção do escritor fluminense, se considerando que os romances de caráter romântico já foram precedidos de todo um trabalho anterior de maturação intelectual.  

Em todo o caso, também não parecer haver dúvidas de que a literatura de Machado de Assis passa por dois momentos bem diferenciados.

Poderíamos falar de uma “fase de aprendizagem”, quando de fato predominam os elementos românticos e sua obra tem um caráter mais convencional e previsível.

Dessa primeira fase fazem parte os quatro primeiros romances do escritor fluminense: “Ressurreição” (1872), “A Mão e a Luva”   (1874), “Helena” (1876) e “Iaiá Garcia” (1876).

O divisor de águas entre a fase de maturação e o pleno vigor intelectual do artista deu—se, como dito, a partir de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881).

A partir daqui vemos aquele desencanto pessimista misturado com o humor e a ironia que se opõem às tendências de idealização da vida e do amor, que por sua vez marcaram as obras de juventude.

A pouco verossímil qualidade atribuída aos personagens românticos, que constantemente renunciam aos seus interesses individuais em detrimento de convicções morais ou exigências sociais, é substituída agora pelo desnudamento do homem dotado de fraqueza, incoerência e oportunismo, como evidenciado no protagonista Brás Cubas do Memórias Póstumas.  

Em ambas as fases, contudo, verifica-se um denominador comum: a arte deve exprimir a vida e em particular o universo moral dos indivíduos.

A arte exprimindo a vida seja para idealizá-la, como ocorre na dita “fase romântica” como para copiá-la na chamada fase “realista”.

Num primeiro momento, a descrição da vida tem fins nitidamente moralizantes, sem pretensão de desafiar as regras sociais vigentes e, de certa maneira, dentro de um conformismo político.

Num segundo momento, essa descrição da vida terá fins mais filosóficos, ao buscar desnudar as contradições do indivíduo e criticá-lo impiedosamente, autorizando, com isso, o questionamento das regras sociais vigentes. 

Neste marco, também se escuta bastante daqueles que estudam a obra de Machado de Assis um certo “apoliticismo” do escritor, que inclusive pode ser visto de uma forma negativa, especialmente nos romances da primeira etapa, que remontam ao universo burguês citadino, e, frequentemente,  desconsideram as desigualdades sociais e a principal chaga social da época: a escravidão.

Esse ponto de vista também é discutível.

Pode-se dizer que a história social está presente na narrativa machadiana mas via de regra é apenas captada como um reflexo do universo moral das individualidades – há, neste sentido, uma descrição incidental do Brasil do II Império e sua transição para a República, inclusive na sua chamada “fase romântica”.

Contudo, a partir de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, o convencionalismo romântico cede passo às experimentações da nova literatura realista, que trouxe consigo um propósito de crítica social subjacente à forma irônica com que desnuda os interesses que movem os personagens. Se antes do seu mais famoso livro, já havia incidentalmente alguma reflexão em torno da questão social, na fase realista, temas candentes do período como a abolição da escravatura (1888), a proclamação da república (1889) e a visão social de mundo de uma burguesia brasileira em sua fase embrionária já se tornam parte das preocupações do escritor.

Memórias Póstumas de Brás Cubas

O mais conhecido romance de Machado de Assis foi publicado em folhetins entre março e dezembro de 1880 na Revista Brasileira para depois ser lançado em livro no ano subsequente.

Trata-se de um livro de memórias não escrito por um autor defunto, mas por um defunto autor; Brás Cubas, depois de morto, para matar o tédio da eternidade, assume o papel de artista para escrever as suas memórias, com a pena da galhofa e a tinta da melancolia.

O protagonista sai da vida trôpego, como alguém que sai tarde de um espetáculo.

Morre aos 66 anos, solteiro e sem filhos, numa tarde chuvosa de sexta feira, acompanhado por apenas onze pessoas, a maior parte delas indiferentes ao morto.  

O discurso fúnebre, todo eloquente, foi feito por um “fiel amigo” a quem o falecido deitou vinte apólices. Apenas Virgília, uma amante que teve em vida, parece ter chorado a morte de Brás Cubas, porquanto, efetivamente, o falecimento de um solteirão de sessenta anos não se reveste exatamente da noção de um evento trágico.  

Os capítulos são curtos, recheados de reflexões filosóficas e considerações de passagens da vida, não necessariamente estruturadas em ordem cronológica. Há, já aqui, uma proposta de experimentação formal, ao criar um romance fora da convencional estrutura linear, quando suas histórias tinham um começo, meio e fim.

Outro traço da obra que particularmente destoa da tradição romântica diz respeito às qualidades morais do protagonista.

Em oposição a qualquer ato de heroísmo, Brás Cubas carece de iniciativa e força de espírito para promover grandes realizações. É, em todos os sentidos, uma pessoa medíocre, não num sentido propriamente pejorativo, mas por nele estarem ausentes as qualidades que o distinguissem dos demais.

Na juventude, apaixona-se por Marcela, uma meretriz espanhola, com quem gasta muitos contos de réis da mesada do pai, comprando joias caras. É encaminhado a força para Coimbra, onde faz o curso de Direito, sem aprender nada do que fosse as fórmulas e a retórica.

Em retorno ao Brasil, é preterido ao cargo de deputado e ao casamento de Virgília por Lobo Neves. Leva uma vida de luxo, sem trabalho, sustentando-se com a herança deixada pelo pai.

Ao final da vida, consegue chegar a Deputado e seu mandato replica a referida personalidade medíocre e pífia: sua melhor proposta de lei, fundamentada num discurso rebuscado, era o de alteração do uniforme dos membros da guarda nacional para economia da fazenda e maior conforto dos cidadãos recrutados.

Pelo menos, no final da história,  foi levado a um ato de maior ambição: criar o “Emplasto Brás Cubas”, um remédio para a cura do maior mal da humanidade, a hipocondria.  Antes de concretizar o sonho, foi acometido por uma pneumonia que o levou a morte.

Foi um anti-heroi romântico não só pela mediocridade, mas também por uma consciência errática.

Suas escolhas e o seu discernimento moral são regidos da mesma forma com que o burguês calcula os seus lucros.

Essa perspectiva se expressa na sua teoria das janelas: quando um desconforto moral lhe aflige, abre-se uma janela que justifica a falta anterior.

Num certo dia, encontra meia dobra de dinheiro e, movido mais pela vaidade do que por um dever moral, leva-o ao Banco do Brasil, onde é louvado pela modéstia.  

Num outro dia, encontra uma enorme soma de dinheiro abandonado na rua (desta vez, cinco contos de reis) e cria uma justificativa moral, transacionando consigo próprio, para justificar a não devolução dos cinco contos como fizera com a meia dobra:  

“De noite, no dia seguinte, em toda aquela semana pensei o menos que pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretária. Gostava de falar de todas as cousas, menos de dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; todavia não era crime achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da Providência. Não podia ser outra cousa. Não se perdem cinco contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos, apalpam-se a miúdo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim totalmente, numa praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem crime, nem desonra, nem nada que embaciasse o caráter de um homem. Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas de cavalo, como os ganhos de um jogo honesto e até direi que a minha felicidade era merecida, porque eu não me sentia mau, nem indigno dos benefícios da Providência.

 

-- Estes cinco contos, dizia eu comigo, três semanas depois, hei de empregá-los em alguma ação boa, talvez um dote a alguma menina pobre, ou outra cousa assim... hei de ver...

Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brasil. Lá me receberam com muitas e delicadas alusões ao caso da meia dobra, cuja notícia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado que a cousa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então a modéstia, -- e porque eu me encolerizasse, replicaram-me que era simplesmente grande.”.

Há, em Brás Cubas, a fisionomia completa da burguesia não aclimatada às condições de uma sociedade escravocrata como era o Brasil do século XIX.

Os lances heroicos da constituição da burguesia como nova classe dominante no bojo da Revolução Francesa, se expressa, aqui, na forma de uma paródia.

No seu livro “18 de Brumário”, ao tratar de Luís Bonaparte, Marx diz que a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Tomando-se como base Brás Cubas, um representante de uma burguesia extremamente minoritária, ociosa, que “não comprou o pão com o suor do rosto”, constituída num país agrário, amparada no modo de produção escravista, poderíamos dizer que essa “farsa” corresponde, aqui, a uma comédia.

Imagem: Machado de Assis, o segundo da esquerda para a direita, na fileira de baixo, junto com intelectuais e colegas, entre eles Joaquim Nabuco, em almoço oferecido pelo ministro plenipotenciário e o Prefeito Pereira Passos em 8 de setembro de 1906 no jardim do Clube dos Diários (Cassino Fluminense)

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

“Alves & Cia” – Eça de Queirós

 “Alves & Cia” – Eça de Queirós



“Alves & Cia” – Eça de Queirós

Resenha Livro - “Alves & Cia” – Eça de Queirós – Ed. Iba Mendes – Livro # 1

“Este foi um artista que completou dignamente o ciclo de sua rotação. Passou pelas revoltas acesas do demolidor, feriu os melindres da pátria, menoscabou lhe as crenças, achincalhou lhe as tradições, numa esfuziante saraivada de sarcasmo e desdém, e quando sentiu a vida declinar-lhe, interrompeu a obra admirável de panfletário e construiu essa torre de bronze, onde encastelou a velha alma lusa, tal qual ela se nos apresenta, com as suas grandezas e imperfeições.”. (Frota Pessoa – “Crítica e Polêmica” – 1902).

José Maria de Eça de Queirós nasceu em 25 de novembro de 1845 na Póvoa de Varzim em Portugal. Seu pai fora magistrado, formado em Direito em Coimbra e amigo pessoal de Camilo Castelo Branco, expoente do romancismo português.

Aos dezesseis anos Eça de Queirós também ingressou no curso de Direito em Coimbra, quando publicou seus primeiros trabalhos literários. Posteriormente, o escritor exerceria a advocacia e o jornalismo, até o ano de 1870, quando ingressou na administração pública na condição de gestor da vereança de Leiria. O fato é de destaque desde que Leiria é o local onde se passa a maior parte dos eventos de um dos seus livros mais conhecidos, “Crime do Padre Amaro”. (1875)

Em 1873, Eça de Queirós ingressa na carreira diplomática, exercendo cargos oficiais em Havana, Newcastle e Bristol. É a partir deste período que escreve os seus principais romances: “O Primo Basílio” (1878), “Os Maias” (1888), além do mencionado “Crime” de 1875.

Não seria exagero dizer que foi um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos, sendo certamente o ponto mais alto do romance em língua portuguesa do século XIX.

Foi precursor do realismo literário em língua portuguesa, movimento que propunha a superação da tradição romântica, a ela se opondo especialmente no que toca à idealização da realidade: a proposta no realismo é descrevê-la de forma objetiva, com a intenção crítica, o que em Eça de Queiroz se dá através da caricatura, ou seja, do humor. A caricatura, ademais, sempre vai realçar algumas caraterísticas mais peculiares do personagem de forma intencionalmente exagerada.

O marco inicial do realismo em Portugal se deu em torno da Questão Coimbrã.

Trata-se de uma batalha intelectual em torno da literatura que opôs de um lado a tradição romântica, com o seu conservadorismo, formalismo e academicismo e de outro lado jovens estudantes de Coimbra que salientavam a falsidade na forma romântica de percepção da realidade e propunham não só a mera descrição objetiva do mundo mas uma crítica que ensejasse transformações sociais. Esses jovens ficaram depois conhecidos como “Geração de 70”.

Fala-se em batalha intelectual por se tratar efetivamente de um conflito cuja dimensão ia além do problema literário: tratava-se de uma lide envolvendo o tradicionalismo/conservadorismo em oposição à modernização/liberalismo.

Ainda sob o impacto da Revolução Francesa e das revoluções burguesas subsequentes, os jovens escritores, particularmente Eça de Queiroz, tinham intenção de ridicularizar e demolir velhas tradições: desde o casamento e a fidelidade conjugal em “Primo Basílio”, passando ao falso moralismo do clero e a beatice carola de mulheres desocupadas em “O Crime do Padre Amaro.”.

A arte realista é a expressão literária do liberalismo burguês num momento histórico ainda impactado pela Revolução de 1879 e as revoluções burguesas europas subsequentes. Trata-se de uma época muito anterior ao completo estado de composição do liberalismo hoje visto.

De uma certa maneira, a própria evolução histórica de Portugal, país pioneiro na Europa na sua constituição de Estado Nacional desde a Revolução de Avis (1383), mas país retardatário no que diz respeito ao desenvolvimento do capitalismo industrial, especialmente se comparado a países como Inglaterra, França e Alemanha: este desenvolvimento histórico suis generis faria muito provavelmente com que a disseminação de ideias liberais e republicanas em Portugal ensejasse maiores conflitos diante da sobrevivência e resquício do misticismo religioso. Lá o peso da tradição fez com que a monarquia acabasse em 1910, mais de vinte anos depois do Brasil e mais de um século depois da França.

Dentre as principais características do realismo literário podemos citar a objetividade em oposição ao subjetivismo que informam as narrativas românticas; a crítica social com um intuito reformador, podendo se dizer que a proposta realista coincide com a visão social de mundo burguesa no contexto do capitalismo em sua fase industrial. Ênfase na descrição da vida cotidiana, de modo que os cenários passam também a remeter ao ambiente urbano, local onde se encontram os tipos sociais, desnudando especialmente os interesses pessoais que informam a conduta de padres, beatas, bacharéis, jornalistas, comerciantes etc.

Esta forma descritiva foge bastante da tendência da idealização romântica, dando uma feição mais humana e verdadeira aos personagens em suas relações. Por vezes, esse realismo está contaminado da visão de mundo liberal e o seu consectário mais evidente: o individualismo, sugerindo a percepção de que os personagens não se mobilizam para nada que não seja o seu interesse imediato.

A orientação dada às primeiras obras de Eça de Queiroz é a da crítica demolidora da sociedade arcaica de Portugal, naquilo que poderíamos chamar de uma “primeira fase” de sua evolução literária, que vai de 1870 e 1880.

Num segundo momento, o tom sarcástico com que trata sua pátria é substituído por uma maior condescendência e até mesmo ternura em relação a Portugal.

Essa reconciliação pode ser relacionada à maturidade do escritor, que abandona o tom combativo e militante de um jovem escritor da chamada “geração de 1970”, esta última forjado nos embates com a tradição romântica dentro da polêmica “Questão Coimbrã”.

Outra explicação para a reconciliação com o seu país poderia estar relacionada com as saudades da pátria de alguém que passou os últimos anos de sua vida exercendo atividade diplomática em países distantes de sua terra natal.  

A novela Alves & Cia (1925) num primeiro momento sugere pertencer à fase realista do escritor, na sua descrição burlesca de um caso de triângulo amoroso, resolvido da forma menos heroica possível. Contudo, uma leitura talvez mais detida da obra sugira se tratar de um texto de transição, se considerando o final peculiar do tal triângulo amoroso.

ALVES & CIA

“Alves & Cia” (1925) corresponde a um texto inacabado de Eça de Queiroz. Foi descoberto por seu filho José Maria de Eça de Queiroz e publicado postumamente em 1925 em conjunto com uma série de inéditos encontrados no espólio do escritor.

Consta que os originais foram encontrados numa “mala de ferro, onde dormiam há mais de um quarto de século”. De acordo como o filho do escritor, “eram cento e quinze folhas soltas, sem título nem menção de data, cobertas de uma letra sempre vertiginosa e, como sempre, sem um retoque nem uma correção”. A originalidade do texto, tanto no que diz respeito ao enredo quanto na forma como que expressa em tintas rápidas os tipos sociais de Lisboa, denotam o brilhantismo do escritor. Afinal, estamos tratando de um “rascunho de livro”, de natureza crua, sem as revisões que antecedem a publicação do original.

O livro trata de um caso de infidelidade conjugal, tal qual o “Primo Basílio” e de um amor ilícito resolvido de acordo com aquilo que era conveniente à luz do juízo inapelável da opinião, na forma do “Crime do Padre Amaro”.

Alves é sócio de uma casa comercial em Lisboa. Da empresa participa Machado, um amigo de longa data, que “tinha vinte e seis ano; e era bonito moço, com o seu bogodito louro, o cabelo anelado, e o ar elegante. As mulheres gostavam dele”.  

No dia do aniversário de quatro anos de casado, Alves decide sair mais cedo do trabalho e surpreender sua mulher com um colar de brilhantes.

Uma onda de felicidade o invadia naquele dia 09 de Julho enquanto se dirigia até sua residência, satisfeito com o presente e com o aniversário de casamento com Ludovina, até quando surpreende a mulher e o sócio juntos no sofá de casa, abraçados, em flagrante delito de traição.

A novela segue então tendo como motivo a reação do capitalista diante da descoberta da traição envolvendo sua mulher e seu sócio.

Seu orgulho ferido leva-o a expulsar Ludovina para a casa do pai. Seu sogro comparece na residência de Alves e arranja um bom acordo. Para não haver escândalo público pela saída repentina de Lulu do lar doméstico, ajustam uma viagem de recreação, quitada com o dinheiro de Alves, sem prejuízo de uma pensão mensal à mulher infiel. O arranjo pecuniário parece agradar o sogro de Alves e sua filha, num movimento em que se beneficiam de sua própria torpeza. Alves paga a viagem e a pensão, passando-se por ridículo.

Outro problema a ser resolvido seria como lidar com Machado, após a sua facada nas costas de Alves. Num primeiro momento, movido pelas emoções, o protagonista deseja resolver a situação num duelo. Tratava-se de uma forma comum de resolução de conflitos por desagravo à honra de um marido ofendido.

E, aqui, novamente, vemos a ironia incendiária de Eça de Queiroz.

Dentro da premissa realista, que se opõe a qualquer tipo de idealização, o tal duelo apenas desmoraliza Alves perante o leitor.

Isso porque nada há de heroico na sua resolução de se bater com Machado. Ele é a todo momento hesitante e recalcitrante em vingar-se da traição. Vê-se dividido por um lado pelo pueril medo da morte, e um medo ainda maior de ser riscado pela espada num duelo e passar meses de cama; e pelo outro pela necessidade de satisfação de um orgulho ferido pela traição.

Não há nem remotamente qualquer traço de heroísmo na conduta dos personagens.

Ao final, Alves e Machado convocam amigos de confiança de lado a lado para deliberarem de forma irrecorrível sobre a forma como deveria ser tratado o caso.

Esses amigos, chamados “testemunhas”, decidem passar panos quentes ao conflito, sugerindo que Alves “viu mais do que deveria” e que o duelo colocaria em risco as atividades comerciais da firma.

Importa, neste passo, relatar a reação pouco gloriosa (e hilária) de Alves ao descobrir que o duelo não ocorria: “uma sensação de paz e de serenidade invadia-o silenciosamente. Aquelas grandes afirmações do Nunes, um rapaz de tanta honra, quase o convenciam de que realmente não houvera senão um galanteio”.   

O triângulo amoroso é resolvido dentro do pragmatismo com que o burguês resolve os seus problemas comerciais.

Dentro do jogo de interesses pessoais, convinha ao Alves manter a sociedade com Machado, pelo bem da empresa e para não dar causa à maledicência, após a saída de Ludovina de sua casa. A situação do protagonista, abandonado no lar, sem o amparo da mulher na rotina diária, também prevaleceu sobre o seu orgulho de marido traído. As criadas passaram a desleixar da casa, deixar o ambiente sujo e fazer refeições intragáveis desde quando não estavam mais sendo supervisionadas pela mulher da casa. É mais cômodo, por todos estes motivos, esquecer a desavença.

A crítica burlesca com que os capitalistas resolvem as suas querelas de honra denota aquela primeira fase da obra de Eça de Queiroz, associada à critica demolidora da sociedade portuguesa.

Contudo, talvez estejamos de fato já diante de um texto de transição, pelo que toca o fim da novela.

Ao contrário de “O Crime do Padre Amaro” e “O Primo Basílio” o amor ilícito não dá causa a uma tragédia que reforça a conduta imoral dos personagens. Ao fim e ao cabo, passados alguns anos desde o fatídico dia da descoberta da traição, os sócios se reconciliam, ao menos sugerindo alguma condescendência pelo escritor em relação aos envolvidos no triângulo amoroso.