terça-feira, 18 de outubro de 2022

“A Descoberta da América Pelos Turcos” – Jorge Amado

 “A Descoberta da América Pelos Turcos” – Jorge Amado


 

Resenha Livro - “A Descoberta da América Pelos Turcos” – Jorge Amado – Ed. Record.

 

“A referência à descoberta da América vai por conta das comemorações atuais, onipresentes: hoje em dia não pode o pacato cidadão dar o menor passo, soltar o menor peido sem que lhe tombe sobre a cabeça o Quinto Centenário. Da Descoberta, como dizem os descendentes dos impávidos que descobriram o outro lado do mar, da Conquista exclamam os descendentes dos índios massacrados, dos negros escravizados, das culturas arrasadas à passagem de mercenários e missionários conduzindo a Cruz de Cristo e a pia batismal”.

 

Este pequeno romance (ou “romancinho” como o chamava Jorge Amado) foi escrito entre julho e outubro de 1991. A publicação partiu de um diretor de agência de relações públicas de uma estatal italiana que decidira comemorar o Quinto Centenário da Descoberta da América publicando um livro com três histórias de autoria de escritores do continente americano: um de língua inglesa, com o norte americano Norman Mailer; um de língua espanhola, com o mexicano Carlos Fuentes; e um de língua portuguesa, de autoria do escritor baiano.

 

O projeto consistia na edição do livro em quatro idiomas: italiano, inglês, espanhol e português, totalizando trezentos mil exemplares que seriam distribuídos gratuitamente aos viajantes das diversas companhias aéreas, entre abril e setembro de 1992, ano do Quinto Centenário, em todos os vôos entre a Itália e as três Américas.

 

É possível dividir a obra de Jorge Amado em duas grandes fases.

 

Os seus romances dos anos 1930/40 têm um caráter político partidário, expressando os tipos populares da Bahia em sua oposição às elites econômicas e aos poderes constituídos. É representativa desta fase o romance “Capitães de Areia” (1937), que retrata a vida de crianças moradoras de rua da cidade de Salvador, que sobrevivem de pequenos furtos e assaltos,  vivem em um trapiche na região portuária e experimentam logo cedo às vicissitudes da vida adulta, a descoberta da sexualidade, o embate com as forças policiais, a doença e a morte.

 

Jorge Amado aproximou-se da militância esquerdista no ano de 1932, por influência de Rachel de Queiroz e após ter contato com o grupo modernista da Bahia, denominado “Academia dos Rebeldes”, do qual fizeram parte o poeta Sosígenes Costa e o historiador Édson Carneiro, autor de uma das principais obras sobre o Quilombo dos Palmares. Por conta de sua literatura de protesto social, envolve-se na oposição ao Estado Novo, sendo preso no ano de 1942. Foi eleito deputado constituinte pelo PCB em 1946, até a proscrição do partido pelo governo Dutra, quando resolve exilar-se.

 

A segunda fase das obras de Jorge Amado perde o conteúdo proletário para, em troca, tratar dos costumes e da vida social da Bahia – da literatura ideológica passa ao pitoresco e ao regionalismo em obras como “Gabriela, Cravo e Canela” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”.

 

A “Descoberta da América Pelos Turcos” se situa claramente neste segundo conjunto de obras. O livro aborda a vinda de imigrantes tidos como “turcos” (na verdade árabes, sírios e libaneses) na região do sul da Bahia, quando se iniciava o ciclo do cacau, no início do século XX:

 

“Coronéis e jagunços em armas se matavam na disputa da terra, a melhor do mundo para a agricultura do cacau. Vindos de distintas plagas, sertanejos, sergipanos, judeus, turcos – dizia-se  turcos, eram árabes, sírios e libaneses -, todos eles brasileiros”.

 

Ibrahim Jafet, um turco dono de um bazar, após o falecimento de sua esposa Sálua, vê-se obrigado a arranjar alguém que conduzisse os negócios, até então presididos por sua mulher. Sua filha Adma, particularmente feia e antipática, assume a empresa da família, além de implicar insistentemente com Jafet, que, ao invés de trabalhar, prefere dedicar seu tempo no jogo de gamão, na pesca, no botequim e na casa de prostituição.

 

Dada a beligerância de Adma, Ibrahim Jafet se engaja em encontrar um marido para sua filha.

 

Pensava-se (com razão) que a rispidez da solteirona decorria da falta de um homem e da insatisfação sexual. A história, assim, gira em torno dos esforços dos turcos em angariarem um marido à Adma, possibilitando, assim, a paz a tranquilidade familiar:

 

“E por que não? Adma era parada dura, indigesta. Enfrentá-la exigia decisão, coragem  estômago de camelo. Alto, seco de corpo, musculoso, lanzudo, Adib assemelhava—se a um dromedário. A juventude e a cobiça, faziam-no capaz de mastigar palha e achar gostoso, de enfrentar solteirona velhusca e avinagrada, arrombar-lhe os tampos com deleite, levá-la ao desvario, à beatitude, à paz com a vida. Bem fodida, Adma deixaria de aporrinhar a humanidade.”.

 

O “romancinho” é representativo do Brasil, ao abarcar dentro da nacionalidade além de pretos, brancos e multados, os imigrantes, representados pelos turcos, que, aqui, logo assimilam hábitos típicos da região. Entre bares e casas de prostituição, entre o jogo e o ócio, entre o trabalho do comércio e nas fazendas de cacau, a história do povo de Itabuna (terra natal de Jorge Amado) é igualmente representativa de todo o Brasil. Dentro da perspectiva do modernismo, o regional remete ao universal e descreve a nação, de modo que a vida dos moradores do sul da Bahia diz respeito à hospitalidade geral com que o estrangeiro é assimilado ao Brasil e à facilidade com que o elemento exógeno abraça a cultura e os hábitos dos nacionais.

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