domingo, 28 de agosto de 2022

“A ESCRAVA ISAURA” DE BERNARDO GUIMARÃES

 “A ESCRAVA ISAURA” DE BERNARDO GUIMARÃES



 


Resenha Livro – “A Escrava Isaura” – Bernardo Guimarães – Editora Autêntica

 

Bernardo Guimarães é um escritor representativo do romantismo literário brasileiro.

 

Nascido em 1825 em Ouro Preto, teve como obras mais conhecidas “A Escrava Isaura” publicada em (1875), “O Seminarista” de 1872 e “O Garimpeiro” lançado também em 1872.

 

Parte das obras do nosso escritor é precursora do regionalismo literário que melhor se desenvolveria nos quadros do modernismo literário da década de 1930.

 

Certamente o regionalismo bernadiano ainda está inserido dentro da idealização romântica, também assinalados em livros de José de Alencar e Visconde de Taunay.

 

Monteiro Lobato, ele próprio um escritor tipicamente regionalista, que descreveu de forma realista a situação do caboclo do interior paulista, tecia críticas duras à esta idealização na obra de Bernardo Guimarães:

 

“Lê-lo é ir para o mato, para a roça, mas uma roça adjetivada por menina do Sião, onde os prados são ‘amenos’, os vergéis ‘floridos’, os rios ‘caudalosos’, as matas ‘viridentes’, os píncaros ‘altíssonos’, os sabiás ‘sonorosos’, as rolinhas ‘meigas’. Bernardo descreve a natureza como um cego que ouvisse cantar e reproduzisse as paisagens com o qualificativo surrado do mau contador[1].”.

 

Ainda que esta dura crítica tenha o seu fundamento, além de aplicável ao “romance de gabinete” de José de Alencar, deve-se assinalar que em Bernardo Guimarães há ao menos um início de uma de crítica social que, por esta razão, também tem o seu lastro na realidade.

 

A divinização da natureza e de alguns personagens não deixa de fazer com que os seus livros sirvam como fonte preciosa para se conhecer a realidade do Brasil do II Império.

 

Em “O Seminarista”, talvez o mais bem elaborado romance do escritor, temos uma contundente crítica à formação religiosa e ao celibato. E no mais famoso livro de Guimarães, “A Escrava Isaura”, uma denúncia da escravidão e de instituições jurídicas.

 

A ESCRAVA ISAURA




 

A história se passa no início do Reinado de Dom Pedro II, no ano de 1840. No município de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, se situa a fazenda de um grande e devasso Comendador. Típico latifundiário que, além dos filhos do casamento legal, mantinha relações com escravas, particularmente uma linda mulata, que fora mãe de Isaura.

 

A protagonista do romance era filha desta escrava, protegida do Comendador, e de um feitor português chamado Miguel. A mulher do Fazendeiro, desgostosa com a vida depravada do marido, acolheu Isaura e tratou-a como uma segunda filha:

 

“Isaura era filha de uma linda mulata, que fora por muito tempo a mucama favorita e criada fiel da esposa do comendador. Este, que, como homem libidinoso e sem escrúpulos, olhava as escravas como um serralho à sua disposição, laçou olhos cobiçosos e ardentes de lascívia sobre a gentil mucama. Por muito tempo resistiu ela às suas brutais solicitações; mas por fim teve de ceder às ameaças e violências. Tão torpe e bárbaro procedimento não pôde por muito tempo ficar oculto aos olhos de sua virtuosa esposa, que com isso concedeu mortal desgosto.

 

(...)

 

Eis aí debaixo de que tristes auspícios nasceu a linda e infeliz Isaura. Todavia, como para indenizá-la de tamanha desventura, uma santa mulher, um anjo de bondade, curvou-se sobre o berço da pobre criança e veio ampará-la à sombra de suas asas caridosas.”.

 

Sob o cuidado e proteção da mulher do Comendador, Isaura teve aulas de francês, italiano,  dança, música e desenho. Sua educação não se diferenciava das mulheres da alta sociedade, não obstante sua beleza incomum irritar a vaidade e o amor próprio daquelas donzelas.

 

Com a morte do Comendador, o seu filho Leôncio, igualmente libertino, assume a direção da Fazenda e passa a assediar Isaura, que com a altivez de uma mártir, busca se esquivar do estupro, fazendo-a chegar até a drástica resolução de uma fuga.

 

Ainda que seja inequívoca a crítica à escravidão neste romance, a defesa da liberdade do cativo não deixa de ser cercada de ambiguidades. O que chama atenção é que Isaura, apesar de escrava, é branca, além de educada com requinte e com uma moral que a coloca acima das demais mulheres do topo da pirâmide social.

 

A oposição à escravidão, talvez, não se refira necessariamente a um direito inato do ser humano mas à injustiça de um caso específico: Isaura não merece ser escrava por sua beleza de anjo e suas qualidades morais:

 

“- Por piedade, Isaura, não me martirize mais com essa maldita palavra que constantemente tens nos lábios. Escrava, tu!... Não o és, nunca o foste e nunca serás. Pode acaso a tirania de um homem ou da sociedade inteira transformar um ente vil e votar à escravidão aquela que das mãos de Deus saiu um anjo digno de respeito e adoração de todos? Não, Isaura; eu saberei erguer-te ao nobre e honroso lugar que o céu te destinou, e conto com a proteção de um Deus justo, porque protejo um dos seus anjos.”.

 

A idealização do amor, da mulher e da natureza, o tom abolicionista (ainda que limitado) e o estilo folhetinesco dão o tom deste que foi o mais conhecido romance de Bernardo Guimarães.

Seria necessário um desenvolvimento posterior da literatura brasileira para que fosse dado ao aos tipos populares um verdadeiro protagonismo, cujo ponto culminante se dará com o advento do modernismo literário.  



[1] Cit. BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. Editora Cultrix.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

O PAGADOR DE PROMESSAS DE DIAS GOMES

 O PAGADOR DE PROMESSAS DE DIAS GOMES




 

Resenha Livro - “O Pagador de Promessas” – Dias Gomes – Ed. Betrand Brasil

 

“O homem, no sistema capitalista, é um ser em luta contra uma engrenagem social que promove a sua desintegração, ao mesmo tempo que aparenta e declara agir em defesa de sua liberdade individual. Para adaptar-se a essa engrenagem, o indivíduo concede levianamente, ou abdica por completo de si mesmo. O pagador de promessas é a estória de um homem que não quis conceder – e foi destruído. Seu tema central é, assim, o mito da liberdade capitalista. Baseada no princípio da liberdade de escolha, a sociedade burguesa não fornece ao indivíduo os meios necessários ao exercício dessa liberdade, tornando-a, portanto, ilusória. Claro, há, também a intolerância, o sectarismo, o dogmatismo, que fazem com que vejamos inimigos naqueles que, de fato, estão do nosso lado. Há, sobretudo, a falta de uma linguagem comum entre os homens. Tudo isso tornando impossível a dignidade humana. São peças da engrenagem homicida.”.

 

A peça teatral “O Pagador de Promessas” foi apresentada pela primeira vez no dia 29 de julho de 1960, no Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo. A história inspirou um filme homônimo de 1962, dirigido por Flávio Rangel, que venceu o prêmio Palma de Ouro do Festival de Cannes.

 

A história se passa na cidade de Salvador/BA, tendo como protagonista Zé-do-Burro, um simples camponês que fez uma promessa para que Santa Bárbara curasse o seu burro, que esteve à beira da morte após um galho de árvore atingir a sua cabeça.

 

Como forma de cumprir a sua promessa, o protagonista entrega parte de suas terras a outros camponeses pobres e faz uma romaria carregando uma cruz de madeira por 60 léguas até a mais próxima Igreja que tinha aquela Santa como ícone.

 

Ocorre que o pedido feito por Zé do Burro foi feito num terreiro de candomblé para Iansã, esposa de xangô, que na mitologia do candomblé é associada à Santa Bárbara, "divindade católica que foi morta pelo pai ao se converter ao cristianismo. Após a execução de Bárbara, um raio atingiu a cabeça de seu progenitor. Pela razão do óbito, muitos equiparam a santidade católica ao poder que Oyá tem de controlar os ventos e raios[1]."

 

O sincretismo religioso, típico da cultura popular brasileira, não significa inexistência de preconceito ou tolerância: o padre associa a promessa a um ritual diabólico, impedindo Zé do Burro de ingressar na Igreja com a cruz. A negativa do padre dá origem ao tema da peça, que consiste na insistência do pagador de promessa cumprir o honrado.

 

Ainda que Zé seja movido pela crença no sobrenatural, a sua luta pelo cumprimento da promessa não parece artificial ao leitor/plateia: tudo o que ele deseja é honrar sua obrigação e ficar em paz com sua consciência. Não se trata de um fanático religioso, mas de um homem comum do povo.

 

Aos olhos profanos dos demais personagens que cruzam com o pagador de promessas, o Zé do Burro lhes parece ora um fanático, ora um político radical. Mais frequentemente lhes surge como o idiota protagonista do livro de Dostoiéviski. A bondade e pureza das intenções do herói  entra em choque com as demais personagens – a coletividade colabora com a tragédia do indivíduo.

 

Um repórter ao saber da história, busca explorar o caso para vender jornais. O galego, dono de um armazém, deseja que o pagador de promessas continue no seu intento, já que a repercussão de sua missão trouxe novos clientes ao vendedor. Bonitão, uma espécie de cafetão, se interessa pela mulher de Zé do Burro e, por isso, denuncia o protagonista para a polícia. Não obstante, Rosa, mulher do herói, deixa-se seduzir pelo cafetão, dada a seu inconformismo com a obstinação do pagador de promessas.

 

Como mencionado na nota introdutória do autor, esta peça não é exatamente uma denúncia da intolerância religiosa. Trata-se antes de uma crítica de toda uma engrenagem social constituída sob o falso conceito de liberdade.

 

O evidente tom político da peça teatral não cai no proselitismo e no panfletário: há, neste sentido, um paralelo interessante estre esta estória e os livros de Máximo Gorki.

 

O livro “A Mãe” do escritor russo narra o movimento revolucionário de 1905 e a consciência embrionária, de potencial revolucionária, do povo. Consciência ainda condicionada pelo obscurantismo de uma sociedade de tipo medieval. Quanto ao pagador de promessas, sua obstinação chega até o mesmo ponto embrionário de uma revolta ressentida, que ainda não se traduz numa consciência política revolucionária. Em outras palavras, o protagonista fica entre a a crítica e a resignação:

 

“ZÉ – Como...sei lá...mas tem de haver um jeito....tem de haver um jeito....(Desesperado). A vontade que eu tenho é de jogar uma bomba.... (inicia um gesto, como se atirasse uma bomba contra a igreja, mas o braço se imobiliza no ar, ele percebe a heresia que ia proferir, deixa o braço cair e ergue os olhos para o céu) Que Deus me perdoe! (...) Padre! Padre! Padre, eu andei sete léguas pra vir até aqui! Deus é testemunha! Ainda não comi hoje... e não vou comer até que abra a porta! Um dia, dois... um mês... vou morrer de fome na porta da sua igreja, padre!”.

 

O fim trágico de Zé do Burro consiste numa morte que não foi em vão. Tipos populares e capoeiras simpatizam com o protagonista e o apoiam contra a Igreja e a Polícia. Se identificam com a angústia do herói decorrente da injustiça e arbitrariedade. O povo carrega, ao final da peça, o caixão  do herói, como se carregassem uma bandeira de luta.

domingo, 14 de agosto de 2022

A Literatura de José Mauro Vasconcelos

 A LITERATURA DE JOSÉ MAURO DE VASCONCELOS



 


Resenha Livro – “Coração de Vidro” – José Mauro Vasconcelos – Ed. Melhoramentos.  

 

“Era uma vez.... uma fazenda imensa.

No pátio do fundo existia uma mangueira moça.

Pelos campos bem verdes e iluminados de sol, eram criados os cavalos de corrida.

Na mata, os passarinhos aprendiam a cantar livremente.

E o vento – e que vento doce! – balouçava os grandes milharais, que cada vez se tornavam mais cor de fogo.

No lago, os peixes vermelhos nasciam para mais tarde ser transportados aos aquários da cidade.

Tudo era lindo, muito lindo, na fazenda.

Mas os homens estragavam tudo....”.

 

O livro mais conhecido do escritor fluminense José Mauro Vasconcelos certamente é “Meu Pé de Laranja Lima” (1968), espécie de relato autobiográfico da infância do escritor, vivenciada na pobreza de um bairro de subúrbio de Bangu/RJ.

 

As fantasias de uma criança que cultiva amizade com uma árvore de laranjeira do seu quintal, o encanto produzido pela imaginação dos menores, que conseguem abstrair as dificuldades da vida e encará-la com ternura e alegria, certamente cativou leitores de todas as idades e fez de Vasconcelos um dos poucos escritores brasileiros que pôde viver exclusivamente dos direitos autorais de sua obra.   

 

Façanha que encontra poucos paralelos no Brasil: Érico Verissimo, Jorge Amado e Monteiro Lobato são outros poucos exemplos de escritores de uma literatura ao mesmo tempo popular, acessível a todos e de rara qualidade estética.

 

“Meu Pé de Laranja Lima” vendeu mais de dois milhões de exemplares, tendo sido publicada em 15 países. “Rosinha Minha Canoa” (1962) foi a primeira obra de sucesso do nosso escritor, que igualmente relata um mundo encantado e fantástico, em que o pescador mantém dialogo e afeto com sua canoa, cuja origem advém de uma árvore capaz de sentir e de se comunicar. E esta pequena novela “Coração de Vidro” teve mais de 650.000 exemplares vendidos, publicações em 10 países, traduções em três idiomas e mais de 70 edições no Brasil.

 

A popularidade de Vasconcelos, por diferentes razões, não se traduziu em reconhecimento na academia. Aliás, a própria figura do escritor representa a mas completa oposição a tudo o que se posse considerar acadêmico.

 

De família pobre, nascido no estado do Rio de Janeiro, aos nove anos mudou-se para a casa dos tios em Natal/RN. Chegou a frequentar dois anos do curso de medicina naquele estado, mas a sua personalidade irrequieta e aventureira o faria abandonar o curso e retornar ao Rio de Janeiro a bordo de um navio cargueiro, levando uma simples maleta de papelão como bagagem.

 

Nesta peregrinação pelo país a fora, trabalhou como treinador de boxe, carregador de bananas na capital do Rio de Janeiro, pescador do litoral fluminense, professor primário num núcleo de pescadores no Recife, garçom em São Paulo. Além de escritor, foi ator de cinema e modelo.

 

Em dado momento de sua vida, se junto aos irmãos Villas Bôas, sertanistas e indigenistas, enveredando-se pelo sertão da região do Araguaia, contando povos indígenas desconhecidos e cartografando terras. O contato direto com aqueles povos sertanejos e indígenas criaria as condições para o escritor fazer relatos minuciosos (ainda que sua arte realista enveredasse para o fantástico, com animais e árvores falantes) dos povos do Araguaia, no seu já mencionado “Rosinha Minha Canoa” e no romance “O Garanhão das Praias” – ambos tratando de missões “civilizatórias” junto aos povos sertanejos e indígenas dos rincões do país.

 

Este “Coração de Vidro” (1964) segue o mencionado estilo de fantasia e ternura, desta vez retratando em pequenos capítulos a vida e o triste fim de personagens (animais e plantes) de uma fazenda.

 

Num lugar onde havia pássaros cantando em liberdade, peixes nadando e se relacionando num açude, cavalos de corrida e uma mangueira denominada Candoca, que mantém um carinho especial por uma criança com quem conversa diariamente:

 

“Dona Candoca era uma árvore que morava no fundo do pátio da fazenda.

 

Sendo moça e cheia de sonhos, alegre e transbordante de ternura, trazia sempre a sua capa verde, e brilhante, para ser iluminada pelo Sol e prateada pelos fios da lua.”

  

A ganância dos homens rompe o equilíbrio da natureza. E a velhice faz com que a criança que antes se conectava com a fauna e a flora, esqueça, ao envelhecer, aquele mundo de sonhos que, contraditoriamente, era o mais próximo do “real”, assim entendido como a sintonia e pertencimento do homem na natureza.

 

A ganância faz com que o homem capture o passarinho, coloque-o numa gaiola, ou pesque o peixinho e coloque-o num aquário, para ser posteriormente vendido.  O cavalo de corrida passa a servir o homem em corridas de aposta, até quando, após o acidente, quebra sua pata e torna-se inutilizado, sendo, ao final, abandonado para ser comido pelos urubus. E Dona Candoca, que tinha tanto amor pela criança, se vê abandonada e esquecida quando o pequeno se transforma em adulto, deixar de viver o mundo de fantasia e esquece dos tempos que conversava com a mangueira.

 

A literatura de José Mauro de Vasconcelos tem aquela emotividade transbordante (frequentemente transmitida no texto na forma de “ternura”) que Sérgio Buarque de Holanda menciona como traço que distingue o brasileiro dos demais povos.

 

Há um evidente paralelo entre a missão literária do nosso escritor e o conceito de homem cordial do grande historiador autor de “Raízes do Brasil” (1936):

 

  “Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade — daremos ao mundo o “homem cordial” . A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar “ boas maneiras” , civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilidade há qualquer coisa de coercitivo — ela pode exprimir-se em mandamentos e em sentenças. Entre os japoneses, onde, como se sabe, a polidez envolve os aspectos mais ordinários do convívio social, chega a ponto de confundir-se, por vezes, com a reverência religiosa. Já houve quem notasse este fato significativo, de que as formas exteriores de veneração à divindade, no cerimonial xintoísta, não diferem essencialmente das maneiras sociais de demonstrar respeito. Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida do que o brasileiro” Holanda. S. B. Pg 146-7

 

Em tempos de (re)nascimento de um novo movimento nacionalista brasileiro, ainda embrionário, mas pulsante e em franco crescimento, a leitura deste escritor é meio certo para fazer com que nós brasileiros amemos cada vez mais o nosso país.

sábado, 6 de agosto de 2022

NOTAS SOBRE MONTEIRO LOBATO



 

“A sua roça, as suas personagens não são coisas de moça prendada, de menina de boa família, de pintura de discípulo ou discípula da Academia Julien: é da grande arte do nervoso, dos criadores, daqueles cujas emoções e pensamento saltam logo do cérebro para o papel ou para a tela. Ele começa com o pincel, pensando em todas as regras do desenho e da pintura, mas bem depressa deixa uma e outra coisa, pega a espátula, os dados e tudo o que ele viu e sentiu e sai de um só jato, repentinamente, rapidamente.”. (LIMA BARRETO – Problema Vital)

 

“Entre todos os que atualmente fazem parte da vida literária do país, Lobato tem sido, sem dúvida alguma, aquele que mais intensamente a vem agitando. Não pelo simples ruído que oculta, em regra, a ausência de sentido e de valor, mas pela força de uma atividade que se desdobra em numerosas faces, em todas elas tendo oferecido o autor de Urupês uma contribuição digna de apreço, que sempre alcançou resultados expressivos, senão notórios, pelo menos fonte de sugestões e origem de debates calorosos e fecundos.” (NELSON WERNECK SODRÉ – Lobato).

 

“Monteiro Lobato escritor, Monteiro Lobato pensador. Monteiro Lobato empreendedor e realizador: sob qualquer desses aspectos, o grande morto apresenta facetas inúmeras que merecem, como têm merecido, análise e a justa homenagem que todos lhe tributam. Mas, há ainda mais em Monteiro Lobato, alguma coisa que o sintetiza melhor que outro traço qualquer de sua invulgar e tão rica personalidade: refiro-me a Monteiro Lobato, homem de caráter” (CAIO PRADO JÚNIOR – Monteiro Lobato).

 

José Bento Renato Monteiro Lobato desde criança desenvolveu a atividade literária. Nascido na cidade de Taubaté/SP em 18 de abril de 1882, ainda na escola se dedicava a escrever histórias e criar jornais.

 

É provável que seu trabalho mais conhecido do público tenha sido o da literatura infantil, a criação da Turma do Sítio do Pica Pau Amarelo, da boneca Emília, dos primos Narizinho e Pedrinho, do Visconde de Sabugosa, da Dona Benta e da Tia Nastácia.

 

Além da literatura infantil, Monteiro Lobato produziu artigos, críticas literárias, crônicas e um único romance, denominado o “Presidente Negro”, publicado em 1926.

 

Também teve participação pessoal em movimentos políticos nacionalistas, em especial na defesa na nacionalização do Petróleo – neste caso foi pioneiro, tendo sido preso em março de 1941 durante o Estado Novo por ter enviado carta a Getúlio Vargas e ao general Góis Monteiro, chamando atenção para  “displicência do sr. Presidente da República, em face da questão do petróleo no Brasil, permitindo que o Conselho Nacional do Petróleo retarde a criação da grande indústria petroleira em nosso país, para servir, única e exclusivamente, os interesses do truste Standard-Royal Dutch”.

  

É certo que a leitura de parte de suas obras pode surpreender um leitor desatento, que não relacione algumas ideias tidas como racistas com as teses sociológicas então em voga no país entre os fins do século XIX e o início do século XX.

  

Mais recentemente, houve mesmo quem propusesse censurar os livros Monteiro Lobato por conta de suas teses raciais.

 

O anacronismo presente neste tipo de análise é inequívoco e dispensa maiores comentários.

 

Deixar de ler Monteiro Lobato significa renunciar ao contato com a história das ideias do Brasil num contexto em que as teses de eugenia, as críticas da miscigenação e as propostas do embranquecimento da população eram parte do vocabulário do pensamento social, de Nina Rodrigues à Sílvio Romero, de Euclides da Cunha à Joaquim Nabuco.

 

Sim, o mesmo líder abolicionista, frequentemente lembrado por suas campanhas em prol da libertação dos escravos, refutava no parlamento a vinda da imigração chinesa (“amarelos”) por considerações puramente raciais. Joaquim Nabuco, amigo íntimo de Machado de Assis, censurou o crítico literário José Veríssimo quando, após a morte do Bruxo do Cosme Velho, em artigo, Veríssimo chamava atenção para o fato de que nosso maior romancista fora da cor preta.  Na opinião de Joaquim Nabuco, a despeito do fenótipo do falecido escritor, a sua alma era branca e o artigo de Veríssimo depunha contra o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas.  

 

Fato é que o pensamento eugênico era tipo como ciência pelo menos desde 1870 até os anos de 1930.

  

No começo do século XX as campanhas sanitaristas ajudam as elites intelectuais a abandonarem, de forma gradual, os critérios de análise social baseadas exclusivamente na raça. O atraso do país paulatinamente deixa de ser relacionado ao problema da raça e passa a ser explicado pela (falta de) saúde e salubridade.

  

Importante papel foi cumprido por Gilberto Freire no seu “Casa Grande e Senzala” (1933), dizendo que os problemas do brasileiro não diziam respeito à raça ou à miscigenação envolvendo negros, índios e portugueses,  mas à salubridade, à saúde, à alimentação e à higiene.

 

Esta mudança de posicionamento se expressou também no escritor paulista Monteiro Lobato: quando criou o seu personagem Jeca Tatu, atribuía o atraso do caipira à degeneração racial. Já em 1918, Monteiro Lobato em prefácio da obra faz a sua autocrítica, já reconhecendo a predominância das doenças e da insalubridade no temperamento de Jeca Tatu.

 

Quem lê com atenção o “Casa Grande e Senzala” observa que a refutação das teses eugenistas e raciais em Gilberto Freire dizia debates que ainda estavam na ordem do dia. Casa Grande e Senzala e sua proposta de explicação da especificidade da formação nacional Brasileira envolvia novidades no campo metodológico, buscando chaves explicativas na cultura, na sexualidade, na vida íntima e nos hábitos de alimentação e higiene.

 

Ora, lendo os contos de Monteiro Lobato redigidos entre anos 1900-1920 verifica-se que o escritor Paulista foi nada menos do que um pioneiro na superação de teses puramente raciais na explicação da realidade nacional.

 

Sua autocrítica sobre as considerações raciais do Jeca Tatu data de 1916, quase 20 anos antes da publicação do “Casa Grande e Senzala”. Em outras palavras, Monteiro Lobato, ao contrário do propagado, tinha uma opinião avançada para a época sobre o problema racial.

 

Válido lembrar que o grande escritor carioca Lima Barreto, desprezado em vida por sua origem social e racial, injustamente não reconhecido em vida, teve o seu primeiro livro publicado por....Monteiro Lobato.

 

Conforme texto de Beatriz Resende[1]:

 

“Monteiro Lobato teve um papel de fundamental importância na vida e na obra de Lima Barreto, não só como estímulo intelectual em momentos em que o escritor desanimava com o pouco sucesso de sua literatura, mas na divulgação e permanência da obra do romancista. Foi pela decisão de Lobato editor que Lima Barreto publicou um romance, pela primeira vez, impresso no Brasil. Ao contrário do que acontecera com “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, impresso em Portugal às custas do próprio autor, Monteiro Lobato publica “Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá” em São Paulo. E, ainda que a edição saia “matadinha”, como diz Lobato, Lima Barreto, pela primeira vez é pago por seu trabalho como romancista.”.   

 

Outro ponto cercado de incompreensão sobre a vida do nosso escritor diz respeito a sua suposta oposição ao movimento artístico modernista, que se expressou no seu artigo crítico à Anita Malfatti. Não são poucos os que entendem haver uma oposição entre Lobato e as inovações artísticas cujo ponto precursor foi a Semana de Arte Moderna de 1922.

 

Em primeiro lugar, temos que Lobato e sua literatura realista, tratando das condições de vida dos matutos do interior paulista, certamente é uma precursora do modernismo literário – existe um evidente fio condutor entre “Urupês” e, por exemplo, os romances regionalistas da chamada geração de 1930, escritos por Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Amado Fontes, etc.

 

 Tanto é assim, que o primeiro intelectual que foi convidado a ser patrono da Semana de Arte Moderna de 1922 foi ninguém menos que Lobato, que recusou o convite. Durante a exposição de São Paulo, Malffalti sequer estava no Brasil, mas na Europa, só tendo retornado ao Brasil em 1928.

   

Em todo o caso, o realismo presente nos contos de Monteiro Lobato de uma certa maneira era e versão literária de quadros do pintor naturalista Almeida Júnior. Fazia sentido, portanto, as críticas aos aspectos formais da arte de Malffati, que neste ponto não eram brasileiras, mas europeias, baseadas nas vanguardas artísticas dos anos de 1920/30.

 

Ninguém melhor do que Oswald de Andrade, pioneiro daquele movimento de vanguarda, para desmentir a falsa oposição de Lobato às propostas de uma arte não parnasiana, com forte protagonista de tipos populares. Diferenças sim, oposição não. Veja-se o texto “Carta a Monteiro Lobato”:

 

“Hoje, passados vinte e cinco anos (do lançamento de Urupês), sua atitude aparece sob o ângulo legitimista da defesa da nacionalidade. Se Anita e nós tínhamos razão, sua luta significava a repulsa ao estrangeirismo afobado de Graça Aranha, às decadências lustrais da Europa podre, ao esnobismo social que abria os seus salões à Semana. E não percebia você que nós trazíamos nossas canções, por debaixo do “futurismo”, a dolência e a revolta da terra brasileira. Que as camadas mais profundas, as estratificações mais perdidas da nossa gente iam ser resolvidas por essa “poesia de exportação” que eu proclamava no Pau Brasil. E que dela sairia aquele negro de Jorge Amado saudando, no cais da Bahia, todas as raças humanas”. (Oswald de Andrade). 

 

A literatura ficcional para adultos de Monteiro Lobato consiste  quatro livros de contos e um romance.

 

Os contos foram reunidos em “Urupês” de 1918, “Cidades Mortas”, de 1919, “Negrinha”, de 1920 e “O Macaco que se fez homem”, de 1923.

 

Seus primeiros livros de conto tem um caráter de literatura regionalista, tratando das condições de vida do caipira do interior paulista, a realidade da fazenda de café, particularmente descrita em sua fase de descenso nos contos de “Cidades Mortas”. Já o seu último livro de Contos, “O Macaco que se fez homem” e seu romance “O Presidente Negro” de 1926 têm um caráter mais experimental, inclusive mediante algo parecido com a ficção científica. É o caso também do seu único romance publicado, o mencionado "Presidente Negro", que trata de do futuro racial da humanidade.

 

A história é narrada por Ayrton Lobo e se passa no ano de 1924. O narrador é um humilde empregado de rua de uma casa comercial e alcança, com muita economia, o  sonho de possuir um veículo próprio Ford. Ayrton sofre um acidente com o veículo e é salvo pelo professor Benson que o acolhe em seu castelo e faz do hóspede seu confidente particular. O professor fez uma descoberta até então desconhecida por todo o mundo: o “porviroscópio” uma máquina que possibilita visualizar o futuro. Por esta máquina fantástica, o narrador é levado a conhecer a “guerra de raças” ocorrida nos EUA dos anos de 2228, quando as eleições presidenciais pela primeira vez na história dão à vitória a um candidato negro, o presidente Jim Roy.

 

O macaco que se fez homem contém igualmente histórias fantásticas como “Era no paraíso...” que narra a origem do homem, que se diferencia do macaco quando um destes animais leva um tombo, bate a cabeça e desenvolve o que se pode chamar de inteligência: passa a vacilar antes de enfrentar situações de perigo no meio natural, perde o frescor das antigas preocupações de um animal no estado de natureza, ainda que se relacione com uma macaca, passa a desejar outras fêmeas de sua espécie.

 

Neste, como nos demais contos, o humor aparece não raro associado ao trágico. A descrição naturalista da realidade do interior paulista, o relato de causos, histórias rápidas e que prendem a atenção do autor, certamente são aspectos da literatura que faria com que suas obras de adulto fossem tão populares quanto as suas histórias infantis.