“A sua roça, as suas personagens não
são coisas de moça prendada, de menina de boa família, de pintura de discípulo
ou discípula da Academia Julien: é da grande arte do nervoso, dos criadores,
daqueles cujas emoções e pensamento saltam logo do cérebro para o papel ou para
a tela. Ele começa com o pincel, pensando em todas as regras do desenho e da
pintura, mas bem depressa deixa uma e outra coisa, pega a espátula, os dados e
tudo o que ele viu e sentiu e sai de um só jato, repentinamente, rapidamente.”. (LIMA BARRETO – Problema Vital)
“Entre todos os que atualmente fazem
parte da vida literária do país, Lobato tem sido, sem dúvida alguma, aquele que
mais intensamente a vem agitando. Não pelo simples ruído que oculta, em regra,
a ausência de sentido e de valor, mas pela força de uma atividade que se
desdobra em numerosas faces, em todas elas tendo oferecido o autor de Urupês
uma contribuição digna de apreço, que sempre alcançou resultados expressivos,
senão notórios, pelo menos fonte de sugestões e origem de debates calorosos e fecundos.”
(NELSON WERNECK SODRÉ – Lobato).
“Monteiro Lobato escritor, Monteiro
Lobato pensador. Monteiro Lobato empreendedor e realizador: sob qualquer desses
aspectos, o grande morto apresenta facetas inúmeras que merecem, como têm
merecido, análise e a justa homenagem que todos lhe tributam. Mas, há ainda
mais em Monteiro Lobato, alguma coisa que o sintetiza melhor que outro traço
qualquer de sua invulgar e tão rica personalidade: refiro-me a Monteiro Lobato,
homem de caráter” (CAIO PRADO JÚNIOR – Monteiro Lobato).
José Bento Renato Monteiro Lobato
desde criança desenvolveu a atividade literária. Nascido na cidade de
Taubaté/SP em 18 de abril de 1882, ainda na escola se dedicava a escrever
histórias e criar jornais.
É provável que seu trabalho mais
conhecido do público tenha sido o da literatura infantil, a criação da Turma do
Sítio do Pica Pau Amarelo, da boneca Emília, dos primos Narizinho e Pedrinho,
do Visconde de Sabugosa, da Dona Benta e da Tia Nastácia.
Além da literatura infantil, Monteiro
Lobato produziu artigos, críticas literárias, crônicas e um único romance,
denominado o “Presidente Negro”, publicado em 1926.
Também teve participação pessoal em
movimentos políticos nacionalistas, em especial na defesa na nacionalização do
Petróleo – neste caso foi pioneiro, tendo sido preso em março de 1941 durante o
Estado Novo por ter enviado carta a Getúlio Vargas e ao general Góis Monteiro,
chamando atenção para “displicência do sr. Presidente da
República, em face da questão do petróleo no Brasil, permitindo que o Conselho
Nacional do Petróleo retarde a criação da grande indústria petroleira em nosso
país, para servir, única e exclusivamente, os interesses do truste
Standard-Royal Dutch”.
É certo que a leitura de parte de
suas obras pode surpreender um leitor desatento, que não relacione algumas
ideias tidas como racistas com as teses sociológicas então em voga no país
entre os fins do século XIX e o início do século XX.
Mais recentemente, houve mesmo quem
propusesse censurar os livros Monteiro Lobato por conta de suas teses raciais.
O anacronismo presente neste tipo de
análise é inequívoco e dispensa maiores comentários.
Deixar de ler Monteiro Lobato
significa renunciar ao contato com a história das ideias do Brasil num contexto
em que as teses de eugenia, as críticas da miscigenação e as propostas do
embranquecimento da população eram parte do vocabulário do pensamento social,
de Nina Rodrigues à Sílvio Romero, de Euclides da Cunha à Joaquim Nabuco.
Sim, o mesmo líder abolicionista,
frequentemente lembrado por suas campanhas em prol da libertação dos escravos,
refutava no parlamento a vinda da imigração chinesa (“amarelos”) por
considerações puramente raciais. Joaquim Nabuco, amigo íntimo de Machado de
Assis, censurou o crítico literário José Veríssimo quando, após a morte do
Bruxo do Cosme Velho, em artigo, Veríssimo chamava atenção para o fato de que
nosso maior romancista fora da cor preta. Na opinião de Joaquim
Nabuco, a despeito do fenótipo do falecido escritor, a sua alma era branca e o
artigo de Veríssimo depunha contra o autor de Memórias Póstumas de Brás
Cubas.
Fato é que o pensamento eugênico era
tipo como ciência pelo menos desde 1870 até os anos de 1930.
No começo do século XX as campanhas
sanitaristas ajudam as elites intelectuais a abandonarem, de forma gradual, os
critérios de análise social baseadas exclusivamente na raça. O atraso do país
paulatinamente deixa de ser relacionado ao problema da raça e passa a ser
explicado pela (falta de) saúde e salubridade.
Importante papel foi cumprido por
Gilberto Freire no seu “Casa Grande e Senzala” (1933), dizendo que os problemas
do brasileiro não diziam respeito à raça ou à miscigenação envolvendo negros,
índios e portugueses, mas à salubridade, à saúde, à alimentação e à
higiene.
Esta mudança de posicionamento se
expressou também no escritor paulista Monteiro Lobato: quando criou o seu
personagem Jeca Tatu, atribuía o atraso do caipira à degeneração racial. Já em
1918, Monteiro Lobato em prefácio da obra faz a sua autocrítica, já
reconhecendo a predominância das doenças e da insalubridade no temperamento de
Jeca Tatu.
Quem lê com atenção o “Casa Grande e
Senzala” observa que a refutação das teses eugenistas e raciais em Gilberto
Freire dizia debates que ainda estavam na ordem do dia. Casa Grande e Senzala e
sua proposta de explicação da especificidade da formação nacional Brasileira
envolvia novidades no campo metodológico, buscando chaves explicativas na
cultura, na sexualidade, na vida íntima e nos hábitos de alimentação e higiene.
Ora, lendo os contos de Monteiro
Lobato redigidos entre anos 1900-1920 verifica-se que o escritor Paulista foi
nada menos do que um pioneiro na superação de teses puramente raciais na explicação
da realidade nacional.
Sua autocrítica sobre as
considerações raciais do Jeca Tatu data de 1916, quase 20 anos antes da
publicação do “Casa Grande e Senzala”. Em outras palavras, Monteiro Lobato, ao
contrário do propagado, tinha uma opinião avançada para a época sobre o problema
racial.
Válido lembrar que o grande escritor
carioca Lima Barreto, desprezado em vida por sua origem social e racial,
injustamente não reconhecido em vida, teve o seu primeiro livro publicado
por....Monteiro Lobato.
Conforme texto de Beatriz Resende[1]:
“Monteiro Lobato teve um papel de
fundamental importância na vida e na obra de Lima Barreto, não só como estímulo
intelectual em momentos em que o escritor desanimava com o pouco sucesso de sua
literatura, mas na divulgação e permanência da obra do romancista. Foi pela
decisão de Lobato editor que Lima Barreto publicou um romance, pela primeira
vez, impresso no Brasil. Ao contrário do que acontecera com “Triste Fim de
Policarpo Quaresma”, impresso em Portugal às custas do próprio autor, Monteiro
Lobato publica “Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá” em São Paulo. E, ainda que
a edição saia “matadinha”, como diz Lobato, Lima Barreto, pela primeira vez é
pago por seu trabalho como romancista.”.
Outro ponto cercado de incompreensão sobre a vida do nosso
escritor diz respeito a sua suposta oposição ao movimento artístico modernista, que se expressou
no seu artigo crítico à Anita Malfatti. Não são poucos os que entendem haver
uma oposição entre Lobato e as inovações artísticas cujo ponto precursor foi a
Semana de Arte Moderna de 1922.
Em primeiro lugar, temos que Lobato e sua literatura realista,
tratando das condições de vida dos matutos do interior paulista, certamente é
uma precursora do modernismo literário – existe um evidente fio condutor entre
“Urupês” e, por exemplo, os romances regionalistas da chamada geração de 1930,
escritos por Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Amado Fontes, etc.
Tanto é assim, que o primeiro intelectual que foi convidado a ser
patrono da Semana de Arte Moderna de 1922 foi ninguém menos que Lobato, que
recusou o convite. Durante a exposição de São Paulo, Malffalti sequer estava no
Brasil, mas na Europa, só tendo retornado ao Brasil em 1928.
Em todo o caso, o realismo presente nos contos de Monteiro Lobato
de uma certa maneira era e versão literária de quadros do pintor naturalista
Almeida Júnior. Fazia sentido, portanto, as críticas aos aspectos formais da
arte de Malffati, que neste ponto não eram brasileiras, mas europeias, baseadas
nas vanguardas artísticas dos anos de 1920/30.
Ninguém melhor do que Oswald de Andrade, pioneiro daquele
movimento de vanguarda, para desmentir a falsa oposição de Lobato às propostas
de uma arte não parnasiana, com forte protagonista de tipos populares. Diferenças sim, oposição não. Veja-se
o texto “Carta a Monteiro Lobato”:
“Hoje, passados vinte e cinco anos (do lançamento de Urupês), sua
atitude aparece sob o ângulo legitimista da defesa da nacionalidade. Se Anita e
nós tínhamos razão, sua luta significava a repulsa ao estrangeirismo afobado de
Graça Aranha, às decadências lustrais da Europa podre, ao esnobismo social que
abria os seus salões à Semana. E não percebia você que nós trazíamos nossas
canções, por debaixo do “futurismo”, a dolência e a revolta da terra
brasileira. Que as camadas mais profundas, as estratificações mais perdidas da
nossa gente iam ser resolvidas por essa “poesia de exportação” que eu
proclamava no Pau Brasil. E que dela sairia aquele negro de Jorge Amado
saudando, no cais da Bahia, todas as raças humanas”. (Oswald de Andrade).
A literatura ficcional para adultos de Monteiro Lobato consiste quatro livros de contos e um romance.
Os contos foram reunidos em “Urupês” de 1918, “Cidades Mortas”, de
1919, “Negrinha”, de 1920 e “O Macaco que se fez homem”, de 1923.
Seus primeiros livros de conto tem um caráter de literatura regionalista,
tratando das condições de vida do caipira do interior paulista, a realidade da
fazenda de café, particularmente descrita em sua fase de descenso nos contos de
“Cidades Mortas”. Já o seu último livro de Contos, “O Macaco que se fez homem”
e seu romance “O Presidente Negro” de 1926 têm um caráter mais experimental,
inclusive mediante algo parecido com a ficção científica. É o caso também do seu único
romance publicado, o mencionado "Presidente Negro", que trata de do futuro racial da humanidade.
A história é narrada por Ayrton Lobo e se passa no ano de 1924. O
narrador é um humilde empregado de rua de uma casa comercial e alcança, com
muita economia, o sonho de possuir um
veículo próprio Ford. Ayrton sofre um acidente com o veículo e é salvo pelo
professor Benson que o acolhe em seu castelo e faz do hóspede seu confidente
particular. O professor fez uma descoberta até então desconhecida por todo o
mundo: o “porviroscópio” uma máquina que possibilita visualizar o futuro. Por
esta máquina fantástica, o narrador é levado a conhecer a “guerra de raças”
ocorrida nos EUA dos anos de 2228, quando as eleições presidenciais pela
primeira vez na história dão à vitória a um candidato negro, o presidente Jim
Roy.
O macaco que se fez homem contém igualmente histórias fantásticas
como “Era no paraíso...” que narra a origem do homem, que se diferencia do macaco
quando um destes animais leva um tombo, bate a cabeça e desenvolve o que se
pode chamar de inteligência: passa a vacilar antes de enfrentar situações de
perigo no meio natural, perde o frescor das antigas preocupações de um animal
no estado de natureza, ainda que se relacione com uma macaca, passa a desejar
outras fêmeas de sua espécie.
Neste, como nos demais contos, o humor aparece não raro associado
ao trágico. A descrição naturalista da realidade do interior paulista, o relato
de causos, histórias rápidas e que prendem a atenção do autor, certamente são
aspectos da literatura que faria com que suas obras de adulto fossem tão
populares quanto as suas histórias infantis.